Ressaca

Um post categoria all-of-the-above do Luis M. Jorge no Vida Breve coloca algumas hipóteses válidas para uma pergunta que vejo muito repetida, com espanto, por cada vez mais pessoas: o que se passa afinal com os Portugueses? Perante a destruição radical do nível de vida, onde está a revolta? Perante as óbvias e descaradas mentiras de quem já nem se preocupa muito em disfarçar, como é que não está tudo na rua, aos berros? Como é que as sondagens ainda dão o PSD/CDS na frente?

Afinal, por bastante menos, por medidas muito mais suaves tomadas pelo anterior governo, por promessas não cumpridas e objectivos não alcançados, por desditos e mudanças de direcção muito mais compreensíveis face à evolução internacional da crise, por tudo isso, houve uma agitação bastante maior nas ruas. E parece-me que será essa uma das chaves para compreender a actual passividade os cidadãos. Os portugueses não lutam porque já lutaram, e lutaram muito, muito recentemente. Greves em que os sindicatos berravam “recorde” sem que ninguém se risse, manifestações impressionantes de professores, de jovens precários, de enfermeiros, todo o mandato anterior foi marcado por uma enorme onda de contestação, nas ruas, nos jornais, nos cafés, nos locais de trabalho, nos blogues. Foi, para todos os efeitos, uma enorme demonstração de cidadania, no sentido das pessoas se envolverem no que percepcionavam serem os seus problemas. E no fim dessa luta, dessa autêntica festa contra um primeiro-ministro e um governo que eram, justa ou injustamente, a face de uma crise que nos assustava a todos, o que resultou de todo esse esforço foi isto:

 

Vão-me perdoar se compreendo, agora, um certo torpor, um baixar de braços e um abraçar da inevitabilidade. A escolha foi nossa, como sociedade. E a questão fulcral é esta: mesmo mentindo descaradamente, como fizeram, a direita apresentava uma alternativa baseada numa narrativa que conseguiram passar com sucesso. A das pessoas competentes contra os incompetentes, a dos “gastos supérfluos do estado” contra o “forróbodó” dos “projectos faraónicos” enquanto se iam cortando despesas, da culpa do governo por não se ter precavido contra uma crise financeira de consequências imprevisíveis. Não era verdade, como é mais do que evidente agora para quem tenha meio dedo de testa, mas a mensagem passou e os eleitores comeram-na. Havia outra maneira, uma alternativa. E agora, o que é que existe? Existe este:

 

A passividade existente, sinceramente, não me espanta muito. Sem ajuda, certas digestões levam o seu tempo.

Já dá para dizer isto?

Isto: que o programa de Ferreira Leite, sintetizado no “pára tudo”, o qual não passava da demagogia mais básica à volta das despesas ainda por fazer no TGV e novo aeroporto, teria sido indiferente para a lógica rapace dos mercados prestes a eclodir, e que, mesmo que tal fúria imobilista fosse concretizada no espírito quebra-bilhas do actual Governo, tal desvairo à grega só teria conseguido antecipar num ano e meio o desmantelamento do Estado social e o enterro da economia.

Já dá?

Broncologia

O bronco típico está fartinho de saber que Sócrates gamou centenas de milhões de euros ao Estado, os quais foram colocados em offshores em nome de familiares seus. O bronco igualmente sabe de ciência certa que Sócrates se rodeou de escroques e meliantes no Governo, cuja única tarefa era a celebração de contratos corruptos com empresas amigas, contratos esses que lesaram o País em milhares de milhões de euros e que destruíram a qualidade de vida das próximas 10 ou 100 gerações. Finalmente, o bronco sabe a bom saber, porque não perde uma capa do Correio da Manhã, que Sócrates era, em simultâneo e a cores, o mais inteligente e poderoso dos criminosos, pois apesar de tanto e tão descaradamente roubar nem sequer a tribunal ainda foi, e o mais inepto e irracional dos governantes, insistindo em soluções absurdas que o levaram a perder a mama em vez de ter feito o que tinha de fazer para a manter. O bronco, constata-se quotidianamente, é um sabidão que já a sabe toda, não precisa de saber mais nada.

Só temos a lamentar que não haja uma alma caridosa que interrogue um bronco, um qualquer, a respeito dessa cena macaca que é ver duas ladras profissionais, de seus nomes Maria de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada, a gozarem com os deputados da gente séria numa comissão parlamentar e a saírem de lá sem terem sequer sido beliscadas por alguma pergunta a que não conseguissem responder, algum facto que não conseguissem explicar ou algum argumento que não conseguissem vencer. A broncologia está a deixar escapar material precioso para o estudo do bronco português, um dos espécimen mais puros em todo o reino animal.

Vinte Linhas 760

Memória da Morais Soares a caminho da Escola Patrício Prazeres

A foto da Câmara Municipal de Lisboa (Arquivo Fotográfico) recorda um tempo no qual reinava a lentidão. Os eléctricos com atrelado vinham do Alto de São João para Belém, o pica bilhetes do atrelado tocava a campainha para o da frente dar ordem de arrancar. Havia poucos automóveis e poucas camionetas em circulação. Ali à esquerda aquele arco era a entrada de uma garagem onde o meu amigo Carlos Miranda (director de A BOLA) chegou a ter o seu automóvel guardado durante a semana para os passeios ao Domingo quando ainda era apenas colaborador do mesmo jornal ao tempo tri-semanário – segundas, quintas e sábados.

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Será o lóbi dos quiosques?

Concordo com a proibição do fumo em locais fechados. Aceito (que remédio) pagar o que pago de imposto em cada maço de tabaco. Acho muito bem que se desincentive o consumo e que se façam todas as campanhas anti-tabagismo. Concordo com isso tudo. Mas expliquem-me, devagarinho, qual a vantagem de proibir as máquinas de venda automática, que já não é assim tão automática, pois temos sempre de pedir que nos liguem a máquina. Haverá alguém que deixe de fumar se tiver de comprar o tabaco ao balcão? Além disso, se a preocupação são os jovens, alguém devia avisar o Governo que eles fumam, cada vez mais, tabaco de enrolar e que o mesmo não costuma ser vendido nas tais máquinas.

Responsável, eu?

Luís Filipe Menezes, ex-líder do PSD, corrido ao fim de alguns meses por manifesto desnorte, e atual presidente da Câmara Municipal de Gaia, a segunda mais endividada do país (255 milhões de euros), permite-se criticar a “irresponsabilidade” do anterior governo e dar conselhos a António José Seguro sobre o PS que ele, Menezes, gostaria de ter como oposição. Um querido que tem razões para pensar que vai ser ouvido. Este pândego, que pode emparelhar com Alberto João no basismo e no descaramento, considera preocupante a herança deixada pelo anterior executivo.

«Para o antigo líder do PSD, sendo o PS “incontornável e fundamental” para a democracia portuguesa, “é importante que haja uma imagem do partido que não tenha a ver com a responsabilização desse passado, que foi hiper-negativo, muito mau e cujos resultados estão aí à vista”.

Questionado se considerava preocupante o Governo ter decidido congelar as reformas antecipadas, o autarca de Gaia afirmou que “muito preocupante foi, em democracia, Portugal ter chegado à situação em que está”.

“Preocupante é ter como herança um país em que se cava a Águas de Portugal e só há buracos, em que se cava na gestão das empresas públicas e se vê que foi gastar aos desbarato, isso é que me preocupa”, sustentou.»

Cavaco saca de manuais de direito constitucional para justificar a promulgação de um diploma autoritário e imoral a todos os títulos: ou do “dá para fingir melhor que não sabes qual é a questão?”

Lembrando que já promulgou mais de 200 diplomas do actual executivo a quem compete conduzir a política geral do país Cavaco Silva fez questão de notar contudo que promulgar não era a mesma coisa que concordar com as medidas do executivo liderado por Passos Coelho. “Todos os constitucionalistas reconhecem que o acto de promulgação não significa o acordo do Presidente em relação a todas as normas de um diploma sublinhou”

No Público de hoje

É bom ler estas coisas. Nós sabemos bem quando Cavaco promulga mas não concorda, não é? Quem não se lembra das mensagens indignadas quando um diploma tinha percorrido todos os trâmites normais da democracia? Mas ele, ele o Aníbal, a pessoa, não o Presidente, não concordava, e irritava-se às 20h da noite com a democracia e com a transparência. E ralhava com a Assembleia, que é como quem diz com o povo.
Já quando o PM decide acabar com as reformas antecipadas dos privados e de milhares de funcionários públicos, não anunciando a aprovação do diploma na página do Governo, porque as pessoas são como a moeda e podia haver um risco tarado de corrida a direitos, Cavaco promulga.
Não usa do veto político, não faz uma mensagem que seja, promulga e diz que os constitucionalistas explicam – atenção! – que promulgar não é sempre concordar.
Que vergonha, que falta de vergonha na cara de presidente.

Falar verdade aos portugueses também cansa

Questionado se já decidiu se irá receber os subsídios de férias e de Natal da pensão que recebe do Banco de Portugal, Cavaco Silva recusou pronunciar-se novamente sobre a questão.

“Já me pronunciei uma vez sobre a situação, nunca mais. Nunca mais voltarei a pronunciar-me por uma simples razão: aquilo que os senhores têm escrito sobre o assunto não corresponde minimamente à verdade e já desisti de fornecer qualquer outro esclarecimento”, disse Cavaco Silva, que falava aos jornalistas no final da inauguração da nova sede da Microsoft em Portugal.

Fonte

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Longe vão os tempos em que quem queria conhecer a verdade, repito a verdade, insisto a verdade, sobre o que diz e faz o Presidente da República só tinha de ir à página da Internet da Presidência da República, porque lá estava a verdade. Agora, nicles batatóides, nem sequer na imensidão da Internet se encontra a verdade acerca do que diz, não diz, faz e deixa fazer o nosso grande exemplo político, moral, cívico e ético que mora ali para os lados de Belém. É que isto de andar sempre a escrever a verdade nessas páginas digitais cansa, aborrece, mói. Especialmente quando os jornalistas insistem em publicar mentiras. É simples isto: se publicam mentiras, não vale a pena estar a fornecer qualquer outro esclarecimento. Se publicassem verdades, mas daquele tipo que aparece na página da Internet da Presidência da República, então sim, valia a pena prestar esclarecimentos, quiçá acrescentar outras verdades, ainda mais verdades e, portanto, ainda mais esclarecimentos. Porque é isso que as pessoas em geral, e os jornalistas em especial, não entendem nem querem entender: a verdade precisa sempre de ser esclarecida, só as mentiras é que são evidentes.

Vinte Linhas 692

Visita guiada a uma antiga memória de Romeu Correia

No passado dia 19 de Novembro, a meio de uma manhã ameaçadora, integrado num grupo da Associação ALDRABA, iniciei uma visita guiada por um quarteto de luxo: Henrique Mota, Luís Bayó Veiga, Alberto Ramos e Luís Barros. Os segundos, não sendo da Associação O Pharol, associaram-se ao encontro e ao percurso. O grande largo de Cacilhas, cujo nome mudou ao longo dos tempos, foi o ponto de partida para a viagem a pé pelos restaurantes do Ginjal hoje desactivados e seguindo o percurso pelos estaleiros navais e fábricas diversas em ruínas.

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Aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo tem consequências. Se o legislador se lembrar que aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, claro.

Como é sabido, O Pedro Delgado Alves, e eu própria, apresentámos um projeto de lei, chumbado, sobre a PMA. O referido pretendia atualizar a lei da PMA, de 2006, no sentido de lhe retirar qualquer restrição baseada no sexismo ou na homofobia. O projeto foi assinado por vários Deputados do PS e não chegou a descer à especialidade. Teve, no entanto, um número apreciável de votos, o que nos dá esperança num futuro em que mulheres solteiras, independentemente da sua orientação sexual, casadas com quem quer que seja, com ou sem um problema de infertilidade, possam recorrer às técnicas de PMA.
Também espero que se legisle no bom sentido em matéria de maternidade de substituição, que os malucos pela obediência às “leis da natureza” chamam de “barrigas de aluguer” para distrair o cidadão.
O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida pronunciou-se (a pedido da AR) entretanto sobre os 2 projetos ainda em discussão – o do PS e o do PSD – e aconteceu exatamente o que eu disse que aconteceria. Não por ser especialmente dotada, mas por fazer parte daquele grupo de pessoas que interiorizou que no dia 8 de Janeiro de 2010 foi aprovado o CPMS.
E que quer isso dizer?
Se o PS altera uma lei de 2006, cujo artigo 6º refere pessoas casadas, mas sem alterar esse preceito, uma vez que revê uma lei após ter entrado no ordenamento jurídico um referente de casamento que não olha ao sexo dos cônjuges, naturalmente, mesmo que não tenha sido essa a intenção do PS, a interpretação objetiva da norma é só uma: os casais de pessoas do mesmo sexo podem aceder à PMA.
Por isso esta passagem do parecer: “Porém, como desde 2006, data da aprovação da lei da PMA em vigor, mudou, com a admissibilidade legal de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, o círculo de pessoas que podem aceder ao casamento, manter inalterada a atual redação (“… as pessoas casadas… podem recorrer a técnicas de PMA”) significaria que todas as pessoas casadas, logo, não importando se do mesmo sexo ou de sexo diferente, poderiam aceder às técnicas de PMA. Essa interpretação objetiva da norma do nº 1 do art. 6.º seria ainda mais razoável a partir do momento em que o legislador, tendo tido oportunidade de retificar a redação atual, deliberadamente tivesse optado por não o fazer. Ou seja, a manutenção intencional da redação atual só poderia razoavelmente querer significar ser intenção do legislador que também os casais de pessoas do mesmo sexo pudessem aceder às técnicas de PMA”.
Já o PSD esclareceu bem no texto: sexo diferente, sempre.
Depois pergunta-se: qual a justificação para excluir da PMA, sem mais, quem não integre casal ou união entre pessoas de sexo diferente (aqui manteve-se a exclusão em ambos os projetos), mesmo nas situações em que os interessados o pretendam fazer com recursos próprios e em meio privado? Por quê só e apenas em caso de infertilidade? (Bom é certo que se pode ter um filho de um morto, o viúvo, o que é mais um argumento para discriminação patente nestes projetos)

Nada como citar o parecer:
“Ou seja, reservar meios escassos fornecidos ou subsidiados pelo Estado às situações mais prementes pode considerar-se admissível, importando aí, no entanto, discutir os critérios de seleção. Diferente é quando o Estado proíbe e sanciona mesmo quando o acesso é alcançável através de meios próprios e em estabelecimentos privados. Aí, se o Estado proíbe, sanciona, eventualmente criminaliza, é porque considera a situação errada, danosa, eticamente inadmissível, mas, no mínimo, deve dizer porquê e as razões invocadas devem ser sustentáveis e ponderosas.
Não o fazendo, isto é, se a proibição puder ser percecionada como gratuita, arbitrária ou, no mínimo, não fundamentada, o Estado incorre numa desconsideração eticamente censurável da autonomia das pessoas, tanto mais condenável quando da exclusão resultar um efeito discriminatório.
Sucede que o projeto do PS não apresenta qualquer justificação e o do PSD faz uma tentativa que não pode ser considerada suficiente.
Alega-se aí, em primeiro lugar, que a configuração legal da PMA nestes termos seria uma imposição constitucional, na medida em que a Constituição incumbe o Estado de regular a procriação assistida para proteção da família, donde decorreria a necessidade de a PMA ser admissível apenas para tratar uma situação de doença e quando tenha por destinatários membros de um casal heterossexual estavelmente constituído.
Mas, sendo certo que a Constituição dá ao Estado a incumbência de proteger a família e regular a PMA, já não se vê, em primeiro lugar, em quê essa incumbência determina ou impõe que o Estado esteja obrigado a proteger apenas um tipo particular de família e, sobretudo, mesmo que se considerasse essa discriminação admissível, porque tal imporia, já não apenas a desproteção estatal, mas também a simultânea proibição e sanção do acesso à PMA a famílias ou situações pessoais de outro tipo quando é certo que o Estado as admite e legitima através da própria lei. Por outro lado, não há sequer qualquer relação de necessidade lógica entre a incumbência constitucional de regular a PMA para proteger a família e a limitação do acesso às técnicas de PMA a situações de doença que tenham como beneficiários exclusivos casais ou uniões heterossexuais e, muito menos, a proibição e sanção do acesso a pessoas fora desse quadro.
Assim, não sendo sustentável o argumento da existência de uma imposição jurídica derivada da Constituição, resta a única justificação com relevância ética que vem invocada para as referidas exclusões e proibições, ou seja, a alegação de que o acesso às técnicas de PMA nessas outras circunstâncias constituiria uma instrumentalização da vida humana, parecendo, com a alegação, pretender-se significar que o novo ser estaria nesses outros casos, e só neles, a ser instrumentalizado no interesse das pessoas que recorriam à PMA.
Porém, o argumento é inconsistente, na medida em que, do ponto de vista da motivação, da intencionalidade e do interesse de quem recorre às técnicas de PMA — e é esse o plano que conta para o diagnóstico de existência de instrumentalização— não há qualquer diferença entre estar num casal ou fora dele, viver acompanhado ou só, ter uma família ou pretender constituir uma família, ter uma ou ter outra orientação sexual.
A motivação, a intenção e o interesse de quem recorre às técnicas de PMA para gerar um novo ser é sempre uma motivação de benefício, de realização ou de satisfação pessoais e que se traduz na intenção de procriar, de gerar descendência, de assumir maternidade ou paternidade, de constituir família, porque se pensa que isso será bom para o próprio e, sendo o caso, para o projeto parental que se comunga com alguém, acompanhado da convicção —a não ser que se estivesse no domínio de patologia que pode ocorrer em qualquer situação — de que o projeto parental será igualmente bom para o novo ser.
Logo, pode haver outras razões que determinem diferenças de tratamento consoante as diferentes situações em que se inserem as pessoas que recorrem às técnicas de PMA, mas a alegação de instrumentalização é inaplicável ou, em alternativa, igualmente aplicável, sem diferenciações, a quaisquer delas, sejam os interessados casados, em união, em vida singular, heterossexuais ou homossexuais.
Admite-se, sem reservas, que estamos perante questões perante questões complexas, naturalmente controversas, em que estão em causa, não apenas as motivações dos interessados, mas também eventuais danos provocados em terceiros, o interesse do novo ser que se pretende trazer à vida, o interesse da sociedade e os seus valores simbólicos ou, ainda, princípios éticos relevantes. Pode também admitir-se que em domínios como este não haja uma única solução ditada por um imperativo ético que não admita alternativas e que, diferentemente, sejam admissíveis diversas soluções legislativas não eticamente censuráveis, o que, de resto, é empiricamente confirmado pelo facto da existência de soluções muito diversas nos ordenamentos jurídicos que nos são mais próximos.
No entanto, quando o Estado não apenas seleciona de forma discriminatória o acesso aos serviços que presta, como proíbe e sanciona pessoas por recorrerem às técnicas de PMA, mesmo recorrendo a recursos próprios e meios privados, deve, dada a importância e gravidade da afetação das opções e da autonomia das pessoas abrangidas pela exclusão e pela proibição, apresentar uma justificação ponderosa para o fazer. No caso, esta condição não parece, até ao momento, satisfeita.

Os projetos vão ser alterados. Infelizmente, não no sentido do Parecer. Vale a pena ler o Parecer todo, que trata das questões que não abordei aqui. Mas é interessante e algo trágico verificar como o legislador, querendo que casal queira significar casal de sexo diferente, não tenha interiorizado uma mudança histórica promovida pelo próprio.

Este Estado Novo em construção: “rápido! façam tudo às escondidas se não enquanto a lei estiver em vigor pode ser que os cidadãos façam uso dos seus direitos! E à maluca!”

“O primeiro ministro Pedro Passos Coelho afirmou ontem em Maputo que o processo de suspensão das reformas antecipadas foi conduzido com secretísmo para evitar uma corrida anormal a este expediente o que retiraria eficácia à medida que o executivo aprovou no final de Março e foi publicada em Diário da República no final da semana passada.
Se o Governo tivesse comunicado com grande antecedência que ia proceder nesse sentido o objectivo que pretendia seria furado pelo recurso ainda mais intenso a pelo recurso ainda mais intenso a esse mecanismo, disse o PM”. Acrescentou – sensível – que é como desvalorizar moeda.

No Público de hoje

Não sou eu o responsável

Volta não volta, ouvimos Passos Coelho responder, na Assembleia, a quem o acusa de excesso de austeridade, do alvo errado da mesma e das suas consequências devastadoras para a economia portuguesa, que não foi ele, nem o seu governo, que conduziram o País ao descalabro. Que eles, pobres coitados, se limitam a solucionar o buraco herdado e hélas, sem nada poderem fazer de diferente, são obrigados a proceder desse modo, deixando no ar a ideia de que o não fariam se pudessem. Nada mais falso, nada mais simplista, mas também nada mais engana-tolos. O buraco herdado foi-lhes deixado pelo amigo Alberto João, que protegeram até à reeleição e continuam a aplaudir nos congressos, pelos amigos do BPN e pela subida dos juros da dívida. (Qualquer país será frágil se lhe pedirem juros de mais de 6%)
Como não lamentar que não haja oposição da direção socialista perante afirmações deste tipo?

Não foram os responsáveis? A par da arquitetura do euro e da inação da UE, claro que foram. Pelo que andaram a fazer ao longo de 2010 perante a austeridade doseada e atenta à economia proposta pelo executivo minoritário de Sócrates, pelo comportamento miserável na Assembleia e pelo que fizeram em Março e Abril de 2011 ao rejeitarem o apoio dado pela UE ao quarto programa de estabilidade, foram mais do que responsáveis. Foram totalmente responsáveis pelo pedido de intervenção externa e, aliás, desejaram-no. Foram acima de tudo os responsáveis pela irresponsabilidade total.

Atuam contrariados ao baixar os salários e diminuir os direitos dos trabalhadores? Claro que não. É a ideia de competitividade que tinham para o país! Aliás, põem-na em prática com a máxima convicção e frieza.

Por isso, basta de conversa da treta e já é tempo de alguém lhes atirar com estas verdades à cara.

Nota: No DN de hoje, Viriato Soromenho Marques critica a entrevista dada por Vital Moreira, e que eu já aqui critiquei, considerando que a declarada falta de paixão de Vital é eufemismo para falta de princípios, certo, mas concluindo, surpreendentemente, que A.J.Seguro sofre, coitado, devido ao campo minado pelos “socratistas”, de que Vital será um representante. Extraordinário. E qual o fundamento para esta estranha interpretação das palavras de Vital? O facto de ele, na entrevista, se declarar amigo de Sócrates.
Não contacto com Sócrates no Além. Sei apenas que foi ele que convidou Vital para o PE (só por si motivo para eterno agradecimento), mas tenho as mais fundamentadas dúvidas de que as opiniões de VM sobre a Europa e o bom caminho seguido por Portugal coincidam com as de Sócrates. Admira-me mesmo que V.S – Marques não se tenha lembrado um minuto que fosse de Zita Seabra.

Seguro, o cidadão exemplar e o político honesto

«Nós dizemos é que é mais fácil hoje, e o país já sabe isso, o diálogo e entendimentos com o PS liderado por António Costa, com o PS liderado por Francisco Assis ou com o PS liderado por António José Seguro, por uma razão muito simples, porque são pessoas que ao longo da sua história cumpriram sempre a palavra e têm uma forma e uma seriedade de estar na vida política», acrescentou.

Antes, no início da sua intervenção, o secretário-geral do PSD referiu-se a António José Seguro como «um dos políticos mais brilhantes» da sua geração.

Relvas e Seguro lado a lado, 14 de Abril de 2011

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Na cara de Seguro, em período pré-eleitoral, Relvas disse que Sócrates não cumpria com a sua palavra e, portanto, não pertencia ao grupo das pessoas sérias – isto é, não merecia respeito, não era de confiança, não era honrado. Que fez Seguro ao ouvir isto da boca suja do seu amigo? Só visto, contado não se acredita, porque nada há para contar.

Não satisfeito, dias depois Relvas levou até ao limite da quase agressão física – ou a pedir esse tipo de reacção do visado – o seu ódio, e saiu-se com esta ofensa:

“Eu quero chegar a casa, depois de ganhar as eleições, todos os dias e quero que a minha filha tenha orgulho daquilo que está a ser feito”, disse o porta-voz do PSD, acrescentando: “Eu no lugar do engenheiro Sócrates tinha vergonha, eu se fosse parente do engenheiro Sócrates escondia que era parente dele”.

Alguém sabe qual foi o comentário que Seguro fez à sugestão do boca suja para que os parentes de Sócrates, especialmente os filhos, escondessem a sua relação sanguínea? Se souberem, por favor apresentem-se à porta deste blogue para receberem o vosso peso em acções da SLN.

Saltemos para o que Seguro fez e disse a respeito de umas bocas do Marcelo. Primeiro, exigiu ser tratado como um comentador que se picou com outro comentador, sujeitando-se voluntariamente a ir ao seu local de exibição para ripostar. Segundo, envolveu o Secretariado Nacional e o chefe da bancada na resposta, tornando-a numa questão partidária ao mais alto nível. Terceiro, foi para a TVI armar uma peixeirada em registo anal, reclamando ser impoluto e intocável. Tendo dado todo o flanco ao seu novíssimo rival, foi imediatamente colhido e mandado pelos ares. Marcelo começou por o humilhar, mandando-o esperar pelo próximo show. Chegada a hora, redobrou a dose do achincalhamento, deixando Seguro e o seu PS calados, num estupor bovino.

Dir-se-ia que a qualidade estratégica de quem aconselha o actual Secretário-Geral socialista é vil e que a inteligência do próprio é miserável, tanta a burrice junta. Tudo se resume ao facto de Marcelo ter apresentado pontos inquestionáveis à mistura com erros de informação. A gula oportunista de usar essas falhas para tentar escapar das farpas que acertaram no alvo revelou-se um erro que nem os principiantes fazem no seu estado normal. Precisariam de ser muito estúpidos ou estarem sob a influência de algumas litradas de álcool para não perceberem no que se estariam a meter. O resultado é esta imagem de um líder que ambiciona chegar a primeiro-ministro a levar ralhetes e tautau de um profissional da política-espectáculo famoso desde os anos 70 por avacalhar a cena política por proveito e compulsão.

Um livro por semana 283

«Adeus até ao meu regresso» de Mário Beja Santos

Depois de dedicar à Guiné três livros (Na terra dos Soncó, O tigre vadio e Mulher grande) Mário Beja Santos assina este volume de 408 páginas nas quais estuda, interpreta e situa vários livros sobre a Guiné em diversos géneros: romances, contos, memórias, ensaios, poesia, reportagem, história e diários. Entre outros, são aqui recenseados livros de: João de Melo, Armor Pires Mota, Álvaro Guerra, José Martins Garcia, Joana Ruas, Salgueiro Maia, Álamo Oliveira, Vasco Lourenço e Amândio César.

Continuar a lerUm livro por semana 283

Deus viu que a luz era boa

Exportações aumentam 10,2% e défice comercial diminui

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Junta-se a antropologia com a cultura e a História e dá nisto: Portugal é um país de esmagadora cobardia cívica. Daí o clima social dissoluto que promove a exploração dos populismos inorgânicos que medram sem antídoto. Tanto a esquerda como a direita fazem um uso intensivo do medroso povo que têm à mão.

Sócrates costumava lamentar-se, num registo de pacificada e afável resignação, por nem o PCP nem o BE serem capazes de reconhecer qualquer resultado benéfico por acção do Governo PS. Nada prestava, tudo se pintava como obra maligna ao serviço dos inimigos da esquerda pura e verdadeira, cuspiam os imbecis. Essa fúria era, e continua e continuará a ser, necessária para manter os adeptos num estado de irracional negação. É a arcana estratégia do maniqueísmo, fonte de tantas tragédias ao longo dos séculos. A partir do momento que PCP e BE decidissem ser parceiros de uma solução governativa não tendo maioria, teriam de começar a pensar. Porque teriam de negociar. De nada querendo abdicar, com medo que uma ínfima racha no sectarismo faça desabar a alucinação, têm cavado trincheiras cada vez mais fundas, ao ponto de já nem sequer conseguirem ver os tais pobres e trabalhadores que juram defender através dos Governos de direita que viabilizam sempre que tal sirva para derrubar o PS.

O ataque da direita a Sócrates e ao PS foi, igualmente, um ataque à outrance a Portugal. De 2008 a 2011, em crescendo e em relação directa com as frustrações da impotência própria e com os pânicos do descalabro da banca laranja e das crises internacionais, a gente séria deixou milhares e milhares de registos de voz e de escrita onde era patente a sua raiva perante qualquer notícia positiva para Portugal e para os portugueses. Se era positiva tinha de ser mentira, berravam ululantes, mesmo que viesse do estrangeiro. Cavaco Silva, essa espécie de Presidente da República, chegou ao desplante de se ter recusado a saudar o sucesso do Governo PS numa ida aos mercados de financiamento, a qual tinha corrido muito bem, porque alegou não saber quem tinha comprado a dívida nacional. Se tivesse sido o BCE ou chineses, ou coisas assim infectadas pelo socratismo, não prestava e não passava de mais um prego no nosso caixão, foi a mensagem que quis e conseguiu transmitir. Cavaco Silva é também o nome daquele invertebrado que emite louvores solenes sempre que uns galfarros fazem um brilharete qualquer em calções atrás de uma bola mas que foi incapaz de dizer fosse o que fosse a propósito dos resultados do PISA respeitantes ao período 2006-2009.

Pois a puta da verdade, neste caso, é só uma e é esta: se com este Governo as exportações aumentarem, isso é bom para todos; se com este Governo os juros da dívida baixarem, isso é bom para todos; se com este Governo os salários aumentarem, isso é bom para todos; se com este Governo o desemprego baixar, isso é bom para todos. O antídoto contra o populismo, o antídoto contra a impotência, o antídoto contra a cobardia começa na lucidez – a qual é boa para todos.

Consulta de mapa

Factos: mesmo atirando com o país ao charco, como vão fazer com o entusiasmo dos cegos com um par de rollerblades, este governo é estável e dura até 2015. Não vai haver demissão, nem com o segundo, nem com o terceiro pacote de ajuda, porque quem atira com os cidadãos aos lobos simplesmente para conquistar o poder não vai concerteza abdicar dele só porque estamos a ser devorados. É para o lado que dormem melhor. E é sempre possível contar mais mentiras desde que se ponha uma cara séria e se tenha as pessoas certas nos lugares certos nos media. E eles põem, e têm.  Não vai haver dissolução, porque a criatura que empesta o Palácio de Belém é a exacta definição de uma múmia: por dentro dos dourados e pompa da instituição resta agora apenas um cadáver. Golpe de estado só no twitter. Não é de certeza por aí.

Por isso, tendo em conta estes factos, algumas realidades políticas igualmente duras: não adianta a ninguém estar neste momento a gastar muitos cartuchos, porque é demasiado cedo. Parece uma eternidade para quem vê o presente negro e o futuro inexistente, mas politicamente ainda agora começou. Seguro sabe isso, por isso se entretém a tentar blindar o seu poder interno em vez de fazer oposição, as centrais sindicais sabem isso, daí as manifestações generalistas e apagadas apenas para manutenção e testes da máquina, o António Costa e restantes pretendentes sabem isso também, por isso não fazem para já nenhuma jogada visível. O António José que atravesse o deserto. A oposição mais vocal está entregue a Louçã, não só porque é o que Louçã faz, mas também porque limpar a imagem do BE vai levar bastante tempo e quanto mais cedo se começar melhor. Resumindo, só lá para meados de 2013 é que se vai ver alguma agitação, algum brandir de armas, algumas vozes mais fortes, em preparação de 2014, o ano decisivo da contestação. O jogo político é, neste momento, longo.

Entretanto, estamos entregues a nós mesmos.

No hablas inglés?

Men Start Businesses for the Money: Women for the Social Value
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Empathy Doesn’t Extend Across the Political Aisle
.
China’s Rapid Economic Growth Means Population Is ‘Wealthier but Unhappier’
.
Golfers Can Improve Their Putt With a Different Look: Visualize a Great Big Hole
.
Internet Use Promotes Democracy Best in Countries That Are Already Partially Free
.
Higher-Spending Hospitals Have Fewer Deaths for Emergency Patients (Vanderbilt Study Provides Warning Against Spending Cuts for Certain Patient Populations)
.
How Do I Love Me? Let Me Count the Ways, and Also Ace That Interview
.
Market Researchers See New Generational Cohort Emerging
.
Using Less Effort to Think, Opinions Lean More Conservative: Is Our First Response ‘Right’?