Vinte Linhas 761

Com que então é a presidenta? E o Alpalhão e a infância?

O jornalista João Céu e Silva do «Diário de Notícias» deve ter tremido todo por dentro ao ouvir o grito da irrequieta e opiniosa senhora espanhola que preside (presidente) à Fundação José Saramago quando ela quis fazer lei no Português de Portugal obrigando-o (por assim dizer) a escrever na sua entrevista um aborto – a palavra presidenta. Vejamos o caso: o particípio activo de atacar é atacante, o de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de ser é ente.

Quanto aos derivativos verbais temos em Português presidente (pessoa que preside, seja homem ou mulher) e não presidenta tal como temos estudante (pois não se diz estudanta) ou tal como temos adolescente (pois não se diz adolescenta) e tal como temos paciente (pois não se diz pacienta).

No caso em apreço seria muito melhor para todos a senhora dedicar-se a outras investigações mais produtivas como por exemplo descobrir lapsos nos livros que integram o espólio da Fundação José Saramago. Na «Viagem a Portugal» edição do Círculo de Leitores (entidade que patrocinou ao autor essa viagem entre Outubro de 1979 e Julho de 1980) surge na página 252 na visita a Santarém uma referência ao Museu de São João de Alpalhão quando é bem São João de Alporão. E fica no Largo Zeferino Sarmento.

Outro erro grosseiro que já podia ter sido emendado é o da entrada do livro «Levantado do Chão» do mesmo José Saramago com a citação de Almeida Garrett onde surge «infância» em vez de «infâmia» quando o autor de «Viagens na minha terra» se refere ao número de pobres (duzentos) que são precisos para fazer um rico.

18 thoughts on “Vinte Linhas 761”

  1. Amigo jcfrancisco, lamento, mas não tens razão.
    A palavra “presidenta” já vem referida como substantivo e “variante feminina de presidente” na pág. 823 do “Vocabulário da Língua Portuguesa”, de Rebelo Gonçalves, Coimbra Editora, edição de 1966, baseada no Acordo Ortográfico de 1945. No que respeita à língua portuguesa, Rebelo Gonçalves não era, como deves saber, um gajo qualquer.
    “Presidenta” aparece também, como substantivo feminino, na pág. 2969 do “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”, edição de 2003 do Círculo de Leitores, com várias acepções, as primeiras das quais são “mulher que se elege para a presidência de um país” e “mulher que exerce o cargo de presidente de uma instituição”. Repara que 2003 é data muito anterior às tomadas de posição de Pilar Saramago ou Dilma Rousseff, que não inventaram, não subverteram nem abastardaram nada, limitando-se a insistir no uso (mesmo que o machismo omnipresente o tenha convertido em desuso) do que existia há muito.
    Por último, até o “Dicionário da Língua Portuguesa” da Porto Editora, 8.ª edição, 1998, regista “presidenta” na pág. 1321, como substantivo, “feminino de presidente” e “mulher que preside”. Classifica, porém, a palavra com “neologismo”, o que, como prova a referência que faço acima ao “Vocabulário da Língua Portuguesa”, de Rebelo Gonçalves, é errado e explicado apenas pela ligeireza com que alguns autores às vezes escrevem e dizem coisas sobre assuntos de que sabem pouco e não se dão ao trabalho de aprofundar. Talvez por comodidade, limitam-se a tomar como boas as asneiras que, verbalizadas até à exaustão na superficialidade que caracteriza a atmosfera mediática, se transformam abusivamente em verdades bíblicas. É uma variante em ré menor do que o valupi muito bem caracteriza aqui, mas é o mesmo género de música:

    https://aspirinab.com/valupi/broncologia/

    Finalmente, não percebo a relevância da nacionalidade “espanhola” que, com aparente acinte, preferiste destacar em vez do nome Pilar del Río ou Pilar Saramago. A escolha “da irrequieta e opiniosa senhora espanhola” para mulher, companheira e presidenta da Fundação José Saramago foi de quem justifica a existência dessa fundação, o próprio José Saramago, e nenhum de nós tem nada a ver com isso. Peço-te desde já perdão se a minha impressão está errada e estou a ser injusto contigo, mesmo que não me pareça ser esse o caso.

  2. Como sempre dei o melhor de mim no texto que assino e o comentário só me vai fazer pensar mais sobre um assunto. Mas e os outros??? O «Alpalhão» por Alporão ? e o «infância» por infâmia na citação do Garrett? Intervenções destas é que interessam e valorizam o Blog. Fico desde já à espera. Obrigado!

  3. exactamente, este blogue deveria tornar-se a grande errata da lusofobia, um grande espaço cibernético aberto à discussão e aprofundamento das doenças da língua, garganta e sobretudo (no inverno, manga curta no verão) das massas encefálicas dos cromos em presença.

  4. É uma cena um bocado anal, esta da perseguição à esfumada memória do zéquinha serralheiro.

    Devias era ter vergonha nessa cara ó salsicheiro da poesia.

  5. A viúva do nosso ibérico Nobel tem direitos adquiridos, embora herdados, mas são direitos dela.

    Nós é que já temos menos direitos sobre o nosso idioma, do que qualquer nordestino ou carioca brasileiro ou bulgaro-mineira.

    Vá lá que já não estamos “orgulhosamente sós”, felizmente, já até temos a troica connosco, para nos defender.

  6. «A nova Presidente do Brasil resolveu designar-se como a “Presidenta”. Considero um disparate pretensioso. As palavras oriundas do particípio presente em Latim não têm género, sendo este indicado pelo artigo precedente, “o” ou “a”, conforme os casos.
    Não há nenhum machismo na fórmula “a Presidente”. Não faz nenhum sentido “feminizar” a terminação em “presidenta”, tal como não faria sentido dizer “gerenta”, ou “exequenta”. Ainda haveremos de ouvir dizer que a presidenta é “inteligenta” e “diligenta”? E se Dilma é “presidenta”, Lula era “Presidento”?»

    Vital Moreira, aqui: http://causa-nossa.blogspot.pt/2011/01/presidenta.html

  7. É verdade Ignatz.

    E os membros da UEC e JCP adoptam nicks de personagens de cartoons. É uma cena etária, tázaber?

  8. Carlos, acho que tanto as telenovelas “brasilentas” como o acordo ortográfico com os PLOP’s, fazem parte de um plano de vingança daquela malta da língua de trapos.

  9. Caro jcfrancisco, os problemas que apontas não passam de gralhas e não há livro que não as tenha, excepto talvez os da biblioteca móvel do Altíssimo, flutuando ociosamente entre cumulonimbus e stratocumulus. Mas, como diria o venerável barão Catroga von Alzheimer, são pentelhos, Senhor! De qualquer modo, a Fundação José Saramago, tanto quanto sei, tem um site, pelo que podes mandar para lá um e-mail a apontar os erros e a sugerir a sua correcção em próximas edições, já que certamente não pensas que «Alpalhão» por Alporão (ainda se fosse “Alcolhão”) justifique a retirada de circulação dos exemplares à venda nas livrarias ou a destruição imediata dos que existem em bibliotecas.

    P.S. – Há algum tempo que não entrava na tua saleta, mas vejo que continuas com um desagradável problema de infestação. Os cabrões dos insectos não conseguem passar sem ti, o teu sangue deve ser para eles doce como mel. Deles será certamente o reino dos céus, mas, entretanto, puta que os pariu! De qualquer modo, mantém-te atento à publicidade das hipermercearias, pois é possível que haja brevemente umas promoções jeitosas de “Baygon Animais Rastejantes”. Não há cucaracha que resista!

  10. Carlos, o Vital Moreira é parvo e exemplo perfeito de quem fala do que não sabe como quem mija de cima da burra.

  11. o povo é quem mais ordena. e o povo diz presidenta, como diz estudanta, chefa e chefona, generala e marechala, bem como outros ‘disparates’. e as governantas, será que temos também de as riscar dos dicionários e dos romances e das nossas vidas? o povo é quem mais ordena.

  12. Meu Caro Joaquim Camacho – já me despedi dessa fauna no «post» intitulado «Vinte Linhas 756» com o subtítulo bem claro de «Exortação final aos animais (s/foto de Carlos Tomé)». Obrigado pelo contributo, justo e verdadeiro. Pouca gente liga.

  13. concordando com Joaquim Camacho e as suas sábias e objetivas observações(só não partilho a condenação de Vital Moreira por quem mantenho melhor consideração, apesar do dislate citado), muito apreciaria da sua parte alguma explicação que porventura tenha para o facto de ninguém falar da velha palavra GOVERNANTA, cuja indiscutível existência no léxico português me parece destruir toda a argumentação usada contra presidenta.

  14. Hugo, contra o uso de presidenta não vejo qualquer “argumentação”, mas antes uma “sanha” com motivações diversas. Nalguns casos a coisa cheira-me a xenofobia mitigada, noutros a simples vontade de dar nas vistas, ao velho estilo maria-vai-com-as-outras, mas todos têm em comum uma confrangedora superficialidade. Pois se está na moda gozar com a “presidenta”, deixa-me lá molhar a sopa também, para parecer bué da cool e não passar por demodé. É claro que nos dicionários desta gente o que não existe seguramente é a palavra rigor, pois bastava-lhes um ou dois minutos, para verificação dos factos em dicionários e vocabulários de confiança (como os que acima cito), para evitarem a asneira. Mas dá trabalho, é uma chatice, para eles é mais importante atirar uns bitaites antes que a coisa esfrie, para parecer que sabem do que falam.

  15. Caro jcfrancisco, além dos animais (os que aqui estão em causa são apenas dos rastejantes), há o problema dos vírus e bactérias diversas, como coliformes fecais e outros agentes infecciosos. Para estes últimos nem é preciso Baygon, o problema resolve-se com creolina, que tem a vantagem de ser mais barata.

  16. É bem verdade, meu caro. Os da foto da Senhora de Alcamé são bovinos mas os coliformes fecais só com um enorme autoclismo. Mas não chega uma vez, é preciso repetir.

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