A verdade da mentira

A decadência da direita portuguesa levou a que o combate político, de 2007 a 2011, deixasse de ser feito na disputa por modelos económicos e sociais concorrentes, conferindo-se com honestidade intelectual e paixão ideológica as vantagens e desvantagens respectivas, e se deslocasse a atenção do País para campanhas de assassinato de carácter, exploração do populismo e golpadas judicial-mediáticas. Há factores culturais que explicam a facilidade e apetência da direita na adopção dessas soluções ancestrais, incluindo o facto de dominarem a comunicação social, mas o sucesso eleitoral da estratégia muito deve à cumplicidade da extrema-esquerda, a qual acreditou que da destruição do PS viriam ganhos inevitáveis. Por isso vimos BE e PCP a participarem com fervor no ataque a Sócrates e a pouparem Cavaco mesmo quando este atentou contra o seu juramento de posse e conspurcou a Presidência da República e o nome de Portugal. A decadente direita, pois, não teria conquistado o poder absoluto sem o apoio frontal e lateral da esquerda decadente.

O artifício principal usado contra Sócrates consistiu em repetir que era mentiroso. As suas mentiras tanto podiam ter origem na tentativa de apresentar resultados positivos, como na de esconder resultados negativos, como num optimismo enganador ou irrealista, como na sua natureza maligna e criminosa. E se Sócrates mentia, então quem estava com ele igualmente mentia, e mentiam todas as entidades sobre quem estes mentirosos tivessem alguma responsabilidade ou contacto. Por contraposição, PSD e Belém capturavam a “verdade” e reclamavam a sua posse monopolista. A política deixava de ser a arte dos possíveis, essa decisão legítima e livre nascida das diferentes interpretações do real e sua diferente valoração, para se reduzir a um moralismo venenoso e grotesco. A verdade era definida por alguns em nome de todos, a génese de qualquer totalitarismo. Sócrates mentia porque não fazia a vontade nem à oligarquia nem aos revolucionários, deixava-se ler no subtexto da situação. Era uma mensagem simples e eficaz, deu no que deu.

Também no PS há cúmplices entusiasmados da direita e da esquerda decadentes. A 12 de Abril de 2012, Carrilho, o director na clandestinidade do Laboratório de Ideias criado por Seguro, escreve o seguinte:

Como se Passos Coelho começasse a revelar-se encurralado na sua própria lenda da crise e, incapaz de furar o cerco, tivesse optado por reforçar mais o fosso em torno das suas posições e dos seus trunfos.

E estes eram fundamentalmente dois: a herança de um país à beira da bancarrota, claro, mas sobretudo o de uma relação tranquila com a verdade, que – apoiada numa natural afabilidade – foi fazendo os portugueses pensar num exercício diferente do poder.

A diferença estava [em mostrar?]* sem entorses a realidade, em não embarcar em ilusões, em evitar a mentira. Diferença que resistiu bem aos primeiros embates que a podiam ter abalado, sempre habilmente endossados às surpresas do passivo e aos imprevistos do contexto global.

* Faltam palavras no texto original

O que Carrilho aqui faz só é possível a um fanático. Ele ignora a contradição radical entre as promessas eleitorais de Passos e a sua prática governativa e apresenta-o como um político que, afinal, “fala verdade aos portugueses”, cujo exercício é indubitavelmente o da “política de verdade”. E Carrilho compara-o com o Governo de Sócrates, o qual era precisamente o oposto, garante sem uma hesitação. Ora, não importa entrar pela enésima vez no bestunto deste ser corroído pelo ódio, importa é aproveitar a sua síntese porque ela poderia ser assinada pelos mais sectários dos agentes laranja. Aliás, o que Carrilho diz é exactamente o mesmo que a legião de políticos, comentadores e jornalistas do costume, e dos costumes, insistem em repetir numa implacável perseguição que não dá sinais de abrandar.

O que nos preocupa é o processo pelo qual se conseguiu boicotar uma governação e interromper uma legislatura. Quem o fez voltará a fazê-lo, até porque desta vez correu na perfeição. Assim, perceber, entender e compreender este período da nossa história recentíssima para além da versão dominante e manipuladora é do nosso maior interesse. Especialmente quando aqueles que mais espalharam difamações e calúnias à volta do tema da verdade e da mentira, aqueles que mais chamaram de mentirosos os outros, são aqueles que mais mentem. A quantidade de mentiras de PSD, CDS e Cavaco que podemos listar de cabeça é torrencial. Pior: a opacidade do Executivo e o tratamento senhorial dos cidadãos é algo igualmente nunca visto, como o episódio das reformas revelou para pasmo geral.

Vou, então, pedir aos anti-socráticos ferrenhos que passam por aqui para listarem as mentiras de Sócrates e da sua gatunagem. Venham elas e vamos dissecá-las e comparar com as actuais. Podem recorrer abundantemente ao Correio da Manhã ou a outra sarjeta da vossa preferência. São 6 anos contra 9 meses. Bute lá ao encontro da verdade da mentira.

13 thoughts on “A verdade da mentira”

  1. Excelente, Val, o teu desafio que já também tenho feito, aqui e além, onde vou deixando a minha raiva pela miséria moral de tanta gente. Aguardemos espectantes as respostas que, ou não virão, ou se limitarão, mais uma vez, à triste demonstração da pobreza de espírito desses quantos que só das “sarjetas” se alimentam!

  2. Perfeito, na medida em que nada é perfeito.
    Mas “perfeito” por ser tão necessária a desmistificação total que é feita aqui dos valores – não-valores – da direita portuguesa, que, nunca como actualmente, se revelou tão integradora dos valores salazaristas-fascizantes, que, infelizmente, persistem na direita.
    Continue Val, nessa senda.
    Portugal bem precisa que os facínoras de colarinho branco (PR incluído) que agora nos governam, sejam de vez, desmascarados e afastados de qualquer tipo de poder.

  3. Como é que pretendes que eles venham a terreiro esgrimir argumemntos Val? Aquilo é tudo gente de sarjeta, só conhecem o golpe baixo, a perfidia, a mentira, a imoralidade bestial.
    São os tais que sabem manipular de forma tão desavergonhada as consciências dos outros que conseguem destruir uma sociedade. Não nos devemos esquecer que o método foi usado por Hitler com extrema mestria. Estas ratazanas de esgoto conseguem, ainda, ter algum sucesso.
    No entanto, é preciso ter um factor em atenção: a culpa não é deles; a culpa é dos que se deixam manobrar e embrutecer. No caso presente a culpa é dos eleitores que foram na conversa falsa e votaram neles. Estão agora a pagá-las. Só que o problema é que eu, e tantos outros que não votaram, também estão.

  4. Não virão, não virão. Mas, de facto, a saga da direita decadente continua. Ontem, no Jornal da noite, a peça da TVI sobre o Freeport relatava o depoimento de um inglês do Freeport. Que, sim senhor, havia sido feito um pedido de suborno de 2 milhoes de euros por “um escritório de advogados”. Entretanto o governo de Guterres caiu e com ele o ministro do ambiente, Sócrates. E entâo veio a golfada de veneno a fechar a peça, pela voz da Ana Leal: os ingleses tinham deixado perceber (a quem, como, quando, onde?) a sua preocupação pela substituiçâo do ministro Sócrates.Como quem diz “Sócrates era facil de corromper” e agora com o seu afastamento vai ser mais complicado. Havia que apressar tudo.
    Esqueceu-se a jornalista de referir que os ingleses estão fartos de declarar que não pagaram caralho nenhum a quem que que seja, bem ao contrario do alemães da Ferrosthaal que confessaram o pagamento de luvas de muitos milhões.
    Assim se foi assassinando Sócrates.
    E vejam a benção que veio para este país: saiu Sócrates, o subornável, e entrou para o mesmissimo ministério do ambiente o impoluto e o incorruptivel laranja Isaltino Morais do governo Barroso.
    Portugal e todas as anas leais ou marias virgens podiam respirar de alívio.

  5. Dá-me vómitos a sofreguidão do homenzinho, a língua em sangue de lamber tanto cu, ladrando esganiçadamente ao fantasma de Paris a ver se a máfia do pote o recompensa com um biscoito.
    Dizem que Roma não paga a traidores. Espero que o dito se confirme e lhe dêem a resposta que merece: ó Carrilho, vai prò carralho!

  6. Carrilho poderia ser um case study de como o ódio e resabiamento pelo ego ferido podem levar à completa perda de lucidez e de honestidade intelectual… Uma verdadeira psicopatologia.

  7. Val, e mesmo que todos eles venham ao terreiro – os da direita e os da “esquerda verdadeira” – com mais insultos e falsidades, cá estaremos para lhes chapar nas trombas com todos os factos que estão registados em estatisticas e relatórios oficiais necionais e internacionais que demosnstram como o país nestes anos de governação socrática conseguiu alterar os padrões de qualidade nos vários sectores de actividade.
    Claro que muito havia ainda a fazer, mas o “sinal da mudança” estava a ser dado…! E esse foi o móbil do crime para o VETO VERGONHOSO DO PEC IV!

    De qualquer modo, Val, “good luck”!

  8. Carrilho é apenas um lírico, uma alforreca insignificante.

    O maior mal não é ele marchar a compasso do megafone mediático, é o próprio megafone. “Atacar” Carrilho é um combate quixotesco: é deixá-lo a falar sózinho, não merece mais.

    O verdadeiro problema está em enfrentar, com armas e equipamento à altura do combate, o dito megafone mediático. Que tem na mão uma infinidade de cordelinhos ligados a marionetas, que são os consumidores bovinizados, infantilizados, (funcionalmente) analfabetos, ou despolitizados. Eu tenho neste momento à minha frente um Colega de trabalho, militante do PS (coisa que eu não sou, nem nunca fui!), que ainda hoje me voltou a afirmar, “ipsis verbis”, que “o Governo do Sócrates foi o pior de sempre desde 76, por causa das Parcerias Público-Privadas, do “caso Freeport” e da Licenciatura”! E mais, diz-me ele, quando tento contraditá-lo, que “a maior parte das pessoas no PS (da sua Concelhia) pensa assim”, e eu é que “não quero ver a verdade”…

    É uma manipulação muito grave, grosseira e de correcção extremamente difícil. Que a atual direção do PS ainda tende a agravar mais.

    Confesso que também não sei qual a saída para esta situação. Que é um pouco como a da Alegoria da Caverna, ou o aforismo da tenda de campismo (penso que todos conhecem). Mas lá que deve ter de passar por uma contenda na Comunicação Social, um terçar com as mesmas armas da insídia, não tenho grandes dúvidas.

    De momento só existe um órgão de comunicação social de massas decente e que assegura este combate urgente: a TSF. Precisamos de uma TV comercial e de dois jornais de grande circulação, um diário e outro semanário, com a mesma linha editorial de isenção e qualidade da TSF, para se poder criar alguma igualdade de condições entre a Propaganda e a Informação (que mesmo assim não deixaria de ser uma luta desigual, porque do lado da Informação nunca se poderia contar com armas poderosas como a Mentira, a Calúnia e a sordidez da Manipulação jornalística em conluio com a máquina judicial).

    Lembro-me do Verão Quente de 75, em que a luta contra o Totalitarismo do PC e seus aliados, que controlavam com mão de ferro a rádio, a tv e os jornais da altura (O Século, Diário de Notícias, A Capital, República, etc….), passou muito pela existência do “Expresso” e da Rádio Renascença, mas sobretudo por jornais criados de propósito nessa altura, como “A Luta” e o “Jornal Novo” (com muita gente ligada ao “República”, como o próprio Raúl Rego), sem os quais teria sido muito mais difícil organizar a Resistência.

    Hoje precisamos, como de pão para a boca, de algo semelhante. Há muita gente influente que ainda talvez não se tenha apercebido da importância deste aspeto, confiante que está na “liberdade de informação”. Mas a maior parte, a esmagadora maioria, ainda só continua a ter acesso (e cada

  9. (…) a esmagadoria maioria do eleitorado ainda só continua a ter acesso (e cada vez mais) à tvi, à sic, ao correio da manhã e à renascença. Não ver isto e continuar a tentar atacar o blindado com fisgas, até pode ser que um dia “dê resultados”, mas vai precisar de mais alguns milénios…

    A grande realidade é apenas esta, mais Carrilho, menos António Barreto: sem uma Comunicação Social decente (e à falta de Educação Cívica, de experiência histórica democrática e de um sistema de Justiça mínimamente dissuasor da perfídia), lutar por um Portugal desenvolvido, moderno e europeu é uma missão impossível! Tão impossível hoje, como já o era no tempo dos “vencidos da vida” da «Geração de 70» (Eça, Antero, etc.)…

  10. Pois é, Isabel! Tal como eu previa no início destes comentários: Respostas?! Não virão seguramente. É que esta miserável Direita, quando confrontada com a sua vilania, cala-se, esconde-se ou foge! Cobardes até dizer: chega!!

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