Impressionar nas manifestações, brilhar nos protestos, seduzir na António Arroio

Lead Levels In Lipstick Much Higher Than Previously Thought
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The Meaning Of Many Spoken Words Understood By 6- To 9-Month-olds
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Pocket Microscope With Accessory for Ordinary Smart Phone
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Cell Phone Hackers Can Track Your Location Without Your Knowledge
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In Sickness and in Health: Importance of Supportive Spouses in Coping With Work-Related Stress
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Video Games Lead to New Paths to Treat Cancer, Other Diseases
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Zoos of the Future May Include Dodo Birds and Woolly Mammoths, but No Chimps
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Puzzle Play Helps Boost Learning Math-Related Skills
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Military Service Changes Personality, Makes Vets Less Agreeable
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Partisans Not Locked in Media ‘Echo Chambers,’ Study Finds

Lady Thatcher e o seu funeral

Depois de ver o filme “The Iron Lady”, onde Margaret Thatcher é apresentada como sofrendo atualmente de delírios com a imagem do falecido marido, sendo esse o ponto de partida e uma constante ao longo de todo o filme, decidi procurar na Rede informações sobre o verdadeiro estado de saúde da senhora. O Google sugeriu-me imediatamente a consulta do jornal Mail online, onde a notícia, com data de hoje, versa sobre o funeral da ex-primeira-ministra. O quê?! Morreu? Calma, nada disso. Pelo menos ainda não. Parece até que goza de boa saúde, apesar de pequenos AVC que lhe foram toldando a memória mais recente. Diz-se mesmo na notícia que, além de visitar com alguma frequência a rainha (mais velha, diga-se), tenciona por estes dias passar umas férias na neve com amigos. Não morreu, portanto. Mas há de morrer; num dia que, diz o jornal, muita gente espera venha longe.
E que tema desenvolve então o Mail neste dia da graça de 20 de fevereiro de 2012? A senhora Thatcher tem 82 anos e, evidentemente, restam-lhe menos anos de vida do que quando tinha 60. Pois andam, já há uns tempos (anos?), uns impecáveis e atarefados chefes de protocolo a planear ao pormenor o funeral da Dama de Ferro (presumo que o da rainha esteja planeado desde o dia em que nasceu), não fazendo disso especial segredo e a prová-lo está a clareza e crueza com que o jornal divulga os detalhes.

A questão parece merecer toda a azáfama de bastidores de que se dá notícia, por várias razões: a fazer-se um funeral de Estado, como a monarquia e as atuais forças políticas maioritárias pretendem, em primeiro lugar, a rainha (se não se finar antes) terá de estar presente (o que é logo motivo para alvoroço protocolar), em segundo lugar, quem suporta os custos é o governo e, em terceiro, não de somenos e relacionado com o segundo, há preocupações quanto ao número de militares que serão necessários para enquadrar a linha do cortejo fúnebre. Sem qualquer reserva ou tabu, a própria futura defunta também já deu um importante contributo para a organização, declarando ser seu desejo que as cerimónias decorram na catedral de St.Paul.

Não sei se tudo isto é muito “British”, não gosto de clichés, mas dificilmente imagino tais notícias a serem publicadas, sem choque e indignação, na nossa imprensa a propósito das nossas figuras ou ex-figuras de Estado mais marcantes e ainda vivas. Mas que alguém pensa nisso, não tenhamos dúvidas. Por mim, passada a surpresa com a franqueza do jornal, que até nem me pareceu devassa, penso que não será de facto má ideia exercermos ainda em vida algum poder de decisão sobre a nossa morte e dela falarmos abertamente, inclusivamente da cerimónia (ou ausência dela), das flores e da indumentária. Rendo-me, pois, ao espírito prático, partilhado, dos ingleses.

Quanto ao filme, cinco estrelas para Meryl Streep, ou melhor, se possível, 5 Óscares! Perante isto, o resto, um retrato, pelos vistos não verdadeiro, do dia a dia atual da senhora e da sua intimidade, e uma recordação nostálgica, em “flahbacks”, de uma série de momentos marcantes do seu mandato, em tom geralmente laudatório, pareceu-me bastante irrelevante.

Quanto é que ganha um caluniador?

CVM – O João Miguel Tavares decreta “um adeus sem saudades a Pinto Monteiro”, o Procurador-Geral da República…

JMT – Porque ele deu uma entrevista quase de despedida, de final de mandato, à Judite de Sousa. Eu não gostei nada da entrevista, mas ao mesmo tempo tinha aquele saborzinho bom de “oh, pá… acho que é a última vez que o vou estar a ouvir…”. E portanto eu gostei muito disso. Ele disse: “quero ser relembrado como um beirão de coragem”. Ele como beirão acho que vai ser relembrado, como de coragem é que duvido.

Governo Sombra

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João Miguel Tavares é um caluniador profissional: alguém que é remunerado por órgãos de comunicação social para, entre outros serviços menores, caluniar. Deve a Sócrates a melhoria do seu nível de vida, tendo sido contratado pelo Correio da Manhã como vedeta antisocrática na sequência das calúnias que lançou contra um cidadão e contra um primeiro-ministro. Calúnias sem alcance legal, como se descobriu desde o arquivamento pelo Ministério Público do processo movido por Sócrates até ao acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, passando pelo Tribunal de Instrução Criminal. Mas calúnias com alcance moral, fazendo parte das campanhas de assassinato de carácter que invadiram a comunicação social a partir do episódio OPA da PT e imediata alteração da linha editorial do Público, iniciando-se uma vingança em registo de caça ao homem que iria ocupar a enorme maioria dos publicistas até às eleições de 2011.

Nesta passagem, atacando Pinto Monteiro continua Sócrates a ser o seu alvo obsessivo. O caluniador declara que o Procurador-Geral da República não foi corajoso ao longo do tempo em que exerceu as suas funções. As razões de tal opinião não foram sequer enunciadas, mas, com uma probabilidade que ultrapassa os 200%, o caluniador estará a falar dos casos que envolveram Sócrates. A ideia que deixa implícita é a de que algo terá ficado por fazer, precisamente aquilo que a aludida coragem levaria a ter sido feito. E era o quê? Levar Sócrates a tribunal, claro, usando os abundantes pretextos que foram recolhidos por tanta gente, onde se incluem o casal Moniz, os magistrados de Aveiro e o Pacheco Pereira.

O caluniador tem direito a conceber o Estado de direito como aquela coisa que mete na cadeia aqueles que o caluniador odiar, haja ou não provas. Podemos até considerar que o caluniador tem direito a fazer disto a sua vida, fazendo-se cobrar pelo veneno que liberta no espaço público. O que lamento, ou o que me falta, é que não haja a oportunidade do caluniador levar até ao fim a sua valentia. Por exemplo, chamar cobarde a Pinto Monteiro cara a cara. Ou usar a sua coluna no Correio da Manhã, juntamente com a sua carteira de jornalista, para demonstrar que Pinto Monteiro é corrupto. Porque é isso, e nada menos do que isso, que o caluniador está a dizer no embrulho de um programa radiofónico supostamente humorístico.

Não existe a figura da coragem quando se trata de cumprir a Lei na presidência da Procuradoria-Geral da República – mesmo que se trate desse tipo especialíssimo de coragem ao gosto do caluniador, a qual consiste em arrastar na lama certas pessoas até à destruição completa do seu bom nome e credibilidade política. O que existe é a responsabilidade de Pinto Monteiro, a sua palavra, a sua honra, aqui achincalhadas por mais um dos infelizes que utilizam a sua projecção mediática para envilecer a democracia.

Quanto ganha por mês este caluniador?

Um livro por semana 276

«Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco» de Nuno Costa Santos

O título desta crónica biográfica de Nuno Costa Santos (n.1974) sobre a vida e a escrita de FAP é uma homenagem ao seu livro de ficção, editado em 1993, «Trabalhos e paixões de Benito Prada». FAP (1937-1995) nasceu em Coimbra mas odiava as praxes («Era um futrica – não era um estudante de capa e batina») embora amasse muito a sua cidade: «O paraíso o que é? Deve ser a paz com certeza. Deve ser o Verão, a bondade, o estômago cheio, a água do mar e com certeza não haver casas nem gente a mandar em ninguém e tudo porreiríssimo da vida a ver passar uma coisa que não existe no paraíso: os comboios». No bar de Letras em Coimbra já FAP era um incansável leitor – «Fernando Pessoa, Steinbeck, Faulkner, Joyce, Virginia Wolf».

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António Capucho, vá-se lá saber porquê, diz que Passos é obrigado a ser liberal

Criticou duramente o anterior Governo por estar a destruir o Estado Social. Este Governo não está a seguir o mesmo caminho?
– Em defesa deste Governo, tenho de dizer que está a fazer aquilo a que o anterior Governo se comprometeu, que o País e o Estado se comprometeram. De facto, as prestações sociais baixaram em todos os sentidos, estamos numa situação muito difícil. Mas o Governo, quando abriu o armário, aquilo estava cheio de esqueletos.
O PSD ainda é um partido social-democrata neste momento? As políticas que estão a ser aplicadas são sociais-democratas?
– Não, são perfeitamente liberais, como é óbvio. Nem podiam ser outra coisa. Ninguém que assuma o poder e queira cumprir o acordo com a troika pode assumir a social-democracia.
– Identifica-se com o partido?
– Não é o partido que está em causa no momento, é um Governo obrigado a pôr em prática um conjunto de medidas de feição manifestamente liberal.”

Entrevista ao Correio da Manhã

Não há um que escape (mas eu pasmo sempre): o gosto da mentira e da rasteirice está-lhes na massa do sangue. Desta feita, trata-se de Capucho, o ex-presidente da Câmara de Cascais, que pensava ser escolhido para presidente da AR e possivelmente ainda pensa candidatar-se a PR.

Como pode António Capucho insistir na conversa dos esqueletos, insinuando serem dívidas escondidas pelo governo anterior, mesmo depois de tudo o que é instituição oficial, do INE à UTAO, passando pelo próprio ministério das Finanças e pela troika, o terem desmentido e estar mais do que confirmado terem os encargos com o BPN, a dívida oculta da Madeira, a quebra das receitas e os novos juros sido os responsáveis pelo agravamento do défice no ano passado?

Como pode defender o atual governo alegando que está obrigado a executar o que o anterior assinou (e eles não assinaram?), quando todos nós já ouvimos o próprio Passos dizer que o programa da troika é o seu programa (melhor, que fica aquém do dele) e que não o executa de modo algum contrariado? (atenção: havia jornalista nesta entrevista?)

Por último, como se atreve a deixar a ideia de que Passos e companhia possivelmente até queriam “assumir a social-democracia”, mas não podem deixar de ser liberais porque a troika não lhes dá outra hipótese? Isto é cegueira, disparate puro ou poeira, supondo dirigir-se a burros?

Dr Capucho, defenda lá o seu partido e os seus correligionários, seja lá com que propósito, mas com um mínimo de objetividade e decência (o senhor que, às vezes, até parece querer elevar-se acima da jovialidade/irresponsabilidade e mediocridade deste governo, como no caso de Fernando Nobre e no caso recente do Carnaval), de preferência com frases claras (nem sempre proferidas nesta entrevista), coerência e sem fazer dos outros parvos. Acredite que é um favor que fará a si próprio.

A piolheira e as carraças

As famosas gafes da Manela não o eram por serem em si disparates risíveis, impossíveis de resgatar por uma qualquer racionalidade política, antes por serem inconvenientes para a sua imagem. Por exemplo, falar em “suspensão da democracia” provoca associações inaceitáveis para a enorme maioria do público, sendo um imediato alvo de chacota. Porém, e como a própria explicou, o que estava em causa era algo perfeitamente exequível no curto prazo. É, por exemplo, o que acontece nos países sujeitos a resgates financeiros de emergência, tendo de se sujeitar às condições impostas pelos credores. Por essa razão as figuras gradas do PSD, logo após a queda da Grécia e da Irlanda, passaram a fazer claque para que Portugal fosse o próximo. Para além da humilhação de Sócrates e derrota certa do PS nas eleições, qualquer que fosse o programa de assistência iria sempre ao encontro dos interesses desta direita portuguesa: empobrecimento da classe média, depauperação dos pobres e salvamento dos privilegiados.

Agora, vários membros do Governo e deputados da maioria, com o Primeiro-Ministro à cabeça deste pelotão, exprimem-se usando uma atitude de consciente insulto, manifestando desprezo por aqueles que se queixam. Transmitem a ideia de não terem pachorra para aturar o berreiro do povoléu, até porque consideram os portugueses que não são ricos como um bando de calaceiros obesos viciados em subsídios estatais. A panaceia está a ser despejada a torto e a direito, para civis e militares, estudantes e funcionários públicos: emigrem, despeçam-se, desistam, desandem, desapareçam.

Donde vem esta violência verbal e comportamental? Vem do mesmo caldo da suspensão da democracia. Trata-se da oligarquia, a qual é exactamente assim, soberba e inimputável, há milhares de anos e seja qual for a geografia onde se constitua. Visto daí, Portugal será sempre uma piolheira com alguns condomínios fechados para protecção e remanso da gente séria.

Vinte Linhas 736

Dissertação para a Lisboa de Mário Vinte e Um

Uma cidade é uma memória mas é também uma sucessão de memórias. Há quarenta e cinco anos, por exemplo, ainda havia eléctricos no Rossio. O «28» descia a Rua do Ouro e virava para os lados da Estrela na Rua da Conceição.

O que Mário Vinte e Um convoca neste quadro é uma cidade em festa, a luz dos telhados como espelho do som da gente que nas esplanadas canta e se diverte debaixo dos chapéus de sol. Depois há gente à janela que conversa e desconversa com quem povoa a rua em frente: cantoneiros do lixo, cauteleiros, memórias de pregões, de aguadeiros e de moços de fretes.

Continuar a lerVinte Linhas 736

O diretor do JN parece simpatizar com os islamistas

Para quem não quiser ler este naco de prosa na íntegra, aqui deixo o resumo: tal como o novo cardeal, Manuel Tavares quer as mulheres de regresso à capoeira. Parece que há falta de pintos e elas andam muito saídas (quem sabe se da casca?). Para parecer moderno e democrático, porém, sugere que o governo, inspirado nas doutas e cristãs palavras do D. Manuel Monteiro de Castro, lhes pergunte se pretendem prosseguir com a crueldade de deixar um filho na creche ou se pretendem deixar de trabalhar e ficar em casa, porque “mãe há só uma”.
Pela parte que me toca, obrigada, nunca duvidei e, no que toca aos meus filhos, que bem que souberam e sabem aproveitar a evidência!

Acontece que, até prova em contrário, pai também só há um e, no entanto, o diretor do JN não se lembra de propor que seja ele a ficar em casa, para criar condições favoráveis ao aumento da natalidade e ao reforço do núcleo da sociedade – a família.

Sugiro ao diretor do JN que, na próxima crónica, ouse ir ainda mais longe, propondo ao governo que legisle no sentido de as mulheres tirarem apenas o secundário (isto atendendo a que, apesar de tudo, terão de orientar os estudos dos filhos varões), ou, vá lá, cursos superiores levezinhos, para poupar dinheiro ao Estado e às famílias e criar condições para uma maternidade dedicada.

Está tudo doido. Pergunto-me se ainda há jornalistas mulheres neste jornal.

Para este senhor, nada como seguir o exemplo de quem sabe: de facto, jovens não faltam nos países islâmicos. Tantos que, ainda crianças, algumas “mães que há só uma” (e também pais, é certo) não se importam que atem um cinto com explosivos em volta da cintura.

Ciência – Elogio do deserto

Em situação geocosmológica privilegiada, com um clima e um silêncio que permitem observar de forma nítida e desafogada o universo, a a terra ressequida do norte do Chile que dá pelo nome de deserto do Atacama, onde já foram instalados potentes telescópios, alberga também no subsolo, descobriu-se agora, surpreendentes comunidades de bactérias que levam uma vida extremamente austera, ao ponto de se darem ao luxo de dispensar oxigénio e luz, e que dão ideias aos cientistas quanto à existência de vida no subsolo de Marte. Ler no DN

Por coincidência, e tendo em comum o Atacama, um extenso artigo na revista The Economist de ontem informa-nos que acaba de ser instalada, num telescópio do Laboratório Interamericano de Cerro Tololo, no dito deserto, a maior câmara digital do mundo, com 5 toneladas e 520 megapíxeis. O objetivo é perceber por que razão o universo se está a expandir, não lentamente como se pensava no princípio do século passado, mas a um ritmo cada vez mais acelerado (não, não creio que exista o perigo de rebentarmos, como a rã, no processo). O projeto chama-se “Dark Energy Survey” (DES).

Sabendo-se que a matéria de que são feitas as pessoas, os planetas e as estrelas representa apenas 4% da densidade do universo (massa+energia) e que a “matéria negra”, não constituída por átomos, representa outros 22%, o mistério está em saber o que constitui os restantes ¾ da densidade, estando aí, possivelmente, a explicação para a expansão acelerada do universo. Chamam-lhe “energia negra” e supõe-se que exerça uma pressão negativa, contrária à da gravidade. Se dividirmos a pressão negativa desta energia pela sua densidade (positiva), obtém-se uma força a que os cosmólogos chamam “w” (cujo valor andará à volta de -1). Para relembrar, ou descobrir, como tudo isto se relaciona com as teorias de Einstein, com a constante universal, com as supernovas, a cor vermelha, as oscilações sonoras, o Big Bang, etc., proponho a leitura do artigo, onde também travarão conhecimento com o astrónomo Dr Perlmutter, para quem este problema exigirá ser estudado por mais do que uma geração, ou seja, a incógnita surgiu no século XX, mas, pensa ele, só no século XXII terá resposta.

Vivemos o apogeu do cavaquismo

Se a degradação moral que atingiu a Presidência da República tivesse como responsável alguém ligado ao PS, a gente séria já teria decretado o fim do regime e estaria numa agitação frenética exigindo a cabeça do animal numa travessa. Como é um deles, como o reelegeram, como a hipocrisia é a única regra de ouro que respeitam, estão calados.

Extraordinariamente mais acabrunhante tem sido a postura da extrema-esquerda, ou esquerda verdadeira, ou única esquerda, ou esquerda dos que são realmente de esquerda e não admitem misturas com gentios. Estes santos revolucionários têm sido cúmplices passivos de Cavaco Silva, adorando todas as malfeitorias lançadas de Belém contra o inimigo comum. Deliraram com a golpada de Março que derrubou um Governo e o País. Continuam a proteger Cavaco porque ainda lhes poderá ser útil nos próximos 4 anos.

O Presidente da República foi sempre até 2008 uma figura que representava a segurança última para a pacificação da sociedade. Apesar dos diferentes envolvimentos políticos de acordo com os diferentes tempos e conjunturas desde o 25 de Abril, existia um consenso fundo à volta do simbolismo efectivo do lugar e da estima que naturalmente gerava. Agora, vivemos em stress pós-traumático, negando a evidência: o actual Presidente da República é causa de vergonha para qualquer português que se respeite a si próprio.

Vinte Linhas 735

Luísa Dacosta ou o sal das lágrimas (com um pastel de Maria Mendes)

Na solidão de uma tarde feia e triste salvou-me o livro de Luísa Dacosta (n. 1927) intitulado «Na água do tempo» (Quimera Editores). O que me fascina na escrita de Luísa Dacosta não é apenas a fusão feliz da Natureza e da Cultura. Neste diário de 1948 a 1987 pode ler-se a ideia de um compositor como Beethoven («Não há regra que não possa ser quebrada por amor do mais belo») ao lado de um registo da presença da chuva: «Chove. Chove. Chove. Acabou-se para sempre a esperança do sol. Tudo tem um ar desesperançado, de braços caídos ao longo do corpo». A escrita desta ilustre transmontana (Vila Real) faz lembrar Maria Lamas, Irene Lisboa, Raul Brandão ou António Nobre porque mesmo a sua prosa é sempre poesia. Vejamos:

Continuar a lerVinte Linhas 735

A fatalidade que podia não ser

“Com alguns brevíssimos sobressaltos pelo meio, a herança que a ditadura legou foi uma herança de conformismo e obediência, que permanece viva, e frequentemente dominante, no Portugal de hoje, com a sua complacência e a sua democracia. Verdade que o PREC não se recomenda. Mas não durou muito e a velha ordem depressa voltou com a sua dignidade postiça e as mediocridades do costume. A troika escusa de se preocupar. Cá na terra nós fazemos sempre, ou quase sempre, o que nos mandam. E não gostamos nada de aventuras.”

Vasco Pulido Valente (no Público de hoje)

VPV invoca sempre os seus profundíssimos conhecimentos da história do Estado Novo para comentar a atualidade política nacional. Diz ele hoje, em resumo, que não tem a Troika que se preocupar com o nosso cumprimento do acordo. Somos, nos últimos 70 anos, um povo submisso e obediente. Com alguns, poucos, interregnos, assim continuaremos a ser.

Não temos, por aqui, dúvidas de que o espírito salazarento, que já tinha reencarnado na figura física de Cavaco, em nada conflituante com a sua maneira de ser autoritária e de vistas curtas, logo na década de 80-90, reencarnou agora, alimentado e endoutrinado pela crise, ainda com maior viço, nas pessoas da coligação que nos governa (da qual fazem parte os “caritativos e beneficentes” do CDS). Este espírito é, volta não volta, explicitado por Manuela Ferreira Leite (que interpreta os “free marketeers” à luz peculiar da sua educação tradicional), em alturas em que, perante as câmaras, o seu sistema nervoso parassimpático suspende temporariamente a atividade.

VPV termina quase invariavelmente as suas crónicas na ideia da fatalidade, demonstrando também invariavelmente, que não é ele próprio um aventureiro, nem sequer um ousado. Nem oralmente, nem em feitos, nem com a pena. Seria o último escriba a contratar por um general que pretendesse, com um discurso, mobilizar as tropas. No que ao atual momento diz respeito, tem, todavia, razão.

Lamento é que esqueça sistematicamente (ou transfigure com fel) o interregno mais importante da história recente do país, o período em que fomos governados pela única pessoa com a determinação necessária para erradicar de vez o bolor e fazer qualquer coisa pelo orgulho, a dignidade e a inteligência das pessoas.

Cavaco não se demite por impedimento moral

Portugal é o único país da Europa (cf. o caso exemplar da Alemanha) onde o presidente não se demite depois de uma escandaleira como a dos benefícios pecuniários que ele e a família auferiram num negócio de favor com Oliveira e Costa, o presidente mega-burlão do BPN/SLN. Cavaco já se devia ter demitido há três anos, depois de se ter provado que omitiu factos relevantes e que mentiu descaradamente num comunicado em que declarou que nunca tivera negócios com o BPN (detido a 100% pela SLN) e que as suas acções da SLN, não cotadas na bolsa, tinham sido compradas e vendidas pelo banco gestor das suas “poupanças” e não (como realmente aconteceu) por ele próprio, directamente, ao presidente do BPN/SLN. Cito o comunicado de 23 de Novembro 2008:

«1. O Prof. Aníbal Cavaco Silva, no exercício da sua vida profissional, antes de desempenhar as actuais funções (nem posteriormente, como é óbvio):
(…)
b) nunca recebeu qualquer remuneração do BPN ou de qualquer das suas empresas;
c) nunca comprou ou vendeu nada ao BPN ou a qualquer das suas empresas.
(…)
3. O Prof. Cavaco Silva e a sua mulher têm, há muitos anos, a gestão das suas poupanças entregues a quatro bancos portugueses – incluindo o BPN (…) As alienações de títulos efectuadas pelos bancos gestores …» etc.

O presidente não só mentiu no comunicado como depois, em declarações adicionais à comunicação social, repetiu as mentiras. Não teve descaramento para processar o semanário que divulgou as provas da sua aldrabice. Mas queixou-se da quebra do sigilo bancário, atrás do qual teria preferido esconder-se, mesmo tratando-se de um banco nacionalizado que estava a ser investigado pela justiça, nomeadamente por todas as operações ilícitas e tratamentos de favor que contribuíram para a bancarrota do banco.

Os benefícios de favor, logo ilícitos, que o presidente alemão auferiu num crédito bancário concedido por amigos foram o suficiente para o obrigar a demitir-se. Mas na Alemanha há uma comunicação social que não larga os políticos corruptos.

Já nem falo do caso escabroso das “escutas” a Belém, em que Cavaco estava ao par da manipulação vigarista que Fernando Lima e o Público tentaram levar a cabo – e isto ao mesmo tempo que o primeiro-ministro Sócrates estava, ele sim, a ser alvo de escutas e gravações ilegais.

Oferta do nosso amigo Júlio

Os novos pitagóricos

Este vídeo já leva mais de 30 mil comentários, o que significa que demoraria mais tempo a lê-los a todos do que levou o Universo a chegar a este estado de impedimento em que se encontra Portugal. Lawrence Krauss é um físico teórico que despreza a religião, o humanismo, a América e Bush. Pelo menos, era assim em 2009, quando deu este espectáculo. E é um verdadeiro espectáculo, pois para além das questões espectaculares, e especulativas, que aborda ainda oferece uma sucessão imparável de chistes e sarcasmos os mais variados. O seu reportório tem também a vantagem de não sofrer alterações ao longo dos anos, pelo que basta assistir uma vez para ficarmos a conhecer o que a casa gasta.

Como curiosidade, o seu testemunho a respeito de Christopher Hitchens, de quem era amigo.

Consegue imaginar-se o nosso chefe de estado ou o nosso PM a ter uma atitude equivalente?

O presidente grego respondeu hoje de forma violenta aos responsáveis da Alemanha e dos países do Norte da Europa, que na opinião de Karolos Papoulias, estão a insultar a Grécia.

“Não aceito os insultos do Senhor Schaüble ao meu país”, afirmou Papoulias num discurso citado pela Bloomberg, que não teve como destino apenas o ministro das Finanças alemão.

“Não o aceito como grego. Quem é o Senhor Schaüble para ridicularizar a Grécia? Quem pensam que são os holandeses? Quem pensam que são os finlandeses? Temos o orgulho não só de defender a nossa liberdade, não apenas o nosso país, mas a liberdade de toda a Europa”, acrescentou.
Papoulias, com 82 anos, que combateu o regime Nazi durante a II Guerra Mundial, abdicou hoje do seu salário anual de 300 mil euros, num gesto de “solidariedade” com o povo grego, que está a ser alvo de “tantos sacrifícios”.

As críticas de Karolos Papoulias surgem numa altura em que os líderes europeus questionam se avançam com um segundo resgate à Grécia, que impeça o país de entrar em incumprimento já em Março.

A Alemanha tem liderado as declarações de ameaça sobre Atenas para aplicar mais medidas de austeridade, caso contrário ficará sem nova ajuda. Schaüble afirmou mesmo esta semana que a Europa está agora mais preparada para a saída da Grécia do Euro.

O ministro afirmou recentemente que a Grécia não pode ser um “poço sem fundo” e hoje foi a vez do seu vice, Steffen Kampeter, defender a mesma ideia.

Os políticos gregos têm criticado a pressão a que estão sujeitos depois de na semana passada, mesmo com a aprovação de mais austeridade no Parlamento, os ministros das Finanças da Zona Euro terem recusado aprovar um segundo empréstimo ao país. Antonis Samaras, líder do partido Nova Democracia e apontado como provável próximo primeiro-ministro.

Também o Governo grego mostra impaciência com as exigências da Europa. “Estamos constantemente a ser confrontados com novas exigências”, afirmou Venizelos, acusando “alguns poderes europeus” de quererem expulsar o país do euro.

Venizelos afirmou ainda que o país vive no “fio da navalha” e criticou “as pessoas que na Grécia e no estrangeiro estão a brincar com o fogo” e a dificultar as negociações do segundo pacote de resgate. “Uns têm fósforos, os outros têm tochas”, atirou Venizelos.

No final da reunião por teleconferência de hoje dos ministros das Finanças, o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker mostrou-se confiante com uma decisão positiva sobre a Grécia na reunião de 20 de Fevereiro.

Fonte

Medir o esquerdismo

E infelizmente, pelo que eu posso testemunhar à minha volta, até pessoas crescidas do PS ainda hoje continuam absolutamente convencidas de que “o Sócrates é um corrupto” (e até se abstiveram nas últimas Legislativas, dá para acreditar?)!…

Mas parece-me que a maior gravidade de tudo isto não é já tanto o que fizeram a José Sócrates, bem como a Portugal e, sobretudo, aos portugueses, em especial às gerações que já não conheceram o 25 de Abril, mas sim a real possibilidade de TUDO SE PODER VOLTAR A REPETIR no Futuro, sempre que um Governo afronte os poderosos interesses instalados na Sociedade portuguesa e que, desde há décadas ou mesmo Séculos, lucram com o nosso sub-desenvolvimento económico, político, social e cívico!

As mesmíssimas forças, sob formas históricamente diversas, que pegaram em armas contra D. Pedro por D. Miguel, que sabotaram o funcionamento da 1ª República fora de Lisboa e Porto e que criaram o artifício propagandístico de Fátima, as mesmas forças que ungiram Salazar e benzeram a Colonização, que resistiram quanto puderam ao 25 de Abril e que ainda clamam por “vingança”, são essas as forças que se opuseram aos Governos de Sócrates, não tanto pelo personagem em si (ao contrário do que tão bem tentaram fazer crer à populaça), mas pela única e inquestionável razão que foi ele, Sócrates, e os seus Governos, sobretudo o primeiro, que deram as maiores sapatadas sérias e com efeitos profundos a essas forças invisíveis, mas bem organizadas e estruturadas, de forma muito mais orgânica do que formal, desde os Governos de Vasco Gonçalves e Mário Soares! De formas absolutamente distintas, claro, para alguns será necessário afirmá-lo explícitamente (e mesmo assim muitos não o conseguirão atingir…).

Pois a medida do “esquerdismo” de uma ação política mede-se muito mais pelo que a Direita perde com ela, do que por aquilo que a “Esquerda” ganha, representando e defendendo a Esquerda valores e entidades muito mais complexas e difusas do que as diretamente representadas, com inequívoco imediatismo, pela Direita…

Por isso, exorto todos os que prezam o Estado de Direito e o desenvolvimento político e social (por isso também mental) da Sociedade portuguesa que coloquem em segundo plano a raiva que sentem pelos efeitos diretos do derrube de José Sócrates, que serão muito mais fundos do que os meramente económicos e orçamentais, e centrem as suas preocupações na necessidade de alterar, profundamente e com urgência, as condições concretas que permitiram o que aconteceu no Passado recente e, pior do que isso, voltarão fatalmente a acontecer no dia e com o líder político que encete de novo o caminho do Progresso Social e do desenvolvimento de Portugal de acordo com os padrões civilizacionais europeus. Senão, tudo o que já vimos voltaremos a testemunhar, seja a vítima chamada Assis, como Costa, como até por hipótese académica Alegre, Carrilho, Louçã, até Bruno Dias, o que quiserem…

Oferta do nosso amigo Marco Alberto Alves