Dissonância cognitiva – modos de usar

Sócrates, entre outras originalidades sociológicas, deu azo um colectivo fenómeno de dissonância cognitiva que afectou, e continua a afectar, o País de modo transversal; e onde nem mesmo os militantes e simpatizantes socialistas escaparam numa qualquer parte significativa. Resultou da estratégia clássica, milenar, de assassinato de carácter que foi escolhida pelos seus inimigos, do Belmiro ao Cavaco e passando pelos pavões da imprensa, onde se foi até à inaudita violência de se ter mesmo iniciado o processo da sua criminalização sem qualquer matéria de facto. Como essa golpada não obteve a cumplicidade do Procurador-Geral, saiu uma outra novidade canalho-política pela mão do Zé Manel e da Casa Civil, com o alto patrocínio das pastelarias da Avenida de Roma. Seguiram-se as comissões de inquérito parlamentar e a própria consulta de escutas ilegítimas de conversas privadas na Assembleia da República. Pelo meio, os processos relativos ao Freeport e ao seu passado escolar e profissional foram permanentes fontes de difamação e calúnia. O que há de notável neste longuíssimo carnaval é a adesão pública da elite partidária da direita, multiplicada pelos magotes de comentadores transportados para os meios de comunicação social, a uma campanha destituída de qualquer conteúdo político passível de ser analisado e discutido. Esta direita partidária não tinha ideias, programa ou mera decência. O único e obsceno objectivo era este: marcar Sócrates, a ferro e fogo, com o sinal do crime.

Naturalmente, dada a parafernália de acusações lançadas, mais o estatuto dos acusadores, mais a duração do bombardeamento, era irrealista esperar que a comunidade tivesse capacidade de resistência intelectual e moral. Nenhuma teria, muito menos esta onde a influência do PCP e BE confirmava os suspeições da direita através do imutável discurso sectário que faz do PS, faça lá o PS o que fizer, um coio de corruptos ao serviço do imperialismo. Foi durante o período eleitoral de 2009, e num crescendo até às eleições de 2011, que se deu uma espectacular dissonância cognitiva de que não há memória na História de Portugal. Consistiu em cercar um governante, também líder partidário, de suspeições em catadupa, alimentadas com violações de privacidade e deturpação documental, de modo a provocar na opinião pública uma convicção de culpa. Ao mesmo tempo, as autoridades, que teriam a responsabilidade de agir em conformidade com as supostas ilegalidades cometidas, não validavam as suspeitas. Judicialmente, Sócrates nunca foi sequer arguido, antes vendo a sua inocência atestada em vários inquéritos ao seu passado. Politicamente, o Presidente da República não dissolveu o Parlamento alegando falta de condições para a governação nem a oposição apresentou uma moção de censura que tivesse a honorabilidade do primeiro-ministro como fundamento principal, secundário ou lateral. Deste modo, as imparáveis campanhas negras decorriam na comunicação social e na baixa política, beneficiando todos os partidos da oposição, mas não existia qualquer consequência lógica no plano institucional. Havia um reles criminoso a governar Portugal, mas o regime aguentava estoicamente esse fardo porque… se tinha ainda de reeleger Cavaco e só depois ir para eleições na melhor janela de oportunidade para a direita.

Hoje sabemos, e sabemo-lo quotidianamente, que aqueles da Política de Verdade e do falar verdade aos portugueses são os mais mentirosos que já passaram pelos cargos que ocupam. São, factualmente, os mais mentirosos, pois foram aqueles que usaram a categoria verdade como se fosse posse sua e como arma caluniosa. São aqueles que provocaram um estado de alarme social, dizendo que todas as informações do Governo PS e dos institutos públicos ao tempo estavam falsificadas caso aparecessem com dados positivos ou até menos negativos do que eles pretendiam. São aqueles que dominando a comunicação social debocharam alarvemente com a acusação de existir uma asfixia democrática que estava a pôr a liberdade de expressão em risco. São aqueles que mentiram nas respectivas campanhas eleitorais com um desplante e radicalidade inimagináveis. São aqueles que se permitiram dizer, como Portas e Relvas entre tantos outros exemplos, que o PS tinha de fuzilar o seu líder se quisesse continuar a pertencer ao círculo da gente séria, chegando à velhaca ofensa de indicar os nomes que gostariam de ver à chefiar o PS. Como se Sócrates fosse o único a merecer castigo e os restantes governantes e militantes socialistas um bando de alimárias que o rei do crime manipulava como lhe dava na gana. E tudo isto nos transporta para a contemplação do que sentiram e pensaram todos aqueles, mais as suas famílias e amigos, que não abandonaram Sócrates ao longo dessa tortura de anos. Quando saíam à rua cruzavam-se com vizinhos e estranhos que os olhavam como cúmplices desse monstro imoral e corrupto. A dissonância cognitiva tinha atingido a fase da massificação.

Porém, contudo, todavia, a suprema dissonância cognitiva consiste em achar que é preciso ser do PS – correcção, ser socrático – para denunciar a vil degradação da política e do espaço público a que assistimos desde 2007. A suprema dissonância cognitiva, pois, consiste em levar os cidadãos a odiar a cidade.

20 thoughts on “Dissonância cognitiva – modos de usar”

  1. Nem mais. É exactamente isso. E ainda há mais uma coisa notável que resulta do longuíssimo carnaval: é que os himalaias de acusações e suspeitas, ao longo de anos e anos de espionagens e armadilhas, nem um rato pariram, dando origem a uma nova personalidade mítica: José Sócrates, o Génio do Crime…

  2. Tudo o que diz é o óbvio para qualquer pessoa racional.
    O que espanta é o facto da actual direcção do PS ser absolutamente incapaz denunciar a situação e de assumir a governação de Socrates, quer os seus erros (poucos) quer as suas virtudes(muitas).
    É lamentável que seja o BE a defender as políticas de Socrates, como o investimento na educação.
    A forma como a direcção do meu partido aceita, sem pestanejar, a narrativa da crise ser culpa do governo anterior (socialista) é verdadeiramente lamentável.
    Abster-se na votação do orçamento rectificativo, que consagra as mentiras desta troika, (portas,louça, passos) e a ideologia de direita reaccionária, é um insulto aos 1500 000 eleitores PS.

  3. Não poderia estar mais de acordo com esta crónica.
    Só a história nos irá dizer o quanto este povo foi enganado e continua sendo quer pelos pseudo-governantes quer pela informação ou melhor pela desinformação.
    Aqueles palhaços ditos governantes reúnem de vez em quando e devem atirar moedas ao ar para tomarem decisões que depois não são escritas e ficam somente nas cabeçorras deles. Só assim se compreende que tenham dito que o subsídio de férias e de Natal era até 2013, coisa repetida pelo Gaspar há poucos dias, e depois venha esse palhaço do Passos dizer que é até 2015 (ano de eleições) e às prestações e o gaspar venha dizer que foi um lapso ter dito 2013.
    Filhos duma coisa que eu cá sei.
    Ordinários, mentirosos, aldrabões, vigaristas e corruptos.

  4. ignatz, aconteceu aqui uma grande desgraça: a vodafone retirou-me a velocidade por causa dos abusos musicais cometidos aqui no aspirina. E eu, que estva tão imbuída do espírito pascal, vejo-me a tentar há cerca de meia hora passar o grande easter parade com o fred astiras e tudo e desisti. Isto é a humilhação suprema, mas consegues espetar com a cena aqui? (eu depois vou ouvindo aos bocadinhos)…só retomo a normalidade na 2ª feira, que a páscoa não é oara andar em brincadeiras…(ai, eu que tinha já aqui uma playlist tão linda).

  5. ai que análise tão bem feita, tão esmiuçada. e é curioso pensar na dissonância cognitiva como arma de manipulação de massas. resta saber se usar sem agitar resultará como previsto – estou certa, sinto, que não. :-)

  6. “o ano de 2015 é o ano imediatamente consecutivo a 2014”

    o 33 rotações diz isto em frente de 230 deputados e não há uma alma que o mande pró caralho

  7. mandamos nós…também disse que se tinha enganado a dizer o ano em que terminava a suspensão dos subsídios de férias e rnatal…ai, era 2015, não 2013, enganei-me (herrar é umano, sobretudo quando o desbocado do coelho veio pôr a boca no trombone sem autorização do chefe Gaspar)), mas o que me irrita neste palerma é que julga que estamos todos ao nivel dele. Já disse e repito: pior do que me irem ao bolso é tratarem-me ao nível deles, i.e., PARVOS.

  8. bem escrito…será que finalmente Portugal começa a desconfiar do logro em que caiu ??? foi feio, é feio…mas o pior de tudo é que quando esta gente se for finalmente embora, não restará pedra sobre pedra neste país!!! teremos voltado 30 anos atrás…e isso é gravissimo !!!

  9. Permito-me aconselhar o visionamento da intervenção de António Costa ontem, na Quadratura do Círculo”, a propósito do chumbo do PEC IV e do recurso à ajuda externa. Não é apenas o facto, já em si infelizmente raro, de um actual dirigente do PS descrever o que realmente se passou, deixando a nu todas as tretas que a direita, com o apoio de uma comunicação social devidamente orquestrada nos quer, quase diariamente, fazer engolir. O que é notável é que, nem Pacheco Pereira, nem Lobo Xavier, rebateram (no caso de Pacheco, bem pelo contrário) as afirmações (factuais, diga-se) de António Costa.

  10. José Pires:

    Antecipou-se à minha intenção de deixar um aviso idêntico. Uma das mais interessantes Quadraturas do Círculo de sempre, e sou ouvinte/espectador do dito programa desde a versão radiofónica que precedeu o seu actual formato. Deve estar a aparecer aqui (e a SIC só fica a ganhar com isso, mas ainda não deve ter percebido):
    http://www.youtube.com/user/sabin80s

    Há muito tempo que António Costa me parece à altura do mais elevado cargo deste país (se o lugar sobreviver ao actual inquilino). E para mais, para não fugir sequer ao tema deste post, ainda me lembro da sua rejeição liminar do (muito antigo, hoje esquecido) projecto de gabinete pidesco de «vigilância da Internet» que em tempos era suposto funcionar sob a batuta do governo. Isto para nem sequer mencionar o favor pessoal que lhe devo por me ter poupado uma longa deslocação para depor como testemunha, graças ao sistema de video-conferências que implementou nos tribunais. Os portugueses nunca esquecem estas pequenas coisas, e aliás como lisboeta também não estou desiludido.

    Pacheco Pereira, é claro, continua igual a si mesmo, cumprindo os seus ciclos previsíveis, provavelmente cansado daquelas patacoadas que vai colher à Internet para preencher a sua restante programação televisiva, hoje felizmente livre de asfixias. Neste momento, sem dúvida ainda na ressaca dos tremendos segredos que conseguiu espiar em nosso nome através das escutas ao Napoleão do Crime, mas agora não quer revelar a ninguém, está na fase de rejeição do novo Governo de Salvação Nacional e de adesão subtreptícia ao mundo contrafactual que teria resultado do socratismo com rosto humano, i.e. do plano Sócrates sem o malvado asfixiador, sob a batuta de Manuela Ferreira Leite, o maior génio das finanças desde Aníbal e os Elefantes.

    O Lobo também lá esteve mas já não está tão mau, nem acusa nenhum ausente de falta de carácter. Por momentos até me pareceu que estava de facto com saudades do famigerado plano que ia arruinar os portugueses, coisa extraordinária que me impressionou vivamente.

  11. Escrevi eu: «E para mais, para não fugir sequer ao tema deste post…»

    Referia-me ao comentário de José Pires sobre um programa que frequentemente vejo na Internet, a não ao post original de Val. Mas para voltar ao post em si:

    «Porém, contudo, todavia, a suprema dissonância cognitiva consiste em achar que é preciso ser do PS – correcção, ser socrático – para denunciar a vil degradação da política e do espaço público a que assistimos desde 2007. A suprema dissonância cognitiva, pois, consiste em levar os cidadãos a odiar a cidade».

    Esta observação é perspicaz e muito a propósito do interesse de que se reveste o que podemos chamar, sem nenhum desprimor para o visado, o «caso Sócrates».

    Pessoalmente, a opinião que formei sobre o nosso ex-primeiro ministro, durante e depois da sua governação, é a de que, independentemente de contextos que dele não dependeram, ou dependeram em pequena e certamente não exclusiva medida, desempenhou as suas funções de forma razovelmente superior à dos seus predecessores, com inteligência, honestidade e apreciável eficácia. Tão simples como isto, para lá de todas as possíveis discordâncias em matéria de ideologias abstractas ou políticas concretas, incluindo as de longa data com efeitos muito negativos, mas que despertaram acordos praticamente unânimes até à crise em que nos encontramos atolados.

    A questão verdadeiramente intrigante é esta: parece-me razoável supor que a principal razão por que Sócrates desperta adesões veementes, não só junto dos que apoiaram todos os aspectos da sua governação, como junto de muitos que nunca o fizeram, é o furor inaudito com que os seus inimigos o abominam e desejariam poder arruinar ou eliminar, fisíca ou moralmente, por qualquer meio ao seu alcance.

    Recordemos que jornalistas houve que publicamente apelaram ao seu assassinato — presumivelmente com sorrisos de esguelha, mas não deu para ver e nem todas as inteligências leitoras são particularmente críticas — bem como políticos que não hesitaram em o apontar aos seus próprios filhos, invocados sem a mínima timidez ou compunção como potenciais candidatos ao prémio Morozov, como objecto de óprobrio nacional que devia passar a sê-lo também no seu ambiente familiar.

    Mas a que será devido este último ódio mortal de estimação? A única explicação que consigo encontrar tem a virtude da simplicidade: Sócrates revelou-se um temível adversário nos debates parlamentares em que, aliás, insistiu com louvável regularidade, bem como nas entrevistas conduzidas pelas nossas habituais luminárias mediáticas, mostrando-se invariavelmente bem preparado, acutilante e — last but not the least — bem educado, saindo vencedor por knock-out com uma regularidade impressionante.

    Para cúmulo dos cúmulos preferiu, não uma nem duas vezes, mas como sistema, guardar o silêncio sob ataque, em seu próprio prejuízo (caso do debate eleitoral com o mentiroso profissional Passos Coelho em que resistiu estoicamente a revelar o encontro de S. Bento sobre o PEC-IV), sempre que sentiu que responder comprometeria a sua palavra ou os interesses do país. E essas coisas não se perdoam. Não se podem nem poderão jamais perdoar.

    Em minha opinião — e posso estar enganado, é só uma opinião — a monstruosa intoxicação é tal que Sócrates deixou de facto de ter futuro político. Mas será que toda esta gentinha odienta se esqueceu que o Sócrates que criaram ainda lhes vai ser mais prejudicial que o Sócrates que por pouco não conseguiram destruir?

  12. Muito bem, Gungunhana.

    “Esta gentinha odienta”, para além de acéfala, é como o célebre escorpião da conhecida anedota da râ: é assim, porque assim é a sua malévola natureza. É deixá-la morrer de asfixia, sofrendo dores atrozes, quando um dia se deixar finalmente picar pelo seu próprio ferrão.

    E o “caso Sócrates” ainda agora está no começo. Prevejo que venha, brevemente, a simbolizar um dia uma das maiores fases de convulsão e ruptura políticas a ocorrer em Portugal após o 25 de Abril: muito provávelmente não ficará pedra sobre pedra, dos escombros de (quase?) dez anos de ignomínia nacional, sob a batuta amoral e acívica do Grande Sonso, cavaco silva.

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