A entrevista que faltava, sem excluir as futuras

Ufa! Com prazer o digo. Finalmente uma entrevista séria, com interesse e informativa. A mediocridade da nossa atual liderança política laranja e dos economistas que os apoiam faz-nos ter saudades de um homem político com conteúdo e interesse. A conversa de José Sócrates com Clara Ferreira Alves hoje transcrita no Expresso é esclarecedora e, já agora, muito boa para esfregar na cara de centenas de ranhosos. É um Sócrates descontraído e liberto dos constrangimentos de um cargo político, que, umas vezes indiretamente pelas palavras da própria entrevistadora, outras em discurso direto e frontal, levanta mais algumas pontas do véu sobre o mais repugnante combate político da nossa história contemporânea, protagonizado por um bando de assaltantes enraivecidos e atiradores sem escrúpulos contra um primeiro-ministro. A reposição de alguns factos através da televisão foi importante, mas não teve o detalhe de uma entrevista a um jornal. São de facto abordados, e com extrema simplicidade desmontados, os mais duros momentos do seu percurso pessoal como primeiro-ministro. Terá alguma vez justificação tamanha agressividade? Pela mão da direita mais abjeta e muitas vezes com a cumplicidade ou o silêncio da esquerda radical, o país alucinou.

A dureza daquele período decorreu de uma situação externa inédita – uma crise financeira que nos apanhou no clube da moeda única -, mas sobretudo dos ataques internos e ad hominem contra Sócrates. Mas o entrevistado não assume o papel de vítima nem é por considerá-lo como tal que aqui exprimo o meu agrado pelas considerações político-filosóficas por ele tecidas e pelos seus esclarecimentos. Evidentemente que tem razões de queixa e, a propósito, chama nomes a algumas criaturas, porque legitimamente o enfurecem. Mas basta ver o estado do país. São totalmente merecidos. De resto, lucidez, convicções, intransigência de princípios e vontade de agir continuam a não lhe faltar. Não compreenderei, cem anos que viva, como pôde o país dar-se ao luxo de dispensar este homem.

Diz-nos que foi um erro ter decidido governar sem maioria naqueles agitados anos que se seguiram ao eclodir da crise financeira internacional. Visto à distância, parece claro. Mas a questão é se poderia não o ter feito. Depois de campanhas e campanhas contra a sua pessoa (incluindo conspirações urdidas em Belém), das quais aliás, passados estes anos, ainda perduram fortes ecos, poderia ter ignorado e desbaratado uma vitória eleitoral? Foi apenas humano não o ter feito. Entretanto revela que a crise das transferências de verbas para a Madeira esteve muito perto de provocar a demissão do Governo (a meu ver, já antes a discussão sobre a carreira docente poderia ter sido um bom motivo para bater com a porta). Não o fez e as circunstâncias inéditas a nível europeu devem tê-lo justificado. Mas se o tivesse feito, ficaria provado para todo o sempre como mentem os aldrabões que a toda a hora o acusam de não ter querido cortar a despesa, de ter mesmo entrado num desvario despesista (dando a entender que eles, sim, queriam cortes, o que é uma rotunda mentira). E ficariam com isso impedidos de mentir como fazem agora apostando na curta memória dos portugueses e concentrando os ofuscantes focos no dramático pedido de ajuda externa. Foi essa a pena. Mas, homem, o combate para evitar esta tragédia em infinitos atos que é a Troika foi teu.

34 thoughts on “A entrevista que faltava, sem excluir as futuras”

  1. estou de acordo com a sua avaliaçao da entrevista,em que aparece um socrates ainda mais preparado,mas não disposto para “voltar a depender do favor popular”.hoje na manifestação gritou-se demissaõ e eleiçoes.pergunto: eleiçoes para quê? para o pcp arrumar de vez com o bloco? e o resto? quem viabiliza um mais que provavel governo ps? o pcp está disposto a entrar para o governo ou a dar o apoio parlamentar a um programa de governo subscrito por ambos os partidos?em vez da retorica habitual,digam aos portugueses coisas concretas e exequiveis para a viavilizaçao de um governo que querem para portugal.sem isto, pedir a demissaõ e eleiçoes,é um embuste monumental!

  2. Apenas uma ideia me ocorre vamos todos gritar na tromba do cavaco do portas e do passos — Sócrates—- aposto que vão adorar mais que a grandola vioa morena

  3. Um gajo fica a rebentar de gratidão, cada vez que o Cavaco, o Coelho e o Portas prometem e juram publicamente a salvação da pátria e o bem geral dos portugueses.

    Música (de Almada Negreiros) para os teus ouvidos:
    coragem, João, só te faltam as qualidades.

  4. O Sócrates é de outra casta. Olhem-lhe para a cara e olhem para a dos outros,se não vêem o que os separa, nunca perceberão. Os intocáveis da política nacional têm um aspecto próprio,um cheiro próprio,um código ético próprio. Um governo,uma maioria e um presidente intocável e,olhem para os números: são os que essa casta tem que produzir,intocáveis!

  5. ,o meu obrigado por repetires partes da entrevista de josé socrates que não tinha lido.agora fala-nos das entrevistas de jeronimo e dos seus debates confrangedores,no parlamento,e já agora os das eleiçoes com os outros candidatos.tu comportas assim, para despistares o comuna que te controla (o controleiro) para não desconfiar que tu votas sempre no ps! joão fica descansado que não estás só nesse dilema!

  6. li um artigo de pedro adão e silva em que diz que o governo tirou 15mil milhoes da economia para reduzir 3 mil milhoes no defice. 12 mil milhoes foram para o “totta”.numeros mais esclarecedores do que estes não há!

  7. Muito bem Penélope. Acompanho-te na admiração pelo político Sócrates. A direita não consegue fazer um, nem parecido.

    O Nuno CM tem toda a razâo: mandem à bardamerda os embusteiros do PCP que gritam por demissão destes, como antes gritaram, em triplo, pela demissâo do governo PS. Estes, o Passos-Cavaco-Portas (PCP) estão a destruir o Estado Social, e os “sovietes” pedem a sua demissão. Sócrates fazia tudo o que podia para defender a Escola pública, a Saúde pública, a Segurança Social…e os “soviétes” do PCP exigiram e forçaram a sua demissão, com os palermas de Louçã em sintonia. Mas estes senhores do PCP sabem muito bem ao que vêm. Vejam como crescem num eleitorado amansado debaixo da pata da direita que os sovietes entronizaram. Cresce a direita e cresce a inutil (para agovernação) extrema esquerda. Os votantes do PCP não entendem que a subida do PCP representa a melhor garantia para direita poder esfrangalhar o Estado Social. Nem me admirava nada que as manifestações da CGTP em crescendo fossem o prelúdio para este governo apresentar a demissão, deixando o Estado Social em cacos, impossivel de recompor a curto ou médio prazo. Isso significaria um autêntico seguro de vida para os “sovietes” lusos. A rua voltaria a ser toda deles, com um PS “tolinho” a tentar apanhar restos do Estado Social desfeito em três anos, em virtude da traiçâo do Jerónimo e do Louçã, quando se aliaram ao PCP (Passos Cavaco Portas) para chumbar o PEC IV e chamar a troika. Estes cabrões sabem muito bem que, em última análise, foram eles, sim, eles, as “esquerdas verdadeiras”, que assinaram o memorando assassino, aliando-se à direita que nos governa e destrói. Só um povo inculto ou alheado da realidade não percebe os embusteiros do PCP e do BE. Tal como a direita, os sovietes contam com a ignorância popular.

  8. Sócrates perdeu-se por causas das megalomanias dos Aerportos da OTA e da Outra Margem e dos TGV’s em L e em PI.

    Há os corredores de fundo como Mário Soares e dos 100 metros como Sócrates.

    Sócrates fez os 100 metros dele, acabou!

  9. oh rústico! megalomanias são as édêpês, pêtês, bêcêpês, bêpênês e similares endividanços à força máxima e a fundo, para os portugueses pagarem os prejuízos e o gang do costume arrecadar os dividendos. quando te cair um boeing na sopa ou tiveres que tocar acordeão no metro de madrid reconheces-te otário e descobres o têgêvê dáva um jeitão.

  10. Que diferença abismal entre este político de mão cheia e o incipiente, cobardola e tontinho que lhe sucedeu à frente do PS!

    Sócrates fala, enfim, da sua vida particular e aflora algumas histórias dos pistoleiros da direita, mas tem que escrever um livro a contar tudo com nomes, datas e documentos anexos. Os reles Santana Lopes, Passos Coelho, Relvas, Cavaco e restantes hipócritas que protagonizaram o banditismo político laranja têm que ver as suas malfeitorias expostas publicamente por quem está melhor colocado e informado para o fazer.

    E quando o Seguro for corrido da ribalta será também a hora de contar como o gang do Alegre se comportou entre 2005 e 2011.

    Sócrates confessou o erro de ter governado sozinho a partir de 2009. Não o posso criticar por ter tal opinião. No dia em que Sócrates ganhou as segundas eleições eu pensava, e defendi essa minha opinião num blogue, que ele tinha que ir para uma coligação com o PSD. Claro, podemos perguntar-nos: como é que teria sido possível fazer uma coligação governativa com o estupor da Manuela Ferreira Leite, que fez uma campanha suja, ultrademagógica, a rebentar de ódio contra a sua pessoa e que depois de ter sido derrotada lhe disse, sabemo-lo agora pelo próprio, que “O meu mandato é de oposição”?

  11. gosto que diga que não quer depender do favor popular: mostra que sente, que ficou magoado com o povo. é que quem não sente não é filho de boa gente. devemos querer estar rodeados de gente que sinta. daqui a nada passa a mágoa, a dele, e talvez o povo possa redimir-se. e ganhamos todos.

  12. Ó Ignatz, a malta está a aprender acordeon, mas é menos passodoble e valsa, é mais samba e kizomba.

    E ao que consta, Sócrates também se adaptou mais à batucada que ao passodoble.

  13. ele há cada idiota, agora querem eleger o socras sem o voto do povo e mais artístico ainda, contra vontade do próprio.

  14. Subscrevo o comentário da Maria Abril, brilhante, porque separa o discernimento da estupidez, de quem, pertencendo à classe média ou baixa, vota na direita oportunista ou em quem se alia a esta. Já fui simpatizante do PCP nos idos de 74, hoje, para mim já não existe! Nunca pensei que agissem em qualquer situação com alianças à direita… Claro que este sistema socio-económico-político em que vivemos é muito injusto e propaga a diferença de classes sociais com a exploração dos mais fracos, mas há políticos, como o José Sócrates, que tentam minorar as injustiças enfrentando os interesses dos ricos e corporações financeiras, para melhorar a vida das classes média e baixa e isso é que é preciso discernir e apoiar com todas as forças. O PCP e o BE deviam batalhar, sempre, pela revolução, nunca aliar-se, por motivos de oportunidade, ou de ódio político, aos seus piores inimigos políticos.
    Manuel Torres

  15. Tanto comentário para uma só evidência,o fosso abissal que separa Sócrates dos manos siameses Passos e Seguro,seja em que vertente for:verticalidade e desassombro,validade política,intlectual,cultural,cívica e coragem.Que lhe não feneça a vontade para vir cá para fora com verdades e nomes,e quanto mais depressa melhor,que já anda para aí muito canalha em pânico que se prepara para se refugiar nas “táboas”!

  16. Penélope:escreves quase tudo o que senti ao ler a entrevista. Muito bem.

    A ideia de gritar Sócrates quando os pulhas aparecerem em público é gira, mas utópica. Não foram só os pulhas que nos fizeram o que fizeram, foi quem os apoiou. E está muita gente comprometida com a mentira que viveu e criou colectivamente. Agora é tarde.

  17. -» Anda por aí muito pessoal a dizer: «Nós defendemos uma política baseada no aumento da procura, essencial para fazer crescer a oferta»… é o pessoal ‘Anti-Austeridade’.
    .
    -» O pessoal ‘Anti-Austeridade’ possui um ‘grande mestre’: o Eng. José Sócrates!
    -» O ‘grande mestre’ anti-austeridade (vulgo: «política baseada no aumento da procura… essencial para fazer crescer a oferta…) em seis anos fez a dívida subir de 61,7% do PIB (final de 2005) para 108,1% do PIB : o ‘grande mestre’ quase duplicou a dívida pública em seis anos!
    -» Mais, como seria de esperar, o ‘grande mestre’ possui um ‘fraquinho’ por desbaratar heranças…

  18. menvp,
    além de teres de ter em conta esta linha vermelha do gráfico, abaixo, tens de juntar outros indicadores que não só a dívida pública: é que há dívida que gera desenvolvimento e dívida que gera mais dívida (a da austeridade que defendes). Ora bota aí os olhos, embora não acredite que queiras ou consigas ver ponta dum corno. (fica para outros)
    http://aventadores.files.wordpress.com/2011/12/image5.png

  19. Júlio,

    é verdade que Sócrates se expõe pessoalmente e expõe – muito – o passado, descobrindo-o, sob outra faceta, com outra linguagem. Quanto a “mas tem que escrever um livro a contar tudo com nomes, datas e documentos anexos”, pois. Foi a única coisa que não abordou – o futuro. Já aqui tinha dito que aaqule recolhimento em Paris só podia resultar num livro – estava a pensar noutro tipo de livro, embora perceba que este faz parte do percurso. Mas quanto a futuro, o homem continua a ser um livro fechado , a não ser que diz que um dia contará mais, mas “não agora e aqui”. Portanto, é isso, ainda falta o livro com a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Por mim, podia ter saído ontem. Mas, como diz o Val, o tempo das nossas necessidades e ansiedades não é o tempo do pensador político. E Sócrates não é, como ele próprio diz, filósofo – é político, até ao tutano, caramba. Daqueles que digo que precisamos como de pão para a boca.

  20. Bom, pessoalmente e felizmente não tenho cor política e é com algum desagrado que vejo o que esta gente anda a escrever aqui, portanto esquecem-se do que ele fez durante o tempo que esteve no poder, acho muito bem, estava tudo uma maravilha, tudo controlado, bom isso até faltar o dinheiro, mas, estava tudo bem. Corrupção e má gestão não existe em Portugal, é um mito, algo que está por provar ser verdadeiro, no entanto as contas estão como estão, mas está tudo bem.

  21. Ó menvp, és PARVO, ou fazes-te? Ou és parvo, burro e ignorante?

    Quando deres alguma prova irrefutável de que possuis pelo menos dois neurónios e nenhum está atolado em zagre há mais de trinta anos, eu convido-te a veres uns gráficuzinhos do Prof. Manuel Caldeira Cabral, que te atiram essa gonorreia toda para dentro do bidé mais próximo.

    Até lá, não passas dum paspalhão a arrotar baboseiras em casa de gente fina..

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