Vinte Linhas 756

Exortação final aos animais (s/foto de Carlos Tomé)

Não estou mais disponível para vos responder, podem continuar deitados, a ruminar, abatidos pelo calor de Julho pois a Festa do Campo, como muita gente diz aqui no Bairro do Bom Retiro, é sempre em Julho. Não estou disponível para perder mais tempo convosco mas não deixo de recordar os carros lezirões, a bênção do gado, a procissão, a festa, o desfile dos campinos da Companhia das Lezírias, a ermida da Senhora de Alcamé ao fundo com gente no telhado a deitar foguetes. Vocês, os animais, também foram abençoados pelo padre de Vila Franca de Xira com água benta da caldeirinha, debaixo do pálio onde o incenso passou da naveta para as brasas do turíbulo de prata.

Mesmo abençoados pelo sacerdote, vocês, os animais, criaram asco sem fim entre a gente simples que atravessa a ponte numa carroça lenta com o farnel guardado numa alcofa e coloca um garrafão empalhado de vinho branco das Faias num esteiro do grande Rio à espera da merenda na tarde e da frescura que nada tem de frigorífico.

Por isso os exorto nesta crónica final a levantarem-se devagar, a sacudirem o pó de Julho e a seguirem na direcção do Porto Alto onde uma ponte ainda de madeira sobre o Sorraia tem à noite um homem vestido de oleado para a chuva e com uma lanterna de duas cores.

Por isso os aviso nesta minha última crónica de inventário e despedida porque já não posso perder mais tempo com as vossas brutais arremetidas, a vossa ferocidade perante os pobres cabrestos e o vosso desassossego entre os campinos nesta tarde de Julho. Vem aí uma nuvem de moscas. Tenham muito cuidado com as moscas, algures entre os vossos beiços e os olhos. Elas fazem doer mas não tanto como os vossos coices. Não se compara. É outra coisa.

7 thoughts on “Vinte Linhas 756”

  1. Este escrito mal esgalhado
    é tão bom como o não prestas,
    acredito, foi talhado,
    para ser lido por bestas!

    Há aqui muitas memórias
    há burros e ferraduras,
    e quem lê estas histórias
    são só as cavalgaduras!

  2. “Por isso os aviso nesta minha última crónica de inventário e despedida…”

    mais uma promessa que não será cumprida

  3. zzzzzzz, zzzzzz, zzzzzzzzz, zzzzzzz, vai pastar na lezíria pá. Quando aprenderes a respeitar o ser humano, o animal racional, talvez sejas ouvido também. Para já és um espiríto primata, mal formado, que precisa de muita regeneração. Enquanto não a alcançares, andas de volta, tal qual a vespa crabo, que é preciso afugentar para não contaminar o «ambiente». Já que é stão importante decreta luto nacional, ou então, já que queres pôr a descoberto «as tripas de meia dúzia de filhos da puta» (sic), convoca o steus capangas e toca a levar a cabo a anunciada expedição. Avisa, porém, o local.

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