Vinte Linhas 759

Aviso – ainda a tempo – aos meus leitores e amigos

Quando foi publicado o «Vinte Linhas 500» surgiu um comentário no «Aspirina B» escrito por um pobre diabo nestes termos: «Pronto, já chegaste ao quinhentos, já te podes pôr na alheta». A facilidade com que qualquer trambolho, só porque tem acesso à Internet, se arroga o direito de ter opinião e, mais do que isso, o poder de decisão, é assustadora. Mas eu não me assustei e continuei a escrever porque tenho um passado, tenho um presente e julgo que tenho um futuro. Mas mesmo que não tivesse nem passado nem presente nem futuro, nunca seria um desconhecido a decidir a minha vida ou a fazer a minha agenda. A prova que consegui ultrapassar o caso é que já vou a assinar o «Vinte Linhas 759», o mesmo é dizer 259 textos mais tarde do tal 500. Ora 259 já é mais de metade do número que o tal trambolho julgava capaz de ser o ponto final. Mas até aqui tudo foi fácil: eu desmenti o pobre diabo assinando sempre mais textos. O trabalho foi a resposta.

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Ter razão

Passou um ano sobre o pedido de resgate. Aos poucos, vão-se conhecendo dados sobre o que se passou na altura crucial da apresentação do PEC 4. Sabe-se que, face à especulação com os juros da dívida, José Sócrates andou laboriosamente a negociar com as entidades europeias uma garantia de apoio que nos dispensaria da intervenção externa. Sabe-se também que o tinha conseguido e que tal garantia ficara dada por escrito. Sabe-se que o partido de Relvas e Passos lhe deram o aval quando conheceram o programa e que, ao contrário do que afirmaram, conheceram-no, e detalhadamente, numa reunião com Sócrates. Sabe-se da imediata pressão de Marco António Costa para que Passos recuasse e o chumbasse, derrubando o Governo, sob pena de haver eleições no partido para mudar a liderança, já que a febre da ida ao pote ia alta. Sabe-se do papel do presidente da República totalmente contrário ao interesse nacional, como cada vez mais se comprova. Sabe-se também que o então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, em contacto com banqueiros e jornalistas, torpedeou Sócrates quanto ao pedido de empréstimo, eventualmente destruindo todo o esforço anterior de conquista de uma melhor solução junto da UE. Sabe-se ainda do contributo dado pelos partidos da extrema esquerda, PCP e BE, ao chumbarem o PEC 4, para a chegada ao poder da direita neoliberal e, a par disso, impreparada.
Sabe-se, em suma, que o homem que já tudo fizera para reduzir o défice até 2008, tendo-o conseguido, estava a tentar solucionar da maneira menos dolorosa possível, tendo em conta a nossa integração irreversível na zona euro, a redução da dívida, que entretanto aumentara, não por ser, ele próprio, um irresponsável esbanjador dos recursos públicos e do dinheiro dos contribuintes, mas por forçosamente e, sublinhe-se, com o aval das instâncias europeias, haver necessidade de estimular a economia e de responder ao encerramento de empresas e ao consequente desemprego, na sequência da maior crise económica internacional dos últmos 80 anos. Sabemos também que o grande “pecado” de Sócrates foi ter uma visão de desenvolvimento para o país não assente na mão de obra barata, como na China, que não nos leva a lado nenhum recomendável, mas na educação e qualificação das pessoas, na ciência, na tecnologia e na inovação, que, a prazo, nos daria sustentabilidade às finanças públicas e nos permitiria pagar as dívidas, assim a União Europeia estabelecesse mecanismos que pusessem fim à especulação (o que devia ter feito e não fez). Os verdadeiros irresponsáveis assim não o entenderam. Sócrates, sabe-se agora claramente, continuava, em 2010 e 2011, a lutar, mesmo em minoria na Assembleia, para salvar o país do desastre. Tinha razão. Não se trata aqui de chorar sobre leite derramado. Trata-se de condenar os oportunismos e a inconsciência que, em nada beliscando certas castas, conduzem as populações à pobreza.

O desastre vivemo-lo agora. Depois de uma campanha eleitoral em que o primeiro-ministro foi acusado de arrastar o país para o abismo (agora é de pasmar) e em que choveram mentiras em catadupa, soluções milagrosas e promessas irrealizáveis por parte dos partidos da atual coligação, eis-nos em plena situação de intervencionados, realizando o desejo de tantos. Tudo se deteriorou e a deterioração, já de si previsível, embora saudada, ainda consegue ser pior do que a prevista. O governo de todas as mentiras, que foge para a frente com a teoria, e a prática, do “quanto mais depressa melhor” para podermos voltar aos mercados, prova ser burro e ignorante todos os dias ao partilhar da austeridade concentrada no tempo, intensificando-a ainda mais contra toda a lógica económica, contra o patriotismo e a sensibilidade social e, sobretudo, contra os resultados. Como seria de esperar, uns problemas arrastam outros, o desemprego dispara e a segurança social encontra-se à beira do colapso. Os melhores vão-se embora. O Governo anda desorientado e já não consegue esconder nem disfarçar as sucessivas mentiras, contradições e erros. O regresso aos mercados, que ainda ontem estava marcado para 23 de Setembro de 2013, afinal já nem ano fixo tem, quanto mais mês e dia. Mas, com maioria, dá-se até ao luxo de assumir as trapalhadas quase com orgulho, gozando, e com legitimidade, com as pessoas que neles votaram, numa autêntica pândega, com que muitos jornalistas alinham. A maioria na Assembleia, o apoio do PR e a pouca agressividade da oposição mantê-los-ão, porém, em funções, provavelmente até ao fim da legislatura. O Aníbal de um lado e o Tó Zé e o PCP do outro são um conforto. Este é o verdadeiro desastre.

O tratado que nos trata do regime. Sem discussão.

Foi agendado à velocidade da luz para os próximos dias o tratado que dá o tiro mais profundo que o nosso regime político conheceu.
É isso que está em causa: uma questão de regime, e não apenas a ofensa de dois ou três preceitos constitucionais.
O denominado TRATADO SOBRE ESTABILIDADE, COORDENAÇÃO E GOVERNAÇÃO NA UNIÃO ECONÓMICA E MONETÁRIA contém estes preceitos que merecem maior atenção:

a) O artigo 3º, alínea e), prescreve o seguinte: se for constatado um desvio significativo do objectivo de médio prazo ou da respectiva trajectória de ajustamento, é automaticamente accionado um mecanismo de correcção. Esse mecanismo compreende a obrigação de a Parte Contratante em causa aplicar medidas para corrigir o desvio dentro de um determinado prazo.
b) O nº 2 do mesmo preceito prescreve o seguinte: as regras previstas no n.º 1 produzem efeitos no direito nacional das Partes Contratantes o mais tardar um ano após a entrada em vigor do presente Tratado, através de disposições vinculativas e de carácter permanente, de preferência a nível constitucional, ou cujos respeito e cumprimento possam ser de outro modo plenamente assegurados ao longo dos processos orçamentais nacionais. As Partes Contratantes instituem, a nível nacional, o mecanismo de correcção referido no n.º 1, alínea e), com base em princípios comuns a propor pela Comissão Europeia quanto, designadamente, ao carácter, dimensão e escalonamento no tempo das medidas correctivas a adoptar, mesmo no caso de circunstâncias excepcionais, e ao papel e independência das instituições responsáveis, a nível nacional, por controlar o cumprimento das regras que constam do n. 1. Esse mecanismo de correcção respeita integralmente as prerrogativas dos parlamentos nacionais.

c) Por sua vez, podemos ler no artigo 5º o seguinte: caso seja sujeita a um procedimento relativo aos défices excessivos ao abrigo dos Tratados em que se funda a União Europeia, uma Parte Contratante institui um programa de parceria orçamental e económica que especifique as reformas estruturais que tem de adoptar e aplicar para assegurar uma correcção efectiva e sustentável do seu défice excessivo. O teor e o formato desses programas são definidos no direito da União Europeia. A apresentação desses programas à homologação pelo Conselho da União Europeia e pela Comissão Europeia, assim como o seu acompanhamento, terão lugar no âmbito dos procedimentos de supervisão em vigor ao abrigo do Pacto de Estabilidade e Crescimento.

É fácil de concluir que estamos perante a morte da Constituição, do seu próprio significado, e assim do que caracteriza o regime democrático português. Preto no branco, prevê-se a possibilidade de um erro custar a transferência da sua correcção, em todas as áreas de governação, para burocratas não eleitos.
Isto resulta, como bem referia um constitucionalista amigo há dias, de um movimento contra as leis fundamentais crente que a nova globalização torna esses textos soberanos obsoletos.
A discussão é, pois, muito mais profunda do que a da inclusão de um limite ao défice na Constituição. Mas mesmo no que toca a esse ponto, a simples ideia de um tratado infraconstitucional impor limites de défices estruturais num texto constitucional ou equivalente é absurda, pois a função da lei fundamental não é prescrever a certeza nesse tipo de matérias, mas indicar as leis que democraticamente devem espelhar escolhas que eventualmente se traduzirão em défice y ou x, sem contar com variáveis imprevisíveis. Em Portugal essa lei, reforçada, é a LEO, obrigatoriamente respeitada pelo OE, e votada por maioria, precisamente porque factores imponderáveis não podem ficar cativos por uma maioria absurda ou de 2/3.
Ainda não percebi, ou começo a perceber, como é que foi agendado um Tratado que põe em causa princípios como estes: 1) o princípio da soberania nacional (artigo 1º) ; 2) o princípio da soberania popular (artigo 2º da CRP); 3) o princípio da soberania popular – a soberania reside no povo que a exerce de acordo com as formas previstas pela CRP, e não recebendo planos de governação de tecnocratas não eleitos; 4) O p. democrático (artigo 2); 5) fraude ao sufrágio universal como regra de eleição dos órgãos decisores; 5) violação do sistema financeira e fiscal (artigos 101º e ss); violação da soberania orçamental (artigos 106º e e 165 da CRP).
Portugal quer ser o bom aluno, o campeão, o primeiro a ratificar o Tratado. Quantos o fizeram? Vão fazer? A Alemanha anda maluca para ratificar uma facada na sua soberania?
E alguém se lembrou que Portugal é dos poucos países, se não o único, em que o tratado não tem de ser transformado em lei? Sim, aprovamos na AR, o PR ratifica, e está automaticamente recebido. Os outros não. Podem prolongar o processo na transformação em lei e tentar mudar alguma coisa. E o tempo passa.
Bons alunos num quarto escuro.
Coisa triste é sermos nós o quarto escuro.

Vinte Linhas 758

A procissão em Santa Catarina de Lisboa ou a memória desencadeada

Acabou há minutos a procissão de Santa Catarina (de Lisboa) que me trouxe à memória as procissões da outra Santa Catarina (das Caldas da Rainha) onde nasci em 1951 e vivi até aos 6 anos e onde mais tarde regressei para fazer os exames da terceira, quarta e admissão entre Abril e Agosto de 1961. São 23h 11m do dia 6-4-2012 e para além do desfile dos pendões e bandeiras, das imagens de Cristo Morto e Sua Mãe transportadas em ombros nos respectivos andores, para além do pálio com o maravilhoso perfume do incenso, o que mais me emocionou foi o som da Filarmónica – neste caso a Sociedade Filarmónica da Ribaldeira (Torres Vedras). Um som alto, puro e grave, capaz de me trazer de novo ao meu tempo de menino quando havia na minha família mais chegada cinco músicos filarmónicos.

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União Nacional, mais de 80 anos ao serviço do mesmo e dos mesmos

Depois de se terem unido em 2009 para deixarem Portugal com um Governo minoritário. Depois de se terem unido em 2010 para aumentarem a despesa e diminuírem a capacidade de resistirmos à crise. Depois de se terem unido em 2011 para derrubarem o Governo e entregarem a soberania financeira a estrangeiros. Depois de se terem unido em 2012 para atacarem o Estado de direito. Que estão PSD, PCP, CDS e BE já a preparar para voltarem a fazer juntos em 2013?

Críticas à entrevista de Vital Moreira

Vale a pena ler as declarações deste professor de Direito e, desde 2009, eurodeputado, em entrevista ao jornal i. VM tem-se mostrado ultimamente favorável ao Pacto Orçamental e agora, pelo que se percebe, à política e à estratégia deste governo, inclusivamente no que toca à ânsia de se mostrar bom aluno. Convém, no entanto, ter em conta que, no Parlamento Europeu, além de se adquirir forçosamente uma perspetiva da política europeia e, consequentemente, da nacional, diferente da que se tem a partir da “West coast“, o que é enriquecedor e, para qualquer efeito que se pretenda, positivo, também se viaja muito, e muito longe, pelo que alguns detalhes importantes da cena nacional podem escapar. Também se ganha bem, ou seja, não se passa pelos agrumes de quem perde salários, reformas, poder de compra, trabalho e família. Mas as opiniões substanciadas de Vital Moreira, veiculadas durante alguns anos no jornal Público, sempre me mereceram grande respeito, embora nem sempre a concordância.
Posto isto, onde vejo motivos para crítica no que ele diz?
(Está difícil meter o link. Entrevista em http://www.ionline.pt/portugal/vital-moreira-coisas-nao-estao-sair-mal-ao-governo)

Desde já, aqui: “As eleições europeias continuam a ser muito domésticas e alguns dos temas que eu incluí na agenda, como, por exemplo, o da taxa sobre transacções financeiras – que agora está na agenda –, nessa altura foi entendido como um tema assaz polémico e contencioso.”

A taxa, portanto. Considero isto uma má leitura do que se passou (o PS não ganhou). Embora na comunicação escrita Vital Moreira seja quase inigualável em termos de clareza, fundamentação e raciocínio, na comunicação oral e nos dotes oratórios, indispensáveis em campanha eleitoral, a sua mensagem fica altamente prejudicada. Houve até, na altura, quem criticasse Sócrates pela escolha de Vital para cabeça de lista. E a verdade é que Sócrates, apesar da derrota nas europeias, ganhou depois as legislativas. O problema não estava, portanto, na taxa. Estava nos problemas domésticos, claro, na crise económica que já se fazia sentir em consequência da crise do subprime e algo também nele próprio (VM).

Segundo ponto: “E o governo tem uma estratégia clara: fazer o mal todo de uma vez, de modo a poder inverter a situação a tempo das próximas eleições legislativas.
[…]O PS argumenta que essa concentração na austeridade vai levar a uma recessão profunda. Não existe o risco de entrarmos num ciclo vicioso?
É um risco e um custo. A recessão vai ser maior que o esperado. O governo tinha dois caminhos: um era aquele que defende o PS, que é moderar o ritmo e a intensidade da austeridade, outro – e foi essa a opção – concentrar a austeridade sabendo assim que alguma vez se há-de bater no fundo e que depois, antes das próximas eleições, a situação pode inverter-se. O governo pode ser acusado de muita coisa, inclusivamente de ir além da troika e dessa concentração algo excessiva nas medidas restritivas, mas não pode ser acusado de falta de estratégia. Parece-me clara a estratégia. Essa concentração obedece a essa estratégia clara tirando partido dessa envolvente externa que entretanto se verificou.”

Considero estranha a frieza acrítica destas palavras e também o facto de o reconhecimento do despudorado eleitoralismo subjacente à estratégia governativa não lhe merecer o mínimo reparo, para já não falar de discordância, quanto mais não fosse pela ruína que tal modo calculista e insensível de fazer política representa para a vida de milhares de pessoas e para a economia do país; muito pelo contrário, Vital diz mais adiante compreender o Governo (“É mais uma peça da estratégia para o governo se credibilizar ao máximo para o exterior, mostrar que estamos a levar isto a sério e queremos fazer isto rapidamente e em força“). Também nem uma palavra sobre o rumo austeritário desta Europa dominada pela Alemanha e por partidos totalmente submissos face à alta finança, nem sobre o reconhecimento, pelo próprio FMI, de que tais políticas são contraproducentes e assassinas, para já não falar na degradação óbvia da situação portuguesa e na falha sistemática das previsões. Nem sobre a defeituosa arquitetura do euro e a perpetuação e mesmo o agravamento das desigualdades entre norte e sul.

Terceiro ponto: “É preciso que a Comissão tenha mais autoridade política. O Tratado de Lisboa tem uma saída que é a ideia de que o presidente da Comissão deve sair das eleições Europeias e possa invocar ter sido eleito – embora não directamente – pelos cidadãos. Devemos levar até ao fim essa lógica, ou seja, nas próximas eleições europeias os grandes partidos europeus devem apresentar o seu candidato a presidente da Comissão e quem ganhar deve ser o presidente. É essencial para lhe dar autoridade política. É o único modo de ele se impor.”

A ideia de que a Europa pode ter um “governo” encabeçado pelo presidente da Comissão Europeia é uma das grandes utopias políticas contemporâneas que Vital Moreira deveria reconhecer como tal, sobretudo nestes tempos em que a ameaça de rutura paira constantemente. Não se vislumbra no horizonte qualquer possibilidade de os Estados mais poderosos da UE cederem soberania à Comissão (mais pacto, menos pacto à espera de ser violado) e muito menos de lhe atribuírem um poder superior ao seu. O presidente da Comissão está condenado a permanecer um executor e, em termos políticos, um personagem mais do domínio do contorcionismo, se não das marionetas, e tenho dúvidas de que fosse conveniente ser de outra maneira, apesar de o poderio de Roma e o seu império terem durado vários séculos. A Europa, a ser, será uma união de nações, com predominância e domínio das mais importantes. Ponto.

Surpreende ainda a afirmação, explicável pela distração?, de que “Por outro lado, este governo começa a colher os efeitos positivos das políticas do governo anterior no caso da educação, da formação profissional, da aposta nas energias renováveis…”, quando o que temos visto tem sido a sistemática obsessão do atual Governo por acabar com tudo o que tenha o selo do anterior.

Grandes socráticos da actualidade

O núcleo duro dos Governos de Sócrates foi constituído por Teixeira dos Santos, Pedro Silva Pereira, Augusto Santos Silva, Vieira da Silva e Luís Amado. Num segundo círculo, João Tiago Silveira e Francisco Assis ocuparam cargos de grande notoriedade nos tempos mais difíceis. E, finalmente, temos os restantes ministros e secretários de Estado que se mantiveram leais à governação até ao fim. Que têm feito estas figuras na presente legislatura? Todas, sem excepção, têm dado provas do mais alto sentido de Estado e do mais explícito apoio ao partido. Uns, porque nem sequer intervêm por opção ou desinteresse da imprensa. Outros, porque utilizam a comunicação social para fazer oposição implacável e construtiva. Outros ainda, porque têm sido decisivos para pacificar e unificar um partido sujeito à disfuncional liderança de Seguro. Se estas personalidades representam a essência do socratismo, então o socratismo é um dos pilares mais sólidos e fulcrais do regime.

Mas a decadente direita insiste em rotular de socrático tudo o que dê sinal de vida no PS. Quer isso dizer que o socratismo corresponde à exibição de José Lello a ser José Lello, alguém que se limita a dizer o que quer, como quer e quando quer como sempre fez? Será o socratismo a independência da independente Isabel Moreira, incansável na produção de trabalho parlamentar para o partido e para os cidadãos? Será o socratismo o que preenche a cabeça de Pedro Nuno Santos, alguém que apoiou de alma e coração Seguro?

Terão melhor sorte aqueles que procurarem socráticos no laranjal, porque estão lá os socráticos quase todos, senhores ouvintes. Como o João Marcelino, chefe da guarda pretoriana do passismo. Para além da linha editorial fanática – onde se utiliza uma versão polida do estilo Correio da Manhã no tratamento dos títulos, textos e imagens, mas cuja finalidade é denegrir socialistas que se julguem ligados positivamente a Sócrates – temos também as palavras do director. Nestes exemplos abaixo, apenas recorri à sua crónica semanal. De fora ficam os editoriais diários, no todo ou na sua maioria igualmente escritos por si, presumo, seguramente por si validados, no que vai dar ao mesmo. O ponto em análise é este: Marcelino, chegados a Abril de 2012, ainda não se cansou de falar de Sócrates, aproveitando qualquer pretexto para ir maldizendo o ex-primeiro ministro recorrendo ao cinismo, ao sarcasmo e à calhandrice. Marcelino, inquestionavelmente, é um dos socráticos mais activos e merece um justo aplauso pelo seu esforço para manter viva a lembrança do homem.

Durante quase dois anos, o PS de Sócrates tentou retirar das mãos de Francisco Louçã os temas fraturantes. O espaço mediático encheu-se de discussões sobre a interrupção voluntária da gravidez, os casamentos homossexuais e outras que esvaziaram o espaço de intervenção do Bloco de Esquerda.

25 de Fevereiro

Nem todos são capazes da grandeza pessoal de Teixeira dos Santos, atrás de quem o PR também se esconde, e que até hoje calou a ingratidão e a desconsideração final do seu primeiro-ministro.

10 de Março

percebe-se que José Sócrates, desde o exílio filosófico em Paris, não acredita estar fora desta corrida [presidencial]

24 de Março

Sobra estar no partido com a máxima que José Sócrates lembrava repetidamente enquanto inquilino de São Bento: “Só se passa por aqui uma vez.” Ao menos nessa convicção estava inteiramente certo…

31 de Março

Há um ano (completado ontem), Teixeira dos Santos dizia, finalmente, “basta”. Passadas algumas horas, José Sócrates, já de relações cortadas com o ex-ministro das Finanças, anunciava que o seu Governo de gestão (pedira a demissão a 23 de março na sequência do chumbo ao PEC IV) iria recorrer à ajuda externa.

7 de Abril

Um livro por semana 282

«Os sítios sem resposta» de Joel Neto

Para Joel Neto (n. 1974) também a Geografia é mais importante do que a História. Miguel Barcelos, o herói deste romance, resolve mudar de clube («num dia de Novembro») e passa do Sporting para o Benfica durante um processo de zelo e sobressalto como «um cristão-novo na aprendizagem do pai-nosso». O enredo é absurdo, insólito e estranho mas repete, afinal, a troca que em 1961 foi feita por Eusébio quando virou costa ao Sporting de Lourenço Marques e veio para o SLB. Rejeitado pelo Desportivo e acarinhado pelos «leões» de Moçambique, Eusébio (n.1942) chegou ao Benfica por duas razões: era menor ao tempo e a mãe recebeu «dinheiro grande». Ele não seguiu o destino de «Juca», Mário Wilson e Hilário, notáveis jogadores moçambicanos que reforçaram os «leões» de Lisboa.

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O que a gente perdeu!

Manuel Alegre manifestou-se satisfeito com o facto de não ter sido eleito Presidente da República. No prefácio de um livro de Alfredo Barroso, o histórico socialista diz-se satisfeito de não passar pela “humilhação” de ver “três homens de pasta na mão a dizer a este velho País o que tem de fazer” (Agência Lusa).

O essencial desta declaração não está na alusão aos “três homens de pasta”, com que pretende dourar a pílula. Nem na transparente atitude “estão verdes”, glosada já por La Fontaine no séc. XVII. O essencial desta confissão – que revela o poltrão balofo que em 2011 reapareceu a defrontar Cavaco – está na forma implícita como o tipo encara a responsabilidade e o desafio de um alto cargo político, por fáceis ou difíceis que sejam as circunstâncias, sobretudo se forem difíceis. Os “três homens da pasta” fá-lo-iam sentir-se “humilhado”, ora ele não está para desconsiderações. Se tivesse sido eleito, demitir-se-ia à chegada da troika. Teriam de o agarrar ou ele partir-lhes-ia as ventas. No discurso de resignação o poeta Alegre repetiria o slogan da campanha: “Há mais vida para além da dívida!” E ao chofer: “Ala para casa, que estou inspirado!”

Diz que gostaria de ser presidente, mas que assim não valia a pena. Como é que valia a pena, então? Sem crise, com crescimento económico e com um governo chefiado por Sócrates, como em 2005-2007? Pois, nessas circunstâncias qualquer cobardola emproado faria figura em Belém. Alegre seria o Pai Natal da esquerda unida. Mandaria para trás todos os diplomas a que o Louçã torcesse o nariz. Daria ralhetes semanais ao PM, ensinar-lhe-ia o b-a-bá do socialismo. Almoçaria às terças com o homem da CGTP, às quartas com comissões de reformados e às sextas com grupos de desempregados. Às segundas verteria uma lágrima pela infância desvalida e aos domingos visitaria lares de terceira idade. Faria belos discursos com um vozeirão esmagador até que o salário mínimo nacional alcançasse o espanhol, o PIB desatasse a crescer à chinesa e a dívida pública morresse de susto. O que a gente perdeu!

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Oferta do nosso amigo Júlio

Sempre para além do memorando e se for da forma mais miserável possível melhor

Ontem o país foi surprendido pela promulgação por parte do PR de um diploma do Governo que suspende durante o programa de assistência financeira a possibilidade de se requerer a reforma antecipada.
Estamos todos cansados.
Este Governo não só tem de cumprir o memorando, como ama o memorando, mas acha que a coisa é pouca e vai sempre, mas sempre além do mesmo: no corte dos subsídios e pensões, no código do trabalho, nas privatizações, onde lhe apetece, na sua fúria de destruição dos princípios básicos do Regime que serve.
Este último diploma é mais uma prova de como o Governo é rápido a destruir expetativas e a segurança jurídica de pessoas concretas que têm muito poucos dispositivos legais à sua disposição para organizarem a sua vida em face das variáveis da mesma.
Que interessam esses princípios? São sempre só pessoas, só reformados, só trabalhadores. Estes não têm direito à estabilidade do mundo jurídico, já a Lusoponte ou outras grandes empresas estão envoltas do discurso do “cumprimento de obrigações contratuais”.
Esta medida miserável foi aprovada em segredo no Conselho de Ministros. Nesse dia sombrio não houve comunicado, essa coisa de boa fé entre os órgãos de soberania e entre estes e os cidadãos.
Silêncio, para não os chatearem e toca de enviarem o decreto que nenhum sindicato cheirou ao PR.
Que faz o defensor do limite dos sacrifícios? Veta politicamente? Faz uma mensagem às 20h da noite à pátria – ele gostava tanto…
Não. Cavaco promulga o decreto sem mais demoras. Até porque ele não está com nenhum problema que justifique pedir uma uma reforma antecipada, é bom de ver.
Dia de vergonha para o Governo e para Cavaco.
A democracia material e procedimental apaga-se como uma vela que vai morrendo.

A Internet vista da Parvónia

Ora, ao contrário do que muitas vezes se pensa e diz, a natureza “expressiva”, os procedimentos “tribais” e os objetivos “virais” da atividade bloguista, pouco ou nenhuma importância dão – ou permitem dar – às ideias, à sua diversidade, à sua consistência e à sua discussão.

Muito pelo contrário: tudo se desenvolve num registo de tagarelice torrencial, que a todos garante um igual direito de expressão, independentemente de informação ou do conhecimento de cada um. A grande novidade é mesmo esta: nada saber sobre nada, não é um impedimento ou um obstáculo à expressão de pontos de vista, mas o maior dos estímulos!…

Carrilho

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Ter mais de 60 anos e escrever em jornais é uma contingência ambiental que aumenta drasticamente o risco de se passar por parolo quando se fala da “blogosfera”. Carrilho entra com alguns anos de atraso na carroça daqueles cagões que se pretendem comparar com os autores de blogues e comentários só para acabarem a dizer inanidades risíveis acerca da ignorância do povo e dos perigosos e desprezíveis anónimos. Nesse campo, ó Carrilho, o Pacheco é o xerife. Já chegaste tarde, a festa acabou.

Mesmo assim, vale a pena dar atenção a este texto patético ou só ao excerto que seleccionei. Nele Carrilho insurge-se contra a possibilidade de todos, na Internet, poderem ter igual direito à liberdade de expressão. Para ele, trata-se de algo que merece repreensão e sarcasmo, deixando claro que a liberdade de expressão deveria estar condicionada a um qualquer tipo de aferição de conhecimentos. Para publicar uma opinião no seu pardieiro digital, o indivíduo deveria primeiro recolher a aprovação de uma autoridade na matéria em causa ou, não sendo tal possível, pensar de si para si, com muita força, se o que tem vontade de escrever vai irritar o senhor doutor Manuel Maria Carrilho. Se for o caso, conter a nefanda pulsão e ler 10 vezes seguidas um texto à escolha do senhor doutor Manuel Maria Carrilho.

O preclaro especialista em epistemologia e teodiceia blogosféricas declara que se está perante uma grande novidade, a de existirem pessoas que comunicam umas com as outras sem lhe pedirem autorização ou conselho. É o que faz viver na Parvónia, onde ainda não chegou a Internet e os nativos andam açaimados durante o dia e grande parte da noite. Acaba-se por conseguir ter um espírito simples, purificado, uma genuína e imaculada tabula rasa.

Vinte Linhas 757

Fernando Grade – 50 anos depois do primeiro livro

O primeiro livro de poemas de Fernando Grade foi publicado em 1962 pela Guimarães Editores e o seu título é «Sangria». Não o tenho mas celebro a efeméride com outro livro: «A+2 = Raiva» de 1970, editado pela Difusão Dilsar na colecção Edições do Autor.

Trata-se de uma poesia que fala de si mesma. Umas vezes na perspectiva do «eu»: «Tenho a minha poesia boa e também a má / a alcoólica, a maníaca, a pervertida / com sangue, com olheiras, com dedais de fazer lume». Outras vezes num olhar mais «geral»: «Dizem que a poesia já começou a retirar-se para casas de chá / que vai destruir a charrua e o martelo / que vai deixar de ter filhos / de distribuir panfletos pelas tabernas / que vai deixar de ser parva.»

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Dissonância cognitiva – modos de usar

Sócrates, entre outras originalidades sociológicas, deu azo um colectivo fenómeno de dissonância cognitiva que afectou, e continua a afectar, o País de modo transversal; e onde nem mesmo os militantes e simpatizantes socialistas escaparam numa qualquer parte significativa. Resultou da estratégia clássica, milenar, de assassinato de carácter que foi escolhida pelos seus inimigos, do Belmiro ao Cavaco e passando pelos pavões da imprensa, onde se foi até à inaudita violência de se ter mesmo iniciado o processo da sua criminalização sem qualquer matéria de facto. Como essa golpada não obteve a cumplicidade do Procurador-Geral, saiu uma outra novidade canalho-política pela mão do Zé Manel e da Casa Civil, com o alto patrocínio das pastelarias da Avenida de Roma. Seguiram-se as comissões de inquérito parlamentar e a própria consulta de escutas ilegítimas de conversas privadas na Assembleia da República. Pelo meio, os processos relativos ao Freeport e ao seu passado escolar e profissional foram permanentes fontes de difamação e calúnia. O que há de notável neste longuíssimo carnaval é a adesão pública da elite partidária da direita, multiplicada pelos magotes de comentadores transportados para os meios de comunicação social, a uma campanha destituída de qualquer conteúdo político passível de ser analisado e discutido. Esta direita partidária não tinha ideias, programa ou mera decência. O único e obsceno objectivo era este: marcar Sócrates, a ferro e fogo, com o sinal do crime.

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Vale a pena não ceder, não ceder, não ceder

Está aqui o Ac. d Tribunal Constitucional que se pronuncia pela inconstitucionalidade do decreto que prevê o crime mais pidesco desde o 25 de Abril, para usar uma expressão de uma colega minha: o enriquecimento ilícito.
Meses e messes sozinhos a sermos acusados de tudo, de não querermos atacar a corrupção, um bando de demagogos todos os dias contra o PS, mas sem argumentos contra os nossos. Um crime criminoso que abrange todos os cidadãos e que espatifa o Estado de Direito.
Vale a pena não ter medo da demagogia.

Lafayette à Lagardère

Alexandre Lafayette, em conluio com Rui Verde – o antigo vice-reitor da Universidade Independente e recente autor de um livro que o Carrilho já elogiou e que recomenda a todos os participantes do Laboratório de Ideias do PS – pediu a reabertura do inquérito à licenciatura de Sócrates. Para além de ter entregue documentos relativos ao processo ditos originais, o pedido tinha também inclusas as escutas a Sócrates publicadas pelo Correio da Manhã; as quais foram já devidamente utilizadas pelo Marques Mendes em mais um momento altíssimo da sua carreira. Mas não só: pretendia-se ainda a apreciação dos processos de Sócrates na Câmara da Covilhã e na escola francesa onde está a estudar. Portanto, era o 3 em 1, só faltando requerer-se um levantamento das suas despesas de refeição fora de Portugal para efeitos de descoberta de indícios de algum ilícito; um qualquer, tanto faz.

Pois bem, a Procuradoria considerou que este Lafayette andou a gozar com a tropa da Justiça, nada trazendo de novo e sujeitando-se a sair chamuscado da brincadeira. Oportunidade de ouro, então, para o Cerejo, um dos maiores especialistas mundiais em demonologia socrática. O que ele tem a fazer é a coisa mais simples deste mundo: pegar nos documentos do Rui Verde e expor a corrupção dos corruptores e dos corrompidos. De caminho, para além de provar o que toda a gente já sabe – que Sócrates se licenciou num domingo e por fax – ainda apanha Cândida Almeida e Carla Dias, duas magistradas habituais frequentadoras dos bacanais satânicos do mafarrico, entretanto desviados para um apartamento luxuoso em Paris para, lá está, não darem muito nas vistas.

Câncio TV

Isto de não existir imprensa em Portugal leva à cena gaga que é ver a Fernanda Câncio remetida para um canal cabo a botar discurso uma vez por semana, depois da meia-noite e deixando sempre aflito o jornalista que está ao seu lado porque, entre outros factores, a moçoila insiste em vocalizar para lá dos 5 minutos que lhe disponibilizam com grande favor e já entrados na madrugada. E de que fala ela? De algumas situações de que não se fala, de que mais ninguém fala. Como foi o caso da violência na Madeira contra os familiares de Gil Canha, personalidade com a qual não terá qualquer afinidade partidária, ideológica ou pessoal, mas que foi vítima de ataques escandalosos e escandalosamente desprezados pelos líderes de opinião nacionais. Ou agora com a Parque Escolar, entidade alvo das maiores e mais grotescas calúnias por parte de ranhosos e imbecis, e que nem no actual PS encontra quem a defenda, sequer desmonte as falácias dos acusadores.

A Fernanda fundamenta sempre as suas análises em fontes, e nas melhores fontes que estiverem à disposição. Daí partirá para a sua interpretação, moldada inevitavelmente pelos seus valores, experiências e objectivos – tal qual como qualquer outro ser humano sem excepção, dá ideia assim de repente e ao longe. Mas a integridade do seu método de intervenção pública, cujo modelo é o da zelosa deontologia jornalística, faz dela uma companheira ideal para discutir política ou qualquer outra questão de complexo e apaixonado melindre, porque dela sabemos que se irá submeter à realidade comunhável e à autoridade legítima – ou que levará o seu interlocutor a essa anuência. Talvez por isso, precisamente, ande a falar sozinha. E durante tão pouco tempo.

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Exortação final aos animais (s/foto de Carlos Tomé)

Não estou mais disponível para vos responder, podem continuar deitados, a ruminar, abatidos pelo calor de Julho pois a Festa do Campo, como muita gente diz aqui no Bairro do Bom Retiro, é sempre em Julho. Não estou disponível para perder mais tempo convosco mas não deixo de recordar os carros lezirões, a bênção do gado, a procissão, a festa, o desfile dos campinos da Companhia das Lezírias, a ermida da Senhora de Alcamé ao fundo com gente no telhado a deitar foguetes. Vocês, os animais, também foram abençoados pelo padre de Vila Franca de Xira com água benta da caldeirinha, debaixo do pálio onde o incenso passou da naveta para as brasas do turíbulo de prata.

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