Vinte Linhas 737

Crónica para uma reflexão sobre as crónicas

O pouco e o muito. Hoje festejo nove anos de crónicas na Rádio. A crónica pode ser a narração circunstanciada e também a notícia ou o registo de um acontecimento mas a palavra crónico define o que dura há muito tempo ou actua lentamente. A crónica vale, muitas vezes, como um quase poema. Liga dois mundos separados pelo esquecimento. A vida à nossa volta está sempre a insinuar uma presença, um aviso, uma interpelação. Apertamos a mão a alguém que nunca vamos conhecer porque os seus dias sombrios escondem um drama sem dimensão: a ex-mulher fugiu e escondeu-lhe a filha mas quem o podia ajudar não o faz porque tem um pacto de silêncio com a sua ex-mulher. Vidas, anos, passado, futuro. O pouco e o muito. Na cidade, centenas de anos é pouco. No programa de rádio, nove anos é muito. A cidade constrói casas novas sobre restos de casas antigas de antigas gerações. Nove anos de rádio é muito sacrifício, muito esforço, muito sangue pisado. O efémero da rádio permanece em coisas quase invisíveis: um telefonema, uma saudação, uma palavra a garantir que nem tudo se perdeu. Houve contacto e a mensagem permanece. Resiste ao tempo. O pouco e o muito.

Nestes nove anos nasceram os meus três netos: três meninos que são três formas de esperança. Todos os dias os vejo ou procura saber deles. O mais velho já faz redacções; os mais pequenos sabem sorrir e dizer adeus a toda a gente. O mais novo dos três gosta muito de ouvir o piano de Ludovico Einaudi. Cada partitura volta sempre ao mesmo tema: La nascita delle cose segrete. Que outra coisa dizer perante a idade de um programa de rádio? Nascem coisas secretas todas as manhãs, algures no meio do Oceano Atlântico, no meio do Mundo, no meio do coração de quem escreve, grava, edita e ouve as crónicas da vida de todos os dias.

6 thoughts on “Vinte Linhas 737”

  1. A propósito Olinda – não percas a música de Ludovico Einaudi podes ouvir no motor de busca basta escrever o seu nome.

  2. Será, porventura, imperdoável, mas desconhecia a sua faceta de cronista radiofónico.

    Ofenderei a sua modéstia pedindo-lhe que me (nos) informe em que estação poderei ouvir as suas crónicas?

    Cumprimentos

  3. Faz agora nove anos que leio às sextas e vai para o ar às terças uma crónica na RDP Açores Antena 1 programa Inter Ilhas. Em termos de ouvir pode ouvir-se na Net basta ter acesso à RTP Net. O convite partiu do realizador Sidónio Bettencourt. Há pessoas que telefonam quando gostam ou quando lhes apetece. Entretanto fiz amizade com os (e as) sonoplastas e sou amigo mesmo dos que entretanto se reformam. A Rádio é assim como o teatro – um bichinho que entra e que já não sai. É o esplendor do efémero…

  4. toma lá, este gajo só não fala do que faz com a mulher porque tem medo que lhe digam que só conhece aposição de missionário. Mais uma redacção sobre este pedaço de vaidade pecaminosa, cm lugar marcado na chama.

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