Abaixo de nulo

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O Bloco de Esquerda obteve nestas autárquicas menos do que o total de votos nulos. Menos 27 mil. Isto acontece exactamente 4 anos depois de terem ultrapassado o PCP nas eleições legislativas por mais de 100 mil votos, por pouco não ultrapassando também o CDS. Na ocasião, Louçã declarou:

Este é um novo dia para a esquerda portuguesa. Nada será como dantes. Teremos uma esquerda mais rigorosa, com mais capacidade de diálogo. Nenhum eleitor do Bloco de Esquerda terá qualquer dúvida de que todo o voto dado ao Bloco de Esquerda será gasto na defesa dos direitos fundamentais de uma resposta que possa transformar o país.

Estava certo, o nosso Anacleto. Certo ao verbalizar a esperança que centenas de milhares de votos vindos directamente do PS consubstanciavam. Aqueles eleitores não gostavam da maioria socialista; uns por convicção ideológica, outros por assimilação das calúnias e a maior parte por se identificarem directa ou indirectamente com a retórica dos professores e a instrumentalização política que foi feita da tentativa de reforma na Educação. Queriam penalizar o Governo e puxar o PS para a esquerda, uma esquerda que lhes prometia a desejada estagnação garante da segurança e conforto. E o visionário continuava certo ao profetizar que nada seria como dantes.

De facto, o que Louçã resolveu fazer com o seu histórico triunfo era inimaginável para os militantes e simpatizantes socialistas que engoliram o isco. Se traçássemos um plano prévio onde a meta fosse a de ter o BE a ser um permanente aliado da direita, então esse plano teria sido executado na perfeição. Começou na recusa de fazer qualquer tipo de acordo com o Governo minoritário, continuou com a participação entusiasmada nas coligações negativas que apenas desgastavam e boicotavam a governação num período de crescente crise, intensificou-se com a decisiva ajuda à reeleição de Cavaco através da imposição e manipulação de Alegre e consumou-se no empurrão ao PSD e CDS para meterem as beiçolas no pote. A sintonia com a demagogia da pior direita que já conhecemos em democracia não podia ser maior: “Rejeitar o PEC é o princípio da saída da crise“, afiançou o generalíssimo da esquerda grande.

A fuga de Louçã do BE ocorre após a festa ter já acabado. A notável inépcia estratégica do Bloco, refém de um líder cujo narcisismo paranóico venceu o idealismo e estilhaçou a lucidez, levou a que as suas vedetas mediáticas – Daniel Oliveira, Joana Amaral Dias, Rui Tavares – começassem a exibir sinais de descrença e rebeldia. Também os farrapos extremistas que constituíam o tecido social do Bloco se mostravam indisciplinados, sentindo a fraqueza do chefe. Esta situação de iminente descalabro levou a um último gesto despótico de Louçã, obrigando o partido a sujeitar-se a uma direcção bicéfala que estava condenada ao mais estrondoso fracasso. Malhas que o império da imbecilidade tece.

Louçã é a prova viva de que o brilhantismo teórico não é suficiente para a arte de governar a cidade, antes podendo ser uma característica trágica no político quando não é dominada pela inteligência prática e o instinto comunitário – uma lição que poderia ter recolhido com facilidade em Péricles e Aristóteles para nosso proveito.

23 thoughts on “Abaixo de nulo”

  1. O caso do Bloco é somente o caso de todos os partidos que nasceram contra o PS e que, como teria de ser, desapareceram. Mas entretando os malefícios do seu aparecimento ficaram e prejudicaram o País. Aquilo que neles seria uma aurora dourada de suposta renovação política, esfumou-se, pois a sua sustentação de base, sociológica e política, não existe.

    A imagem do Dr. Semedo arredado do mirífico lugarzito de Vereador na Capital, foi penoso de ver.

    Mas o caminho de queda do Bloco é inexorável. Os corpos estranhos são absorvidos e o equilíbrio tente a repor-se outra vez.

  2. O BE é como o PRD um partido, que nasceu partido, passe o pleonasmo, e apenas se destinou a fazer fretes e a dar maiorias à direita. No BE encara-se a política como uma brincadeira de lucubrações intelectuais, que é acarinhada pela direita através dos seus média com um único intuito, dividir a esquerda que lhes faz de facto frente. Na altura o PS era liderado pelo político mais astuto dos últimos anos em Portugal e que a direita só com a prestimosa ajuda dos ditos PCs e Bloquistas conseguiu derrotar. Hoje compreende-se bem porque razão era urgente afastar o Sócrates e ir ao pote. Com tantos processos comprometedores a correr na justiça, o BPN, os Submarinos e por aí fora, a direita estava em risco de acabar na prisão mesmo com o apoio de um PR que tudo fazia para ajudar. Até porque está e estava metido no BPN até ás orelhas. A direita devia mandar fazer cartazes a agradecer a Louçã e a Jerónimo os bons serviços prestados com a ajuda para fugir á justiça e ainda ir ao pote. Obrigados Louçã e Jerónimo pelos bons serviços prestados á direita mais estúpida e imbecil que existiu em Portugal depois de Abril.

  3. Ao, Sousa Mendes…
    Clap, clap, clap !

    Assino por baixo

    Estou preparado para os direitolos, a vomitarem coisas verdes…

  4. Apoio e aplaudo o comentário de S.Mendes,mas permita um aditamento.Vem inteiramente a propósito recordar o que foi a comédia-mais uma.da comissão de inquérito parlamentar ao banco cavaquista,BPN,cujo relator,um tal Semedo,para lá de ter já em mão as conclusões ainda a procissão ia no adro,ao que se disse na altura,ao sabor da F-Leite,”esqueceu-se”de chamar à colação o óbvio,o mais que certo financiamento do PSD,porque não podia deixar de ser contemplado naquele grande enxurro de biliões,para o qual nem havia beiçolas dos amigalhaços e compadres que lhes desse vasão.E lembro também,a recepção em ombros com palmadas amigas nos costados ao chefe da quadrilha,O.Costa,e da fúria inquisitorial movida ao presidente do BP,V.Constâncio,por um execrável “betinho”do cds,o que em nada incomodou nenhum dos “democratas”presentes,ou seja,os vindouros “KGB e Gestapos”,na senda de antigas parcerias.A chusma bloquista teve agora o que há muito se desenhava e merecia.

  5. “Queriam penalizar o Governo e puxar o PS para a esquerda, uma esquerda que lhes prometia a desejada estagnação garante da segurança e conforto. E o visionário continuava certo ao profetizar que nada seria como dantes.”

    É bom que o pessoal de esquerda leia isto e perceba bem como os socialistas da treta do PS assimilaram a mundividência da direita. Esta passagem do texto na prática faz coro com Passos Coelho a chamar piegas e cigarras a todos os que não querem em Portugal a expansão da precariedade como modelo de desenvolvimento económico.

    Fora com o PS, traidor da esquerda, capacho dos interesses direitistas que querem precarizar o país.

  6. Não é vinho, Val, é vodka da marca Sovietskaya, embora já tenha passado o prazo de validade em 1990.

    Os russos nascidos no pós-comunismo, que sabem o nojo trágico que o comunismo foi pelos pais, pelos tios e pelos avós, se ainda os tiverem, já só se riem dos Joões que ainda por aí há.

  7. O BE está a pagar a inconsequência das suas lideranças! O Louçã, quando nos debates
    anteriores às eleições de 2009, foi “abafado” por José Sócrates perdeu o bom senso e
    a sua única preocupação passou a ser a vingança, razão próxima das asneiras feitas!
    A fuga para a frente, imitando uma receita de verdes alemães (liderança bicéfala), não
    se mostrou capaz de inverter a situação vivida em 2011, como paga pelo derrube do
    Governo do PS a sua representação parlamentar ficou reduzida a metade (16»8), em
    próximas se eleger 4, será muito bom!
    O relator-mor semedo queimou-se na famosa Comissão de Inquérito TVI/PT, criada para
    continuar a ter o P. Ministro em lume brando, com mais uma cabala montada na famosa
    operação “face oculta” cujo, julgamento deve estar a terminar condenando os robalos
    que o sucateiro distribuia e, mais um romance do procurardor que viu o tal atentado
    contra o Estado de Direito!!!

  8. O BE apareceu,no seu início,como uma força que se funcionava como uma «consciência política», com sentido crítico e inteligência.
    Começou por ganhar apoios, a maior parte vindos do PS. Na medida em que crescia esvaziava-se naquilo que o projectou e hoje é aquilo que é, e vai inexoravelmente a caminho da sua extinção.

  9. val, parabens pelo poste.louça e o seu partido estiverem efectivamente em quatro momentos dramaticos para os trabalhadores.1.vestindo o papel de garnizé,antecipou-se ao maior partido da esquerda e apresenta o seu candidato às presidenciais com os resultados que vimos,e estamos a sentir na pele. 2. rejeitou a proposta de socrates para colaborar com o governo eleito na altura 3.apresenta uma moçao de censura,que teve o merito de abrir o apetite à direita para a canalhice .4 o chumbo do pec 4 e o inevitavel derrube do governo.5.a derrocada do seu partido em eleiçoes.depois disto, só lhe peço para na reforma não intoxicar mais os portugueses!

  10. Vejo aqui alguns comentários que são um pouco irreflectidos, porque a situação política em Portugal, desde a crise do subprime (2008) tem sido bastante fluida e instável. Nessas circunstâncias, até um acontecimento marginal pode servir de catalizador a transformações profundas da sociedade.

    No nosso caso, nem o BE não teve a sorte que teve o Syriza, nem o PS não teve o azar que teve o PASOK. A sorte do PS foi o PSD ter um líder inferior, sem visão, coadjuvado por uma elite saudosa do antigamente, e que ainda hoje se recusa a ver o país como hoje é.

    José Sócrates, ao contrário de George Papandreou, não foi forçado a governar em coligação com a troika. E não ve venham mais com a conversa do PEC-4, porque em 2010 já os mercados financeiros tinham decidido ganhar dinheiro apostando contra a dívida portuguesa. Não iria ser o PEC-4 que iria mudar o desenlace. Evidentemente que Sócrates, mesmo com um resgate em cima, não iria ser um Passos Coelho; ele iria fazer como os irlandeses, não ia aceitar um ministro das finanças da troika e, sobretudo, nunca iria além do que nos era exigido pelos credores.

    Mas Passos Coelho desejava tanto governar com a troika que, estupidamente para a direita que o elegeu líder, se apressou a provocar a crise política. Ele considerava que o FMI e os alemães iriam ser seus aliados na política saudosa do antigamente que queria aplicar. Ao invés, a direita grega — politicamente mais cautelosa — manteve-se durante tanto tempo quanto pôde num registo populista, deixando que o PASOK se desgastasse no poder. Só depois se viu forçada a incorrer em despesas políticas, por via do imprevisto fenómeno eleitoral liderado por Tzipras.

  11. o pec4, era o inicio de outros,mas tinhamos o conforto de não termos cá dentro nem ministro das finanças da troika nem troika.sermos nós a gerir a austeridade acho que é coisa substancialmente diferente.

  12. Anacleto, a grande besta responsável pela queda e morte do Rei-sol! A culpa da derrota eleitoral do Rei-sol em 2011 “não foi dele, nem das suas ideias, nem do seu partido”. Não! Porque a acção política do Rei-sol sempre se caracterizou pela generosidade e pelo despreendimento em relação ao poder: as suas maiores preocupações eram os pobres de espírito, e a luta em que se empenhou foi a luta contra o Mamon, isto é, a luta contra os mamões do erário público. Bem avisou ele que não veio à terra para trazer paz e segurança, mas sim a espada, e que veio para lutar pelos fracos contra os privilegiados. Daí que a besta demoníaca tenha procurado boicotar o projecto reformista em curso, apoiando os professores mamões, os funcionários públicos poderosos avessos à insegurança laboral, e os utentes privilegiados do SNS e da Escola Pública que andavam a manifestar-se contra o fecho de escolas e de centros de saúde, por recusarem abandonar o conforto a que foram mal habituados.
    O Rei-sol veio fazer uma guerra contra o peso excessivo do Estado (perdão, contra o irreformismo do Estado), projecto que não terminou porque a besta demoníaca conseguiu convencer o São Pedro a deixar de apoiar os PECs milagrosos do mestre em reformismo. A consequência do abandono do São Pedro é conhecida: o Rei-sol foi preso pela troika e a seguir foi julgado pelo povo e condenado à morte. Só a Nossa Senhora Merkel e alguns pobres de espírito desesperaram e sofreram com o destino trágico do Rei-sol, que se despediu da vida política dizendo que tudo o que fez foi por «Amor ao país». Nunca houve um Senhor assim! Felizmente a sua mensagem reformista e anti-privilegiados não caiu no esquecimento, e os pobres de espírito podem voltar a ter esperança, pois o São Pedro foi o discípulo escolhido para dar continuidade à obra neoliberal iniciada pelo Rei-sol. Amén.

  13. oh brilhantinas royale! mudaste de nome por causa dos resultados autárquicos? deixa lá que as europeias vão ser semelhantes e nas próximas legislativas ficam reduzidos à expressão inicial, mas ainda podem desdobrar no parlamento, o semedo vai de manhã e a catarina aparece nas sessões da tarde. vai bebendo xarope syriza, não resolve, mas alivia.

  14. o bloco, para desviar as atençoes do fiasco eleitoral,veio novamente com a carta de rui machete!agora podem pôr 100 moçôes de censura ao governo de direita, que os rapazes de louça não alinham com medo de novas eleiçoes!

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