Estes exercícios de recordação – Sado-maluquismo – andam a ser feitos por quem? Os direitolas não os fazem, ou porque concordam que vale tudo para obter e manter o poder ou porque entram em processos de negação e recusam o confronto com a sua consciência. Os esquerdolas também não são muito entusiastas da coisa, porque o seu passado está igualmente cheio de misérias parecidas ou piores (dada a sua suposta ideologia) pelo que utilizam pinças para seleccionar com muito cuidado o que lhes pode ser útil para a cassete. Quem não tem parado de trazer o passado para o presente por causa do nosso futuro são aqueles que não saíram da sua posição desde o início da tragédia. Estes limitam-se a demonstrar que as suas ilações e avisos ao tempo se confirmaram plenamente. Plena, completa e absolutamente. E aí estão os factos, aí estão as declarações, aí estão os episódios onde se decidiu entregar ao casal Passos-Relvas e a Cavaco os destinos da comunidade sob uma inaudita crise político-financeira europeia e mundial. Isto arrasta dois considerandos.
Um que consiste em constatar que os permanentes ataques ao carácter de Sócrates e de quem com ele assumiu responsabilidades, ou meramente manifestou a sua opinião de apoio ao Governo socialista, não são acompanhados por um argumentário factual, documentado em declarações e decisões, antes se fica pela pura explosão de ódio adjectivo ou pelas deturpações cretinas (como a referência à meta dos 150 mil empregos, bandeira de campanha em 2005, ou ao aumento dos funcionários públicos em 2009, medida que recolheu apoio parlamentar unânime, por exemplo). É digno de estudo ver tantas pessoas há tanto tempo a alimentarem uma obsessão delirante como nunca tínhamos conhecido outra igual em democracia. A estupidez e o medo explicarão parte maior do fenómeno, mas não explicam tudo.
Outro, ainda mais grave e de consequências imprevisíveis, consiste na extensão e grau das contradições que os representantes do actual poder exibem. Como se lê neste artigo da Fernanda, e em tantos outros que temos feito ao longo destes dois anos e tal de enxovalho nacional, até um Presidente da República que gosta de se apresentar como uma autoridade moral para dar lições aos indígenas é capaz de garantir que o Sol mete frio e que o gelo pode incendiar o mar. Bastando que sirva a sua visceral sonsice, Cavaco contradiz-se sem pestanejar e declara exactamente o contrário do que outrora afirmou perante um poder de esquerda. E se isto é assim com o Chefe de Estado, com o primeiro-ministro, ministros, deputados e dirigentes do PSD e CDS o espectáculo das mentiras e contradições é assombroso. Não há termo de comparação. Não existe nenhum período da História – a não ser que recuemos à ditadura – onde se tenha testemunhado esta impunidade que escarnece alarvemente da nossa passividade e cobardia.
Seria de esperar que a imprensa chegasse para obrigar o actual poder a assumir a responsabilidade das suas canalhices perante a comunidade. Mas não sejamos rápidos a pôr as fichas nessa casa, pois a imprensa – tomada no seu conjunto e nas agendas dos grupos respectivos – foi uma das principais alavancas para estarmos como estamos.



