Canção para uma noite em Évora (1938) – a Carlos Querido

Meu avô José Almeida na noite

Esperava em vão a carruagem

Que nesse dia partira do Barreiro

Com o cofre para pagar aos homens.

Em Évora apenas os sons da feira

Quebravam a angústia da espera

Dos carpinteiros da Companhia

Construtores dos telhados da linha.

Poucos anos antes no Valado de Frades

Um empregado de seu pai levava

Uma égua mansa pela arreata

Ao soldado chegado de Leiria.

Hoje é diferente. Já pai de filhos

Não acredita nas palavras do chefe

Nem no apontador deste grupo

Atónito na estação da CP em Évora.

Com o bocal da trompete na mão

Aborda um jovem e pede o cornetim

Ali entre a surpresa e a ousadia

No meio do pó do baile rasgado.

Tocou a «Moreninha» e o «Teodoro»

As músicas da moda, anos trinta

Ante o aplauso geral do baile

Logo havia abafado e figos secos.

Cinquenta anos depois contava a sorrir

Há uma fotografia dele com a bisneta

No sol de Março da nossa terra

Sem saber da morte dos comboios.

Sei lá se é

O FMI nomeou para Portugal um novo chefe de missão: Abebe Aemro Selassie, com um apelido igual ao do antigo Negus, seu conterrâneo, Hailé Selassié de seu nome, o Imperador (ver o livro homónimo de Riszard Kapuscinski sobre o fim do regime desse senhor, uma das coisas mais delirantes que já li), que nos anos 60 visitou o Portugal do Botas, talvez com a espinhosa missão de o dissuadir de manter as colónias.

Será competente este novo Seleassié, que tem à sua frente uma missão não menos espinhosa do que a do outro? Caso para responder: sei lá se é… (uma piada dos anos 60). Quem estiver interessado no perfil deste mangas, vá ao site do FMI ler dois artigos dele.

Num dos artigo diz que, como economista, espera sempre o pior. Aviso à navegação… No outro fala sobre o desemprego na África do Sul, onde também já trabalhou para o FMI. A taxa de desemprego lá é 24% da população activa, 50 % entre os jovens. Um puzzle, de facto.

Há vinte e tal anos, os rufias portugas da direita racista, bacoca e delinquente contavam anedotas de muito mau gosto sobre a Etiópia e os etíopes que morriam à fome. É a eles que dedico a nomeação de Abebe Selassié como novo chefe da delegação do FMI em Portugal, à frente da troika.

Oferta do nosso amigo Júlio

A corrupção dos xuxas é bué pelintra: 147,72 euros por mês

Esta capa é um exemplo de puro sensacionalismo cujo objectivo é continuar a difamar políticos, e personalidades, ligados a Sócrates e ao PS do ciclo Sócrates. Na sequência, Santos Silva esclareceu que os seus gastos com o cartão correspondem a uma média de 147,72 euros por mês, para um total de 2.954,39 euros em 20 meses. Ficamos agora à espera que os honestíssimos jornalistas do Correio da Manhã venham anunciar terem recebido informações de uma fonte credível não identificada que garante saber terem sido esses 147,72 euros mensais gastados em putas e vinho verde. Futuras investigações deste Avante dos ranhosos tentarão descobrir ao cêntimo qual o custo das putas e qual o custo do vinho verde de modo a melhor se poder avaliar o desempenho de Santos Silva à frente do Ministério da Defesa. A questão não é despicienda, como qualquer representante da gente séria poderá sem esforço, e com manifesto gosto, explicar.

Entretanto, o Diário de Notícias fez uma notícia com o assunto. Porquê? Para poder escrever o seguinte:

Na nota publicada publicada hoje de manhã, Santos Silva recua na insinuação de que para a atual equipa ministerial da Defesa, liderada por José Pedro Aguiar-Branco, teria tido”útil” a manchete do Correio da Manhã.

Pelo contrário, agradece na pessoa dos “mais altos responsáveis” do ministério da Defesa, a “celeridade” com que lhe “facultaram a informação solicitada”, “compreendendo a sua relevância para a defesa” da sua “honra pessoal” e, na sua “modesta opinião”, “também para a defesa da dignidade institucional das funções” que teve “o privilégio de exercer”.

Donde, dupla vitória para Aguiar-Branco e Governo: da difamação já ninguém livra Santos Silva junto dos broncos e os actuais governantes ainda passam por bons da fita. É destes inestimáveis serviços que vive, e para que vive, o pasquim do laranjal.

Ideólogos da pobreza

Segundo este analista, “o problema de Portugal não é a política orçamental”, mas sim “o excessivo consumo do sector privado, que durante mais de dez anos se habituou a gastar muito mais que o seu rendimento”.

“À primeira vista podemos ser tentados a dizer: e então? Porque deverão os mercados preocupar-se se os agregados familiares continuarem a consumir e as empresas portuguesas invistam com crédito? Desde que o Governo coloque as suas contas em ordem, o prémio de risco na dívida do Governo deve cair. No entanto, os mercados retiraram uma lição desta crise: a dívida privada excessiva torna-se, no final, dívida pública”, escreve o director do centro de estudos.

Daniel Gros considera assim que o Governo português tem pela frente o grande desafio de não só colocarem as contas públicas em ordem como também fazer com que o seu sector bancário assegure que as despesas caiam para níveis compatíveis com os rendimentos.

“Tal requereria uma nova queda no consumo (privado) acima dos 10%, e uma descida semelhante no investimento na construção. Ambos seriam altamente impopulares. Mas se tal não for feito, os esforços de ajustamento do país não poderão ser bem-sucedidos”, conclui.

Fonte

Vinte Linhas 739

FAP – não eram só os doentes, os enfermeiros também não sabiam

A propósito de «Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco» de Nuno Costa Santos o poeta Rui Almeida garantiu uma coisa: «este autor, seu vizinho nas páginas da Revista Ler, vai aceitar a chamada de atenção às gralhas». Vamos ao caso. Na página 17 refere-se o ano de 1942 como da entrada da irmã para o Liceu mas se ela nasceu em 1938 tinha apenas 4 anos e não podia ir para o Liceu. Na página 20 diz-se que FAP em Janeiro de 1954 entrou para os infantis mas a um mês de fazer 17 anos o escalão correcto é juniores. Na página 78 surge duas vezes a palavra «imenso»: gostava imenso e ajudava imenso. Na página 94 refere-se Herberto Helder como conhecimento da tropa em Santarém mas já na página 96 diz-se que foi em casa do médico Manuel Louzã que FAP conheceu Herberto Helder. Sendo HH muito mais velho que FAP não podiam fazer a tropa juntos. Aliás HH estava ao tempo em Santarém ao serviço das Bibliotecas da Gulbenkian. Na página 98 surge a palavra «Carioco» quando é bem Caricoco. Na página 100 faltam as aspas depois de «não acerto com o Zeitgeist. Na página 108 refere-se o jornal República (saíram em 1972) quando se sabe que foi em 1971 – altura em que Raul Rego substituiu Carvalhão Duarte. Na página 173 aparecem «morreu» e «faleceu» de seguida, uma repetição. Na página 194 surgem as palavras «familiares, familiar, família» na mesma frase. Por fim na página 209 na lista dos livros publicados deveria estar a colectânea Retratos falados de 2001 – um conjunto de entrevistas. Uma última nota. A primeira vez que falei com FAP emocionou-me o facto de ter na sua carteira um poema meu publicado no Diário Popular em Agosto de 1978. A última vez que falei com FAP no palácio Galveias na emoção percebi que no Hospital ninguém o conhecia – nem doentes nem enfermeiros. Era apenas o sô Fernando.

Pesadelo

Durante décadas o PSD tentou impingir-nos o seu sonho de ter no Poder uma maioria, um Governo e um Presidente. Uma fórmula quase mágica que resolveria todos os nossos problemas. Havia, contudo, um problema que impedia a sua realização: os portugueses, piegas, tinham medo de pôr todos os ovos no mesmo cesto. Era com esta desculpa esfarrapada que tentavam disfarçar o facto de eleição após eleição não terem projectos alternativos credíveis, de elegerem líderes que não lembram a ninguém, de se apresentarem sempre sem uma ideia digna desse nome e de consequentemente não conseguirem ser eleitos. A cada eleição lá tinham de adiar o sonho. Mas tudo mudou nas últimas eleições e, bem vistas as coisas, não poderia ter sido em melhor altura, com o país numa situação tão difícil e com uma crise internacional gravíssima tinham finalmente a possibilidade de mostrar o que valiam. E passados oito meses já dá para termos uma ideia de quanto valem todos juntos. Quanto ao Governo, o que o salva de parecer tão ou mais anedótico que o Governo do Santana Lopes é ter de executar o memorando da Troika. Quanto a ideias, é o costume, nem vê-las. Corrijo, têm uma ideia: ir além do que o memorando exige. Fora isso, todos os dias, feriados incluídos, lá vem um ministro com uma anedota qualquer. Com a maioria as coisas não correm melhor. Provavelmente, o sonho não incluía uma maioria de coligação, mas teve de ser. É que, apesar das condições em que o PS concorreu às eleições, o PSD não conseguiu chegar à maioria sozinho. E o que temos podido observar é um dos parceiros de coligação a fingir-se de morto, a tentar passar ao lado de tudo o que é austeridade, sem um pingo de solidariedade para com o Governo. Só um cego não vê que a paz que aparentemente existe está podre. Quanto ao Presidente, e à relação que mantém com o Governo, nem é preciso falar. Nunca se tinha visto nada assim e espero que não se volte a ver. A procissão ainda vai no adro, mas restará alguém que chame a isto um sonho?

Vamos concluir?

A percentagem de portugueses que dá nota negativa ao Governo quase que duplicou face à última sondagem da Católica, em Setembro. Nessa altura 36% consideravam que a prestação do Governo era má e 32% elogiavam o seu desempenho. Agora 62% chumba a actuação do Executivo de Passos Coelho e 29% atribui nota positiva, o que revela que os que, em Setembro (com três meses de governação), não tinham opinião formada, agora criticam o Governo.
Apesar das críticas, e de 40% da população achar mesmo que os sacrifícios impostos aos cidadãos (através, nomeadamente, do aumento de impostos) não levarão a bom porto, a grande maioria (73%) não encontra melhor alternativa em qualquer um dos partidos da oposição
.”

Que o governo vá afundando nas sondagens, já se esperava, apenas não se percebendo como alguma vez subiu ao ponto de ser eleito. Mas os portugueses dizem também não ver boas alternativas nas oposições.
O que concluis?

1. Qualquer que fosse o governo neste momento, agiria da mesma maneira e com igual gosto.

2. Quem governa, e governará, é a troika, por isso, melhor as oposições não se meterem nisto.

2. António José Seguro não entusiasma.

3. António José Seguro ainda não entusiasma.

4. António José Seguro só há poucos dias começou a entusiasmar, não indo a tempo da sondagem.

5. O PCP é para organizar manifestações, não para governar.

6. O BE não é para governar, porque ficaríamos sem os nossos depósitos bancários e perderíamos uns críticos e treinadores de bancada que nem ao relvado pretendem descer.

7. O Sócrates está longe.

8. O Sócrates está perto demais.

Conivência com a homofobia

Ministério indiano do Interior quer voltar a penalizar as relações homossexuais
Da direita à esquerda todos dirão: – “que coisa horrível”. Alguns, talvez, no silêncio das suas consciências dirão: – “que coisa exagerada”.
É monstruoso, sim.
Não deixa de ser monstruoso que custe tanto a interiorizar este facto: nós, que criminalizámos os actos homossexuais até aos anos 80, isto é, no auge da geração de tantos Deputados, não podemos ter “graus” de homofobia.
Ter “graus” de homofobia é como tolerar “em certas circunstâncias” ou “mais ou menos” o terrorismo.
Identificada a filosofia como infundada, criminosa, com um passado e presente de insulto e de sofrimento, não admitir o CPMS, porque o casamento é um privilégio de alguns, não admitir a PMA para lésbicas, porque não “pertencem a um homem”, não admitir a adoção por casais do mesmo sexo contra todos os estudos feitos sobre a matéria e contra a realidade já existente, não admitir a co-adoção, não admitir, enfim, que os homossexuais têm, como quaisquer pessoas, a sua sexualidade e os afetos daí decorrentes como elemento determinante da sua identidade e por isso toda, mas toda a igualdade de direitos tem de ser consagrada para que no livre desenvolvimento da sua personalidade tenham todas, mas todas as escolhas jurídicas disponíveis, não admitir isto é fazer parte da substância da filosofia que faz hoje notícia no “Público”.

E pensar que existe quem se aborreça neste mundo

O eterno Pangloss que há em mim espera cheio de confiança que alguém no Ministério da Educação, na Gulbenkian ou no Clube Recreativo de Alguidares de Baixo mande um email ao Cary Huang a dizer-lhe que em Portugal ainda há quem tenha mais de dois neurónios a funcionar, pelo que lhe vamos comprar o direito de usar esta maravilha no nosso sistema de ensino; depois de devidamente traduzida para língua de gente (a nossa).

O cabrãozito (aqui à direita de azul, o mano Michael ao lado, são gémeos) fez a primeira versão da coisa como passatempo quando andava no 7º ano de escolaridade, tinha 12 anos. E conseguiu juntar um comentário informativo, e engraçado, em todos os desenhos (basta tocar neles). Centenas de desenhos e de textos muito, muito, muito fixes. O cabrãozito do chinoca americano.

Este instrumento pode despertar vocações no campo da física, química, biologia, astronomia, computação, design e matemática. Pelo menos, embora não seja de descartar a possibilidade de também despertar vocações no campo da exportação de pastéis de nata. Dos 10 aos 18 anos, e para quem continuar jovem mesmo que tenha 100 anos, a simplicidade desta visão holística da realidade material é uma chamada para mergulhar no mistério de olhos abertos.

Um livro por semana 277

«Manifestos contra o medo» de Luís Norberto Lourenço

Juntar em livro um conjunto de artigos de opinião dispersos por jornais, revistas e fanzines, é aquilo a que qualquer autor aspira. Luís Norberto Lourenço (n.1973) junta em 211 páginas uma intervenção cívica desde 1995 até à actualidade, partindo da ideia-chave de um artigo em 2004: «O cidadão não queria saber da política mas a política queria saber dele».

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Os estagiários da OA, pontapeados nos seus direitos fundamentais pelo corporativismo daquela, viram o Tribunal Constitucional dizer “basta”. Hoje respira-se melhor.

(…) Em suma: as normas regulamentares editadas pelo Conselho Geral da Ordem dos Advogados eliminam a faculdade de inscrição no curso de advogado estagiário pelo período de três anos em consequência da: i) obtenção de classificação negativa na prova de aferição realizada no âmbito da repetição da fase de formação inicial ou falta reiterada ao teste escrito que a integra (artigo 24.º, n.os 3 e 4); ii) verificação de falta de aproveitamento no âmbito da repetição da fase de formação complementar (artigo 36.º, n.º 2, 2.ª parte); e iii) reprovação na prova oral de repetição realizada no âmbito da repetição da fase de formação complementar (artigo 42.º, n.º 5, 2.ª parte).
III – Decisão
Pelos fundamentos expostos, o Tribunal Constitucional decide declarar a inconstitucionalidade, com força obrigatória geral, das normas constantes dos n.os 3 e 4 do artigo 24.º, 2.ª parte do n.º 2 do artigo 36.º e 2.ª parte do n.º 5 do artigo 42.º, todos do Regulamento Nacional de Estágio da Ordem dos Advogados (Regulamento n.º 52-A/2005, de 1 de agosto), na redação que lhes foi conferida pela Deliberação n.º 3333-A/2009, de 16 de dezembro, do Conselho Geral da Ordem dos Advogados, por violação das disposições conjugadas dos artigos 47.º, n.º 1, e 165.º, n.º 1, alínea b), da Constituição.
Ler todo o AcTC
Assim, estas normas, ao suspenderem temporariamente a faculdade de acesso ao estágio de advocacia a uma categoria de licenciados em Direito integrada no universo dos sujeitos candidatáveis à inscrição naquela associação tal como este se encontra configurado na lei estatutária, comprimem inovatoriamente projeções nucleares do direito à livre escolha de uma profissão, razão pela qual só poderiam constar de lei da Assembleia da República ou de decreto-lei emitido ao abrigo de uma lei de autorização­ legislativa [cfr. artigo 165.º, n.º 1, alínea b), e artigo 47.º, n.º 1, da Constituição] e, não, como se verifica suceder, de Regulamento emitido por aquele Conselho, ainda que ao abrigo da previsão da alínea g) do n.º 1 do artigo 45.º do respetivo Estatuto.
Deverá concluir-se, assim, pela ­inconstitucionalidade das normas constantes dos n.os 3 e 4 do artigo 24.º; 2.ª parte do n.º 2 do artigo 36.º e 2.ª parte do n.º 5 do artigo 42.º, todos do Regulamento Nacional de Estágio da Ordem dos Advogados (Regulamento n.º 52-A/2005, de 1 de agosto), na redação que lhes foi conferida pela Deliberação n.º 3333-A/2009, de 16 de dezembro, do Conselho Geral da Ordem dos Advogados.

Vinte Linhas 738

50 anos depois do primeiro livro – o poeta em Alcoutim

Em 1962 o poeta Fernando Grade estreou-se em livro com «Sangria», uma edição da Guimarães Editores. O seu 29º livro de poemas celebra essa «maratona» com um conjunto do qual, na anterior oportunidade, não houve espaço para nomear esta «Canção de campo e desgraça ao sabor do Guadiana». Ainda a tempo, aqui fica um excerto:

«Correm as brisas sangrentas

No que resta de olivais

Cabelos são como lendas

Presos nas águas do cais.

Ó Alcoutim, Alcoutim

Que vês o rio a correr

Como um pénis ternurento

Nas mamas de uma mulher.

San Lucar fica defronte

Tem casas brancas com gatos

A noite não sabe a uvas

E os beijos são desacatos.

Cruzamos ventos com facas

Baile de sombras e medos

O meu amor por mulatas

Sabe a vinho e a bruxedos».

Ingleses veem em Passos um caso perdido de submissão a Merkel

David Cameron também já percebeu que a palavra “crescimento” causa curto-circuito nos neurónios de Passos.

“O primeiro-ministro português ficou de fora do manifesto do primeiro-ministro britânico, David Cameron, porque “não está sintonizado”, refere a edição de hoje do “Diário de Notícias”.

O jornal, que cita o site oficial do gabinete de Cameron, conta que em Janeiro passado o primeiro-ministro britânico e o seu homólogo italiano Mário Monti concordaram que “os seus países deveriam trabalhar juntos para desenvolver medidas práticas que desbloqueassem o potencial do mercado único”.

O manifesto, intitulado “Um plano para o crescimento na Europa” foi assinado por 12 primeiros-ministros europeus, tendo Passos Coelho ficado de fora. “

O ciborgue laranja

O aproveitamento de uma situação de protesto popular para atacar Cavaco Silva na sua dignidade, juntando ao gesto oportunista farpas explícitas, reactualiza Passos Coelho como aquele ser que despertou ódio incontrolado nos cavaquistas por causa das rasteiras e facadas que dirigiu a Ferreira Leite, tendo como consequência que ele e Relvas ficassem excluídos das listas de deputados para as eleições de 2009.

Passos é um ciborgue criado pela máquina financeira e pela cultura de poder do PSD. Não há, por isso, qualquer dificuldade na interpretação do seu comportamento: está programado para matar os pais se tal for necessário à sua sobrevivência.

Até que enfim: gotas de inteligência no oceano da imbecilidade

“Não tentem imitar a Islândia”, escreve Luís Fazenda, citando o ministro das Finanças local. Ninguém quer imitar a Islândia. Porque há, entre a Islândia e Portugal, diferenças abissais. Mas transformar qualquer meia vitória numa meia derrota – ou numa derrota inteira – não é estratégia nova. Alimenta-se da ideia de que menos do que tudo é traição. Uma ideia que só pode garantir à esquerda mais umas décadas de derrotas. Tem uma utilidade: manter um nicho de mercado, sem riscos nem sobressaltos. Os beneficiários desta crise agradecem tamanha “radicalidade”. E claro que todo o texto de Luís Fazenda é para ter leituras nacionais.

Daniel Oliveira

Vinte Linhas 737

Crónica para uma reflexão sobre as crónicas

O pouco e o muito. Hoje festejo nove anos de crónicas na Rádio. A crónica pode ser a narração circunstanciada e também a notícia ou o registo de um acontecimento mas a palavra crónico define o que dura há muito tempo ou actua lentamente. A crónica vale, muitas vezes, como um quase poema. Liga dois mundos separados pelo esquecimento. A vida à nossa volta está sempre a insinuar uma presença, um aviso, uma interpelação. Apertamos a mão a alguém que nunca vamos conhecer porque os seus dias sombrios escondem um drama sem dimensão: a ex-mulher fugiu e escondeu-lhe a filha mas quem o podia ajudar não o faz porque tem um pacto de silêncio com a sua ex-mulher. Vidas, anos, passado, futuro. O pouco e o muito. Na cidade, centenas de anos é pouco. No programa de rádio, nove anos é muito. A cidade constrói casas novas sobre restos de casas antigas de antigas gerações. Nove anos de rádio é muito sacrifício, muito esforço, muito sangue pisado. O efémero da rádio permanece em coisas quase invisíveis: um telefonema, uma saudação, uma palavra a garantir que nem tudo se perdeu. Houve contacto e a mensagem permanece. Resiste ao tempo. O pouco e o muito.

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