Fazendo pareceres e projetos de lei enquanto se é alvo de decisões ilegais: do direito à palavra

Escrevo pela segunda vez sobre uma tal de “advertência” que foi decidida sobre a minha pessoa pela direção da minha bancada.
Kafka.
Por muito menos, para me concentrar apena nos problemas nacionais, ficaria calada. Uma história desta dimensão, tão manipulada, tão soviética e finalmente tão ilegal, impõe que eu fale, a bem da democracia interna dos Partidos, a bem do estatuto dos Deputados, a bem, portanto, da democracia. Isto ultrapassa-me, portanto.
Vamos por pontos:
1. Vários deputados do PS já furaram a disciplina de voto;
2. eu furei, no meu entender, apenas uma vez, na especialidade, no que toca aos cortes dos subsídios e pensões (estava tão louca que no processo que anunciei de fiscalização da constitucionalidade, dos 23 deputados, 17 eram socialistas crentes na nulidade das normas em causa);
3. na semana passada, houve uma reunião do GP de enorme violência verbal. Sobretudo por causa dos estatutos. No que toca ao CT foi opinião generalizada de que não havia disciplina de voto. Zorrinho mantinha a interpretação contrária, mas tudo parecia calmo. Eu anunciei voto contra na generalidade e muitos outros voto contra na final;
4. já expliquei que soube pela imprensa que António José Seguro encontrou a causa da permanente instabilidade no GP: uma independente sem história.
4. nada como punir a cobaia e fazer dela (junto da opinião pública) a única divisão no GP, sem mencionar um único notável (forte com os “fracos”?);
5. soube pela SICN do “comunicado da direção”: a Deputada em causa violou uma regra fundamental e fica advertida de que se reincidir perde a confiança do GP.
6. Zorrinho haveria – e assim foi – de falar comigo;
7. de onde vem o poder disciplinar aplicado a uma independente? Foi-me dito – juro – que como não tinham como punir-me “transferiram o poder em causa do partido para o GP”, o que não tem base legal nem estatutária!!!!
8. Perguntei por que não houve lugar a audiência prévia da “castigada”. Como há 8 meses houve uma conversa vaga sobre “coisas”, está feita. Repliquei que considerar-me ouvida neste caso à conta de uma conversa de há meses sobre outro caso era um argumento recorrente no Estado Novo;
9. perguntei por que razão só eu e não todos os Deputados que já furaram a disciplina de voto tinha sido sujeita ao circo. É que há uma coisa chata que se chama p. da igualdade. Responderam-se que tinha razão pelo que a igualdade começava hoje (!!!) (Não foi no 25 de Abril?)
10. exigi o texto da decisão e a votação (quantos contra, quantos a favor). Nada. Já descobri que a advertência foi contestada por quase todos os membros da direção pelo que foi lá “metida” por uma só pessoa (ou muito poucas), apesar de estar em funcionamento um órgão colegial (!!!).
11. finalmente disse que sabia que servi de bode expiatório de um desgoverno que não foi causado certamente por duas únicas votações;
12. desgraça esta do PS que inaugurou processos internos deste calibre sob a liderança de quem defendeu anos e anos a liberdade de voto quase sem exceções e que furou a disciplina de voto sempre que entendeu (era a consciência, como na lei do financiamento dos partidos políticos e no tratado de Lisboa). Nada lhe aconteceu.
13. É caso para dizer “faz aos outros o que nunca me fizeram”.
14. Ainda assim, amanhã, depois da reunião de GP de hoje à noite, cá estarei a dar tudo por tudo nas funções que me são atribuidas.

Mais igual que os outros

O secretário-geral do PS, António José Seguro, anunciou, esta quinta-feira, o fim da disciplina de voto no grupo parlamentar socialista, muito embora estas regras se mantenham em matérias de governabilidade.

«Tudo o que tenha a ver com Orçamento de Estado, moções de censura ou confiança ou aquilo que são as nossas promessas eleitorais naturalmente que aí tem de haver disciplina de voto», afirmou Seguro na sua primeira reunião com os deputados do PS após ter sido eleito líder do partido.

Julho de 2011

 

“Sou um defensor de que a regra de votos no interior dos grupos parlamentares seja o da liberdade de voto e não o da disciplina de voto”, defendeu o deputado do PS.
Para Seguro, “a disciplina de voto deve existir exclusivamente para as questões da governabilidade e para o contrato eleitoral”, aplicando-se no resto a liberdade de voto para os deputados.
“Há muitas pessoas que se escondem na disciplina para, muitas das vezes, não terem que optar e nós vivemos num momento da vida política nacional em que todos devemos optar”, sublinhou.

Novembro de 2011

 

Mas a anunciada unanimidade nas alterações à lei do financiamento dos partidos transformou-se num consenso com evidentes sinais de divisão no PS, PSD e CDS.
Apesar das reservas, feitas em surdina por vários deputados, na hora da votação o único a levantar-se contra a lei foi o socialista António José Seguro, que rompeu a disciplina de voto da maioria.

Abril de 2009

 

O chumbo da maioria do PS aos projectos de criminalização do enriquecimento ilícito apresentados pelo PSD e pelo PCP foi seguido de uma declaração de voto do socialista António José Seguro, que também votou contra os projectos para cumprir a disciplina partidária.

Abril de 2009

 

PS e PSD chumbaram ontem, na Assembleia da República, os projectos de PCP, Bloco de Esquerda e CDS para realizar um referendo ao Tratado de Lisboa. Um chumbo com direito a dissidências notórias nas duas maiores bancadas da AR. Entre os socialistas, Manuel Alegre e António José Seguro furaram a disciplina de voto – apesar de terem informado Alberto Martins antecipadamente, que anuiu -, acompanhados por mais quatro deputados.

De todos, António José Seguro foi quem levou a sua posição mais longe, ao votar ao lado dos projectos de referendo apresentados na AR e que PS e PSD chumbaram, ao passo que Manuel Alegre, Pedro Nuno Santos (líder da JS), Teresa Portugal, Júlia Caré e Manuel Mota abstiveram-se, tendo anunciado declarações de voto. Seguro, que começa a ser visto como o rosto mais visível da alternativa interna a José Sócrates, garantiu que votou “de consciência tranquila, o mais importante nesta vida”.

Fevereiro de 2008

Mesmo sentindo a sua liderança parlamentar fraca, o PS tem de falar do país em vez de inaugurar decretos ditatoriais

Sabe quem leu as notícias acerca da última reunião do GP que Zorrinho foi violentamente confrontado com vários pontos entre os quais estes: 1) um grande número de Deputados entendiam não haver disciplina de voto no CT pois aquele CT não constaria dos nossos “compromissos eleitorais”; 2) Estatutos.
Como muita gente, anunciei que entendia não estar preenchida a norma da disciplina de voto, pelo que votaria contra. Muitos se seguiram na mesma linha, com a única diferença de que eu votaria contra logo na votação na generalidade e os restantes na votação final global (todos pressupondo que o CT na versão final não seria o da nossa vontade).
Zorrinho defendeu a abstenção na generalidade e eventualmente o voto favorável na votação final.
Quando cada um foi dizendo que não havia disciplina de voto, discordando do líder, e que votaria assim ou assado, Zorrinho disse nada. Nunca, durante horas de reunião, mencionou a hipótese de sanções (de resto inéditas a sucederem).
Votei, pois, sossegada.
Com surpresa, leio no Expresso uma estratégia: só eu defendera a indisciplina, o voto contra, eu era a prova da união do grupo, havia que analisar o meu comportamento.
No mesmo dia, no Público, Vieira da Silva defende que na véspera não havia disciplina de voto.
Neste clima, sem nunca ser ouvida, sem nunca me defender, vivi num mundo virtual: as notícias.
Ontem vejo a Anabela Neves a ler isto.
Estava feito. Mais uma e perco a confiança da bancada.
Tenho pena desta inauguração.
E tenho dúvidas:
Por que é que só o meu comportamento foi “avaliado” e não o de outros que já furaram a disciplina ou anunciaram um furo futuro?
Esta ameaça é apenas dirigida à minha pessoa ou sou instrumento útil (sem peso no PS) para ameaçar todos os que juraram votar contra o CT na votação final?
O que quer dizer Zorrinho (SICN) com “ela é uma deputada recente”? Tenho menos direitos? Está instituido o sistema de castas? Ou sente-se assim tão fraco o líder que se atira à independente sem força para causar estrondo?
Como explica Seguro toda uma campanha a gritar pela liberdade de voto e um passado olímpico a furar a disciplina de voto (v.g. lei do financiamento dos partidos políticos ou tratado de lisboa), época em que invocava “objeção de consciência” sem consequências?
Por mim, podem continuar a usar-me como figura-tipo de tantos outros deputados, mas lembrem-se do que há dias uma pessoa disse: a “liderança conquista-se, não se decreta”.
E de caminho, virem-se para o país. As pessoas não percebem isto.

Decência e sanidade neste chiqueiro malcheiroso

Noronha do Nascimento é uma lufada de decência e sanidade neste chiqueiro malcheiroso. Um senhor. Ainda bem que resta alguém como ele entre as principais figuras do Estado. Ao seu lado, gentalha como Cavaco dá vómitos. É alguém como Noronha do Nascimento que é necessário colocar em Belém, depois de lá se varrer o actual inquilino e se desinfectar as instalações.

Ainda recordo a entrevista safada a que em Fevereiro de 2010 Noronha do Nascimento se submeteu na RTP, conduzida pela ordinária Judite de Sousa. A ordinaríssima Judite que por essa época se permitiu dizer: “Sou levada a crer que Sócrates emprenha pelos ouvidos”. E que largou também da boca fora, como uma regateira de baixo coturno: “Sócrates é agressivo comigo por causa do meu marido”.

Pois essa gajolas permitiu-se na referida entrevista acusar directamente o presidente do Supremo de estar a “lavar as mãos como Pilatos” (na questão das escutas que Noronha tinha mandado destruir e alguém se recusava a cumprir) e acusá-lo, assim como ao procurador-geral da República, de “parcialidade política e negligência”. Para cúmulo da provocação e da degradação de uma profissional da TV pública, a reles Judite chegou a perguntar ao presidente do STJ se ele achava que ainda tinha condições para continuar a exercer o cargo…

A tipa não só revelou nessa inesquecível entrevista todo o seu partidarismo político, toda a sua histeria anti-Sócrates e anti-governo, como mostrou ostensivo desrespeito por uma alta figura do Estado. E tudo isso porque o presidente do STJ tinha frustrado os interesses políticos golpistas de que ela e a Moura Guedes eram militantes e o pasquim Sol o órgão oficial.

Pois o olímpico Noronha do Nascimento lidou pacatamente com a ofensiva provocadora da reles, calando-a, ponto por ponto, apenas com a sua serena razão e a sua consciência tranquila. Domou a besta e desarmou-a sem levantar a voz nem precisar de se indignar.

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Oferta do nosso amigo Júlio

José Luís Peixoto integra os 50 nomes que influenciaram hábitos de leitura em Portugal (Revista Ler)

José Luís Peixoto (n. 1974) começou por chamar a atenção de quem gosta de ler com um livro de 2000 – «Morreste-me». Mas já antes este texto tinha surgido no DN – Jovem. Sendo um comovente testemunho sobre a memória de seu pai (José João Serrano Peixoto) era também muito mais – a beleza dum artesanato de palavras que leva o leitor a ler o pai como se fosse o filho, o pai de novo pequenino e de novo a dormir o sono da infância.

Em «Cal» não há apenas tangentes de vida e morte, amor e ódio, vazio e esperança mas também versos que não esquecem como «o céu das hortas é maior que o Mundo». José Luís Peixoto escreve na cidade com a luz do campo, transporta o tempo interior de Galveias, os seus leitores sabem que ele será sempre o menino do primeiro ano da Telescola, essa pureza que permanece nunca será corrompida por nada nem por ninguém. O silêncio e o seu volume, o branco da cal e o seu peso, a terra lavrada e o seu cheiro, tudo se incorpora nas linhas do texto porque aqui a Geografia vale tanto como a História.

Em «Nenhum olhar» há o resgate de uma morte por suicídio na secura do Alentejo, tal como em «Cemitério de pianos» morre em Estocolmo o maratonista Francisco Lázaro nos Jogos Olímpicos de 1912. A grande literatura pode fazer esse milagre: misturar medo, culpa e arrependimento numa mesma memória confusa que salta do coração dos homens para as páginas dos livros. É essa fidelização que um vasto público novo criou para com a sua escrita.

As noites parvas do PSD

Há pouca paciência para ver televisão ultimamente. A verdadeira asfixia impera agora, não dantes – o Governo, a comunicação social e o PR mal se distinguem e é tudo muito mau. Não vi Marcelo, mas Seguro tratou de lhe amplificar as matreirices, diabruras e arquigolpadas habituais com que se diverte, pelo que foi impossível não saber o que disse no domingo. Para além de suspeitar que talvez o país e os socialistas em particular lhe venham a agradecer a alfinetada (ou picada de escorpião) dada em Seguro, para grande contrariedade do laranjal, o comentário mais pertinente que me ocorre não pode ser outro que não este: que veleidade poderá ter este homem de um dia ser candidato a PR? Seria a intriga e a má língua permanentes e institucionalizadas! Um tiro no pé e uma aflição para os seus correligionários, que saltaram logo para as televisões a elogiar Seguro.

Foi o caso de Ângelo Correia, na SIC-N, em noite de especial parvoice, que leva uma pessoa a duvidar da realidade. Este senhor resolveu dar uma de analista psicológico a propósito de José Sócrates (who else?), afirmando não haver maior prova do seu ego enorme e arrogância enquanto líder do que a adoção do nome Sócrates em vez de Pinto de Sousa, renegando assim a família e as origens (!), para que toda a importância se concentrasse nele próprio (claro está que, segundo ele, Seguro é muito diferente!).
Ângelo, que também é Correia, padece de um mal chamado inveja. Sem o Correia do pai (presumo), o seu nome seria, de facto, uma boa piroseira.
Acontece que uma mãe que dá ao filho o nome de Sócrates, e em Portugal, não está certamente à espera que o mesmo seja ignorado. Pensava num grande homem e o mínimo que se pode dizer é que a aposta não saiu de todo gorada.

Vinte Linhas 755

A Epopeia do Silêncio – ou todos os nomes por dizer

Uma das coisas mais estranhas no nosso quotidiano é a diária sucessão de mortes que nos entram pela casa dentro à conta da televisão. Quarenta mortos em Bagdad, trinta mortos no Paquistão, vinte mortos no Afeganistão, cinquenta mortos na Síria, dez mortos em Beirute, mais quinze mortos na Faixa de Gaza. Este primado do número sobre o nome lembra-me de imediato os textos de Celestino Gomes que me habituei a ler no jornal Diário Popular. Sobre o anonimato recordo uma crónica: «Heróis? Sim. Um milhar deles ou mais, mártires anónimos de quem só as velhas mães, as viúvas e os filhos ficaram rezando os nomes, estorcegados das vagas ou estilhaçados das granadas traiçoeiras, comidos dos caranguejos ou enrolados nos limos, de olhos abertos até ao dia-de-Juízo. Há um rol interminável, uma leva fantasmal de navios perdidos, engolidos no fundo da nossa recordação: o Afriana, o Catalina, o lugre Aveiro, o Douro, o Gaia, o lugre Minho, a barca Neptuno, o Pádua, o Santa Irene cobardemente massacrado na costa de Itália, o Fidelidade, o Maria da Glória, o Portugal. Alguns salvaram-se das agonias horríveis, abraçados à fé do Senhor Jesus dos Navegantes. Estão lá as ingénuas pinturas votivas, na parede do Seu altar, um século dessa triste história trágico-marítima de que o chãozinho de Ílhavo foi sempre a camarinha e o convés: «Ofersido ao snr. Jasus pelos tripulantes da Barca Violeta» ou então «Milagre que fez o sr. Jesus a este suplicante e seus companheiros que vendo-se cançados no extenso oceano pediram ao sr. Jesus que os levasse a terra de providência». Quem sabe agora quais eram esses heróis desconhecidos, salvando do mar irado apenas a lusíada da sua alma, que era só de Deus, ou marujos de Naus-Catrinetas que os anjos desatentos não tomaram nos braços e deixaram afogar?

Loucos do meu país

Desde que comecei a escrever neste blogue, em 2005, que imagino estar a ser lido por não mais do que vinte pessoas. Sei bem que há outros números, mas para mim são simbolicamente vinte aqueles que escolhem gastar por aqui o seu tempo, tal como o poderiam fazer num café ou tasca. E, tal como numa tasca ou café, bar ou adega, os vinte espalham-se pela sala; uns nas mesas, outros ao balcão, uns jogando às cartas, outros na conversa, uns a sonharem acordados, outros sem conseguirem acordar dos pesadelos que trazem. Pois bem, vou pedir um momento de atenção geral para me ajudarem. Preciso de saber se ainda conservo a sanidade mental ou se enlouqueci. Ora, leia-se esta transcrição do interrogatório que o inspector Marcelino fez ao suspeito Noronha do Nascimento:

As escutas foram destruídas, de facto?

Isso agora escapa-me. O juiz de instrução criminal de Aveiro, daquilo que vi no processo, é um juiz tecnicamente muito bom. Mandou destruir três lotes que lhe chegaram. O último [lote] já não foi com ele. Não sei se foram destruídas, não faço ideia. As de Aveiro foram destruídas, tanto quanto sei. Já ouvi dizer entretanto que, depois disso, haverá outras cópias perdidas. O que é uma história mal contada, como é óbvio.

Mal contada porque não será verdade ou mal contada porque será mesmo verdade? Porque admito que seja verdade…

Mas não acredito que tenham sido encontradas meio perdidas. Porque é que há, constantemente, violações de segredo de justiça? Porque há coisas que ficam escondidas ou que ficam retidas.

E porque a justiça não cuida bem dos segredos que tem também a seu cargo…?

Provavelmente. Agora, porque é que nunca veio para a opinião pública o conteúdo das escutas, que, afinal, se descobriu agora que têm duplicados? Porque, provavelmente, não interessa. Aliás, é talvez a demonstração, digamos, da irrelevância delas, e esse foi um dos fundamentos para ter mandado destruir imediatamente as escutas.

Sente-se completamente confortável e à-vontade com as decisões que produziu?

Nunca tive problema de consciência em relação a isso.

*

Perante estas declarações, das duas uma. Se estiver louco, não há nada nelas de incrível ou, para sermos exactos, de impossível. Nem sequer serão graves, podendo ser ignoradas por todas as autoridades nacionais, todos os deputados, todos os magistrados, todos os partidos, todos os jornalistas, todos os cidadãos. E se não estiver louco? Nessa eventualidade, o que aqui temos é isto, senhoras e senhores: o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o Juiz-Conselheiro Dr. Luís António Noronha do Nascimento, do alto dos seus 50 anos dedicados à Justiça, afirma ser prática corrente o desvio de documentação processual por parte de magistrados e/ou funcionários judiciais para efeitos de violação do segredo de Justiça ou perfídias obscuras – e, acto contínuo, invoca essa realidade como prova suprema da bondade da destruição das escutas por si ordenada. Repare-se como a menção à estrita legalidade do seu acto não foi suficiente, teve de se apoiar na violação da Lei para demonstrar a licitude da sua decisão.

Se não estiver louco, então, o que Noronha nos está a dizer é que isto onde pagamos impostos pode ter muitos nomes, mas Estado de direito não é um deles.

E há mais. E pior.

Continuar a lerLoucos do meu país

Ética na economia

Imagine this. You have a brilliant idea for how to reverse the effects of aging in female infertility, a wonderful combination of drugs that you have been developing in your lab with your graduate students, and that will open the possibility of motherhood to hundreds of thousands of women who waited just too long to conceive. You have done your Math, your Chemistry, you have developed the model explaining why your idea works. You have tested it in mice. You have tested it in pigs. You got 90% success. You have very little doubt that it works in humans too. If only you could test it… Now imagine that this is 1925, there are no Institutional Review Boards, no Ethics committees to go through, no clinical protocols.

(…)

As you deploy your experiment among those women, you observe that not only it fails to produce the results you expected, but it also accelerates the process of aging: within 9 months, those 40-something women suddenly look like they are 60 years old. You scratch your head, and go back to the drawing board trying to understand where your beautiful model went wrong. You don’t feel bad for those women, after all they were willful volunteers;

(…)

Now imagine this. You have a brilliant idea for how to generate value in economic markets, a clever combination of bets on future values that you have been developing in your lab with your graduate students, and that will open the possibility of riches to a whole breed of entrepreneurial financiers, as well as to entire economies by trickle-down effects. You have done your Math, you have developed a model that explains why your idea works. You have simulated it using powerful computers. You got 90% success. You have very little doubt that it works in real economies too. If only you could test it. Well, it’s 1995, there are no Institutional Review Boards for Economics, no Ethics committees to go through

Aqui

Eixo do fascismo

Hoje vi com tranquilidade mais lixo televisivo. Não esperava que fosse tão intenso no programa animadíssimo, com pessoas que gosto genuinamente de escutar, concordando ou não, como o Pedro Marques Lopes e o Daniel Oliveira (hoje ausente).
O programa discute a semana política pelas gargantas dos seguintes: Clara Ferreira Alves, Daniel Oliveira, Luís Pedro Nunes, Nuno Artur Silva (moderador) e Pedro Marques Lopes.
Acho agradável o espírito de ironia do programa.
Acho que todos os comentadores devem preparar-se antes de comentarem com arrogância um fato político.
Acho que um comentador que revela, e bem, um substrato ideológico, como o do horror a tiques de classe, o da exigência de igualdade do desconhecido e do conhecido, do licenciado e do analfabeto, tem de ser consequente.
Hoje, nada disso aconteceu. Uns pecaram por acção, outros pela conivência vergonhosa.
Lembro-me de ler o famoso retrato feito à Clara Ferreira Alves, mostrando-a como uma fraude, e de achar aquilo horroroso, maldoso, altivo, fascista, mesmo.
Hoje, nos dois pontos que salientei há pouco, todos disseram que era “incompreensível” haver no PS quem quisesse votar contra o CT porque “era o memorando”. E depois riram muito e disseram que era a cena dos socráticos.
Se aquela gente até é paga e tudo, será pedir muito que sejam inteligentes e não engulam o argumento do voto a favor antes de lerem o memorando comparando-o com o CT? Eu sei que dá trabalho, mas evitavam caluniar pessoas na televisão e mentir à gargalhada.
Depois, o Pedro Nunes e a Ferreira Alves referiram-se à minha pessoa como “uma tal de Isabel Moreira” que veio defender o Sócrates em vez de ir para a frente.
Referiam-se à minha reacção às declarações do porta voz do PS. Para além de terem mentido, mais uma vez. Eu defendi a necessidade de não cair nessa armadilha de estarmos presos ao passado, coisa que Seguro anda a fazer, tendo assim defendido Seguro – mostraram a sua verdadeira natureza.
São elitistas, fascistas sociais, falam de igualdade dos pobres porque é bonito, mas uma Deputada não pode ser só a Isabel Moreira. Não. É “uma tal”. Como se não tivesse passado. E mesmo que não tivesse. Mas antes de se criticar diz-se “uma tal”, porque afinal somos todos iguais, menos para sermos objeto de comentário político: temos de estar na política há 20 anos e então somos gente comentável sem “uma tal”.
Que o Pedro Nuno e a Clara F Alves tivessem este olhar ora fascista ora combatentes pela igualdade conforme adivinham as audiências, eu já sabia.
Entristece-me o silêncio do Pedro Marques Lopes a ouvir um fascismo verbal destes calado, quando andou a dissertar sobre os censos às fundações com o parecer (de uma tal) de quem?

António Lobo Antunes foi escolhido entre os 50 nomes que levam mais portugueses a ler

Com «Memória de Elefante» de 1979, António Lobo Antunes (n.1942) iniciou um percurso literário que veio conquistar (primeiro) e a consolidar (depois) muitos leitores fiéis, assíduos e apaixonados. Logo nos primeiros livros, este autor dá pouco relevo aos elementos habituais do romance (intriga, espaço, personagens) para «fazer avultar o tempo, que hesita entre a temporalidade humana e uma duração rítmica onde o silêncio é ainda intervalo, ou o dito da pausa, do escuro, do que se ignora» – como afirma Maria Alzira Seixo.

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A purga

Eis o que se lê por aí, pelos jornais, pela pena de colunistas encartados, provavelmente inspirados nos fabulosos Marques Mendes e Marcelos das nossas televisões: Seguro tem que proceder a uma purga no PS para se poder afirmar como líder da oposição. Nem mais.
Subjacente a esta opinião está a ideia assaz imaginativa de que Seguro tem potencial para ser um ótimo líder e só não o desenvolve devido aos obstáculos criados ou às pressões exercidas pela bancada socratista. Uau!

Esta mensagem, veiculada com total desonestidade por quem devia ter juízo para fazer melhores análises, não passa, observada no dia a dia a prestação pública da criatura, de poeira atirada aos olhos dos mais incautos e permeáveis a spins e, na prática, mais não pretende do que facilitar a vida a Passos, mantendo Seguro à frente da oposição.

Seguro tem tido oportunidades de ouro para mostrar o que vale, o que pensa, o que quer. Fala ou cala-se quando quer e sobre o que quer. Ninguém o impede, ninguém o obriga. Apesar de isso ser indesmentível, quase não houve, até à data, uma oportunidade que este homem não tivesse desperdiçado: falando ou calando-se, a imagem que transmite é a de alguém sem carisma nem personalidade, que não pensa grande coisa sobre coisa nenhuma e, quanto ao que quer, a única coisa que se percebe é que quer ser líder do PS, porque é giro, porque se reúne com líderes estrangeiros, porque o Pedro também é e porque sim. Ah, e quer também conquistar “pelo coração e os afetos” as bases do partido, entendendo-se por isso uma espécie de operação de adormecimento coletivo, a única com aparente sucesso.

Vendo bem, as reações na vida real, fora das “bases”, ao que faz e diz alternam entre a vergonha, os sorrisos amarelos, as expressões intrigadas, o encolher de ombros, a frustração, a desilusão, a troça ou, enfim, a resignação de quem acha que o mal é transitório, mas necessário. De facto, “uma desgraça” é o comentário mais comum ao desempenho de Seguro, proferido inclusivamente por quem votou nele.
Vale a pena recordar duas ou três pérolas desta ameaçada ostra: “Irei fazer uma abstenção violenta”; “Senhor primeiro-ministro, desafio-o para um debate a dois” (enquanto debatia… e a dois); “Não respondo (parado, frente a uma jornalista, no Parlamento, sobre a votação na generalidade da lei laboral e a disciplina de voto). Dou a palavra ao líder do grupo parlamentar, mas se a senhora jornalista quiser ouvir-me, convide-me para uma entrevista na SIC”. E outras declarações igualmente eloquentes, silêncios incompreensíveis sobre temas determinantes para a sua afirmação e programas extraparlamentares totalmente descabidos em relação às tensões políticas do momento.

Qual a responsabilidade dos “socráticos” em tal desastre, gostaria que os ditos comentadores nos explicassem. Em que é que o seu silenciamento contribuirá para a melhoria da qualidade da matéria-prima Seguro, também gostaria que fizessem a fineza de explicar.
Insurgir-se contra a inépcia e o ridículo é apenas um sinal de que há quem não tenha ainda desistido daquele partido. Mas há grande risco de cisão.

Impressionar sem amêndoas, brilhar sem ovinhos, seduzir sem folares

Dating Violence Common by 7th Grade, U.S. Survey Suggests
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Study Shows People Know More Than They Think They Do
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With you in the room, bacteria counts spike – by about 37 million bacteria per hour
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Informal Awards Contribute to Higher Wikipedia Participation
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Computer System Identifies Liars
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Study Shows How Tearjerkers Make People Happier
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Bacteria Use Chat to Play the “Prisoner’s Dilemma” Game in Deciding Their Fate
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Could We Derive Benefits From Ingesting Placenta?
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iPad Brings New Wave in Doctor, Patient Communication
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Mass Privatization Put Former Communist Countries on Road to Bankruptcy, Corruption
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Bees ‘Self-Medicate’ When Infected with Some Pathogens
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Dogs May Lower Stress and Increase Productivity in the Workplace
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Conservatives’ trust in science has declined sharply

O seguro da direita

Carlos AndradeE o mandato do secretário-geral?

António CostaNão é o mandato do secretário-geral. É uma coisa mais curiosa, que é indexar a estabilidade dos mandatos partidários à estabilidade dos mandatos externos. O que faz, por exemplo, esta coisa extraordinária que é, cada vez que o Presidente da República dissolva a Assembleia da República, dissolve simultaneamente a Direcção do Partido Socialista. Imagine-se, com a anterior Direcção do PS, como o Presidente da República teria precipitado rapidamente, ainda mais, a dissolução do que aquilo que fez…

Quadratura do Círculo

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A aprovação dos novos estatutos do PS revela exuberantemente o modus operandi de Seguro. O campeão da exigência de transparência na política nacional foi para o Congresso dizer que o combate à corrupção era uma das suas prioridades, avisando que os primeiros corruptos que gostaria de varrer estavam no seu partido, daí a necessidade de filtrar a porcaria com um peregrino Código de Ética ainda a ser marinado. Acerca da sua pretensão de alterar os estatutos, não disse nada de nadinha de nada. Meses depois, consumou algo nunca antes visto no PS. Este gajo, portanto, é perigosíssimo.

Seguro está a seguir como líder a fórmula que seguiu como candidato a líder. Ele blinda a sua posição através do silêncio e diminui a força dos adversários negando-se ao confronto. O seu aliado principal é o tempo, que usa para ir agregando apoios discretos. A sonsice é o seu estilo e a hipocrisia o seu desporto. A famosa capacidade de resistência é apenas a couraça de um homem cuja ambição é tão grande que já se cristalizou em armadura que o deixa imune às emoções, afectos e razões de terceiros. Este gajo, portanto, é perigosíssimo.

Se dúvidas existissem, basta ouvir os pedidos que Seguro recebe dos gaseados agentes laranjas. No tempo de Sócrates, Seguro deixava-se usar à fartazana por Relvas para fazer chicana, permitindo verdadeiras ofensas ao PS. Agora, recebe conselhos para lidar com os socráticos, para se aguentar, para acabar com essa raça. O seguro da direita, de resto, já tinha posto a nu a sua essência política quando foi o único deputado socialista a aplaudir o que Cavaco fez no comício da tomada de posse. Que os militantes o tenham eleito secretário-geral, é lá com eles e que se fodam todos juntos. Mas, para o cidadão apaixonado pela cidade, este gajo é perigosíssimo.