O Sol até mete frio

Estes exercícios de recordação – Sado-maluquismo – andam a ser feitos por quem? Os direitolas não os fazem, ou porque concordam que vale tudo para obter e manter o poder ou porque entram em processos de negação e recusam o confronto com a sua consciência. Os esquerdolas também não são muito entusiastas da coisa, porque o seu passado está igualmente cheio de misérias parecidas ou piores (dada a sua suposta ideologia) pelo que utilizam pinças para seleccionar com muito cuidado o que lhes pode ser útil para a cassete. Quem não tem parado de trazer o passado para o presente por causa do nosso futuro são aqueles que não saíram da sua posição desde o início da tragédia. Estes limitam-se a demonstrar que as suas ilações e avisos ao tempo se confirmaram plenamente. Plena, completa e absolutamente. E aí estão os factos, aí estão as declarações, aí estão os episódios onde se decidiu entregar ao casal Passos-Relvas e a Cavaco os destinos da comunidade sob uma inaudita crise político-financeira europeia e mundial. Isto arrasta dois considerandos.

Um que consiste em constatar que os permanentes ataques ao carácter de Sócrates e de quem com ele assumiu responsabilidades, ou meramente manifestou a sua opinião de apoio ao Governo socialista, não são acompanhados por um argumentário factual, documentado em declarações e decisões, antes se fica pela pura explosão de ódio adjectivo ou pelas deturpações cretinas (como a referência à meta dos 150 mil empregos, bandeira de campanha em 2005, ou ao aumento dos funcionários públicos em 2009, medida que recolheu apoio parlamentar unânime, por exemplo). É digno de estudo ver tantas pessoas há tanto tempo a alimentarem uma obsessão delirante como nunca tínhamos conhecido outra igual em democracia. A estupidez e o medo explicarão parte maior do fenómeno, mas não explicam tudo.

Outro, ainda mais grave e de consequências imprevisíveis, consiste na extensão e grau das contradições que os representantes do actual poder exibem. Como se lê neste artigo da Fernanda, e em tantos outros que temos feito ao longo destes dois anos e tal de enxovalho nacional, até um Presidente da República que gosta de se apresentar como uma autoridade moral para dar lições aos indígenas é capaz de garantir que o Sol mete frio e que o gelo pode incendiar o mar. Bastando que sirva a sua visceral sonsice, Cavaco contradiz-se sem pestanejar e declara exactamente o contrário do que outrora afirmou perante um poder de esquerda. E se isto é assim com o Chefe de Estado, com o primeiro-ministro, ministros, deputados e dirigentes do PSD e CDS o espectáculo das mentiras e contradições é assombroso. Não há termo de comparação. Não existe nenhum período da História – a não ser que recuemos à ditadura – onde se tenha testemunhado esta impunidade que escarnece alarvemente da nossa passividade e cobardia.

Seria de esperar que a imprensa chegasse para obrigar o actual poder a assumir a responsabilidade das suas canalhices perante a comunidade. Mas não sejamos rápidos a pôr as fichas nessa casa, pois a imprensa – tomada no seu conjunto e nas agendas dos grupos respectivos – foi uma das principais alavancas para estarmos como estamos.

Muito nos contam

5 535 104 – 4 996 074= 539 030. Ou seja, em 2013 votaram menos 500 mil eleitores nas autárquicas do que em 2009. Que aconteceu? Aconteceu que alguns morreram, outros estão gravemente doentes, outros estão acamados, outros estão cansados, outros tinham mais o que fazer e até ficaram com pena de não ter ido votar, outros estão deprimidos porque estão desempregados ou sem dinheiro suficiente para si e para os seus e, principalmente, há quem calcule que a emigração levou nos últimos anos uma média de 120 mil pessoas por ano para fora da Grei. Tudo somado e subtraído, votaram os mesmos que sempre votam dentro da normalidade.

O que é completamente anormal é a manutenção dos cadernos eleitorais com eleitores que não podem votar pela simples razão de já terem desaparecido do mapa. Corre a suspeita de que tal disfunção é do interesse do poder autárquico. Se assim for, essa é uma verdadeira corrupção de Estado em que não há órgão de soberania que escape à vergonha.

Coerências

Afinal, faz todo o sentido. Qual produtividade, qual quê. Qual competitividade, qual caralho. Trata-se é de tornar oficial o que é a prática corrente. Trata-se de aceitar a realidade, abraçar a realidade, sujeitarmo-nos à realidade. E a realidade é esta: aqueles portugueses que dominam o Parlamento, o Governo e a Presidência emporcalham diariamente a República com o seu desprezo pela nossa Independência.

Acabar com esses dois feriados foi até um favor que nos fizeram em nome da coerência.

Estética totalitária

O aparelho governativo, apoiado por dois Partidos desfigurados, bate entusiasticamente palmas a uma retórica que tenta esconder a miséria. Estão, assim, a bater palmas à miséria, silenciada por uma conhecida técnica discursiva: a da inversão.

A direita, unida nesta estética que quase acorda os piores ditadores da nossa memória, bate palmas, uiva, quando anuncia o “aumento em y de doentes que não pagam taxas moderadoras”. São milhares, sempre a subir, gente que deve estar agradecida a quem manda, gente, repete-se, que “não paga”.

Esses milhares, sempre a subir, chamam-se cidadãos desempregados, sempre em ritmo crescente, os quais, de acordo com a lei, estão, naturalmente, isentos de taxas moderadoras.

As palmas trinfantes ao aviso do número “brutal” de aumento de isentos de taxas moderadoras são a estética totalitária. Não se fala da causa e refere-se isoladamente a consequência como um “bem”.

A estética é reles e fácil de desmontar, apesar de ofensiva, mas está lá: duas bancadas a baterem palmas ao maior aumento de desemprego de que temos memória,

O aparelho governativo, apoiado por dois Partidos desfigurados, bate entusiasticamente palmas a uma retórica que tenta esconder a miséria. Estão, assim, a bater palmas à miséria, silenciada por uma conhecida técnica discursiva: a da inversão.

A direita, unida nesta estética que quase acorda os piores ditadores da nossa memória, bate palmas, uiva, quando anuncia os milhares e milhares de pensionistas que foram “salvos” dos anunciados, e inconstitucionais, cortes retroativos de pensões.

Esses milhares de privilegiados que foram “salvos” são invocados para se aproveitar a miséria de um país, no qual, abatendo gente a partir de 600 euros (milionários), que contribiram toda a sua vida profissional de acordo com  a lei, ainda sobra muita, mas muita gente com pensões abaixo daquele valor.

A estética é reles e fácil de desmontar, apesar de ofensiva, mas está lá: duas bancadas a baterem palmas ao número impressionante de gente que tem pensões abaixo de 600 euros. Assim se “salva” um ataque miserável, retroativo, inconstitucional, a pensões que não chegam para se viver, porque, recorde-se, há sempre, para bem do governo, miséria ainda mais profunda para celebrar.

Quem adere a esta estética totalitária é o quê?

É simples

O MNE, ainda que não tivesse mais nenhuma fragilidade, tem de ser demitido.

Chega.

Um Ministro que revela detalhes de um processo – diz que não é nada para preocupar Angola – mente e viola o mais elementar entendimento que um democrata tem da separação de poderes.

Na entrevista em que tenta recuperar a ferida diplomática com Angola, diz que falou com quem hoje o desmente.

De resto, mesmo se fosse um lambão da fuga do segredo de justiça, o senhor tinha de ficar calado, como sabe, até porque é advogado.

Agora, remete a nossa humilhação perante Angola para um despacho da PGR que não o justifica em absolutamente nada.

Chega.

Valeu a pena afundar o País, congratula-se o Montenegro

O líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, reitera que este é o “momento da verdade” e que o caminho apontado pela oposição como a redução dos impostos, a subida dos salários da Função Pública e falta de rigor orçamental já foi testado em 2009. “Só que agora foi reeditado, já não é com José Sócrates”, sublinha.

O resultado, defende Luís Montenegro, foi “irem de mão estendida pedir ajuda e depois perderam as eleições.”

“Valeu ou não a pena o caminho que conduziu è negociação das metas e que conduziu o país a ter seis meses seguidos de descida da taxa de desemprego, o PIB aumentar no segundo trimestre e eventualmente também no terceiro trimestre?”, questiona.

Hoje, na Assembleia da República

Pedido de ajuda interna

A direita seríssima queria Portugal de tal modo condicionado financeiramente que esse constrangimento levasse a uma perda de soberania. Foi para isso que trabalharam desde que a crise grega rebentou e a resposta da Europa foi a da austeridade. Achavam que só assim conseguiriam derrotar Sócrates, como esta notícia – a única que relata o episódio – revela:

O presidente da Comissão Europeia comunicou privadamente ao líder do PSD que discordava por completo da estratégia do partido depois de Passos Coelho ter anunciado que era intenção dos sociais-democratas chumbar as medidas de austeridade do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) IV, apresentado pelo executivo em Bruxelas em Março. Nos argumentos de Durão Barroso, o pedido de ajuda português era inevitável e devia ser accionado pelo governo de José Sócrates ainda antes do Verão, quando os empréstimos de Junho tivessem de ser pagos pela República. Para o presidente da Comissão Europeia, o PSD poderia abster-se no parlamento na votação do PEC, não se comprometendo com qualquer medida que vinculasse o partido para 2012 e 2013. O congelamento das pensões, por exemplo – o ponto mais controverso para Passos Coelho – só teria efeitos práticos a partir do próximo ano. Viabilizando o PEC e pré-anunciando um chumbo ao Orçamento de 2012, Passos Coelho conseguiria, na opinião de Barroso, evitar um crise política nesta fase, ganhar tempo para que fosse o actual governo a fazer o pedido de ajuda externa e conquistar capital político na opinião pública para precipitar posteriormente eleições.

“Mas Passos Coelho estava a ser pressionado internamente”, disse ao i fonte próxima do presidente da Comissão Europeia, “e respondeu que não havia garantias de que o governo fosse mesmo pedir ajuda”.

Barroso temia que a traição ao País acabasse por cair em cima dos traidores. Os traidores temiam que o Governo socialista se conseguisse aguentar sem ter de pedir o empréstimo de emergência – e contavam com a cumplicidade parlamentar do BE e PCP. O que se passou a seguir, onde se inclui a conivência da actual liderança do PS com o bombardeamento constante ao longo de dois anos contra Sócrates e quem com ele assumiu responsabilidades governativas, trouxe-nos para o dia de hoje. Um dia, mais um, onde Portas fez figura de capataz em nome de um grupo de mentirosos, incompetentes e lunáticos que sacrificaram milhões de concidadãos na sua ambição violenta e violentadora.

Mas nem esta história que alterou devastadoramente a História chega para abrir os olhos da legião de sectários e analfabrutos tão úteis à oligarquia.

A eterna mão por trás do arbusto levou uma valente reguada…

… e voltou para trás do arbusto.

Lê-se na revista Sábado que Cavaco Silva tentou impedir a candidatura de Rui Moreira à Câmara do Porto, através de pressões sobre Valente de Oliveira, de modo a favorecer a candidatura de Menezes e a vitória do PSD na segunda cidade do país. O espírito de vingança que já tantas vezes nos foi dado observar em Cavaco comprova-se, assim, mais uma vez, se tivermos em conta o facto de Rui Moreira ter sido apoiante da candidatura de Mário Soares em 2006.

O alvo dessas alegadas tentativas de “condicionar” teria sido Luís Valente de Oliveira, de acordo a descrição à SÁBADO de duas fontes próximas de Rui Moreira. Alguém muito próximo de Cavaco Silva terá tentado convencê-lo a não apoiar o independente Rui Moreira. Mas Valente de Oliveira, que é o presidente da Assembleia Municipal de Porto, não se deixou “afectar”, pelo menos tendo em conta o discurso público do novo presidente da Câmara do Porto. O ex-ministro cavaquista (foi 10 anos ministro de Cavaco e integrou o Governo de Durão Barroso) acabou por ser o mandatário da candidatura independente.

Rui Moreira estava convencido que o Presidente da República desejava a vitória de Luís Filipe Menezes, candidato oficial do PSD, por achar um risco para o sistema partidário o sucesso de um independente numa cidade tão importante. Não terá sido indiferente, também, o facto de ter sido o Palácio de Belém a advertir a Assembleia da República para a gralha na lei de limitação de mandatos: onde se lia presidente “da” câmara, devia ler-se presidente “de” câmara, o que poderia originar uma interpretação da lei mais favorável a Luís Filipe Menezes, que atingira o limite de mandatos em Gaia. Daí ter incluído o recado no discurso.

O sucessor de Rui Rio no Porto, que apoiou Mário Soares nas Presidenciais de 2006, foi tendo ao longo dos anos várias intervenções críticas de Cavaco Silva

.

Quanto à vitória de Rui Moreira, que significa uma merecida derrota para Menezes e a faceta coelhista/relvista/marco-antonista (e, pelos vistos, também cavaquista) do PSD, estou curiosa por ver como vai exercer tão inesperado cargo. A bem da cidade, espero que corra bem.

Comissão de Inquérito

Este Zeinal Bava de quem tanto agora se fala será o tal sabujo socrático que, de braço dado com outro desqualificado de nome Henrique Granadeiro, estava disposto a destruir a sua carreira e a ir de cana só para poder usar o nosso rico dinheirinho em ordem a comprar a TVI e despedir logo a excelente jornalista Moura Guedes que andava a apresentar provas semanais e irrefutáveis da roubalheira do Grande Satã no outlet, senhora que assim teria continuado a dar lições à justiça dos homens e dos deuses não fora a providencial intervenção do Rei de Espanha, também conhecido como o “Tromba Rija Africano”, o qual finalmente lá conseguiu safar o engenheiro daquelas sexta-feiras negras como o breu?

O Fabuloso Físico Fiolhais

Não se deve julgar ninguém pela aparência física, mas nunca vi ninguém tão cara de parvo como o físico (não é trocadilho) Carlos Fiolhais. Será que estou enganado e que o professor tem, afinal, cara de génio? Deixo ao critério do leitor, mas eu fico na minha.

Fiolhais, que andou pelos States e outros sítios, diz hoje no Público que viu afixada numa grande biblioteca americana uma tabuleta com os seguintes dizeres: “Libraries will get you through times of no money better than money will get you through times of no libraries.” Evocou isto no meritório propósito de defender, mesmo em tempos de crise, a construção de uma nova biblioteca para a Universidade de Coimbra, onde é professor.

O que ele se calhar não sabe é que correm outras versões dessa máxima, como a dos Fabulous Furry Freak Brothers, mais precisamente do Freewheelin’ Franklin, abaixo retratado a fumar uma passa, que nos anos 70 declarou: “Dope will get you through times of no money better than money will get you through times of no dope.” Pontos de vista…

.

FreewheellinFranklin
.

Já agora, comparem a cara de parvo do freak com a do Fiolhais.
.

Fiolhais

.
Mas não é para falar sobre nada disto que ouso roubar o escasso tempo do estimado leitor. O que me traz aqui é outra afirmação do Fiolhais no Público de hoje. Depois de elogiar a D. João V e a majestosa biblioteca joanina da Universidade de Coimbra, o Fiolhais refere-se também elogiosamente ao edifício da Biblioteca Geral da UC, mandado edificar pelo Salazar. Mas eis que depois do absolutismo e do salazarismo chega a democracia, em que “a cultura tem sido governada por gente inculta” ‒ Fiolhais dixit. Como resultado da democracia e dos seus governantes incultos, a BGUC está a “rebentar pelas costuras”.

Com esta boca parva (tirando o Santana Lopes, não me lembro de outro responsável pela Cultura que fosse inculto), o Fiolhais arruína toda a sua nobre argumentação em prol da construção duma nova biblioteca universitária. Onde é que este gajo tem andado desde o 25 de Abril para não ter reparado nas verbas enormes que foram destinadas a bibliotecas novas, restauradas ou aumentadas? Como Fiolhais é politicamente sectário e preconceituoso, não me admirava nada que ele tivesse também subscrito aquele abaixo-assinado contra as obras de ampliação da Biblioteca Nacional ‒ mais uma das “obras faraónicas” do Sócrates, daquelas que “comprometem o futuro dos nossos filhos”.

A mania de atribuir culpas à democracia é um tique à la mode de variadíssimos cretinos e imbecis, entre os quais eu não gostaria, a priori, de incluir o Fiolhais, mesmo sendo ele um ferrenho adepto do ministro Crato. Fiolhais foi, aliás, o autor de um panegírico acrítico da acção do ministro, considerando que ele está a levar a cabo uma revolução, quando, cada vez mais, todos vemos que o seu objectivo é a destruição meticulosa e programada do ensino público.

POST SCRIPTUM

O artigo do Fiolhais faz publicidade aos 16 livros facsimilados da biblioteca joanina que o Público vai vender por um “preço módico”. Como ele ignora que a democracia tem feito boas coisas pela biblioteca de Coimbra e pelos seus utentes, esqueceu-se de dizer que esses mesmos livros que ele publicita já estão disponíveis online, GRATUITAMENTE, no site da BGUC Digital, juntamente com centenas de outros livros digitalizados…

 

Já temos programa de Governo alternativo, só falta…

No discurso de vitória, António Costa deixou esta mensagem:

O sentido do voto na cidade de Lisboa tem um significado muito claro: o apoio a uma gestão que revelou ser possível em Portugal uma política alternativa àquela que tem vindo a ser seguida. É possível uma política que combine o rigor com a responsabilidade social, que seja capaz de reduzir a dívida e de reduzir os impostos, aumentando o investimento, aumentando os apoios sociais e aumentando os apoios à criatividade cultural. Esta política foi possível em Lisboa, esta política é possível, esta é a política que o povo de Lisboa quer que seja prosseguida.

Com estas eleições os cidadãos revelaram que há um sentido de esperança e de futuro para a cidade de Lisboa e para o País, que não se rendem ao desânimo e à descrença, pelo contrário, têm vontade e a firme determinação de reconstruir um País que seja para todos nós, que seja um motivo de orgulho para todas as futuras gerações.

Isto é um programa de Governo. Aliás, este é o programa de Governo. É que não se concebe nada melhor. Repare-se:

– Rigor (ou seja, a austeridade mínima possível)
– Responsabilidade social (ou seja, a solidariedade máxima possível)
– Redução da dívida (rigor)
– Redução de impostos (rigor+responsabilidade social)
– Aumento do investimento (responsabilidade social+rigor)
– Aumento dos apoios sociais (responsabilidade social)
– Aumento dos apoios à criatividade cultural (rigor)

Quem seria o taralhouco a recusar o seu voto a uma solução destas? Donde, a pergunta seguinte já chora: anda o Costa a mangar com a malta? É que, assim de repente, parece-me que a fruta interessa a 10 milhões de infelizes à beira-mar plantados.

Numa sociedade regida pela racionalidade, haveria agora algum ilustre membro da imprensa a tentar furiosamente marcar uma entrevista com o homem exclusivamente dedicada à exposição, explicação e explanação das promessas que vocalizou cheio de confiança. E se fosse tanga, ou disparate, ficava logo o caso arrumado. Se não fosse, e as ideias tivessem pernas para andar, então haveria milhões a quererem fazer esse caminho urgentemente. Assim, deixando as palavras no limbo das declarações de arrebimbomalho sem demonstração, faz-se mais mal do que bem.

O PS tem um líder que ainda ninguém percebeu o que quer para Portugal para além da sua continuidade à frente do partido. Cada dia que passa é mais um dia em que o partido se comporta cobardemente – e com responsabilidade acrescida para a sua elite. Porque a puta da verdade é só uma e é esta: o eleitorado está pronto, não tem é em quem confiar.

Abaixo de nulo

rsz_1capturar

O Bloco de Esquerda obteve nestas autárquicas menos do que o total de votos nulos. Menos 27 mil. Isto acontece exactamente 4 anos depois de terem ultrapassado o PCP nas eleições legislativas por mais de 100 mil votos, por pouco não ultrapassando também o CDS. Na ocasião, Louçã declarou:

Este é um novo dia para a esquerda portuguesa. Nada será como dantes. Teremos uma esquerda mais rigorosa, com mais capacidade de diálogo. Nenhum eleitor do Bloco de Esquerda terá qualquer dúvida de que todo o voto dado ao Bloco de Esquerda será gasto na defesa dos direitos fundamentais de uma resposta que possa transformar o país.

Estava certo, o nosso Anacleto. Certo ao verbalizar a esperança que centenas de milhares de votos vindos directamente do PS consubstanciavam. Aqueles eleitores não gostavam da maioria socialista; uns por convicção ideológica, outros por assimilação das calúnias e a maior parte por se identificarem directa ou indirectamente com a retórica dos professores e a instrumentalização política que foi feita da tentativa de reforma na Educação. Queriam penalizar o Governo e puxar o PS para a esquerda, uma esquerda que lhes prometia a desejada estagnação garante da segurança e conforto. E o visionário continuava certo ao profetizar que nada seria como dantes.

De facto, o que Louçã resolveu fazer com o seu histórico triunfo era inimaginável para os militantes e simpatizantes socialistas que engoliram o isco. Se traçássemos um plano prévio onde a meta fosse a de ter o BE a ser um permanente aliado da direita, então esse plano teria sido executado na perfeição. Começou na recusa de fazer qualquer tipo de acordo com o Governo minoritário, continuou com a participação entusiasmada nas coligações negativas que apenas desgastavam e boicotavam a governação num período de crescente crise, intensificou-se com a decisiva ajuda à reeleição de Cavaco através da imposição e manipulação de Alegre e consumou-se no empurrão ao PSD e CDS para meterem as beiçolas no pote. A sintonia com a demagogia da pior direita que já conhecemos em democracia não podia ser maior: “Rejeitar o PEC é o princípio da saída da crise“, afiançou o generalíssimo da esquerda grande.

A fuga de Louçã do BE ocorre após a festa ter já acabado. A notável inépcia estratégica do Bloco, refém de um líder cujo narcisismo paranóico venceu o idealismo e estilhaçou a lucidez, levou a que as suas vedetas mediáticas – Daniel Oliveira, Joana Amaral Dias, Rui Tavares – começassem a exibir sinais de descrença e rebeldia. Também os farrapos extremistas que constituíam o tecido social do Bloco se mostravam indisciplinados, sentindo a fraqueza do chefe. Esta situação de iminente descalabro levou a um último gesto despótico de Louçã, obrigando o partido a sujeitar-se a uma direcção bicéfala que estava condenada ao mais estrondoso fracasso. Malhas que o império da imbecilidade tece.

Louçã é a prova viva de que o brilhantismo teórico não é suficiente para a arte de governar a cidade, antes podendo ser uma característica trágica no político quando não é dominada pela inteligência prática e o instinto comunitário – uma lição que poderia ter recolhido com facilidade em Péricles e Aristóteles para nosso proveito.

E o sol brilhará para todos nós!

As autárquicas de 2009 viram o PCP obter um dos piores resultados de sempre. Eis como Jerónimo embrulhou a coisa:

Jerónimo de Sousa considerou, esta noite, que «o conjunto de resultados obtidos assumem um inegável valor tanto mais [tendo em conta o] quadro de uma persistente e intensa campanha centrada na desvalorização da CDU».

«Na leitura destes resultados, particularmente nas situações de maioria, não pode deixar de ser observado a concentração de votos da direita no PS, que ali vê a força que melhor pode combater a influência da CDU», destacou o secretário-geral do PCP.

O secretário-geral do PCP sublinhou ainda a «expressiva votação alcançada e, em particular, a confirmação de muitas das suas posições de maioria, dá continuidade a uma sólida e sustentada progressão da CDU», resultado, disse Jerónimo, «da ampla corrente de apoio e confiança de um número crescente de portugueses».

Bastam-lhe apenas duas ideias, a de que o PS é a mais poderosa e perigosa das forças da direita e a de que o PCP continua a crescer imparável e triunfalmente. Eis a terra e o céu dos comunistas portugueses, por mais nada à sua volta se interessando. Este fanatismo primário tem a suprema vantagem de dar solidez psicossociológica e garantir coesão militante. O PCP precisa de se conceber como uma organização clandestina, lutando no meio de um regime que não reconhece, porque não pertence a este mundo. É uma cápsula do tempo, mas de um tempo que nunca chegou nem vai chegar.

Em 2013, o PCP é dado como um dos vencedores das eleições autárquicas. Eis como Jerónimo embrulha a coisa:

A votação obtida pela CDU constitui um factor de confiança e esperança de que é possível um outro caminho e um outro rumo, um estimulo à luta e ao que ela pode abrir de perspectivas e concretização de uma política alternativa, e um testemunho de que, como temos afirmado, está nas mãos dos trabalhadores e do povo com a sua acção, opções e voto derrotar os partidos da política de direita e dar mais força à CDU e à concretização de uma política patriótica e de esquerda.

Este reforço representa uma sólida progressão da CDU que testemunha a ampla corrente de apoio e confiança de um número crescente de portugueses e portuguesas.

São duas ideias, a de que o PCP é a única força que combate a direita, sendo que o termo “direita” é para os comunistas um sinónimo de “alteridade”, e a de que o PCP continua a crescer imparável e triunfalmente. Não há nada a mudar na cassete pois a repetição maníaca das palavras de ordem é a razão mesma da existência da congregação. Qualquer alteração poderá fazer desabar a estrutura.

Imaginemos que o PCP perde umas eleições de uma forma impossível de transformar em vitória. Por exemplo, nas próximas autárquicas deixavam de ter presidências de câmara. Que diria Jerónimo, ou o Bernardino que o irá substituir mais ano menos ano? Diriam o mesmo que disse Semedo, um comunista que milita no BE, perante a sua derrota em Lisboa: que a culpa era da comunicação social. A culpa não era dele, nem das suas ideias, nem do seu partido, nem das ideias dos outros e dos seus partidos. A culpa era de um suposto árbitro que cometia injustiças.

Nunca jamais um comunista assumirá uma derrota. Isso seria igual a uma Testemunha de Jeová admitir que a Bíblia continha algum tipo de incorrecção. Pelo que só há uma forma de o comunismo provar o gosto da derrota. Quando vence tudo e todos, derrotando-se a si mesmo.