“Ich liebe mich” e a competitividade

Para agradar ao seu eleitorado, mas também por convicção diocesana muito alemã, Angela Merkel envia mensagens aos países do Sul para que sejam austeros e competitivos, como eles, e para que reduzam a dívida a todo o custo.
Eu só gostava de saber o seguinte:

1) Sendo a Irlanda considerada, há uns anos, um país altamente competitivo, apelidado até de «o tigre celta» e estando agora em sérios e intermináveis apuros devido à crise bancária, que a austeridade não resolve;
2) Sendo a Espanha um país competitivo e economicamente agressivo até há pouco tempo, com uma dívida bastante reduzida, inferior até à da Alemanha, tendo sido vítima da crise na América Latina há uns anos e de uma enorme bolha imobiliária subsequente, que rebentou após a crise do subprime nos Estados Unidos, nada tendo a dita austeridade resolvido, muito pelo contrário, os juros aumentam na proporção das machadadas na economia;
3) Sendo a Grécia, em termos turísticos, um dos países mais competitivos do mundo, com bons setores de mercado como o do azeite ou da construção naval, mas tendo cometido o grave delito de aldrabar as contas para entrar no euro, com a compreensão e a cumplicidade de altos funcionários da UE e de políticos importantes, estando a sua morte económica à vista;
4) Sendo a Itália um país com fabulosos trunfos em termos de oferta artística e cultural, indústria da moda, indústria automóvel, produtos alimentares, turismo, ciência, etc., onde a austeridade não está a convencer mercado nenhum, muito pelo contrário;
5) Sendo Portugal um país relativamente pouco produtivo, característica que a adesão à UE só agravou, mas que estava a fazer um esforço nos últimos anos por formar a sua população, relançar a sua indústria e tecido produtivo noutros moldes, vá lá, mais competitivos, apostando na investigação e inovação, em produtos de qualidade, nichos de mercado e internacionalização das suas empresas, sabendo que nunca, por mais que nos escravizem em termos salariais, poderemos concorrer com a China ou a Índia:

que história é esta da austeridade com vista à “competitividade” destas economias como solução para a crise da Zona Euro? Nada tendo contra a introdução de reformas e melhorias na vida económica e laboral de uma nação, porque o mundo não pára, não vejo por que razão tem de ser como os alemães querem e sem qualquer protesto. O resultado é que está tudo de orelha murcha a definhar. Como se resolve a crise da Europa assim?
Os alemães tomam-nos a todos por parvos. E o pior é que há parvos que assumem o papel de alemães.

Na veia

palavra da salvação – A gente séria nunca se atrapalha, porque vale tudo.

E por que não fazer outsourcing? – O espectáculo de um mentiroso profissional que se imagina o chanceler oficioso da República.

C’est du belge! – Num Eixo do Mal recente em que substituiu o Daniel Oliveira, Rui Tavares fez uma referência à falta de autocrítica e debate no BE a propósito dos resultados eleitorais de 2011. Durou brevíssimos segundos e saiu-lhe em modo de desabafo. Encontrar um texto seu (ou do Daniel Oliveira, ou da Joana Amaral Dias, ou de algum bloquista com protagonismo) onde se desenvolva a tragicómica matéria, contudo, já será mais difícil do que encontrar social-democracia na São Caetano à Lapa. A esquerda elitista, modernaça, arejadíssima, purificada dos males que pervertem o PS, tem nesse silêncio e marasmo um dos mais cristalinos retratos do que é: uma fraude que perdeu a graça.

Vinte Linhas 763

Uma Taça mesmo à medida mas não só a Taça

A recente vitória do SLB na Taça da Liga de 2012 veio colocar na ordem do dia uma prova que parece ter sido desenhada e concebida para esse mesmo clube. Não por acaso na final de há quatro anos entre o SLB e o SCP, quando o jogo se aproximava do fim, havia 1-0 favorável ao SCP, logo um elemento exterior às duas esquipas resolveu «escrever história» e inventou uma grande penalidade, alterando assim o resultado de modo grosseiro, brutal e insólito.

Continuar a lerVinte Linhas 763

A verdade da mentira

A decadência da direita portuguesa levou a que o combate político, de 2007 a 2011, deixasse de ser feito na disputa por modelos económicos e sociais concorrentes, conferindo-se com honestidade intelectual e paixão ideológica as vantagens e desvantagens respectivas, e se deslocasse a atenção do País para campanhas de assassinato de carácter, exploração do populismo e golpadas judicial-mediáticas. Há factores culturais que explicam a facilidade e apetência da direita na adopção dessas soluções ancestrais, incluindo o facto de dominarem a comunicação social, mas o sucesso eleitoral da estratégia muito deve à cumplicidade da extrema-esquerda, a qual acreditou que da destruição do PS viriam ganhos inevitáveis. Por isso vimos BE e PCP a participarem com fervor no ataque a Sócrates e a pouparem Cavaco mesmo quando este atentou contra o seu juramento de posse e conspurcou a Presidência da República e o nome de Portugal. A decadente direita, pois, não teria conquistado o poder absoluto sem o apoio frontal e lateral da esquerda decadente.

O artifício principal usado contra Sócrates consistiu em repetir que era mentiroso. As suas mentiras tanto podiam ter origem na tentativa de apresentar resultados positivos, como na de esconder resultados negativos, como num optimismo enganador ou irrealista, como na sua natureza maligna e criminosa. E se Sócrates mentia, então quem estava com ele igualmente mentia, e mentiam todas as entidades sobre quem estes mentirosos tivessem alguma responsabilidade ou contacto. Por contraposição, PSD e Belém capturavam a “verdade” e reclamavam a sua posse monopolista. A política deixava de ser a arte dos possíveis, essa decisão legítima e livre nascida das diferentes interpretações do real e sua diferente valoração, para se reduzir a um moralismo venenoso e grotesco. A verdade era definida por alguns em nome de todos, a génese de qualquer totalitarismo. Sócrates mentia porque não fazia a vontade nem à oligarquia nem aos revolucionários, deixava-se ler no subtexto da situação. Era uma mensagem simples e eficaz, deu no que deu.

Continuar a lerA verdade da mentira

No hablas inglés?

In Child Sexual Abuse, Strangers Aren’t the Greatest Danger
.
More Exercise, Eating Less Fat and Weight Loss Programs Are in, Popular Diets Are Out
.
Excessive Worrying May Have Co-Evolved with Intelligence
.
Why Are Action Stars More Likely to Be Republican?
.
Do I Look Bigger With My Finger On a Trigger? Yes, Says Study
.
The power of perceptions: Imagining the reality you want
.
Listen Up, Parents: For Toddlers (and Chimps), the Majority Rules
.
Upper Class People More Likely to Behave Unethically

Vinte Linhas 762

Naquela manhã de Abril em 1995

O dia 14 de Abril foi, no ano de 1995, uma sexta-feira; não uma qualquer mas a Sexta-Feira Santa. Minha mãe estava a sofrer numa cama articulada de um Lar de Idosos, entre tubos, lágrimas e vitaminas. Passaram dezassete anos e continuo a pensar que foi a Sombra de Deus e a Sua vontade que quis levar, naquele dia tão especial, o corpo de minha mãe, já cansado de tantas doenças, para ele poder repousar na Sua Sombra, afinal muito mais viva que todas as luzes do Mundo.

Continuar a lerVinte Linhas 762

Rumores

Sempre houve rumores sobre a organização encapotada de “boas” e “más” turmas nas escolas. Agora deixa de ser um pecado dos decisores nas escolas para ser uma prática legitimável por acto ministerial.

Paulo Pedroso

*

O texto do Paulo merece ser lido por várias e excelente razões, mas apenas me interessa realçar este passo porque ele nasce desta geral cumplicidade de décadas com os pseudo-segredos sórdidos (se não for esse o adjectivo, usar “corporativos”) do que se passa nas escolas. Claro que há turmas intencionalmente boas e más, fáceis e difíceis. Claro que as direcções de escola as organizam dessas formas para atender às hierarquias tácitas, ou o mais das vezes obscenamente reclamadas, dos professores da casa, dos professores amigos, dos professores porque sim. Material humano e horários, sempre foram os principais alvos da cobiça dos profissionais da sala de aula. A lógica é a da lei do menor esforço, só porque o que tem de ser tem mesmo muita força.

Claro, claro. Cada um de nós tem uma mãe, ou uma tia, ou uma prima professora. Ou um cunhado, um padrinho, um sogro professor. Tudo gente boa, gente de confiança. E ninguém está para se chatear. Deixem lá os coitados dos professores em paz, esses técnicos especializados na leitura em voz alta e no manejo de pauzinhos de giz para manter as crianças distraídas entre intervalos. Avaliação? Saber o que realmente se passa quando se fecha a porta para mais 50 minutos de convívio entre gerações? Horror! Num instantinho, enche-se a Avenida da Liberdade as vezes que forem precisas para não deixar passar esses olhares estranhos e perigosos.

O Paulo fala em “rumores”. Está a ser prudente ou delicado. Para quem defende um qualquer conceito de democracia radical, porém, esses rumores relativos à organização das turmas serão até benignos quando comparados com outros: aqueles que dão conta de milhares de professores que pura e simplesmente nunca deviam ter entrado no sistema de ensino ou de lá deviam ter saído há anos e anos. Para quem se passeia por algumas escolas no começo da sua carreira docente, sendo tratado como forasteiro e néscio, não há rumores. Há uma visão cristalina de uma sociedade onde a cidadania não existe.

Vamos lá a saber

A ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território, Assunção Cristas, disse na quinta-feira à noite, em Leiria, que no sector da agricultura não falta emprego, mas pessoas para trabalhar.

A governante sublinhou que é preciso contrariar a ideia de que trabalhar neste sector “é uma vida de dificuldades” e passar a mensagem de que as pessoas “podem ganhar dinheiro e enriquecer”, concluindo que “não há falta de emprego na agricultura, falta é gente para trabalhar”.

Fonte

__

Das duas, uma: ou estas declarações são lunáticas ou visionárias. Se forem lunáticas, será fácil demonstrar porquê. Se forem visionárias, será fácil dar-lhes aplicação.

Que achas?

Um livro por semana 284

«Uma vara de medir o sol» de Graça Pires

Graça Pires (n.1946) estreou-se em 1990 com «Poemas» (Prémio Revelação A.P.E. 1988) sendo este «Uma vara de medir o sol» o seu 13º título publicado. Os poemas deste volume situam-se entre a Natureza e a Cultura: «Envelhecemos com uma vara / de medir o sol na linha do olhar./ Não entendemos os sinais inscritos / nas margens do abismo.»

Continuar a lerUm livro por semana 284

O CDS no Governo volta a atacar prestações sociais, desta feita com a desculpa da crise

É a crise, pois é. Mas não é. O CDS, particularmente, sempre teve horror a determinadas prestações sociais, muito antes de o mundo colapsar.
Não se trata do momento, trata-se da genética de uma direita que já esteve no poder, sem programa de assistência financeira.
Não se trata do momento, trata-se de ideologia paranóica, de gente que ainda usa da pergunta argumentativa: – quem dá a cana e quem se limita a dar o peixe?
O problema de não haver cana, nem como a usar, nem peixe, significa condenar pessoas de carne e osso ao estado conhecido como “abaixo do mínimo de existência condigna”, expressão, de resto, acima das suas possibilidades.
Não se trata do momento, trata-se de decisionismo liberal, da mesma gente que em 2002 – lembram-se? – revogava o rendimento mínimo garantido (criado por um Governo socialista em 1996), substituído por um “rendimento social de inserção”. O novo regime reconhecia a titularidade do rendimento social de inserção apenas às pessoas com idade igual ou superior a 25 anos, ao passo que o regime anterior reconhecia o direito à prestação do rendimento mínimo aos indivíduos com idade igual ou superior a 18 anos.
Ou seja, de repente, sem mais, as tais pessoas de carne e osso, se tivessem o azar de terem entre 18 e 25 anos podiam morrer, até porque não havia medida substitutiva.
Em processo de fiscalização preventiva, o Tribunal Constitucional pronunciou-se pela inconstitucionalidade deste decreto parlamentar (Ac. 509/2002).
O princípio democrático – livre escolhas do Governo – tem limites, como o direito ao mínimo de existência condigna conjugado com outros direitos.
Em 2002, o TC inconstitucionalizou pela primeira vez na história da democracia uma política pública.
Os infratores voltam à força.
Sem outra força que não a força da crise, essa jeitosa.

Como é que ainda ninguém se tinha lembrado disto?

Claro que as medidas que têm sido anunciadas não são de austeridade. O primeiro-ministro disse recentemente que não via motivos para mais austeridade e viu muito bem. A verdade é que, apesar de sermos brindados com novas medidas quase diariamente, a palavra ‘austeridade’ praticamente desapareceu da comunicação social e não tem aparecido colada às mesmas. Mas, hoje, pela boca do primeiro-ministro, ficámos a perceber melhor porquê: são medidas correctivas! E é óbvio que as medidas correctivas não têm nada a ver com as medidas de austeridade, o Governo nem precisa de explicar. As de austeridade não servem para corrigir nada, destinam-se antes a castigar-nos pelos maus hábitos que adquirimos no passado. Castigo por termos andado a viver acima das nossas possibilidades. E só voltam, se voltarem, quando o Governo avisar. Até lá, felizmente, só teremos medidas correctivas. Que bem pensado. Deve ter sido por isso que a taxa de saúde e segurança alimentar anunciada pela ministra da agricultura, aparentemente, não foi discutida no Conselho de Ministros de ontem, como tinha sido noticiado, e percebe-se, é daquelas medidas que poderia lançar a confusão entre as correctivas e as de austeridade e lá se ia o brilharete do primeiro-ministro no debate quinzenal.

Agora digam lá que nós somos a Grécia. Os gregos não percebem nada disto, só falam de austeridade. Pior ainda, em pacotes de austeridade. Depois admiram-se. Por cá, nem austeridade quanto mais em pacotes. E ainda dizem que este Governo não é criativo.

À donzela honesta, o trabalho é festa

Esta transparência dos direitolas ao mostrarem a sua hipócrita indignação por alguém conceber a escola pública como lugar de festa – e vamos esquecer a declaração de Maria de Lurdes Rodrigues na sua integridade e contexto, fiquemo-nos pela deturpação repetida – chega e sobra para se descobrir um destino político caso ainda não se saiba com quem se quer criar o futuro.

Vinte Linhas 761

Com que então é a presidenta? E o Alpalhão e a infância?

O jornalista João Céu e Silva do «Diário de Notícias» deve ter tremido todo por dentro ao ouvir o grito da irrequieta e opiniosa senhora espanhola que preside (presidente) à Fundação José Saramago quando ela quis fazer lei no Português de Portugal obrigando-o (por assim dizer) a escrever na sua entrevista um aborto – a palavra presidenta. Vejamos o caso: o particípio activo de atacar é atacante, o de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de ser é ente.

Continuar a lerVinte Linhas 761

Desabafo tratado

O tratado orçamental acaba com o consenso social europeu; institucionaliza o diretório; normativiza a política alemã e não uma política europeia; é assinado por Estados, não é um produto da União; é impraticável; ameaça a possibilidade de políticas de crescimento, de combate ao desemprego; em caso de incumprimento TUDO passa a ser definido e executado por burocratas não eleitos; viola princípios básicos como o princípio democrático e o p. da soberania popular; foi agendado sem discussão nacional; fomos os primeiros a abdicar de defender um caso de Regime.
Tudo pode acontecer. Pode o tratado entrar em vigor sem a ratificação da Alemanha, por exemplo, que continuará a mandar sem consequências convencionais, que chegam a recursos contra um incumpridor junto do Tribunal de Justiça por parte de qualquer outro Estado.
De chantagem em chantagem, de austeridade em austeridade, já posta dogmaticamente em tratado para casos futuros, terá de chegar a hora de a esquerda dizer basta. Sem medo. Aqui e na europa em decomposição.
À inércia vai agarrada a culpa.

Hora marcada na depilação?

Caso Portucale: todos os arguidos absolvidos. Bom para eles, que essa parte da sentença, ao menos, percebeu-se. Já o resto…

A fundamentação detalhada, para já, não se entendeu porque, apesar da leitura do acórdão ser um acto público e obrigatoriamente compreensível, a juíza presidente do colectivo, Laura Maurício, leu a decisão a alta velocidade, sem pausas, sem pontuação e, muitas vezes, de forma imperceptível.”

Fonte

Mas também:

Em julgamento, o MP deu como provado o crime de abuso de poder para os arguidos António de Sousa Macedo, ex-director-geral das Florestas, Manuel Rebelo, ex-membro desta direcção, e António Ferreira Gonçalves, antigo chefe do Núcleo Florestal do Ribatejo.
Em causa está a entrada de mais de um milhão de euros nos cofres do CDS/PP, para a qual, segundo a acusação, não existem documentos de suporte que justifiquem a sua proveniência e cujos recibos são falsificados
.