Críticas à entrevista de Vital Moreira

Vale a pena ler as declarações deste professor de Direito e, desde 2009, eurodeputado, em entrevista ao jornal i. VM tem-se mostrado ultimamente favorável ao Pacto Orçamental e agora, pelo que se percebe, à política e à estratégia deste governo, inclusivamente no que toca à ânsia de se mostrar bom aluno. Convém, no entanto, ter em conta que, no Parlamento Europeu, além de se adquirir forçosamente uma perspetiva da política europeia e, consequentemente, da nacional, diferente da que se tem a partir da “West coast“, o que é enriquecedor e, para qualquer efeito que se pretenda, positivo, também se viaja muito, e muito longe, pelo que alguns detalhes importantes da cena nacional podem escapar. Também se ganha bem, ou seja, não se passa pelos agrumes de quem perde salários, reformas, poder de compra, trabalho e família. Mas as opiniões substanciadas de Vital Moreira, veiculadas durante alguns anos no jornal Público, sempre me mereceram grande respeito, embora nem sempre a concordância.
Posto isto, onde vejo motivos para crítica no que ele diz?
(Está difícil meter o link. Entrevista em http://www.ionline.pt/portugal/vital-moreira-coisas-nao-estao-sair-mal-ao-governo)

Desde já, aqui: “As eleições europeias continuam a ser muito domésticas e alguns dos temas que eu incluí na agenda, como, por exemplo, o da taxa sobre transacções financeiras – que agora está na agenda –, nessa altura foi entendido como um tema assaz polémico e contencioso.”

A taxa, portanto. Considero isto uma má leitura do que se passou (o PS não ganhou). Embora na comunicação escrita Vital Moreira seja quase inigualável em termos de clareza, fundamentação e raciocínio, na comunicação oral e nos dotes oratórios, indispensáveis em campanha eleitoral, a sua mensagem fica altamente prejudicada. Houve até, na altura, quem criticasse Sócrates pela escolha de Vital para cabeça de lista. E a verdade é que Sócrates, apesar da derrota nas europeias, ganhou depois as legislativas. O problema não estava, portanto, na taxa. Estava nos problemas domésticos, claro, na crise económica que já se fazia sentir em consequência da crise do subprime e algo também nele próprio (VM).

Segundo ponto: “E o governo tem uma estratégia clara: fazer o mal todo de uma vez, de modo a poder inverter a situação a tempo das próximas eleições legislativas.
[…]O PS argumenta que essa concentração na austeridade vai levar a uma recessão profunda. Não existe o risco de entrarmos num ciclo vicioso?
É um risco e um custo. A recessão vai ser maior que o esperado. O governo tinha dois caminhos: um era aquele que defende o PS, que é moderar o ritmo e a intensidade da austeridade, outro – e foi essa a opção – concentrar a austeridade sabendo assim que alguma vez se há-de bater no fundo e que depois, antes das próximas eleições, a situação pode inverter-se. O governo pode ser acusado de muita coisa, inclusivamente de ir além da troika e dessa concentração algo excessiva nas medidas restritivas, mas não pode ser acusado de falta de estratégia. Parece-me clara a estratégia. Essa concentração obedece a essa estratégia clara tirando partido dessa envolvente externa que entretanto se verificou.”

Considero estranha a frieza acrítica destas palavras e também o facto de o reconhecimento do despudorado eleitoralismo subjacente à estratégia governativa não lhe merecer o mínimo reparo, para já não falar de discordância, quanto mais não fosse pela ruína que tal modo calculista e insensível de fazer política representa para a vida de milhares de pessoas e para a economia do país; muito pelo contrário, Vital diz mais adiante compreender o Governo (“É mais uma peça da estratégia para o governo se credibilizar ao máximo para o exterior, mostrar que estamos a levar isto a sério e queremos fazer isto rapidamente e em força“). Também nem uma palavra sobre o rumo austeritário desta Europa dominada pela Alemanha e por partidos totalmente submissos face à alta finança, nem sobre o reconhecimento, pelo próprio FMI, de que tais políticas são contraproducentes e assassinas, para já não falar na degradação óbvia da situação portuguesa e na falha sistemática das previsões. Nem sobre a defeituosa arquitetura do euro e a perpetuação e mesmo o agravamento das desigualdades entre norte e sul.

Terceiro ponto: “É preciso que a Comissão tenha mais autoridade política. O Tratado de Lisboa tem uma saída que é a ideia de que o presidente da Comissão deve sair das eleições Europeias e possa invocar ter sido eleito – embora não directamente – pelos cidadãos. Devemos levar até ao fim essa lógica, ou seja, nas próximas eleições europeias os grandes partidos europeus devem apresentar o seu candidato a presidente da Comissão e quem ganhar deve ser o presidente. É essencial para lhe dar autoridade política. É o único modo de ele se impor.”

A ideia de que a Europa pode ter um “governo” encabeçado pelo presidente da Comissão Europeia é uma das grandes utopias políticas contemporâneas que Vital Moreira deveria reconhecer como tal, sobretudo nestes tempos em que a ameaça de rutura paira constantemente. Não se vislumbra no horizonte qualquer possibilidade de os Estados mais poderosos da UE cederem soberania à Comissão (mais pacto, menos pacto à espera de ser violado) e muito menos de lhe atribuírem um poder superior ao seu. O presidente da Comissão está condenado a permanecer um executor e, em termos políticos, um personagem mais do domínio do contorcionismo, se não das marionetas, e tenho dúvidas de que fosse conveniente ser de outra maneira, apesar de o poderio de Roma e o seu império terem durado vários séculos. A Europa, a ser, será uma união de nações, com predominância e domínio das mais importantes. Ponto.

Surpreende ainda a afirmação, explicável pela distração?, de que “Por outro lado, este governo começa a colher os efeitos positivos das políticas do governo anterior no caso da educação, da formação profissional, da aposta nas energias renováveis…”, quando o que temos visto tem sido a sistemática obsessão do atual Governo por acabar com tudo o que tenha o selo do anterior.

14 thoughts on “Críticas à entrevista de Vital Moreira”

  1. Penélope, parabéns pela sua análise a este discurso de Vital Moreira. A Penélope traz politica e alma na sua critica. Vital só trouxe politica. Fica-se quase estarrecido. De onde menos se espera salta a desumanidade triunfante nestes tempos de euforia neoliberal. A desculpa é sempre a mesma: as coisas são mesmo assim e não podiam ser de outro jeito. E deste “jeito” se faz uma rotação ideológica de 180 graus. Para já, no discurso. Pelo caminho ficam os humilhados e ofendidos destas politicas certeiras, como simples “danos colaterais”.
    Arrepia, Penélope, arrepia! Para onde vai a nossa intelectualidade? Eu sei e tu sugeres muito bem: os que assim falam, falam de barriga cheia, de emprego bom e reforma garantida. E com os filhos já criados. Para outros, as vitimas deste processo indecente,~nem sempre verbalizam mas sempre pensam: é a vida, pá!
    Desculpa, Penélope, a grosseria: puta que os pariu!!!

  2. Tem toda a razão na crítica que faz a este tresmalhado, Penélope.

    Por este andar, não tarda muito temo-lo a fazer companhia à Zita nas listas do PSD

  3. Começa a ver-se que Sócrates cometeu erros, como é natural
    Dos mais graves: as escolhas de pessoas i que fez para funções fundamentais do estado. É já visível a enorme quantidade de escolhas do anterior primeiro-ministro, quer para o governo, quer para altas funções, que roeram (e continuam a roer) a corda que les foi estendida. Começou pelo C. e Cunha nas Finanças, continuou no Freitas, no Carrilho, em tantos outros, agora este. É óbvio que esta gente não defende projectos, ideologia, politica, programas politicos. Agradece “tachos”. Quando as coisas não lhes correm à maneira, são dos primeiros a dar de frosques e então começam a mostrar a sua natureza. São todos feitos de massa de traidores.
    Quando, finalmente o príncipe é apeado. então sim, revelam-se os seus maiores criticos e são duma sem vergonha absolutamente desprezível.
    O caso deste “apparatschik” é só mais um de entre outros.

  4. Os socretinos bem se esforçam por alimentar e manter vivo o «mito» Pinto de Sousa, mas estas suas criticas aos «ex»-camaradas dele revelam que a sua desmitologização pode estar próxima. É que o Vital Moreira não era um socretino qualquer. Vital Moreira era o «ideólogo» da socretinice, e por isso mesmo foi premiado com um lugar no Parlamento Europeu. Um prémio merecido, pois, durante o «reinado» do Pinto de Sousa, quem mais aparecia nos jornais a defender a orientação politica e ideológica daquele era o Vital. Toda a propaganda socretina sempre encontrou eco, justificação ou fundamentação nos artigos e no blogue do Vital, que nunca se cansou de atacar a «esquerda radical», os grevistas e os «privilegiados» da função pública, nem de defender o «modernismo» e o «reformismo» tecnocráticos e neoliberais dos socretinos. Essa era a essência da «esquerda» moderna.
    Ora, estes «princípios» em que assentou toda a governação do Pinto de Sousa, são exactamente os mesmos «princípios» que levam o Vital a elogiar a politica e estratégia do governo do Passos. Não há nada de estranho ou contraditório nisso. Há apenas o reconhecimento de que as politicas do Pinto de Sousa têm, no essencial, continuidade com este novo governo, o que é algo que os socretinos têm dificuldade em perceber, e daí a sua revolta irracional contra o «ideólogo» Vital.
    Mas esta revolta irracional tem o seu lado positivo: os socretinos, de tanto baterem naqueles que sempre estiveram ao lado do Pinto de Sousa, perceberão, mais tarde ou mais cedo, que o seu ídolo era um embuste, pois das duas uma: ou o Pinto de Sousa era um idiota útil que os Vitais manipulavam, ou o Pinto de Sousa era um tipo com uma estratégia e um projecto ideológico bem definidos que os Vitais apoiavam e sustentavam, e que continuam a apoiar (ainda que o Primeiro-Ministro seja outro). É só escolher, mas seja qual for a escolha uma coisa é certa: fica desfeito o «mito» e desmascarado o impostor.

  5. oh ds! tu lá sabes a merda de que são feitos os teus camaradas, até deves estar orgulhoso dos feitos do moço, é pena que não o possas expressar livremente sob risco de seres excomungado da seita comuna.

  6. Vital Moreira , como Teixeira dos Santos, ou Pina Moura, não têm ideologia,têm uma única preocupação , fazerem pela vida, ( deles é claro) , e garantirem o prato de lentilhas, ( ou de lagosta) , e serviram o patrão que se encontrar no poder, seja ele o PS ou o PSD.

    São os tipicos tachistas do Bloco Central.

  7. Belo e necessário post.
    Já deixei de ir ao “causa nossa”, onde ia por vezes ler este Vital, porque a outra a A Gomes já me era insuportável. Agora, de facto, o Vital só me tem decepcionado, por isso estranhava não o ver por aqui criticado!
    Quanto aos ds que por aí pululam, coitados, é passar por cima deles, simplesmente, é por estes imbecis que o país está como está!

  8. Ó Torres… Torres… Os maiores imbecis que por aqui andam são os tipos como tu, que idolatraram um político de plástico e que regozijavam com a propaganda «reformista» feita por todos aqueles que o rodeavam e acompanhavam, como é o caso do Vital. É por isso que te andas a enganar quando dizes que os Vitais só te têm decepcionado, já que no essencial o discurso do «ideólogo» em nada se alterou.
    No fundo tu não estás triste, frustrado nem decepcionado com esses tipos que andam a fazer pela vida (como disse o Augusto): tu estás é decepcionado e triste contigo próprio, e com a tua «inteligência», pois só estás a reconhecer que os Vitais não tiveram qualquer dificuldade em manipular-te.
    Mas não te iludas: enquanto continuares a mitificar o Pinto de Sousa, não podes dizer que deixaste de ser imbecil, pois os efeitos dessa manipulação continuam presentes. Assim antes de te preocupares com o estado do país fazias melhor se te preocupasses com o teu estado mental.

  9. oh comuna de merda! quando tiveres coragem para assumir a defesa do teu adorável líder, falamos. o programa político da comunagem continua a ser socrates, vê lá se alguma vez se preocuparam com o cavacóide & associados na destruição do país e da roubalheira, tá bom, lá se ia o rendimento mínimo da imbecilidade política da nação.

  10. A carneirada socretina anda tão habituada a ser comandada, que pensa que os outros seguem «líderes», como eles fazem. Aliás, só essa sua necessidade em seguirem determinados lideres, explica a sua resistência em serem tosquiados pela direita reformista, pois tudo era mais pacifico e fácil quando o Pinto de Sousa era o responsável pelo corte do pêlo.

  11. o problema dos comunas é ainda viverem na clandestinidade, não poderem expressar livremente opinião e jamais abandonarem o partido com medo de verem partido o parabrisas do carro. depois dá nisto, são todos apartidários de esquerda que recitam o avante e rezam profecias do ganda camarada gerómino ou do outro partido em fase de geminação.

  12. Este tipo de discurso é assassino para quem o profere. Triste Vital Moreira, que está já tão toldado de “mundanismo” europeu e “cosmopolitismo” discursivo que nem se apercebe de que a plateia para quem ele pensa estar a falar já não existe. Ou melhor, existe, sim, mas já não lhe presta atenção nenhuma. Ele que experimente candidatar-se ao Parlamento Europeu com um alfinetezinho “Novo Ciclo” na lapela, a ver até onde “penetra” no eleitorado, com mais ou menos “ideias geniais” de taxas e larachas. Que falhado…

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