Ressaca

Um post categoria all-of-the-above do Luis M. Jorge no Vida Breve coloca algumas hipóteses válidas para uma pergunta que vejo muito repetida, com espanto, por cada vez mais pessoas: o que se passa afinal com os Portugueses? Perante a destruição radical do nível de vida, onde está a revolta? Perante as óbvias e descaradas mentiras de quem já nem se preocupa muito em disfarçar, como é que não está tudo na rua, aos berros? Como é que as sondagens ainda dão o PSD/CDS na frente?

Afinal, por bastante menos, por medidas muito mais suaves tomadas pelo anterior governo, por promessas não cumpridas e objectivos não alcançados, por desditos e mudanças de direcção muito mais compreensíveis face à evolução internacional da crise, por tudo isso, houve uma agitação bastante maior nas ruas. E parece-me que será essa uma das chaves para compreender a actual passividade os cidadãos. Os portugueses não lutam porque já lutaram, e lutaram muito, muito recentemente. Greves em que os sindicatos berravam “recorde” sem que ninguém se risse, manifestações impressionantes de professores, de jovens precários, de enfermeiros, todo o mandato anterior foi marcado por uma enorme onda de contestação, nas ruas, nos jornais, nos cafés, nos locais de trabalho, nos blogues. Foi, para todos os efeitos, uma enorme demonstração de cidadania, no sentido das pessoas se envolverem no que percepcionavam serem os seus problemas. E no fim dessa luta, dessa autêntica festa contra um primeiro-ministro e um governo que eram, justa ou injustamente, a face de uma crise que nos assustava a todos, o que resultou de todo esse esforço foi isto:

 

Vão-me perdoar se compreendo, agora, um certo torpor, um baixar de braços e um abraçar da inevitabilidade. A escolha foi nossa, como sociedade. E a questão fulcral é esta: mesmo mentindo descaradamente, como fizeram, a direita apresentava uma alternativa baseada numa narrativa que conseguiram passar com sucesso. A das pessoas competentes contra os incompetentes, a dos “gastos supérfluos do estado” contra o “forróbodó” dos “projectos faraónicos” enquanto se iam cortando despesas, da culpa do governo por não se ter precavido contra uma crise financeira de consequências imprevisíveis. Não era verdade, como é mais do que evidente agora para quem tenha meio dedo de testa, mas a mensagem passou e os eleitores comeram-na. Havia outra maneira, uma alternativa. E agora, o que é que existe? Existe este:

 

A passividade existente, sinceramente, não me espanta muito. Sem ajuda, certas digestões levam o seu tempo.

35 thoughts on “Ressaca”

  1. Como hão de reagir se os broncos (Valupi dixit) só lêem e acreditam no CM e similares.?.
    Conheço até pessoas não tão broncas (aparentemente)que canalizam a irritação pelo dec das reformas atribuindo a culpa ao Sócrates que está a viver em Paris à custa daquilo que “nos” roubou. Impossível fazer qualquer pedagogia. Apre! Qualquer assunto de conversa vai parar ao mesmo.

  2. Caros,
    Não se confundam, os portugueses estão já maduros e em pulgas de poder gritar a plenos pulmões o que lhes vai na alma.
    Se alguém, como o Marinho Pinto por exemplo ou outro de reconhecida coragem política honestidade e idoneidade intelectual para que os portugueses acreditem sem reservas (será que Mário Soares já não tem essa coragem ou capacidade?), surgir a dar o grito de reunião e revolta, certamente outra vez a Alameda D. Afonso Henriques de Lisboa ficava apinhada e talvez outra vez na História do país.
    Tal como é entendido no post, é tempo de desilusão e ressaca devido ao descrédito devido às pulhas manipulações do pcp-be, que preparou, provocou e deu de mão beijada todo o poder a esta gente para, de repente o povo se ver confrontado com uma política descarada e sem vergonha de prometer o empobrecimento do povo como remissão de pecados. Os mesmos que agora, como antes, colaboram com a direita: ver o ataque à P.Escolar e a reverencia ao poder actual por parte das avoilas e nogueiras.
    Pensa o pcp, todo contente, que as condições objectivas e subjectivas para a revolução estão em marcha. E penso eu que estão em marcha as condições ideais para uma reviravolta democrática que saiba enfrentar a crise com dignidade e com o sofrimento mínimo e muito menos de atribuir ao povo a culpa de querer viver fora da pobreza.

  3. Eu penso que é em momentos como este que os Povos, enganados e desiludidos com o sistema, que já não lhe apresentam quaisquer perspectivas ou esperanças, se atiram, de peito aberto, para os braços de um qualquer “salvador”, dos que costumam aparecer nestas alturas. Muita atenção que, perdida a confiança no sistema democrático, depressa se cria o élan para o aparecimento e aceitação do tal salvador.

  4. foi assim mesmo com os mineiros ingleses. dispararam toda a artilharia sobre o pm labour, este caiu, mas depois não tiveram munições para a tatcher e foram eles a cair.

  5. Parece-me evidente que as munições eram fornecidas pela comunicação social.
    Agora, já não as disponibiliza e até doura a pílula. Por isso tem que se criar um equilíbrio de forças nos média, ou seja: Missão quase impossível.
    Acho que a mudança tem que nascer de dentro da classe jornalística, sob pena de ser facilmente apelidada de anti-democrática pelos “spin doctors”, caso seja proposta por outros que não o poder económico.
    Báidauei, alguém me dá exemplos de jornalistas sérios para encabeçar tal movimento?
    ;D

  6. Já havia rumores, agora confirma-se: electricidade aumenta novamente, desta vez até 20% para as empresas. A juntar aos 4% e aos 17% de aumento do IVA sobre a dita, dá a módica quantia de 41% de aumento em 4 meses. Que é para se tornarem mais competitivas, merda de empresas que andam para aí a empregar pessoas e a empecilhar o Plano de Emigração em Massa. Às do sector alimentar (distribuição e comércio) ainda juntam os 10% da Taxa Especial Mais da Cristas e somam um aumento de 51%, que eisto dos bens básicos tem de acabar). E pronto, foi mais uma notícia do dia que será, como refere aqui o post recebida com toda a bonomia, apatia ou mesmo afasia por parte da sociedade.Siga.

    (PS: não vale a pena explicar quem vai pagar etses 51% de aumento, lá no fim da linha, pois não?)

  7. ora, pergunto por causa de umas bocas que mandaste antes, mas a pergunta, neste poto, er desnecessária, concordo.
    O Vincent foi a 100% e full screen, how beautiful

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