Vinte Linhas 728

Uma saudação breve para Marta em Madrid

Na terra onde olhaste o Mundo pela primeira vez há, nas estradas à noite, gente altiva que faz alto aos Deuses. E os Deuses param, na sua viagem eterna e sem destino marcado. São altivos os azeitoneiros andaluzes que trabalham por turnos nos grandes lagares. No seu olhar flutua a luz finíssima do azeite que descansa nas tarefas escuras por cima da água ruça. Existe no azeite e no seu mistério uma metáfora do Mundo: o bem e o mal, a luz e a sombra, a vida e a morte, a alegria e o desespero. O mestre do lagar tem uma mão certeira na separação da água ruça que se perde no escuro do ladrão da cave do lagar.

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Subsídios de férias e de Natal

Alguém será capaz de explicar decentemente por que carga de água os despachos relativos à contratação de adjuntos pelo Governo têm mencionado (e continuam a mencionar) que estes têm direito a subsídio de férias e de Natal? E por que razão nalguns casos já denunciados o “lapso” foi corrigido e noutros se apresenta o argumento de que não é necessária qualquer correção porque está pressuposto que não terão direito a eles enquanto durar o programa de assistência económica e financeira? (E agora em tom de Consultório Jurídico) Como controlar o cumprimento prático dessa subentendida norma?

Ainda a propósito de subsídios cortados, no todo ou em parte, na função pública, a dona Ana Avoila, o senhor Bettencourt Picanço ou o sindicalista Mário Nogueira onde andam? Na anterior legislatura fartavam-se de chinfrinar e vociferar para as câmaras (é daí que os conheço), mas agora parecem extremamente “confortados” com o quase supremo ataque ao funcionalismo público (apenas um grau abaixo dos despedimentos).

Mais uma vez a linguagem branca: “reavaliar aspectos da lei do aborto”

Podia ler-se esta notícia e optar-se por não lhe dar valor algum.
Acontece que estamos perante uma direita em concreto, esta, a direita que invoca metas do memorando de entendimento para calar tudo e todos quanto aos meios que escolhe, que são seus, com alternativa possível, para os alcançar.
Estamos perante essa direita batoteira, mentirosa, mesmo, de tal forma que dobra a linguagem para esconder a realidade que está a construir, destruindo uma outra, cheia de gente entre a vida e a morte de tão asfixiada pelos tais dos meios.
Quem assim procede só pode estar carregado de um sentimento de moralidade deísta, é uma direita que vê os caixotes nas farmácias cheios de receitas de quem comprou fiado e estende a mão, num elogio do sacrifício, garantido que haverá redenção.
É isto: esta direita é celestial e nada lhe escapa. Animada pelo exemplo espanhol que, desde os anos 80 permite a IVG numa interpretação lata, recentemente actualizada, e que agora se vê perante a ameaça de retroceder juridica e culturalmente quase 30 anos e perseguir penalmente milhares e milhares de mulheres, olhou, viu que era bom e aplicou a ideia.
A direita Calcutá começa por dizer aos moribundos que está a reavaliar a hipótese, para depois dizer umas coisas mais concretas.
Estes fascistas descobriram isto: apesar do peso político de um resultado referendário expressivo; apesar de viverem num país que consagra constitucionalmente o princípio da segurança jurídica e da tutela das expectativas; apesar desta lógica de não retrocesso, apoiada nestes princípios não existentes nos EUA – donde vermos por lá coisas estranhas à nossa cultura -; eis que a vizinha Espanha dá uma mãozinha ao calvário.
É inaceitável, e mais ideias destes deuses, afinal não derrubados em Abril, virão.
Atrevam-se.
A política, a decência e o direito estão do nosso lado.

A estratosfera está a ficar sobrepovoada

O ministro das Finanças, em entrevista ao Financial Times, lembrou os ingleses que nós, os portugueses, temos a tradição de ser bons navegadores. É uma rica frase, não sei é se algum membro do actual Governo de direita a pode usar como argumento. Então não eram portugueses, logo bons navegadores, os governantes que antecederam os actuais? Não é a direita que repete incansável que os portugueses que nos governaram nos últimos quinze anos levaram o País para o abismo? Se calhar o ministro enganou-se, queria dizer que os portugueses de direita são excelentes navegadores, tirando os que, por azar, nos governaram no passado e que não estou a ver o ministro elogiar a brilhante navegação: Cavaco, Barroso, Santana. Pronto, sobram os actuais governantes. Desde os Descobrimentos que não se viam tão bons navegadores nestas paragens. Mesmo em mares altamente conturbados, em que ninguém faz ideia alguma do que virá a seguir, temos os governantes mais optimistas de que há memória. Cumprirão tudinho o que prometeram e, sobretudo, o que não prometeram, avistam ‘pontos de viragem’ que mais ninguém vê, e quanto maiores são os obstáculos (juros a bater recordes, recessão e desemprego a agravarem-se, meio Mundo a garantir que estamos cada vez mais próximos da Grécia, etc.) maior é a certeza de que estamos no caminho certo rumo à prosperidade. Noutros tempos, lá está, isto não era navegar com sabedoria, era viver na estratosfera.

Estamos a caminho da pastelização total

Questionado sobre o que levou o Governo a decidir eliminar igual número de feriados civis e religiosos, e tendo em conta que estes últimos são e continuarão a ser em maior número, o ministro da Economia respondeu: «O Governo aceitou a condição que a própria Igreja [Católica] nos disse».

«Para a Igreja [Católica] era muito importante haver simetria, e nós concordámos que fazia sentido haver simetria [na eliminação] de feriados civis e religiosos», acrescentou Álvaro Santos Pereira.

Os dois feriados religiosos a eliminar «serão definidos pela Comissão Paritária da Igreja, que depois transmitirá exactamente essa decisão, no âmbito da Concordata», adiantou o ministro da Economia.

Quanto à escolha do 5 de Outubro e do 1.º de Dezembro, o ministro argumentou: «Se analisarmos o calendário dos feriados civis, se não quisermos alterar o 25 de Abril e o 1.º de Maio, que nunca foi nossa intenção, só poderíamos alterar o 10 de Junho – e o 10 de Junho é um dia de Portugal, das comunidades portuguesas e é um dia que tem de ser reforçado no nosso entender».

Fonte

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Esta ideia de ser muito importante para a Igreja Católica haver simetria numa matéria quantitativa e qualitativamente assimétrica, onde o Estado concede o favor de celebrar oficialmente datas que só fazem sentido para os católicos (e destes, só para os praticantes), não foi explicada, muito menos debatida, em lado algum. Aposto que nem sequer o Álvaro discutiu o assunto fosse com quem fosse, tendo despachado a coisa com o mesmo desprezo utilizado nas calinadas desmioladas acerca do “reforço” do 10 de Junho. A imagem de um Estado onde a secularidade se exibe assim subsidiária da religião ficará como mais um doce do ministro pasteleiro.

Mas não é o Álvaro que nos interessa, nem o Governo fraudulento a que pertence. Porque chegará o dia da sua avaliação pelo Soberano. O que nos interessa é a oposição. A comatosa apatia que os dirigentes comunistas, bloquistas e socialistas exibem nesta matéria da identidade nacional tem uma causa comum: são todos cúmplices do boicote ao esforço para livrar Portugal da ruína que um empréstimo de emergência acarretaria. Andaram a brincar aos políticos que derrubam políticos à custa da racionalidade que protegia os cidadãos.

Maneiras que deu nisto, este marasmo onde os antigos compinchas das coligações negativas voltam a ficar irmanados no propósito de espezinharem as memórias do sonho republicano e da coragem patriota.

Um livro por semana 274

«Desporto com Política» de António Simões

O jornalista António Simões (n.1963), autor de «Glória e Vida de Três Gigantes» (com Homero Serpa e José do Carmo Francisco) volta à História do Desporto português com esta reportagem (Prémio Norberto Lopes -Casa da Imprensa) agora editada em livro. Livro é termo genérico mas a variedade, a riqueza e a raridade de muitas das imagens faz deste volume de 316 páginas uma verdadeira fotobiografia do Desporto em Portugal entre o fim da Monarquia e o tempo actual.

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Da impossibilidade de uma alternativa

Que a Alemanha possui o recheio e a chave do cofre europeu, todos sabemos. Que, por isso, e enquanto a sua situação económica for boa, não tem interesse em alterar o rumo da política europeia por si definida, também sabemos e, imaginando-nos alemães, até compreendemos, apesar de não termos de nos resignar, não sendo nós, de facto, alemães e sendo o nosso interesse diferente. Que Portugal está temporariamente subjugado pelos atuais credores e sem margem para não cumprir os termos do acordo de empréstimo sob pena de entrar em bancarrota também não há grandes dúvidas. Mas que estas circunstâncias anulem a luta política interna já não é compreensível. O atual governo, se governa mal, deve ir embora. Se diz mentiras, inventa desvios colossais e comete erros flagrantes na elaboração do orçamento, deve suscitar um clamor de revolta e ser corrido na primeira oportunidade.

Ainda ontem, Passos disse cínica e ambiguamente que não deixaria de cumprir um acordo que não negociou. Ora, todos sabemos que, não só não deixa de o cumprir por se identificar com ele (nas suas próprias palavras), como também o ultrapassa em dureza, declarando repetidas vezes, e com grande entusiasmo e frieza, ir “ainda mais longe”, o que só nos pode levar a concluir que, fora ele a negociá-lo, o acordo seria ainda mais violento para a população. Donde, a expressão “o acordo que não negociou” não passa de veneno sobre os seus antecessores, lançado de uma maneira parva e reles. Não só o PSD participou nas negociações como também não foi dada qualquer hipótese ao anterior governo de não ser ele a negociá-lo, como pretendia Sócrates, que, de modo sábio mas incompreendido, tudo fez para o evitar.

Voltando ao primeiro parágrafo, a nossa situação de escravizados não pode nem deve impedir a constituição de uma alternativa interna a este governo. E aqui discordo do que diz Porfírio Silva no final deste seu post Reflexões em voz baixa. Não falando já no princípio da igualdade na distribuição dos sacrifícios, bastante desrespeitado neste momento, e que os socialistas poderiam garantir melhor, ou no radicalismo neoliberal da dupla Gaspar/Passos e a sua visão, deslocadamente salazarenta, dos trabalhadores e dos apoios sociais que a oposição pode e deve combater e, uma vez no governo, repudiar, há também as características pessoais de quem governa e de quem pode vir a governar. Esta tropa fandanga que tomou de assalto o executivo com base em mentiras é leviana, socialmente insensível, experimentalista usando cobaias humanas e focada no dinheiro, perfeitamente confortada com o facto de este não ter pátria e de Portugal, irremediavelmente, fatalmente, convenientemente pobre, dever enxotar os seus miseráveis habitantes para longe e ser posto à venda. Francamente, não me parece difícil propor uma alternativa aos portugueses. Assim haja um líder à altura.

Pode ser que, noutros países europeus onde os governos de direita não estejam a implementar medidas tão radicais e recessivas como em Portugal, as oposições sociais-democratas ou socialistas tenham alguma dificuldade em encontrar um discurso e políticas alternativas convincentes (no entanto, mesmo em França, tudo parece indicar que a simples mudança de personalidades agrada ao eleitorado). O caso de Portugal é diferente. Este governo quer desmantelar o Estado (exceto os cargos que ainda pode distribuir pelos amigos) e os serviços públicos, propósito verdadeiramente raro na Europa, e ainda mais raro no próspero Norte. O governo de Sócrates, ao mesmo tempo que procurava o rigor orçamental sem cair em desregulamentações ultraliberais, pressionava a Europa (na realidade a Alemanha) para que, reconhecendo o esforço de ajustamento, desse condições de crescimento ao país. As críticas ao atual líder do PS prendem-se com o facto de não fazer uma defesa clara dessa linha de atuação (ou, se a defende, apresenta-a como nova, nunca reconhecendo mérito a quem já se bateu por isso e pagou um elevado preço), linha essa que é a única que, ainda hoje, faz sentido: um ajustamento gradual tendo em conta a crise brutal de 2008 e ao que ela obrigou, acompanhado de estímulos à economia. Seguro não defende o legado positivo do governo anterior, nem quando atacado pelo atual de maneira mentirosa ou demagógica. Com tanta matéria criticável na atuação de Passos e seus sócios, Seguro mostra-se no geral pactuante, hesitante e receoso de fazer ondas. Merece ser criticado e duramente. Além de não ter qualquer carisma nem visão própria para o país. Neste momento, e dando de barato que o abandono do clube do euro é uma impossibilidade (perspetiva que pode mudar perante um sufoco sem fim à vista, dependendo da situação a que chegarmos dentro da moeda única), é para todos claro que a situação internacional obriga a um completo rigor orçamental. Mas rigor orçamental não é sinónimo de desmantelamento do Estado nem de empobrecimento programado. É aqui que deve entrar um bom líder da oposição, que se mostre genuinamente crítico do fundamentalismo dos atuais governantes e convicto de saber fazer diferente para melhor, o que, repito, não me parece difícil. E que lute por isso. Não é de todo o caso do atual secretário-geral do PS.

Se tudo correr mal

A cerimónia de abertura do ano judicial foi um momento de puro teatro do absurdo. Algumas das mais altas figuras do Estado, do Governo, do Parlamento e da sociedade reuniram-se à tarde num salão para dizerem coisas. Terão chegado com diferente aparato policial, ou nenhum, diferentes motorizações, ou nenhumas. Trocaram palavras de circunstância a caminho das cadeiras, cumpriram protocolos e etiquetas. Alguns estavam paramentados de acordo com a solenidade e simbólica da ocasião, outros traziam as máscaras de cera com que se passeiam no dia-a-dia. Depois sentaram-se para ouvir Marinho e Pinto denunciar a fraude eleitoralista que levou irresponsáveis e fanáticos para o poder, ouvir Pinto Monteiro denunciar as golpadas contra políticos feitas através do aparelho judiciário, ouvir Noronha do Nascimento denunciar aqueles que querem abolir a Constituição não fazendo qualquer ideia de onde se estão a meter. Ao seu lado estavam líderes parlamentares que concebem a luta política como uma mera actividade destrutiva dos adversários por qualquer meio desde que não sejam apanhados, estava uma Ministra da Justiça que nesse mesmo dia tinha consumado a sua há muito anunciada intenção de perseguir criminalmente ex-governantes socialistas, estava um Presidente da República que se declarou impotente para alterar seja o que for na Justiça e que, ainda mil vezes pior, é uma das figuras mais perversas e disfuncionais do regime, a qual se permite que continue impune por espantosa cobardia colectiva. Acabados os discursos, estas personagens repetiram os protocolos, as etiquetas, os salamaleques e abalaram a correr para irem dizer mal uns dos outros na valentia dos seus recatados gabinetes.

Para o ano, se tudo correr mal, repetirão exactamente a mesma peça.

Vinte Linhas 727

As raparigas da nossa turma em 1966

As horas ferem os nossos dias, os meses e os anos mas elas, as meninas, continuam as ser as mesmas raparigas de 1966, não se deixam envelhecer como nós com a chegada de mais um neto. Havia na minha Escola uma bomba, todos os Liceus e Escolas Técnicas tinham uma bomba atómica, expressão que restou dos tempos da guerra fria nos anos cinquenta e da memória da II Guerra Mundial.

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