A Internet vista da Parvónia

Ora, ao contrário do que muitas vezes se pensa e diz, a natureza “expressiva”, os procedimentos “tribais” e os objetivos “virais” da atividade bloguista, pouco ou nenhuma importância dão – ou permitem dar – às ideias, à sua diversidade, à sua consistência e à sua discussão.

Muito pelo contrário: tudo se desenvolve num registo de tagarelice torrencial, que a todos garante um igual direito de expressão, independentemente de informação ou do conhecimento de cada um. A grande novidade é mesmo esta: nada saber sobre nada, não é um impedimento ou um obstáculo à expressão de pontos de vista, mas o maior dos estímulos!…

Carrilho

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Ter mais de 60 anos e escrever em jornais é uma contingência ambiental que aumenta drasticamente o risco de se passar por parolo quando se fala da “blogosfera”. Carrilho entra com alguns anos de atraso na carroça daqueles cagões que se pretendem comparar com os autores de blogues e comentários só para acabarem a dizer inanidades risíveis acerca da ignorância do povo e dos perigosos e desprezíveis anónimos. Nesse campo, ó Carrilho, o Pacheco é o xerife. Já chegaste tarde, a festa acabou.

Mesmo assim, vale a pena dar atenção a este texto patético ou só ao excerto que seleccionei. Nele Carrilho insurge-se contra a possibilidade de todos, na Internet, poderem ter igual direito à liberdade de expressão. Para ele, trata-se de algo que merece repreensão e sarcasmo, deixando claro que a liberdade de expressão deveria estar condicionada a um qualquer tipo de aferição de conhecimentos. Para publicar uma opinião no seu pardieiro digital, o indivíduo deveria primeiro recolher a aprovação de uma autoridade na matéria em causa ou, não sendo tal possível, pensar de si para si, com muita força, se o que tem vontade de escrever vai irritar o senhor doutor Manuel Maria Carrilho. Se for o caso, conter a nefanda pulsão e ler 10 vezes seguidas um texto à escolha do senhor doutor Manuel Maria Carrilho.

O preclaro especialista em epistemologia e teodiceia blogosféricas declara que se está perante uma grande novidade, a de existirem pessoas que comunicam umas com as outras sem lhe pedirem autorização ou conselho. É o que faz viver na Parvónia, onde ainda não chegou a Internet e os nativos andam açaimados durante o dia e grande parte da noite. Acaba-se por conseguir ter um espírito simples, purificado, uma genuína e imaculada tabula rasa.

20 thoughts on “A Internet vista da Parvónia”

  1. Essa parvónia do pedante deve ser ainda mais longe do que aquela onde vivo. Aqui já chegou a fibra óptica graças aos deuses e ao engenheiro, que conseguiu fazer a obra antes das eleições. Se fosse com estes teríamos de comunicar por tambores ou sinais de fumo pelo menos até 2015. Mas não, eu acredito que o país já tem net por todo o lado, pelo que desconfio que isto é um caso de incompetência técnica do utilizador.

  2. Mais do que ninguém o senhor é a prova provada – passe o pleonasmo – como se deve proceder numa roda de comunicadores. Se todos fossem como Manuel Maria Carrilho – lamento os dois primeiros nomes, são iguais aos meus – é que podiam debitar escrita na Internet. Pessoas como eu que fez o sexto ano aos trinta e nove anos conviviam com a ignorância.
    Faz-me lembrar os anos sessenta do século passado aqui na minha terra, Freamunde. Havia dois cafés no mesmo edifício e do mesmo dono, mas com a particularidade de um ser para ricos e outro para pobres. É isto que Manuel Maria Carrilho quer. Ele e os seus não se podem juntar ao poviléu.
    A maior virtude dos sábios é compreenderem os humildes – analfabetos e gente com pouca instrução. Se assim não fosse não sei para que se fez o vinte de Abril. Para defender o obscurantismo tínhamos os Salazares e não precisávamos de Carrilhos.
    Já aqui referi que passados oito dias de fazer o exame da quarta classe fui trabalhar para uma fábrica de móveis. Não me caiu nada ao chão. Mas se fosse num País que desse oportunidade a todos de certeza que tinha continuado os estudos. A minha turma era de trinta e tal alunos, não o concluíram todos, só cinco é que foram estudar. Não eram os melhores! Eram filhos de ricos e remediados. Tiveram essa virtude. Eu, ao contrário deles, era filho de um operário pobre. Nesse tempo o filho do pedreiro tinha de ser pedreiro assim como o filho do doutor tinha de ser doutor. Era assim este País.

  3. pois eu não interpreto o texto, e já o li duas vezes, com base na tua interpretação, Val, e considero tratar-se de uma descrição plenamente factual se não me puser a especular sobre o que quererá dizer com esta e aquela palavra e com esta ou aquela frase. tudo o que ele refere é verdade e acontece. haverá muita coisa positiva sobre os blogues, que não refere, que em liberdade de expressão optou, certamente, por omitir e dedicou-o aos aspectos, que são reais e verdadeiros, menos positivos.

  4. Bravo ! Bravo ! Bravo !
    Concordo plenamente com o Carrilho.
    Mais ainda, nesta óptica Carrilhianana, os boletins de voto das próximas eleições deveriam ter uma série de perguntas para aferir a “informação” e o “conhecimento de cada um”, e só depois seria dada a possibilidade de pôr a cruzinha no pretendido para conduzir o destino do País.

  5. o carrilho nasceu filho do regedor de viseu, daí o provincianismo cosmopolita e o sotaque do regime anterior, apesar da embalagem maio 69.

    oh freakmunde! tens razão, mas eu não tenho culpa, podias dizer o que pensas e guardares os recalcamentos para o psiquiatra ou livro de reclamações do fascismo a editar em parceria com a vítima residente, o poeta da treta.

  6. Manuel Alegre manifestou-se satisfeito com o facto de não ter sido eleito Presidente da República. No prefácio de um livro de Alfredo Barroso, o histórico socialista diz-se satisfeito de não passar pela “humilhação” de ver “três homens de pasta na mão a dizer a este velho País o que tem de fazer” (Agência Lusa).

    O essencial desta declaração não está na alusão aos “três homens de pasta”, com que pretende dourar a pílula. Nem na transparente atitude “estão verdes”, glosada já por La Fontaine no séc. XVII. O essencial desta confissão – que revela o poltrão balofo que em 2011 reapareceu a defrontar Cavaco – está na forma implícita como o tipo encara a responsabilidade e o desafio de um alto cargo político, por fáceis ou difíceis que sejam as circunstâncias, sobretudo se forem difíceis. Os “três homens da pasta” fá-lo-iam sentir-se “humilhado”, ora ele não está para desconsiderações. Se tivesse sido eleito, demitir-se-ia à chegada da troika. Teriam de o agarrar ou ele partir-lhes-ia as ventas. No discurso de resignação o poeta Alegre repetiria o slogan da campanha: “Há mais vida para além da dívida!” E ao chofer: “Ala para casa, que estou inspirado!”

    Diz que gostaria de ser presidente, mas que assim não valia a pena. Como é que valia a pena, então? Sem crise, com crescimento económico e com um governo chefiado por Sócrates, como em 2005-2007? Pois, nessas circunstâncias qualquer cobardola emproado faria figura em Belém. Alegre seria o Pai Natal da esquerda unida. Mandaria para trás todos os diplomas a que o Louçã torcesse o nariz. Daria ralhetes semanais ao PM, ensinar-lhe-ia o b-a-bá do socialismo. Almoçaria às terças com o homem da CGTP, às quartas com comissões de reformados e às sextas com grupos de desempregados. Às segundas verteria uma lágrima pela infância desvalida e aos domingos visitaria lares de terceira idade. Faria belos discursos com um vozeirão esmagador até que o salário mínimo nacional alcançasse o espanhol, o PIB desatasse a crescer à chinesa e a dívida pública morresse de susto. O que a gente perdeu!

  7. Num pequenino ponto ele tem razão: a “tudologia” que grassa na blogosfera política (que importa distinguir da restante) é irritante.

    No entanto, cabe aos leitores destrinçar os blogs e seus autores, e não a uma teórica reguladora externa…

  8. ignatz, e outros tantos que andam por aí, e por aqui, deves candidatar-te a estudo de caso do Carrilho para suporte da sua teoria, tão verdadeira, sobre os aspectos podres dos blogues. eu voto em ti, parabéns pela tua campanha. :-)

  9. ja ja ja .. o carrilho não gosta que quem não sabe nada de nada opine pq um sábio com o nome de quem ele odeia disse eu só sei que nada sei :)

  10. É, Vega9000, o homem considera-se mais brilhante que os broches rutilantes com que a tia Maria João Avilez costuma ofuscar as câmaras, coisa que secretamente lhe inveja. E agora mais do que nunca, desde que o Arsène Lupin, le gentleman-cambrioleur, voltou a assaltar as primeiras páginas. Ah, a inveja… a inveja… [aqui podemos dar umas palmadinhas nas nossas carecas molhadas, assim à Marlon Brando apocalíptico: o horror… o horror…]

  11. O hoemzinho ainda anda ressabiado por lhe terem tirado o bem-bom que era viver em Paris, com todo o luxo, toda a pompa e toda a vaidade de se ver como embaixador cultural !!!
    Daí que, direito a escrever em público, ainda por cima em blogues lidos por toda a gente, sem o pré consentimento da “sumidade” carrilhana ??? Qu’é lá isso. Já chegámos à Madeira?
    Não, não pode ser!!! Isso é só para as elites, para os abençoados dos deuses e autorizados por Sua Excelência.
    PALERMA!

  12. A sofreguidão pouco menos que angustiada do homem, implícita em escritos recentes, e cada vez mais frequentes, a morder no exilado de Paris, com objectivos que ele conhecerá melhor que ninguém, deve ter contribuído para aumentar as críticas que lhe são feitas. Vem daí, provavelmente, o seu incómodo.
    Mas mesmo que possa ter alguma razão em relação aos anónimos que adoptam um comportamento de bullying sistemático e cobarde e empestam as conversas com três insultos em cada duas palavras (há muitos anónimos que o não fazem), dizer que as discussões na blogosfera “pouco ou nenhuma importância dão – ou permitem dar – às ideias, à sua diversidade, à sua consistência e à sua discussão” chega a parecer, além de petulância, pura e simples burrice. É claro que não é esse o caso, conhecido como é o ofuscante brilho intelectual da criatura, que posso desde já garantir. Há alguns meses, tendo-me cruzado inadvertidamente com ela, tive de enfiar à pressa no focinho uns óculos escuros que tenho para emergências, ou arriscava-me a fritar cones e bastonetes e ficar ceguinho.
    O problema dele é mesmo que a coisa “a todos garante um igual direito de expressão” (e a expressão citada é dele), coisa comprovadamente horrível, sabemos todos nós. O homem tem registada em seu nome a patente de “tagarelice torrencial”, como todos também sabemos, e é uma usurpação de direitos de autor tirar-lhe o exclusivo.

  13. sim que é um texo patético e como não tenho o gosto de conhecer o senhor autor permito-me tê-lo também por um bocadinho patético.
    De não ser pela blogosfera, e por um blog eu não conheceria o Sr. Carrilho. Mas agora que li o seu artigo, acho que não irei o DN a pesquisar os seus artigos, talvez por um acaso, embora sim seguirei a olhar e a lêr a un anónimo , a um blog, pertecem-te a tagarilice, estou-me a referir, a iste blog, como é evidente.
    Então, não por escrever num jornal sabe mais coisas, “per se”, o senhor que o que escreve num blog.
    Muitas vezes não são os melhores os que escrevem no jornal, muitas vezes são os amiguinhos, os doceis, os que falam pela voz do seu amo etc.
    Se estas na rede e há quem te lê, sempre será por algo, é livre. Se publicas no DN achas que o eu artigo é lido pela turma e talvez seja a paxina que a turma colhe para envolver os enchidos. Quem sabe?

  14. reis,
    tens de aparecer mais vezes, nem que seja para dizer de fora aquilo que aqui dentro poucos vêem. E fico sempre tremeliques com o português antigo. A propósito, o que quer dizer “paxina”, que já me esqueci depois destes séculos todos?

  15. obrigado, cara noctâmbula.
    páxina=pagina. Voçes e que escrevem igual que em castelhano. Quando vieres uma x pôes J ou G, e tudo queda arrumado.

    voltarei mais a miúdo, por vezes faz falta um gaiteiro. A companha é muito grata.

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