Vinte Linhas 757

Fernando Grade – 50 anos depois do primeiro livro

O primeiro livro de poemas de Fernando Grade foi publicado em 1962 pela Guimarães Editores e o seu título é «Sangria». Não o tenho mas celebro a efeméride com outro livro: «A+2 = Raiva» de 1970, editado pela Difusão Dilsar na colecção Edições do Autor.

Trata-se de uma poesia que fala de si mesma. Umas vezes na perspectiva do «eu»: «Tenho a minha poesia boa e também a má / a alcoólica, a maníaca, a pervertida / com sangue, com olheiras, com dedais de fazer lume». Outras vezes num olhar mais «geral»: «Dizem que a poesia já começou a retirar-se para casas de chá / que vai destruir a charrua e o martelo / que vai deixar de ter filhos / de distribuir panfletos pelas tabernas / que vai deixar de ser parva.»

Outros poemas vão recensear o som do Mundo. Seja em Lisboa como o poema sobre o menino de 18 meses encontrado a vaguear nas ruas da Mouraria: «Pouco se sabe do mais que a vida trouxe / à sua carne em embrião (coitada!) / apenas a tristeza no olhar / acusava todos nós de uma só vez. / Ah, é verdade / coisa patriótica: / a criança já falava português.» Ou seja em Estalinegrado com Raissa Solovieva, a rapariga dos morteiros: «Tu eras a rapariga dos morteiros, a moça que trazia os cabelos soltos pela nordestia. Tinhas uma cereja cobalto a bailar nos olhos e, no ventre, uma gaivota sem praia, sem maresia. Podias ter ficado quieta ao pé das lesmas, à lareira ou vivendo do último beijo (quando nem o primeiro deste) ou na dúvida de ter alguns mortos heróicos na família. Mas partiste para mastigar a neve ou não fosses a rapariga russa dos morteiros. Ficaste para sempre de olhos abertos, tendo na língua o azul do trigo e das balas. O teu corpo misturou-se com as ervas sem nome, com os bichos da estepe e o sangue bom corria num arbusto de neve». Parabéns, poeta! 50 anos – é obra!

12 thoughts on “Vinte Linhas 757”

  1. a poesia tem mesmo de ficar sempre de olhos abertos e com o azul do trigo e das balas na língua. e é este, aqui, o teu contributo Zézinho. nunca esqueças. :-)

  2. “Por isso os aviso nesta minha última crónica de inventário e despedida…”

    mais uma promessa que não cumprida

  3. Obrigado Olinda, leste bem o meu texto anterior «Exortação final aos animais» que nada tem a ver contigo. Um abraço JCF

  4. «Exportação final aos animais»
    tás com azar oh linda, esse pugrama é só para vacas certificadas. liga prá cricas e diz que te chamas floripes, pode ser que pegue.

  5. Ó CONAMAIM, e tu que és, senão um animal selvagem sem destino? Que não largou as «berças» da malvadez, da maledicência e, também, do ridiculo? Oube, bê um bideo do ti zé martins pá, tu toma cudádo, que cuntinuaze a crescere na ignurãncia. querez lidar cum palabras pá, mas se tu não tens palabra, cumo podes lidar cum as mesmas, safado? Hein?

    OLINDA, baie às caldas, cumpra a caneca, que pelo menos essa nunca fica murcha, nem impotente nem grelo espigado, e na mobiflore tá tudo ocupado.
    pede ao zezinho que te dê um cerificado pra baca, que ele cunhece bué da malta nas feiras de eispozição de animais de quatro patas.

  6. «há muitos pobres que nem sabem ler»

    Pois, podem não saber ler as letras dos «ricos» como tu, pouco se ralando com isso, até porque, de fato, o que lhes interessa é outra riqueza – a da alma, alimentada pelo contrario da gula, da inveja, da reclamação, da vitimização, da vaidade, do protagonismo, da mentira. Ó pázinho, os pobres a que te referes são de fato pobres dessas coisas todas que abundam em ti e te dão uma consciência tão RELES, mas digna de pena. Aprendeste alguma coisa com isto?!

    Grande anormal. O deserto produz mais do que tu.

  7. “Por isso os aviso nesta minha última crónica de inventário e despedida…” – ontém

    … e quando já todos pensavam que o bronco ia a caminho do auto-exílio na benedita, ficamos a saber que foi um erro de leitura dos pobres.

    “Ok foi apenas para clarificar as coisas, há muitos pobres que nem sabem ler.” – hoje

  8. Xico: confere aqui com a gente se és pobre.
    Se 2 quadras tiverem alguma coisa a ver contigo és muito pobre.
    Se mais de 2 quadras têm a ver contigo és demasiado pobre e estás a precisar do rendimento mínimo.

    Comprar romances bem caros,
    não ler e com muita lata,
    usá-los como anteparos
    ou para matar barata!

    Não é ter frio ou calor,
    nem comer o que aparece,
    é o chamar de doutor
    os ricaços que conhece!

    Guardar cueca furada
    velha e com muito sarro,
    para depois ser usada
    p’ra passar cera no carro!

    É não qu’rer gastar dinheiro
    pôr-se sempre na retranca,
    conhecer o jornaleiro
    p’ra ler os jornais na banca!

    Pôr póster do clube amado,
    um fervoroso lagarto,
    ali bem dependurado
    na parede do seu quarto!

    Mesmo sem ser convidado
    e sem ter qualquer engulho,
    ir a festa ou baptizado
    só p’ra encher o bandulho!

    Que tal? Acertei em cheio?

    ANTES QUERO NÃO TER DINHEIRO QUE SER POBRE! LIVRA!

  9. ehehehehehhe, fantástico, fantástico. ehehehe

    Toma lá uma adaptaçãoe do ôtore «apitócumvóio», in consonância com o status quo do bronco da benedita

    Chupa Chupa Judite
    Chupa chupa judite
    Qu’este gelado rançoso
    É feito de pevide

    (Refrão)

    Há gelado de pevide
    Baunilha e abacaxi
    Ó bizinhas do meu bairro
    Venham todas chupar aqui

    Tenho gelado de banana
    Um fruto da minha vinha
    Mas aqui tenho um gostoso
    Que eu guardei p’rá bizinha

    OLINDA OLINDAl
    Queres marrecos e parvitos
    Só encontras espigados
    Pra entretrer os grelitos

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