O que a gente perdeu!

Manuel Alegre manifestou-se satisfeito com o facto de não ter sido eleito Presidente da República. No prefácio de um livro de Alfredo Barroso, o histórico socialista diz-se satisfeito de não passar pela “humilhação” de ver “três homens de pasta na mão a dizer a este velho País o que tem de fazer” (Agência Lusa).

O essencial desta declaração não está na alusão aos “três homens de pasta”, com que pretende dourar a pílula. Nem na transparente atitude “estão verdes”, glosada já por La Fontaine no séc. XVII. O essencial desta confissão – que revela o poltrão balofo que em 2011 reapareceu a defrontar Cavaco – está na forma implícita como o tipo encara a responsabilidade e o desafio de um alto cargo político, por fáceis ou difíceis que sejam as circunstâncias, sobretudo se forem difíceis. Os “três homens da pasta” fá-lo-iam sentir-se “humilhado”, ora ele não está para desconsiderações. Se tivesse sido eleito, demitir-se-ia à chegada da troika. Teriam de o agarrar ou ele partir-lhes-ia as ventas. No discurso de resignação o poeta Alegre repetiria o slogan da campanha: “Há mais vida para além da dívida!” E ao chofer: “Ala para casa, que estou inspirado!”

Diz que gostaria de ser presidente, mas que assim não valia a pena. Como é que valia a pena, então? Sem crise, com crescimento económico e com um governo chefiado por Sócrates, como em 2005-2007? Pois, nessas circunstâncias qualquer cobardola emproado faria figura em Belém. Alegre seria o Pai Natal da esquerda unida. Mandaria para trás todos os diplomas a que o Louçã torcesse o nariz. Daria ralhetes semanais ao PM, ensinar-lhe-ia o b-a-bá do socialismo. Almoçaria às terças com o homem da CGTP, às quartas com comissões de reformados e às sextas com grupos de desempregados. Às segundas verteria uma lágrima pela infância desvalida e aos domingos visitaria lares de terceira idade. Faria belos discursos com um vozeirão esmagador até que o salário mínimo nacional alcançasse o espanhol, o PIB desatasse a crescer à chinesa e a dívida pública morresse de susto. O que a gente perdeu!

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3 thoughts on “O que a gente perdeu!”

  1. Sinceramente, penso que não se deve dar muita importância às declarações do Manuel Alegre. Disse-o como poderia dizer outra coisa qualquer.

    E a sua oposição a aspectos da política do José Sócrates não deve servir de pretexto para o minimizar. Da minha parte, votei no Sócrates e faço um balanço muito positivo dos mandatos, o que não me impediu de criticar muitas das suas decisões. É normal, é a Democracia.

    Na verdade, a derrota do Manuel Alegre foi, para mim, a derrota da grande maioria dos portugueses, mesmo dos que votaram no prof. Aníbal Silva. E um dos culpados foi, justamente, o Eng. José Sócrates.

    Em relação ao seu comentário e à descrição que faz do Manuel Alegre na Presidência da República, penso que escreveu aquilo como poderia ter escrito outra coisa qualquer. Mas, sinceramente, antes Pai Natal da esquerda (o que duvido) do que aquela triste figura que nós lá temos. Ou não concorda?

  2. Ao ler este comentário do Júlio – e confesso que desconhecia estas observações do Manuel Alegre – o que me arrepia ainda mais é que ele venha assumir expressamente que após a sua eleição como P.R., Portugal tivesse de pedir ajuda externa!!!
    Desculpe?!? Importa-se de repetir?!?
    Quer dizer, o “poeta iluminado” que fez a “conspiração” com o BE para pressionar o P.M. José Sócrates na sua candidatura presidencial, nem sequer considera os factores que levaram ao pedido de ajuda externa…!
    Se os “três homens de pasta na mão…” entraram cá foi porque o “seu BE” se coligou com o PCP e toda a direita para recusar a proposta de solução interna apresentada no PEC IV.
    É isso que ele devia considerar nas suas fantasiosas intervenções…Essas de facto são feitas ao sabor do momento, como muito bem diz o 1º comentador, António Nunes.

  3. E na passada faz mais um favor ao Cavaco, fujão de primeira, perito em intrépidos chiliques em alturas de tensão, dando-lhe de mão beijada a imagem de corajoso pilar da pátria que não abandona o seu posto em época de dificuldades, ao contrário do que ele, Alegre, confessa estupidamente seria a sua própria atitude enquanto presidente. É preciso ser burro! Depois da clandestinidade colaboracionista, cobarde e dissimulada que o de Boliqueime adoptou na recente promulgação do decreto-lei que proibiu as reformas antecipadas, esta oferta do parvalhão cai-lhe como sopa no mel. Ele não se esquecerá de lhe agradecer, mais cedo que tarde, citando-lhe matreiramente a bojarda até à náusea, para se autoenaltecer.

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