As noites parvas do PSD

Há pouca paciência para ver televisão ultimamente. A verdadeira asfixia impera agora, não dantes – o Governo, a comunicação social e o PR mal se distinguem e é tudo muito mau. Não vi Marcelo, mas Seguro tratou de lhe amplificar as matreirices, diabruras e arquigolpadas habituais com que se diverte, pelo que foi impossível não saber o que disse no domingo. Para além de suspeitar que talvez o país e os socialistas em particular lhe venham a agradecer a alfinetada (ou picada de escorpião) dada em Seguro, para grande contrariedade do laranjal, o comentário mais pertinente que me ocorre não pode ser outro que não este: que veleidade poderá ter este homem de um dia ser candidato a PR? Seria a intriga e a má língua permanentes e institucionalizadas! Um tiro no pé e uma aflição para os seus correligionários, que saltaram logo para as televisões a elogiar Seguro.

Foi o caso de Ângelo Correia, na SIC-N, em noite de especial parvoice, que leva uma pessoa a duvidar da realidade. Este senhor resolveu dar uma de analista psicológico a propósito de José Sócrates (who else?), afirmando não haver maior prova do seu ego enorme e arrogância enquanto líder do que a adoção do nome Sócrates em vez de Pinto de Sousa, renegando assim a família e as origens (!), para que toda a importância se concentrasse nele próprio (claro está que, segundo ele, Seguro é muito diferente!).
Ângelo, que também é Correia, padece de um mal chamado inveja. Sem o Correia do pai (presumo), o seu nome seria, de facto, uma boa piroseira.
Acontece que uma mãe que dá ao filho o nome de Sócrates, e em Portugal, não está certamente à espera que o mesmo seja ignorado. Pensava num grande homem e o mínimo que se pode dizer é que a aposta não saiu de todo gorada.

60 thoughts on “As noites parvas do PSD”

  1. Há medida que o tempo passa e José Sócrates não lhes responde, os idiotas de serviço vão despejando cabotinices. Desta vez foi o terrível Angelo “treinador” a meias com Ilidio Pinho da ascenção do Coelho aos píncaros. Os cães ladram…

  2. Penélope, esse amor platónico pelo Sócrates não nos deve impedir de ver a realidade. O Sócrates real fez asneiras, e algumas bem grandes, embora em seu abono se deva concordar que as maiores foram aquelas que lhe valeram elogios de quase todos os quadrantes. Um bom exemplo disso é a aposta exclusiva em energias alternativas incomportáveis, em detrimento da energia nuclear, gigantesca asneira essa — em parte de longuíssima data, é verdade — que lhe valeu elogios até de Medina Carreira, a conhecida vedeta mediática, aliás profundamente ignorante das matérias involvidas, como quase toda a população deste país.

    Em minha opinião, um dado a ter em conta neste momento é que, com ou sem destruição das sicutas, o Sócrates está politicamente arrumado. A sua relevância não pode ser a de futuro centro activo de resistência ao retornismo falsamente liberal — na realidade reviralhista e para-fascista — que estende os seus tentáculos a tudo o que é poder potencial mas sim a de mártir, simbólico e congregador, frente a esse mesmo desejo infrene de poder por todos os meios que vemos escorrer das palavras babadas, com outras substâncias ainda mais viscosas, pelos cantos da boca do eng. Correia.

  3. “… profundamente ignorante das matérias involvidas…”

    bom exemplo oh nhanha, já agora mudaste o 1/2 relles para assumir o totalitarismo das partes?

  4. Xenofonte Meirelles: Energia nuclear?! Mas que ideia. Neste momento, todos os países que possuem centrais, mesmo os que não se situam em zonas de risco sísmico, querem ou veem-se obrigados por pressões dos ambientalistas a acabar com elas. E você poria uma aonde? Junto à sua casa?
    Quanto ao resto, o Seguro não presta e a culpa é do Sócrates, querem ver? E quem protesta contra a incompetência está a ser manipulado por Sócrates. Please.

  5. Prezada Penélope:

    Claro que poria uma central nuclear perto de minha casa muito mais depressa do que poria uma central a fuelóleo ou carvão como as que nos servem. Não só seria muito mais limpo, como muito mais seguro.

    O aspecto «limpeza», i.e. segurança no dia a dia com a produção de energia a funcionar normalmente, daria toda uma longa exposição favorável (e de muito longe) à energia nuclear, que não seria fácil fazer aqui.

    Se duvida do aspecto «segurança» e está a pensar nas eventualidades catastróficas, infelizmente impossíveis de eliminar por completo, aconselho a seguinte experiência:

    1) Procure duas listas de desastres de responsabilidade humana em dois livros de recordes “Guiness” com uma ou duas décadas de intervalo entre si.

    2) Anote os respectivos números de acidentados por tipo de catástrofe, como sejam: rebentamento de barragem, fumos de carvão, incêndio de petróleos, explosão de gasolina, mina de carvão, explosão de gás, plataforma petrolífera, fusão de reactor nuclear, enfim, tudo o que encontrar. Se quiser acrescente até categorias de acidentes sem relação com a produção / utilização de energia, como sejam: acidente de avião, fabrico de pesticidas etc..

    3) Compare as listas com alguns anos de permeio e tire conclusões.

    Para lhe facilitar a tarefa aqui vai a lista de fins de 1987, pela ordem acima indicada:

    — 5.000 mortos (Morvi, Índia, 1979).
    — 3.900 mortos (Londres, 1952).
    — 500+ mortos, 4.000+ feridos (Cidade do México,1984).
    — 500+ mortos (Cubatão, Brasil, 1984).
    — 400+ mortos (Índia, 1975).
    — 215 mortos (La Rapita, Espanha, 1978).
    — 123 mortos (Mar do Norte, 1980).
    — 31 mortos (Chernobyl, 1986) [*].
    — 583 mortos (Tenerife, 1984).
    — 2.500+ mortos imediatos, 200.000+ feridos/cegos (Bhopal, Índia, 1984).

    Procure agora a última lista à disposição na Internet e compare, tendo presentes as datas (e, já agora) os megawatts de energia produzidos por cada um dos métodos em consideração.

    Diga coisas, se lhe apetecer.
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    [*] Chernobyl (unidades em voga em 1987; se quiser informação mais compreensiva, sugiro «Chernobyl and the Safety of Nuclear Reactors in OECD countries», OCDE 1987):

    1) 31 mortos, na sua maioria bombeiros, sujeitos a doses maciças de radiação durante o combate ao incêndio na central nuclear acidentada.

    2) Proximidade de 30 km: Nenhuma vítima mortal. 116.000 evacuados, 24.000 dos quais receberam doses da ordem dos 45 rem. Entre estes, é provável o resultado nas 3 ou 4 décadas subsequentes, de 100 a 200 casos da cancro em excesso (sobretudo da tiróide), o que representa um pequeno acréscimo em relação à ocorrência normal do cancro.

    3) URSS ocidental e Escandinávia: Os habitantes poderão ter recebido doses superiores a 10 mrem, por vezes doses equivalentes a uma radiografia ao tórax (25 mrem), sendo possível — mas duvidoso — que isso represente um minúsculo aumento do risco de contrair cancro (aproximadamente igual ao de fumar dois únicos cigarros durante toda uma vida).

    4) Europa central: Os habitantes poderão ter recebido doses de 1 a 10 mrem.

  6. Odysseus Meirelles: Para além do facto de a construção e arranque de uma central nuclear serem caríssimos, sugiro-lhe que leia estes factos sobre a energia nuclear:

    “On April 26, 1986 the No. 4 reactor at the Chernobyl power plant (in the former U.S.S.R., present-day Ukraine) exploded, causing the worst nuclear accident ever. 30 people were killed instantly, including 28 from radiation exposure, and a further 209 on site were treated for acute radiation poisoning.
    The World Health Organization found that the fallout from the explosion was incredibly far-reaching. For a time, radiation levels in Scotland, over 1400 miles (about 2300 km) away, were 10,000 times the norm.
    Thousands of cancer deaths were a direct result of the accident.
    The accident cost the former Soviet Union more than three times the economical benefits accrued from the operation of every other Soviet nuclear power plant operated between 1954 and 1990.”
    […]
    “Some of these radioactive isotopes are extraordinarily long-lived, remaining toxic for hundreds of thousands of years. Presently, we are only beginning to observe and experience the consequences of producing nuclear energy.”

    Para ler mais: http://www.wagingpeace.org/menu/issues/nuclear-energy-&-waste/nuclear-energy-fact-sheet.htm

  7. Escrevi eu: «… os megawatts de energia produzidos por cada um dos métodos em consideração». Mas melhor dizendo, é claro, «megawatts de potência». Quando se fala, por exemplo, numa central de 1.000 megawatts, o que estamos a dizer é que a central é capaz de manter essa potência sempre que necessário.

    Como sugestão de visualização das grandezas envolvidas, considere que para produzir 500 megawatts-ano de energia são necessárias quantidades da ordem dos 3 camiões de combustível nuclear ou 19.000 vagões ferroviários de carvão.

    O custo humano anual por várias formas de produção de energia e por central de 1.000 MW (megawatts) em normal funcionamento, era, em fins da década de 80 e segundo a American Medical Association, o seguinte (mortos / estropiados):

    Carvão: 20 a 300 / 100 a 300
    Fuelóleo: 2 a 100 / 90 a 180
    Gás natural: 0 a 2 / 20
    Nuclear: 1 a 3 / 7 a 40

    A origem da radiação média que o corpo de um cidadão britânico absorve, segundo o British National Radiological Protection Board, igualmente em fins da década de 80, é a seguinte:

    Background natural: 67,6 %
    Irradiaçao médica: 30,7 %
    Fallout (precipitação de poeiras): 0,6 %
    Origens diversas: 0,5 %
    Exposição ocupacional: 0,45 %
    Emissões da indústria nuclear: 0,15 %

    Poderemos dizer, é claro, que hoje em dia — como as próprias centrais nucleares — uma central a carvão segue critérios mais estritos ou uma célula solar é mais eficiente, mas não duvide que a diferença, tanto em matéria de limpeza como de segurança e –last but not least — viabilidade pura e simples, atendendo às necessidades das sociedades civilizadas, continua abismal em favor da energia nuclear.

  8. Penélope:

    Tenho de tirar uns olhos a uns ciclopes, num par de blogues próximos, mas voltarei a este em breve para comentar os seus números da WHO, de modo que continue a tecer no seu tear encharcado de cinzas, partículas microscópicas, óxidos de enxofre e de azoto, arsénico e outros produtos corrosivos que causam danos permanentes ao sistema respiratório e à pele, e têm uma acção cancerígena garantida, produzidos pela central a carvão aí do seu bairro, junto à qual tanto gosta de viver, que eu voltarei logo à noite.

    E evite dormir com algum pretendente! Lembre-se que absorvemos muito mais radioactividade uns dos outros que de todas as centrais nucleares do planeta. Sobretudo dos vegetarianos por causa do carbono 14, ainda pior que o potássio 40 igualmente radioactivo no sangue de todos nós.

    Para ajudar a matar o tempo, tente fazer o teste Guinness que lhe recomendei e mande umas bocas sobre o assunto, se possível.

  9. penelope, porque é que as rendas da energia são tão altas, e porque é que a fatura que nós consumidores pagamos é o que é?

  10. oh anoRRmal! é por que os gajos do psd andam a roubar ou será que ainda não percebeste que quem manda naquilo é o mexia & companhia, queres que te conte como foderam o preço da energia eólica com engenharias financeiras escabrosas para pagares nos próximos 20 anos com hipóteses de revisão para cima. sabes quem empochou por conta no início dos contratos? investiga e depois faz perguntas que eu respondo-te. mas uma dica, está em curso uma operação semelhante com o nuclear.

  11. meirrelles,
    importavas.te muito de ter um filho meio vegetal, com vagas parecenças físicas com um ser humano? E importavas-te muito acerca do sofrimento desse ser, ou não tanto, tendo em conta as estatísticas?

  12. bingo!… tenho uma filha 1/2 naba que anda a filmar os fuckushimados lá no sítio, se calhar encaixa no perfil.

  13. se calhar não perguntavas. só levas mais conversa quando estudares o assumpto e confessares em que partido votas, se o pster sexy da porta da tua retrete é da odete santos, da aiveca ou da apolónia, versão heloísa e se antes de te deitares esgalhas uma pívia com um vídeo do gerómino ó do louceiro d’esquerda. até lá não há mais pão pra malucos que se afirmam de esquerda e lêem um caralho qualquer que é economista da moda.

  14. ignatz, não brinques, como é que tu,tão sagaz (não brinco), tens uma filha meio naba? Nãmacredito.
    (bom, pai tem direito a utilizar os termos mais extremos com amor).
    O que eu acho é que isto já não são as noites parvas do psd, mas do aspirina, que também tem direito, poistáclaro…

  15. se fosse esperta estava a fazer filmes em hollywood, todos temos os nossos tempos de nabice militante. no meu tempo chamava-se utopia, tu chamas-lhe noites parvas do psd, quem sou eu para discordar da animadora cultural do aspirina.

  16. Penélope:

    Muito brevemente, aproveitando uma aberta e antes de lhe enviar um comentário aos números de Chernobyl segundo a WHO, deixe-me dar-lhe um exemplo do que quero dizer com o «teste Guinness». Considere, por exemplo, o primeiro caso que referi (mas não deixe de proceder analogamente para os outros envolvendo carvão, etc.).

    Em finais da década de 1987, o pior desastre histórico envolvendo uma barragem hidroeléctrica tinha sido o de Morvi na Índia (1979, 5.000 mortos), mas nao é só no mundo em desenvolvimento que acontecem (por exemplo: barragem de Vaionte, Itália, 1962, 2.000 mortos).

    Tinha ouvido falar no desastre de Morvi? Não, é claro. Então e no desastre de Banqiao, China, 1975? Também não?

    Vejamos primeiro a única catástrofe nuclear desde Chernobyl, a da central de Fukushima, resultante de um tsunami. O mais interessante no caso de Fukushima é que, apesar do escasso número de vítimas resultante da radioactividade, vai ficar na história como mais uma imensa catástrofe nuclear, como a de Three Mile Island que fez 1 (uma) vítima, um cardíaco que teve um ataque ao assistir a um noticiário televisivo. Este comentário a um artigo está bem visto:
    http://bravenewclimate.com/2011/03/13/fukushima-simple-explanation/

    «According to the writer and editor who approved th[is] summary, “An explosion at a nuclear power plant on Japan’s devastated coast … made leaking radiation, or even outright meltdown, the central threat menacing a nation.” Apparently aftershocks, fires, broken dams, washed out highways, lack of clean drinking water, damaged sewer systems, destroyed airports, and at least a thousand known fatalities are not as much of a threat to the nation of Japan as the possibility that a few people might be exposed to a radiation dose that is roughly equivalent to the ones administered every day as part of routine medical procedures».

    Imagine do que não será acusada a indústria nuclear holandesa se um tsunami fizer desaparecer metade da população da Holanda e encontrar alguma central nuclear no seu caminho…

    A única coisa de que podemos ter a certeza é a de que jamais serão tomadas em consideração estatísticas do tipo «vítimas por kilowatt-hora» que comparem os diversos tipos de produção de energia de forma relevante, incluindo todos os dados.

    Voltando ao Guinness para comparar a frequência e gravidade de, e alarme gerado por, vários tipos de desastres, vejamos então o que se passa com as barragens (sem dúvida, quando possíveis, óptimas opções, em regra melhores e mais seguras que o carvão ou o fuelóleo). Aqui está o que se passou em Banqiao:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Banqiao_Dam

    “Casualties — According to the Hydrology Department of Henan Province, in the province approximately 26,000 people died from flooding and another 145,000 died during subsequent epidemics and famine. In addition, about 5,960,000 buildings collapsed, and 11 million residents were affected. The death toll of this disaster was declassified in 2005.”

    Alguém ouviu falar em Banqiao? Rebentou algum escândalo em 2005? Alguém sabe que um estudo realizado em 1974 pela universidade da Califórnia mostrou que existiam 4 barragens nos Estados Unidos cujo rebentamento provocaria, em cada caso, mais de 200.000 mortos? Há pânico a propósito das barragens? Já se começou a desmantelar a do Castelo do Bode, que não é nada jovem?

    Mais daqui a bocadinho. Estou debaixo de ataque num blogue de malfeitores israelitas a propósito da aldrabice das câmaras de gás. Até já. Veritas onmia vincit.

  17. odyrelles! os mortos e estropiados de fuckoshima nunca serão conhecidos, dentro de anos haverá cálculos para todos os gostos. se dinamitares a três gorjas afogas 1/2 dos chinocas duma penada e fazes o marketung do nuclear com 5 kgs de c4 bem posicionados, poupas tempo e conversa cientóina da treta.

  18. odyrelles! se calhar fazes a festa com umas bombitas de s. joão, os amaricanos dizem que aquela porra foi feita com blocos de esquerda e tijolo de 8.

  19. Perguntou o edie: «[M]eirrelles, importavas.te muito de ter um filho meio vegetal, com vagas parecenças físicas com um ser humano? E importavas-te muito acerca do sofrimento desse ser, ou não tanto, tendo em conta as estatísticas?»

    Estou correcto ao detectar o implícito raciocínio de que os meio-vegetais com vagas parecenças físicas com seres humanos e seu sofrimento, devem ser encarados com alegria desde que não sejam monstros radioactivos a brilhar na noite atribuíveis a um modo específico de produção de energia?

    É que pegar numa câmara e filmar a infelicidade fisica / mental em Kiev num qualquer documentário ignorante para televisões de grande audiência, não é mais difícil do que fazê-lo nos orfanatos romenos ou noutro sítio qualquer, incluindo as maternidades portuguesas.

    Mais difícil é estabelecer o nexo de causalidade que se poderia encontrar nas estatísticas, coisa que não acontece no que toca aos resultados de Chernobyl, como dentro de algum tempo, a propósito dos números da WHO da Penélope, poderei informar.

    Um pouco de paciência que até estou a defender o pateta do Sócrates (que detesta a energia nuclear, como os colegas Pimentinha e Delgado Domingos, que só dizem disparates e são sempre incluídos nos debates para não se dizer que não há representação «séria» do outro lado da questão) noutro blogue. Para trás vilanagem! Arriba Sócrates!

  20. Penélope, estou de volta com o prometido comentário à sua citação.
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    “On April 26, 1986 the No. 4 reactor at the Chernobyl power plant (in the former U.S.S.R., present-day Ukraine) exploded, causing the worst nuclear accident ever.”
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    Verdade. Mas o mais relevante para comparações é considerar que o maior acidente nuclear de sempre, com tantas centrais em funcionamento ao longo de tantos anos, produzindo enormes quantidades de energia, seja tão diminuto quando comparado com outros meios de produção de energia e outras necessidades das sociedades industrializadas. Num país como a França, à data de Chernobyl, 65 % da produção de energia já era nuclear, sem qualquer problema registado (78,8 % em 2004, idem). Na Índia, onde o desastre químico de Bhopal provocou mais de 200.000 vítimas, 2.500+ das quais mortais, funcionavam lindamente 6 centrais nucleares. Na nossa vizinha Espanha, aqui mesmo ao lado, onde o maior desastre de aviação da história provocou 583 mortos, existiam 8 centrais nucleares em plena produção. Não consta que alguma oposição à «ameaça do fabrico de pesticidas» ou à «ameaça do transporte aéreo» tenha surgido, na Índia, em Espanha, ou em qualquer outro sítio…
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    “30 people were killed instantly, including 28 from radiation exposure, and a further 209 on site were treated for acute radiation poisoning.”
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    Verdade. Foram 30 e não 31. De facto exagerei quando falei em 31 mortos imediatos, porque incluí o que morreu de trombose coronária in loco (um paralelo curioso com a vítima única de Three Mile Island, um cardíaco que morreu de susto quando estava a ver um noticiário de televisão sobre o assunto). Cito:
    http://www.oecd-nea.org/rp/chernobyl/c05.html

    “… one person killed by the [Chernobyl] explosion and another who suffered a coronary thrombosis. A third person died early the morning of the accident from thermal burns. Twenty-eight other persons died later in the treatment centres, bringing the total to 31 deaths in the first weeks after the accident”.
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    “The World Health Organization found that the fallout from the explosion was incredibly far-reaching.”
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    É uma maneira de reportar as coisas. “Incredibly far-reaching” parece-me uma expressão do relator que cita, e não da WHO. Podia dizer-se igualmente: “The World Health Organization found that the fallout from the explosion was incredibly limited”. Tudo depende das expectativas, eventuais lavagens prévias ao cérebro, e intenção de assustar ou tranquilizar. Mas o que interessa é a substanciação, não é a adjectivação.

    Considere o destino das pobres renas finlandesas (parece que nem o Rudolf escapou, mas com o nariz aceso o que é que ele podia esperar das multidões com archotes e forquilhas?):
    http://johnhospers.com/Articles/NuclearPowerBestOption.pdf

    “The Chernobyl accident killed 31 people from radioactivity; an unknown number are still dying of cancer. Yet if, a month after the Chernobyl accident, one were to drink 60,000 gallons of ‘Chernobyl contaminated water,’ he would have received the same amount of extra radiation as from a simple thyroid check. Many ‘radioactive deer’ in Finland and Scandinavia were slaughtered, but the killing stopped when some people, including scientists in those countries, offered to buy and eat the meat. Since the beginning of time each of us had thousands of times more radioactivity in our bodies than the extra amount found in these deer.”
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    “For a time, radiation levels in Scotland, over 1400 miles (about 2300 km) away, were 10,000 times the norm.”
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    Cá está um exemplo. Tudo depende do perigo minimamente significativo. Dito assim, não tem significado. É muito possível que atravessar a rua multiplique por ziliões o risco de ser atropelado em relação à alternativa de ficar no passeio, atrás de um muro, a dezenas de metros do trânsito, mas que significado tem isso?

    O que é «a norma»? O background de radiação habitual? E que tipo de hábito? O de viver sobre solos graníticos (o background de radiação pode atingir 2.000 mrem/ano) ou em casas de granito sujeitas à acção do rádon? Ou o inverso disso, numa zona de baixa altitude e solos pouco radioactivos?

    Ou será antes a norma de segurança em caso de exposição vigiada? E que tipo de exposição e por quanto tempo? Para lhe dar uma ideia de grandezas comparadas: se for a exposição a um relógio de ponteiros luminosos, conte com 1 mrem/ano; se for o ar que respira, com 5 mrem/ano; se for uma simples viagem aérea Lisboa – Rio de Janeiro, com 10 mrem (devido à radiação cósmica ionizante a grande altitude); se for uma radiografia ao tórax, com 25 mrem; se for um TAC ao tórax e abdómen, com 1.000 mrem. No estado do Colorado, por exemplo, o background de radiação é de 250 mrem/pessoa/ano (e a mortalidade de cancro 120,1 por 100.000 habitantes); no estado da Florida, 120 mrem/pessoa/ano (e a mortalidade de cancro 230,5 por 100.000 habitantes). Já agora: se viver a 5 km de uma central nuclear, absorve mais 0,1 mrem/ano; se for a 80 km, mais 0,01 mrem/ano. Mas não se assuste porque a radiação interna no corpo humano anda, em média, à volta dos 35 mrem/ano.

    Mais informação aqui (desculpe o meu uso antiquado de unidades porque me estou por vezes a copiar a mim mesmo; se quiser faça as conversões assim: 1 Sv = 100 rem; 1 mSv = 100 mrem):
    http://en.wikipedia.org/wiki/Sievert#Dose_examples
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    “Thousands of cancer deaths were a direct result of the accident.”
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    Possivelmente verdade, mas enganador. É verdade que a incidência do cancro da tiróide sofreu um aumento considerável, mas a designação «milhares» só pode fazer algum sentido se consideramos as décadas seguintes, i.e. a mortalidade total, a totalidade dos efeitos, que a expressão “direct result”, não sendo falsa, pode fazer esquecer.

    Sobre os números:
    http://www-formal.stanford.edu/jmc/progress/nuclear-faq.html

    “In terms of immediate deaths it was a rather small disaster. 31 people died. Cave-ins in coal mines often kill hundreds. However, about 20 square miles of land became uninhabitable for a long time. This isn’t a lot. Fall-out from the Chernobyl explosion will contribute an increase to the incidence of cancer all over Europe. How much of an increase is disputed. Since the increase will be very small in proportion to the amount of cancer, we probably won’t know from experience. The largest estimates are in the low thousands which would make Chernobyl a disaster comparable to the Bhopal chemical plant or the Texas City explosion of a shipload of ammonium nitrate or the Halifax disaster during World War I. On the other hand these large estimates are small compared to the number who have died in each of several recent large earthquakes in countries using stone or adobe or sod houses. It is comparable to the number killed in coal mining accidents in the Soviet Union over the years Chernobyl was operating. The large estimates depend on the linear hypothesis which is almost certainly wrong but which is used for regulatory purposes because it is so conservative. The estimates are probably too high by a substantial factor, maybe 10, maybe 100. However, a recent survey indicates a greatly increased rate of thyroid cancer in children (including three deaths) in Belarus since the accident. I don’t know the total number of cases which would permit comparing Chernobyl with other accidents.”

    Conclusões sobre o impacto na saúde pública:
    http://www.oecd-nea.org/rp/chernobyl/c05.html

    “It can be stated that:

    “Thirty-one people died in the course of the accident or soon after and another 134 were treated for the acute radiation syndrome. Forty-one of these patients received whole-body doses from external irradiation of less than 2.1 Gy. [Nota: falta aqui, possivelmente por alguma confusão introduzida entre o 2.1 e o 21, o seguinte: Ninety-three patients received higher doses and had more severe acute radiation sickness: 50 persons with doses between 2.2 and 4.1 Gy, 22 between 4.2 and 6.4 Gy, and] 21 between 6.5 and 16 Gy.
    “Extensive accident-related health effects are apparent in the affected regions of the former Soviet Union, manifested as anxiety and stress, as well as diverse health effects not directly related to radiation exposure. Severe forms induce a feeling of apathy and despair often leading to withdrawal. In the rest of the world these individual effects were minimal.
    “In the last decade, there has been a real and significant increase in childhood and, to a certain extent, adult carcinoma of the thyroid in contaminated regions of the former Soviet Union (Wi940) which should be attributed to the Chernobyl accident until proven otherwise.

    […]

    “Iodine deficiency and screening, have almost certainly had an influence on observed risk factors [it] can be said that the increase of thyroid cancers in children is clearly established to be linked to exposure of radioactive iodine isotopes releases. The number of these cancers is still increasing in adults.

    “Conversely, no increase in leukaemia has been observed to date.

    “No increase of congenital abnormalities, adverse pregnancy outcomes or any other radiation induced disease in the general population, either in the contaminated regions or in Western Europe, could be attributed to this exposure sixteen years after the accident. It is unlikely that surveillance of the general population will reveal any significant increase in the incidence of cancer but continued follow-up is necessary to allow planning of public health actions and to gain a better understanding of influencing factors.

    “The present knowledge of the effects of protracted exposure to ionising radiations is limited, since the dose-assessments rely heavily on high-dose exposure. An increase in cancer rates was already observed before the Chernobyl accident in the affected areas and, moreover, a general increase in mortality has been reported in recent years in most areas of the former USSR.

    “Among recovery operation workers, no increase of leukaemia has been identified more than sixteen years after the accident.

    “Among the health consequences resulting from the Chernobyl accident, are radiological consequences, and other, non-radiological health problems. The radiological aspects have been studied in great detail since the accident, and have been well characterised, within the limits of scientific uncertainty of radiological sciences. However, increasingly, medical specialists are studying other health effects that are not associated with radiation exposure, but more with the effects of significant and prolonged stress, physical and psychological. These effects, which have been classified as “Vegetative Dystonia”, are increasingly recognised as real, but are felt to result from the social, cultural and psychological stress caused by the accident and the general social degradation that followed the accident and the end of the Soviet Union. To obtain a more exact understanding of these “accident-related effects”, it is important to expand current studies to include specialists from studies of the health and social effects of other natural and technological disasters.”

    Mais aqui:
    http://www.world-nuclear.org/info/chernobyl/health_impacts.html
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    “The accident cost the former Soviet Union more than three times the economical benefits accrued from the operation of every other Soviet nuclear power plant operated between 1954 and 1990.”
    _________

    Não é lá grande descoberta, uma vez que centrais como a de Chernobyl se caracterizavam pela sua concepção «barata» (nem edíficio de contenção minimamente robusto tinha). Note que qualquer desastre de grandes proporções implica enormes despesas na sua sequência. Em Chernobyl ocorreu o pior tipo de desastre possível numa central nuclear — a fusão do núcleo do reactor, com saída de gases radioactivos para a atmosfera — mas para isso foi necessária a suspensão intencional dos sistemas de segurança e a realização de um teste em condições de instabilidade. Esse teste destinava-se a verificar a capacidade de um gerador para alimentar sistemas de emergência e, incrivelmente, foi conduzido por engenheiros electrotécnicos pouco familiarizados com reactores nucleares que, depois de ignorarem sucessivos sinais de alarme, bloquearam, contra todas as normas de segurança, as tentativas automáticas de fecho do reactor (coisa que a simples força da gravidade assegura, se não for impedida pela acção humana). Ao que parece, o teste não tinha sido aprovado e não teve a supervisão de um especialista de reactores que nunca teria consentido na neutralização da segurança. A explosão — convencional, porque uma detonação nuclear semelhante à de uma arma nuclear é literalmente impossível numa central nuclear — só ocorreu com o reactor a trabalhar a um nível perigosamente baixo de produção de energia, depois de bloqueadas repetidas tentativas de fecho automático.

    Isto para lhe explicar por que razão acidentes como o de Chernobyl são tão raros, em teoria como na prática. Repare que em Fukushima temos uma central nuclear — imprudentemente contruída nma região altamente sísmica e directamente sujeita a tsunamis, é verdade — e mesmo assim não chegou um desastre natural de grandes proporções para ocasionar uma falha de segurança suficiente para conduzir à fusão do núcleo. Já reparou que raramente são apresentados números elevados, reais ou especulativos, sobre o acidente nuclear de Fukushima propriamente dito, i.e. separando-o dos números genéricos devidos ao tsunami e ao sismo acompanhante? Pense nisso.
    _________

    “Some of these radioactive isotopes are extraordinarily long-lived, remaining toxic for hundreds of thousands of years. Presently, we are only beginning to observe and experience the consequences of producing nuclear energy.”
    _________

    Verdade, mas, mais uma vez, enganador. A grande vantagem da energia nuclear é justamente a pequeníssima quantidade de resíduos perigosos que produz. Os resíduos de elevada radioactividade de uma central nuclear de 1.000 MW ocupam qualquer coisa como 2 metros cúbicos por ano; uma central a carvão idêntica produz várias toneladas de resíduos, não por ano, mas por minuto. Existem resíduos nucleares com diferentes graus de radioactividade e os mais radioactivos têm períodos de transformação mais curtos, i.e. quanto mais intensamente irradiam a sua energia, menos tempo permanecem a esse nível. Os resíduos de alto nível que representam qualquer coisa como 99 % da radioactividade, mas apenas 1 % do volume total, mantêm-se nesse estado durante apenas cerca de uma dezena de anos. Os que são enterrados a grande profundidade mantêm níveis médios durante algumas centenas de anos, até estabilizarem progressivamente em isótopos com os tais períodos de transformação da ordem das centenas de milhares de anos, correspondendo já a baixos níveis de radioactividade comparáveis aos do minério original extraído da terra. Tudo o que se faz é, afinal, extrair energia do minério e recolocá-lo na terra, sob uma forma concentrada, localizada e segura, vitrificando os resíduos de alto nível — certamente muito perigosos, mas por isso mesmo controlados (por serem poucos e controláveis!) como nenhum outro tipo de resíduo industrial — e selando-os em módulos de betão, a profundidades de mais de 500 metros, em zonas geológicamente estáveis onde não se verifica a presença de água há centenas de milhões de anos. A confusão entre altos e baixos níveis de radioactividade é vulgar, mas considere que a radioactividade que ocorre naturalmente, por exemplo, no subsolo dos Estados Unidos, está calculada como equivalendo a qualquer coisa como 30 biliões (“triliões” americanos) de doses cancerígenas, enquanto o volume de resíduos perigosos que a produção de energia, aos níveis actuais de consumo americano, ocasionaria durante 350 anos ininterruptos pode ser visualizado como um cubo de 65 metros de lado.

  21. Perguntou o Edie: «importavas-te muito de ter um filho meio vegetal, com vagas parecenças físicas com um ser humano?»

    Responde a Agência de Energia Nuclear da OCDE, aguardando desmentidos minimamente credíveis:
    http://www.oecd-nea.org/rp/chernobyl/c05.html

    “No increase of congenital abnormalities, adverse pregnancy outcomes or any other radiation induced disease in the general population, either in the contaminated regions or in Western Europe, could be attributed to this exposure sixteen years after the accident.”

    Será que o descaramento de uma agência internacional como esta atinge o píncaro histórico de negar os milhões de meios vegetais de aparência vagamente humana que toda a gente sabe que assolam a Europa oriental e setentrional desde o desastre de Chernobyl?

    Pior ainda, parece que o Correio da Manhã vai estender o fenómeno à Europa ocidental, publicando uma foto do Sócrates a telefonar de Paris a um nabo de 10 kg do Entroncamento. Quem somos nós para duvidar?

  22. Od. Meirelles: Deixa-me sem fôlego.
    Não consta, mesmo nada, que a eletricidade em França, por exemplo, país quase inteiramente dependente da energia nuclear, seja barata, ou seja sequer mais barata do que noutros países. Idem para a Bélgica, onde, com grandes dificuldades, o governo conseguiu protelar o tempo de vida de umas centrais. Mas estão condenadas. Enquanto os riscos de fugas forem uma hipótese plausível (e são) e as consequências para os seres vivos as que se conhecem, a energia nuclear terá sempre opositores. Evidentemente que a tecnologia pode vir a evoluir.
    Quanto à comparação com outros males, há e pode haver catástrofes de toda a ordem neste planeta onde o perigo espreita a qualquer arco de meridiano, a maior das quais, eventualmente, a que conduziu à extinção dos dinossauros. A eliminação dos resíduos nucleares é um grande óbice à generalização desse tipo de centrais.

  23. Que lenga-longa da treta… Daqui a pouco põe-se a comparar o número de mortos causados por um camião TIR desgovernado com os “ferimentos” causados pelo triciclo do meu puto em função do número de cavalos de potência, da cilindrada do motor, ou do número de passageiros transportados por cada um dos veículos. Verdadeiro “cientismo”, à Lagardère.

    Ó Merellios, és vendedor de quê? Deves andar é com muita falta de clientes…

  24. Penélope disse (=>):

    => Od. Meirelles: Deixa-me sem fôlego.

    Sim, eu sei.

    => Não consta, mesmo nada, que a eletricidade em França, por exemplo, país quase inteiramente dependente da energia nuclear, seja barata, ou seja sequer mais barata do que noutros países.

    O que consta é justamente o contrário:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Nuclear_power_in_France

    “France’s electricity price is among the lowest in Europe, however this figure should be treated with caution, since the stations were essentially built using French government sovereign debt, which is typically 3.5 %”.

    Sabe o que esta coisa de subsídios à energia lembra, não sabe? À excepção do pequeno pormenor “among the lowest prices in Europe”, é claro. E com uma outra diferença: é que os moinhos de vento e os painéis solares podem ser recomendáveis como meios complementares muito secundários, cada um com o seu tipo de limitações, recorrendo localmente a trocas com as redes eléctricas alimentadas essencialmente pelo recurso ao nuclear ou aos combustíveis fósseis etc., mas não dão, nem jamais poderão dar, conta do recado, por razões que têm a ver, para lá de todas as subvenções financeiras imagináveis, com os limites físicos da captação.

    => Idem para a Bélgica, onde, com grandes dificuldades, o governo conseguiu protelar o tempo de vida de umas centrais. Mas estão condenadas.

    Isso é como dizer que a opinão pública desinformada e os políticos que dela dependem têm sempre razão. Ora o que a história nos ensina é o contrário: a convicção sem informação vale muito pouco e a histeria colectiva ainda menos.

    => Enquanto os riscos de fugas forem uma hipótese plausível (e são) e as consequências para os seres vivos as que se conhecem, a energia nuclear terá sempre opositores.

    E quais são essas «consequências para os seres vivos»? E quais as consequências para os seres vivos da insistência nas energias fósseis, as únicas alternativas à mesma escala? E como se comparam umas e outras? Já investigou as consequências do carvão que é queimado para lhe alimentar os electrodomésticos? Ou julga que quando não há centrais nucleares à vista a electricidade aí de casa não tem consequências para os seres vivos porque nasce na tomada?

    => Evidentemente que a tecnologia pode vir a evoluir.

    Pois, mas tecnologia para captar mais energia solar do que chega até aos painéis, ou mais energia eólica do que os ventos trazem é que não evolui com certeza. E não chega, nem de perto, nem de longe.

    => Quanto à comparação com outros males, há e pode haver catástrofes de toda a ordem neste planeta onde o perigo espreita a qualquer arco de meridiano, a maior das quais, eventualmente, a que conduziu à extinção dos dinossauros.

    Não é «comparação com outros males», nem com os dinossauros. É com os males alternativos. Mas estou a ver: perigos e catástrofes colossais é connosco; agora centrais nucleares, depois de décadas e décadas de fornecimento à escala mundial da energia comparativamente mais livre de catástrofes que existe, é que nem pensar nisso…

    => A eliminação dos resíduos nucleares é um grande óbice à generalização desse tipo de centrais.

    Sim, mas não tão grande como a dificuldade de dar precedência à informação sobre a propaganda descabelada.

  25. E ele a dar-lhe…

    Pá, descabelada ficaria era a nossa cabeça, se tivéssemos posto o nucear lá em Ferrel nos anos setenta. Num País em que o (des)governo até inventa linhas férreas em Espanha que não existem, pôr-lhe um brinquedo nuclear nas unhas era o suicídio colectivo em três tempos.

    Como dizem os Bascos: ó meu reles, «NUCLEARRIK? EZ ESKERRIK ASKO!»…

    (que é como quem diz: ÁTOMOS A PARTIREM-SE AO MEIO E À BATATADA? NÃO, MUITO OBRIGADO!)

  26. Edie, tenho mesmo de explicar tudo? A discussão não é sobre se o desastre, menor e razoavelmente contido, de Fukushima contribuiu para melhorar ou piorar a felicidade dos locais e da espécie humana em geral, mas sim sobre se os desastres que a recusa de centrais nucleares implica e, pior ainda, a rotina catastrófica que passa ao lado dos anjinhos alternativos, contribuirão comparativamente para a melhorar ou piorar em maior ou menor medida (e com mais ou menos consciência disso, dada a profundidade insondável da ignorância cegueta). Já cumpri a minha missão pedagógica. Quem quiser mais, leia primeiro. Quem não quiser, não leia e vá arranjando lenha e candeeiros de petróleo lá para casa.

  27. não, não, não, por favor não expliques tudo, outra vez. Já percebemos que os estragos não nucleares são menos mediáticos, mas tens de convir que uma bomba antónia vale mais (em € e não só) que para aí três ziliões de candeeiros a petróleo.

  28. Edie:

    Sim, eu sei que começar a perceber é sempre a etapa mais dolorosa. Por isso me limito a glosar aquilo que me é sugerido, como passa ser o caso da «bomba antónia» que me lanças aos calcanhares (já me estava a ir embora desta interessante discussão), em vez de procurar explicar tudo de uma vez, coisa praticamente impossível. A única esperança é provocar o pessoal até o fazer procurar informação a sério por si mesmo…

    O que estás a fazer é a alimentar o mito mais extravagante de quantos rodeiam a energia nuclear. A saber, o que procura confundir cada reactor com uma espécie de bomba atómica disfarçada, passível de explodir acidentalmente. A probabilidade de isso acontecer é, no entanto, estritamente igual a *zero*: o material utilizado nas armas nucleares é de natureza diferente do combustível utilizado num reactor, que não é suficientemente enriquecido para provocar uma reacção em cadeia explosiva. Uma central nuclear não tem mais hipóteses de se transformar numa bomba atómica do que uma central a carvão!

    E a suprema ironia consiste no facto de uma central nuclear a funcionar em pleno, das tais cuja vizinhança poria a Penélope em pânico, emitir muito menos radiação — sim, *radiação*, aquela coisa invisível que gera híbridos semi-vegetais a brilhar na noite — do que uma central a carvão daquelas a que recorremos por a isso ficarmos reduzidos sem hipóteses alternativas. Porquê? Porque o rádio, o tório e outros radioisótopos presentes no carvão são libertados durante a combustão do mesmo e apresentam níveis de radioactividade muito superiores aos permitidos para centrais nucleares nos países onde elas estão instaladas. E assim vai o mundo.

  29. Escrevi eu, mais acima: «Repare que em Fukushima temos uma central nuclear — imprudentemente contruída nma região altamente sísmica e directamente sujeita a tsunamis, é verdade — e mesmo assim não chegou um desastre natural de grandes proporções para ocasionar uma falha de segurança suficiente para conduzir à fusão do núcleo.»

    Isto não é correcto. Houve de facto fusões em 3 dos 6 reactores que compunham a central. O que queria dizer é que apesar da violência do desastre natural (seria difícil conceber pior, se não considerarmos algum impacto de meteorito), o acidente nuclear que provocou pôde ser contido e não ocasionou um número de vítimas — incluindo *possíveis* vítimas — por aí além, o que nos diz alguma coisa sobre a segurança que rodeia a produção de energia em centrais nucleares.

  30. “… o acidente nuclear que provocou pôde ser contido e não ocasionou um número de vítimas — incluindo *possíveis* vítimas — por aí além…”

    tiveram uma vaca do caraças, inicialmente ninguém controlou nada e depois foi o que viu e vai vendo, quanto a vítimas nunca se saberá, mas vai haver números para todos os gostos. comparando com hiroshima não foi mau. como é que se podem tirar conclusões sobre factos desconhecidos? desculpa lá mas isso é conversa cientóina elaborada em recortes de jornal, quando aquela porra dá para o torto é incontrolável e os resultados imprevisíveis, no papel todos os projectos são perfeitos. os resíduos e os custos ficam para os próximos capítulos.

  31. Diz o rato vadio (*****):

    ***** «tiveram uma vaca do caraças, inicialmente ninguém controlou nada e depois foi o que viu e vai vendo, quanto a vítimas nunca se saberá, mas vai haver números para todos os gostos.»

    Pois, e o que é que isso nos diz?

    Em minha opiniao deve dizer pelo menos que nos devemos interrogar e investigar usando o nosso próprio senso crítico, comparando as diversas fontes, a sua seriedade e a qualidade dos dados que apresentam, depois de adquirir pelo menos a informação básica para poder fazer algum tipo de julgamento sobre a matéria em questão.

    Ver sem olhar, ou olhando de olhos fechados, é que não é possível. É fazer como S. Tomé e aplicar a verdadeira fé (a que nos diz que a percepção da causalidade incompreensível que move o sol e as outras estrelas, interiores como exteriores, é uma graça, inexplicável em si mesma).

    *bonk*

    O processo não é — não deve ser — diferente daquilo que fazemos quando procuramos formar uma opinião sobre qualquer outro assunto. É indiferente que se trate dos efeitos das centrais nucleares ou térmicas, do formato do planeta ou das mamas da katrina, da chuva em pleno verão sobre Lisboa ou das pétalas sobre Fátima, da prevalência maioritária («normalidade») do daltonismo ou da homosexualidade, dos malefícios criminosos da preguiça ou da pedofilia , das câmaras de gás do Hitler ou das incinerações do Churchill, dos desvios financeiros do Salazar, do Sócrates ou do Cavaco, enfim, sobre tudo e mais alguma coisa, com ou sem fracturas, mas sempre seguindo a sequência sagrada:

    Informação (toda a que for possível) => Processamento (todo o que for possível) => Opinião (ou sua suspensão se a verdadeira fé o exigir) => Revisão (regresso ao primeiro passo, sempre que houver novidades).

    É assim que deve ser.

    ***** «comparando com hiroshima não foi mau.»

    Hiroshima também não foi tão mau como podes pensar, se não considerarmos os efeitos directos sobre os infelizes habitantes que lá estavam e a destruíção de propriedade. Passado pouco tempo já lá se vivia e não se detectavam anormalidades estatísticas. Houve mesmo um desgraçado que apanhou primeiro com a bomba de Hiroshima, sobreviveu e refugiou-se em Nagasaki a tempo de levar com a outra bomba, voltou a sobreviver, e hoje ainda está vivo. Autêntico. Googla a coisa que deve ser fácil de apanhar. Mas enfim, não estou a sugerir que é boa ideia andar para aí a atirar bombas nucleares a civis. Ou a militares, diga-se de passagem, embora às vezes possa parecer boa ideia.

    ***** «como é que se podem tirar conclusões sobre factos desconhecidos?»

    Desculpar-me-ás, mas essa pergunta é gira dada a ignorância geralmente esmagadora sobre as questões que a energia nuclear envolve por parte dos seus detractores [raios partam esta ausência portuguesa do «involver» como em «those involved step forward»; com «e» parece que se está sempre a embrulhar as coisas, como fazem os chalados anti-nucleares].

    ***** «desculpa lá mas isso é conversa cientóina»

    Sim, perdoo, mas olha que é a verdadeira fé em acção. Ainda estás a tempo de te arrepender, e um belo dia contemplar o reino dos justos. Entretanto aí vai tijolo.

    *bonk*

    *****«elaborada em recortes de jornal,»

    Sim, mas quando fomos nós próprios que os escrevemos a partir de pilhas e pilhas de dados de grande (e pequena que também conta na aferição final) qualidade e de todas as bandas, não conta como malfeitoria.

    ***** «quando aquela porra dá para o torto é incontrolável e os resultados imprevisíveis, no papel todos os projectos são perfeitos. os resíduos e os custos ficam para os próximos capítulos.»

    [aqui fade-out sonoro] Informação, Ignácio, procura a informação. Não posso sepultar os blogues dos outros debaixo dos nossos tijolos. Só posso indicar caminhos. E agora vai e espalha a boa nova antes que te espete com um cacto em cima.

  32. oh nhahna! continuo a achar piada ao ar cientóino com que tentas vender as tuas fezadas sobre os benefícios do desconhecido sobre os malefícios do conhecido e a leviandade com que minimizas catastrofes. podes abanar cartões de ignorância ou manipular números avulso e outras wikipédices para argumentar que uma lixeira é mais perigosa que uma central nuclear mas não vais convencer ninguém a aceitar aquilo no quintal. tamém já tinha notado que te trocavas bués e que te preocupas muito com isso, caga na imagem.

  33. Ignácio, rato teimoso, voltaste a não perceber nada. Assim não vais longe.

    Não são «fezadas»! É a verdadeira fé, aquela que nos diz, por exemplo, que o sol amanhã se vai levantar do lado habitual (leste) e não do oposto (oeste), a menos de catástrofe astronómica susceptível de eliminar os observadores e tudo.

    E não são números avulso, são números devidamente pesados na balança dessa fé. E não são «wikipédices», como dizem os manhosos do tipo Pacheco e Carrilho; são vastas aquisições livrescas antigas e modernas.

    Aqui vai mais uma sugestão antes de tentar uma desratização total:

    1) Procura indicações, seja qual for a sua origem, sobre o número de vítimas de Fukushima, real ou especulativo.

    2) Indica-me o que conseguiste e onde.

    3) Pronto, não há mais nada. O resto será comigo se quiseres ouvir. Se não quiseres, tudo bem e acabou-se o queijo.

  34. oh mata-ratos à tijolada! já te expliquei que não há números de vítimas, nem irá haver porque nem sequer há números hiroshima que foi há um porradão de tempo e ninguém conseguiu contabilizar a coisa, 30 a 300 mil vale tudo, mas que morreram, morreram e não foram poucos. em fukushima morreu oficialmente um gajo numa explosão e o resto foram vítimas do tsunami, mas entretanto começaram a adoecer uns gajos e a aparecer umas hortaliças luminosas prontamente abafadas e proibidas pelos vizinhos . portanto vítimas da central foram o porteiro, o primeiro ministro japonês que teve de se demitir e os gajos que ficaram sem luz. afinal o nuclear é uma limpeza e a radioactividade é mais saudavel que ouvir radio sentado. já vi defender o nuclear de maneira mais convincente e com menos verdades absolutas, evitemos o irracional e no hard feelings. xau.

  35. Números mínimos então. Okay? Ou também ou não há? Por exemplo: 10. Ou 12. Ou 250. Ou 320.000. Podes começar a busca por 1 (com indicação da fonte).

  36. pronto, meirelles de múltipla personalidade e monodiscurso: rendo-me: a radioactividade, sobretudo em doses explosivas faz bem à saúde. Vamos todos exigir uma central por cada 10 cidadãos. Deixem-se de cenas alternativas: vento, sol, tretas.

    E posso pôr uma musiquinha?
    http://www.youtube.com/watch?v=doUR5KW-ii8

  37. Edie, não é monodiscurso. É multidiscurso, mas um de cada vez em cada sítio para não confundir os indígenas. Além disso não é só discurso, é discurso coerente e fundamentado. Só discurso não tem piada. Para isso vai ver televisão.

  38. Ó Meirelles, tu pareces um reles Profeta, daqueles que já acreditava em Cristo muito antes de ele descer à Terra (se é que desceu mesmo).

    Mas toma lá, não fique a falar sózinho. Repara que ninguém põe em causa a tua afirmação científicamente comprovada de que uma granada-de-mão defensiva não é perigo nenhum nas mãos de um soldado ocidental, devidamente treinado e mentalmente são (se é que essas coisas existem mesmo e não são mitos urbanos), mas o que nós estamos aqui a tentar sinalizar-te, e já estamos todos com os braços a doer de tanto chocalhar a bandeirinha vermelha de aviso (e tu sempre a falar para o retrovisor: sintoniza-te, pá!), é que a mesma granada-de-mão entregue a um chimpanzé, ainda que devidamente treindao e mentalmente são, JÁ NÃO SE PODE CONSIDERAR TÃO INOFENSIVA, precebeste agora?

    Ainda não tás a ver a coisa? Ah, queres mesmo a perspectiva cavaleira, então aqui vai: um acidente como o de Fucuxima (gosto tanto de usar o Português para os topónimos estrangeiros, que nem imaginas, assim como escrever Nova Iorque, Milão e Brandeburgo, tás a ver?) SÓ MESMO NO JAPÃO (ou noutro País cívica e tecnológicamente muito avançado, como os E. U. A., a Alemanha, a França e os escandinavos, poucos mais) É QUE TERIA O REDUZIDO IMPACTE QUE TEVE, em perdas de vidas (deixa lá “a propriedade” em paz num assunto destes, ó valha-me Deus!), percebes?

    Ou seja, resumindo mesmo o “desenho” ao esboço dos contornos, tudo aquilo que tu propalas sobre a segurança da produção de energia eléctrica em geradores nucleares até pode estar certo, mas só é válido NAS CONDIÇÕES DE PARTIDA que os citados Países proporcionam, NÃO DÁ PARA GENERALIZAR a outros ambientes menos sofisticados, estou a fazer-me entender?

    Imagina uma central nuclear num País atrasadinho como Cabo Verde, ou Marrocos, ou pior ainda, como Portugal, e pensa no que aconteceria no dia em que houvesse uma fuga qualquer no reactor, por benigna que fosse. Tens muitas hipóteses para especular, desde as questões mais internas e organizacionais – o vigilante não comunicou porque era incompetente, o supervisor não se apercebeu da gravidade da comunicação e avaliou-a mal, o responsável ocultou porque tinha, recentemente e de forma ilegal, suspendido, por razões orçamentais, um contrato de manutenção fulcral, olha, continua tu – até às questões mais jornalísticas e políticas – a tutela não deu autorização para se divulgar a notícia inicial, que ainda iria a tempo de permitir tomar medidas, a foto de satélite apareceu inadvertidamente, no “google earth”, tarde demais e gerou o pânico nas imediações, etc., etc….

    Resumindo, a energia nuclear é um “brinquedo” que até pode ser seguro e mais barato que outros, em mãos responsáveis, mas que em mãos incompetentes ou inconscientes se pode transformar num mega-pesadelo de proporções bíblicas! Qualquer pessoa com dois dedos de testa te confirmará que, para Portugal, esse é o tipo de “barato” que pode saír incomensurávelmente caro. Se é que ainda me estás a acompanhar no raciocínio…

  39. Marco Alberto Alves, vamos lá ver se percebo. O chimpanzé português, ao contrário do homo sapiens arménio ou romeno, não está preparado para entender o funcionamento de uma central nuclear, mas, para além de saber descascar bananas, está preparadíssimo para assegurar o funcionamento seguro de uma barragem hidroeléctrica ou uma central térmica e lidar com combustíveis fósseis ou produtos químicos susceptíveis de originar desastres calamitosos como os que acima indiquei. É isso?

  40. M. M. Meirelles, é quase isso. Não sei se V.ª Exc.ª é pai. Mas eu entre outras coisas também o sou e, quer numas, quer noutras, não costumo aferir a preparabilidade para a assumpção de certas, digamos, competências em função do historial de desastres anteriores. É uma idiossincrasia cá muito minha, sabe.

    Eu NÃO SEI se o chimpanzé português, no momento atual do seu “desenvolvimento”, está ou não preparado para lidar com a perigosidade e, pior ainda, com a complexidade não só da manutenção, como sobretudo da planificação e da construção de uma central nuclear. Primeiro.

    Como não sei e para ficar descansado não me basta saber que, até mais ver, ainda não nos chamuscámos com Barragem nenhuma – o que não me admira nada, pois a Engenharia Civil portuguesa em décadas idas até já foi considerada, se é que não o é ainda, das melhores do Mundo (o que significa que o chimpanzé, afinal, não é parvo de todo, ou não costumava ser) – nem nos encharcámos com o fuel-óleo nem com o carvão, então prefiro por enquanto NÃO ARRISCAR, o que me parece aliás da mais recomendável prudência. Segundo.

    Diz V.ª Exc.ª que isso nos pode saír caro e eu replico POIS QUE SAIA, QUE SOU EU QUE (TAMBÉM) PAGO e prefiro pagar para viver mais descansado, pois acho que, ao contrário de V.ª Exc.ª, viver paredes meias com uma central nuclear eleva de facto o patamar de risco para níveis incomparávelmente mais preocupantes, do que morar por baixo de uma Barragem, ou no sótão de uma central térmica não-nuclear. Terceiro…

    Agora, estou disponível para não me entrincheirar acéfalamente nesta minha posição de princípio, mas previno desde já que difícilmente alguém me convencerá de que morar um Nápoles, ou nos seus arredores Sul, perto do Vesúvio, é tão ou mais seguro do que morar junto da Estação de Atocha, ou no centro de Manhattan, ou viajar no “Costa Concórdia”, lá porque a História regista uns acontecimentos fortuitos nos últimos tempos, que se revelaram fatais para muitas pessoas inocentes, e o Vesúvio há mais de dois mil anos que não dá novas. E até tem lá uns aparelhos de monitorização, e tal, e há um plano de contingência para salvar aquela pobre gente em caso de… Lamento, mas nem sequer encontro a palavra para tal eventualidade. É apenas uma comparação possível com a magnitude do risco nuclear no presente. Capisce?

  41. Disse Marco Alberto Alves (=> … M. M. Meirelles, é quase isso. Não sei se V.ª Exc.ª é pai. Mas eu entre outras coisas também o sou e, quer numas, quer noutras, não costumo aferir a preparabilidade para a assumpção de certas, digamos, competências em função do historial de desastres anteriores. É uma idiossincrasia cá muito minha, sabe. Eu NÃO SEI se o chimpanzé português, no momento atual do seu “desenvolvimento”, está ou não preparado para lidar com a perigosidade e, pior ainda, com a complexidade não só da manutenção, como sobretudo da planificação e da construção de uma central nuclear. Primeiro. Como não sei e para ficar descansado não me basta saber que, até mais ver, ainda não nos chamuscámos com Barragem nenhuma – o que não me admira nada, pois a Engenharia Civil portuguesa em décadas idas até já foi considerada, se é que não o é ainda, das melhores do Mundo (o que significa que o chimpanzé, afinal, não é parvo de todo, ou não costumava ser) – nem nos encharcámos com o fuel-óleo nem com o carvão, então prefiro por enquanto NÃO ARRISCAR, o que me parece aliás da mais recomendável prudência. Segundo. Diz V.ª Exc.ª que isso nos pode saír caro e eu replico POIS QUE SAIA, QUE SOU EU QUE (TAMBÉM) PAGO e prefiro pagar para viver mais descansado, pois acho que, ao contrário de V.ª Exc.ª, viver paredes meias com uma central nuclear eleva de facto o patamar de risco para níveis incomparávelmente mais preocupantes, do que morar por baixo de uma Barragem, ou no sótão de uma central térmica não-nuclear. Terceiro… Agora, estou disponível para não me entrincheirar acéfalamente nesta minha posição de princípio, mas previno desde já que difícilmente alguém me convencerá de que morar em Nápoles, ou nos seus arredores Sul, perto do Vesúvio, é tão ou mais seguro do que morar junto da Estação de Atocha, ou no centro de Manhattan, ou viajar no “Costa Concórdia”, lá porque a História regista uns acontecimentos fortuitos nos últimos tempos, que se revelaram fatais para muitas pessoas inocentes, e o Vesúvio há mais de dois mil anos que não dá novas. E até tem lá uns aparelhos de monitorização, e tal, e há um plano de contingência para salvar aquela pobre gente em caso de… Lamento, mas nem sequer encontro a palavra para tal eventualidade. É apenas uma comparação possível com a magnitude do risco nuclear no presente. Capisce? <=

    Capisco, mas está a ver o problema ao contrário. O que o meu amigo está a preferir é a certeza de desastres diários e Desastre (com maiúscula) a prazo, sem possibilidade de aviso nem consciência deles por aí além, do que a segurança rigorosa resultante da monitorização e anulação de riscos resultantes de quantificações precisas e reduzidas.

    Para se ir entretendo:
    http://imgs.xkcd.com/blag/radiation.png
    http://bravenewclimate.com/2011/04/29/nuclear-challenges-21c/

  42. As minha desculpas pelo meu comentário anterior (das 12:43). Parece-me que usei sinais que baralharam o html e tornaram invisível quase tudo o que escrevi. Agradeço que, se possível, o comentário seja eliminado. Vou repetir o envio em boas condições. Obrigado.

  43. Disse Marco Alberto Alves (=>)

    => M. M. Meirelles, é quase isso.

    Bem me pareceu. Já agora, gostaria de conhecer a sua opinião sobre duas questões: a primeira é se os espanhóis das centrais nucleares aqui mesmo ao lado também serão chimpanzés, e nesse caso, se está a pensar fugir, digamos, para as ilhas Selvagens, na perspectiva de alguma hecatombe cataclísmica sobre a península Ibérica; e a segunda é se confia nos chimpanzés nossos conterrâneos que manejam centrais térmicas e barragens, por exemplo.

    Antes de prosseguir, deixe-me recomendar-lhe a leitura deste livrinho, informação básica condensada, mas interessante e relativamente actualizada (2006):
    http://www.scribd.com/doc/36060600/Nuclear-Energy-in-the-21st-Century-World-Nuclear-University-Press

    Dê uma olhada, pelo menos.

    => Não sei se V.ª Exc.ª é pai. Mas eu entre outras coisas também o sou e, quer numas, quer noutras, não costumo aferir a preparabilidade para a assumpção de certas, digamos, competências em função do historial de desastres anteriores. É uma idiossincrasia cá muito minha, sabe.

    E o que é que o leva a preferir para os seus filhos calamidades como as que lhe apontei mais acima, muito mais prováveis e graves do que um acidente nuclear? Para perceber melhor a ideia, actualize os dados que eu apontei, a propósito de desastres relacionados com a produção de energia. Veja no livrinho que lhe proponho neste comertário, as seguintes tabelas de fácil leitura: páginas 32, 112, 115, 116, 118, 123, 124.

    => Eu NÃO SEI se o chimpanzé português, no momento atual do seu “desenvolvimento”, está ou não preparado para lidar com a perigosidade e, pior ainda, com a complexidade não só da manutenção, como sobretudo da planificação e da construção de uma central nuclear. Primeiro.

    Não lhe ocorreu ainda que as centrais são encomendadas a quem as fabrica e não exactamente planeadas e feitas in loco pela vizinhança comunitária? Já agora, se o que o preocupa é como seriam transportados e para onde iriam os resíduos perigosos, aconselho a leitura do capítulo V, “The ‘Back End’ of the Nuclear Fuel Cycle”, págs. 76 a 92.

    => Como não sei e para ficar descansado não me basta saber que, até mais ver, ainda não nos chamuscámos com Barragem nenhuma – o que não me admira nada, pois a Engenharia Civil portuguesa em décadas idas até já foi considerada, se é que não o é ainda, das melhores do Mundo (o que significa que o chimpanzé, afinal, não é parvo de todo, ou não costumava ser) – nem nos encharcámos com o fuel-óleo nem com o carvão, então prefiro por enquanto NÃO ARRISCAR, o que me parece aliás da mais recomendável prudência. Segundo.

    A propósito de encharcamentos, as barragens hidroeléctricas nem não más opções, uma vez que são a única forma de, no domíno das «renováveis», se obter energia de forma intensiva, não condicionada por necessidade de armazenamento etc. (todas as outras renováveis são difusas). O grande problema do aproveitamento da energia hídrica é que os pontos geográficos adequados à sua captação são limitados. Por isso é que a grande alternativa é entre nuclear e fóssil. E tudo o resto é insuficiente, senão mesmo puramente folclórico, por razões que ultrapassam as nossas preferências e receios.

    Sugiro-lhe alguns minutos de reflexão tranquila sobre esta pequena imagem «Comparação de combustíveis e resíduos do uránio e do carvão (na produção de 800 KWh de electricidade)»:
    http://htmlimg2.scribdassets.com/57ya25xphcn045d/images/28-05f66b1022.jpg
    [«g» quer dizer gramas; «ml» quer dizer mililitros]

    A sobrevivência da sociedade industrial passa pela obtenção de energia concentrada e intensiva, e não é difícil perceber as razões porque o nuclear é o inevitável sucedâneo da madeira e do carvão. Em termos simples, se quiser, por que razões não há locomotivas à vela nem aviões a vapor…

    Se o destino dos seus descendentes de facto o preocupa, o que me parece — para além até da perigosidade de cada opção imediatamente viável, de longe muito mais reduzida para a energia nuclear — é que a histeria contras as centrais nucleares, num mundo em que os recursos energéticos fósseis vão começar a escassear, é que a opção nuclear pacífica venha a ser tardia e uma guerra global torne desnecessária essa ou qualquer outra energia para o futuro.

    => Diz V.ª Exc.ª que isso nos pode saír caro e eu replico POIS QUE SAIA, QUE SOU EU QUE (TAMBÉM) PAGO e prefiro pagar para viver mais descansado,

    «Pagar» pode querer dizer pagar com a vida, sua ou dos seus descendentes.

    => pois acho que, ao contrário de V.ª Exc.ª, viver paredes meias com uma central nuclear eleva de facto o patamar de risco para níveis incomparávelmente mais preocupantes, do que morar por baixo de uma Barragem, ou no sótão de uma central térmica não-nuclear. Terceiro…

    Bom, se me disser que tem mais medo de viver paredes meias com uma casa assombrada pelo fantasma do Zé doTelhado do que numa casa em risco de desabar ou condenada á demolição sem aviso prévio, que posso eu fazer senão recomendar juízo e procura de mais informação?

    => Agora, estou disponível para não me entrincheirar acéfalamente nesta minha posição de princípio, mas previno desde já que difícilmente alguém me convencerá de que morar em Nápoles, ou nos seus arredores Sul, perto do Vesúvio, é tão ou mais seguro do que morar junto da Estação de Atocha, ou no centro de Manhattan, ou viajar no “Costa Concórdia”, lá porque a História regista uns acontecimentos fortuitos nos últimos tempos, que se revelaram fatais para muitas pessoas inocentes, e o Vesúvio há mais de dois mil anos que não dá novas.

    Precisamente. Acho que não está a perceber que as conclusões estatísticas é que apontam o nuclear como a estação de Atocha, o centro de Manhattan ou a viagem de barco, e a alternativa não-nuclear como os arredores do Vesúvio, e o que é mais, de um Vesúvio a produzir diariamente enormes qauntidades de gases tóxicos (e de estufa) e a entrar em erupção praticamente todos os fins de semana, produzindo vítimas incontáveis…

    => E até tem lá uns aparelhos de monitorização, e tal, e há um plano de contingência para salvar aquela pobre gente em caso de… Lamento, mas nem sequer encontro a palavra para tal eventualidade. É apenas uma comparação possível com a magnitude do risco nuclear no presente. Capisce?

    Capisco, mas está a ver o problema ao contrário. O que o meu amigo está a preferir é a certeza de desastres diários e Desastre (com maiúscula) a prazo, sem possibilidade de aviso nem consciência deles por aí além, do que a segurança rigorosa resultante da monitorização e anulação de riscos resultantes de quantificações precisas e reduzidas.

    Para se ir entretendo:
    http://imgs.xkcd.com/blag/radiation.png
    http://bravenewclimate.com/2011/04/29/nuclear-challenges-21c/

  44. NOTA: Os parágrafos iniciados por uma seta (=>) são do texto a que respondi. Os restantes são meus.

    ERRATA:
    — Onde está «as barragens hidroeléctricas nem não más opções» leia-se «as barragens hidroeléctricas nem são más opções».
    — Onde está «por aí além, do que a segurança rigorosa» leia-se «por aí além, à segurança rigorosa».

    Obrigado.

  45. Há pouco escrevi: «As minha desculpas pelo meu comentário anterior (das 12:43)». Queria dizer 23:51 !!! Arre burro!

  46. Caro Meirelles,

    não sei se me exprimi mal, ou se o meu amigo não percebeu bem, mas repito: não estou aqui para discutir pormenores técnicos consigo, sobre um assunto que nem sequer domino, nem para ser catequizado, até porque, como também disse, já aprendi a pensar há largas décadas, não estou ainda a desaprender e nem estou fechado em nenhuma posição dogmática.

    Por isso, agradeço as suas boas sugestões de leitura e compreendo bem que, se queremos ter um crescimento disparatado de consumo de energia eléctrica como temos tido nas últimas décadas, vamos um dia ter de nos colocar a questão de aumentar a quota de produção de electricidade a partir de cantrais nucleares.

    O que eu e outros já afirmámos e o amigo persiste em não ter em conta é o facto de Países altamente industrializados e consumidores de energia, como a Alemanha, estarem a arrapiar caminho nesta convicção. Lá terão as suas razões. Ou pensarão um dia instalar uma enormidade de centrais nucleares no Tadjiquistão e controlá-las a partir de algum “bunker” a reconstruír sob o edifício do Reichstag? Não sei, tudo é possível.

    Mas da minha parte, enquanto eu vir os “meteorologistas” mais conceituados a fugirem do “tornado”, não é por alguém como V.ª Exc.ª estar de gabardine abotoada e de livirinho de instruções na mão a caminhar na sua direcção e a garantir-me que “é seguro, venha comigo, que por aqui ainda havemos de chegar primeiro do que os outros” que eu vou calçar as galochas e meter-me ao caminho consigo. Boa viagem…

  47. Marco Alberto Alves disse: «Mas da minha parte, enquanto eu vir os “meteorologistas” mais conceituados a fugirem do “tornado”»

    Puro engano. Quem foge do «tornado» não são os «meteorologistas». É o público aldrabado pela propaganda mais primária e, bem entendido, os políticos que, como se sabe, raramente perdem oportunidades de surfar as ondas da popularidade fácil, sem consequências negativas imediatamente visíveis.

    A razão porque se encontram tão poucos físicos, engenheiros nucleares ou médicos radiologistas, e praticamente nenhuma organização científica, nas fileiras dos detractores da energia nuclear reside no facto de o conhecimento ser o maior inimigo da superstição e dos medos infundados.

    A escolha é sua e dos seus semelhantes: liberdade, energia e saúde para os vossos descendentes, implicando talvez alguma atenção aos dados e algum trabalho crítico de procurade informação; ou então esse nirvana de felicidade através da ignorância (no mau sentido, no de falta de curiosidade arrogante e rejeição da pesquisa, e não no sentido da simples falta de informação).

  48. «Esse nirvana através da ignorância» — entenda-se — para si, e não para os seus descendentes que, esses sim, vão levar com o tornado em cima de forma bem mais visível e impossivel de ignorar…

  49. Lá mais acima escrevi: “Sugiro-lhe alguns minutos de reflexão tranquila sobre esta pequena imagem «Comparação de combustíveis e resíduos do uránio e do carvão (na produção de 800 KWh de electricidade)»:
    http://htmlimg2.scribdassets.com/57ya25xphcn045d/images/28-05f66b1022.jpg

    O correcto era 8000 e não 800. E há para aí mais algumas gralhas de minha responsabilidade, mas nenhuma grave ou enganadora. De resto, penso que o importante nestas discussões é incentivar a pesquisa e o senso crítico de cada um. Sem isso, cada vez mais mergulhados num mundo de propaganda e aldrabice, em que a única coisa que merece atenção a 100% das massas –lavadas e deslavadas, passe o anglicismo — é o caso futebolístico da semana, estamos perdidos.

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