Se tudo correr mal

A cerimónia de abertura do ano judicial foi um momento de puro teatro do absurdo. Algumas das mais altas figuras do Estado, do Governo, do Parlamento e da sociedade reuniram-se à tarde num salão para dizerem coisas. Terão chegado com diferente aparato policial, ou nenhum, diferentes motorizações, ou nenhumas. Trocaram palavras de circunstância a caminho das cadeiras, cumpriram protocolos e etiquetas. Alguns estavam paramentados de acordo com a solenidade e simbólica da ocasião, outros traziam as máscaras de cera com que se passeiam no dia-a-dia. Depois sentaram-se para ouvir Marinho e Pinto denunciar a fraude eleitoralista que levou irresponsáveis e fanáticos para o poder, ouvir Pinto Monteiro denunciar as golpadas contra políticos feitas através do aparelho judiciário, ouvir Noronha do Nascimento denunciar aqueles que querem abolir a Constituição não fazendo qualquer ideia de onde se estão a meter. Ao seu lado estavam líderes parlamentares que concebem a luta política como uma mera actividade destrutiva dos adversários por qualquer meio desde que não sejam apanhados, estava uma Ministra da Justiça que nesse mesmo dia tinha consumado a sua há muito anunciada intenção de perseguir criminalmente ex-governantes socialistas, estava um Presidente da República que se declarou impotente para alterar seja o que for na Justiça e que, ainda mil vezes pior, é uma das figuras mais perversas e disfuncionais do regime, a qual se permite que continue impune por espantosa cobardia colectiva. Acabados os discursos, estas personagens repetiram os protocolos, as etiquetas, os salamaleques e abalaram a correr para irem dizer mal uns dos outros na valentia dos seus recatados gabinetes.

Para o ano, se tudo correr mal, repetirão exactamente a mesma peça.

9 thoughts on “Se tudo correr mal”

  1. justica?, ainda agora acabei de dizer isto, o que é isto, um sem abrigo condenado a pagar duzentos e cinquenta euros por roubar um polvo e um champô ou, se não pagar, vai preso? seria, o champô e o polvo, para vender e realizar capital para acumular numa conta na suíça? que pena aplicar, então, a quem roubou, ainda há pouco na época do natal, o subsídio de milhões – talvez um pequeno trabalho comunitário, uma acção de sensibilização aos cidadãos para perceberem que a taxa de desemprego no auge é um mero exercício, não simulado, de evacuação?

    estou consternada. apetece-me sair já, de imediato, para roubar um champô e um polvo só para me mostrar solidária com a fome e a higiene – necessidades básicas por satisfazer, em crescente, no país.

  2. Não sou advogado por isso não podia votar em Marinho e Pinto para Bastonário da Ordem dos Advogados. Se o fosse não hesitaria em lhe dar o meu voto. Começo com este introdutório para ressalvar a minha posição de interesse. Tenho admiração por Marinho e Pinto por que não existem muitos homens em Portugal com a independência dele perante o poder político.
    Pode não agradar a muitos, mas esses, só vêem o seu interesse e corporativismo em primeiro lugar. São os que não olham a meios para atingir fins. Dá-me gosto e prazer ver e ouvir as suas entrevistas tanto nos audiovisuais como na imprensa escrita.
    E o discurso de hoje na abertura do ano judicial foi demais. Não se verga e não receia quem o ouve. O que tem de dizer diz-lho num português fluente e sem rodeios. Chama os bois pelo seu nome e sabe que eles recebem mal o toque, basta ver as suas caras, como hoje foi oportuno reparar nos lideres parlamentares do PSD, CDS e ministra da Justiça. Os seus semblantes mudavam de segundo em segundo.
    Quando se é frontal como é Marinho e Pinto é porque não deve ter rabos-de-palha e não está comprometido com a Maçonaria. A independência de actos e acções só se dão com quem tem a verticalidade e carácter como lema.
    Por isso não deixo de transcrever o discurso de Marinho e Pinto no meu blogue para que qualquer acompanhante deste blogue não perca a oportunidade de ler um dos homens mais íntegro dos Portugueses. Assim fosse a maioria de quem dependemos.

  3. Precisamos de mais Marinhos Pintos na Sociedade e na Política portuguesas, sem dúvida e urgentemente.

    E mais ainda precisamos de alguém como Marinho Pinto num cargo fulcral para a moralidade cívica como é a Presidência da República!

  4. Sou Advogado e actual apoiante de Marinho Pinto, embora não de primeira hora. Confesso que inicialmente tive algumas reticências relativamente ao seu estilo frontal e algumas vezes truculento. No entanto, hoje reconheço que no estado em que está a falta de justiça, a sua reforma não vai lá com paninhos quentes nem com palmadinhas nas costas. Mormente não vai a lado nenhum sem colocar no seu devido lugar os sindicatos da Magistratura e com o reforço de poderes do O Procurador Geral. Infelizmente a , loura quer afastar o Conselheiro Pinto Monteiro o primeiro Procurador que tem tentado pôr os Procuradores no seu devido lugar enquanto Magistratura hierarquizada. Concordo com o Marco sobre a necessidade de um PR não comprometido e claro nas palavras. Mas, infelizmente, temos exactamente o inverso.
    E enquanto se mantiver a vergonhosa comunicação social que temos tido nos últimos anos, não me parece que a falta de cultura cívica e politica dos Portugueses nos deixe sair deste pântano.

  5. Batemos no fundo. Ruiu o último pilar de uma democracia ainda em construção. “Aguarda-nos o inverno ou o inferno” e quem o afirma é a cúpula da justiça. O país foi, eleitoralmente, entregue à máfia que nos asfixia, tendo conseguido ferrar os seus tentáculos na presidencia da republica, no governo, no parlamento, nas secretas, nos agentes da justiça, tanto das policias como dos magistrados.
    Nâo é impunemente que um país assiste calado, cumplice ou activamente comprometido na tortura física e moral até ao assassinato do caracter do primeiro ministro democraticamente eleito, José Sócrates. Esta cobardia colectiva recebe agora a pesada factura: um país com o rosto da imoralidade, desde a Presidência da República, que desceu a níveis impensáveis de partidirização e descrédito. Os jornalistas que deveriam ser um alerta na hora do comportamento infame das instituições, deixou-se atrelar aos seus patrões, pela corrente da necessidade de um salário.
    Não estranho nem um pouco, o manifesto de Ribeiro Telles pelo regresso do Rei. O povo está orfão e, sobretudo, já percebeu que os senhores mafiosos do dinheiro fazem eleger qualquer coisa que se candidate a presidente da republica, desde que seja um dos seus.
    Os republicanos desacreditaram e atiraram para a sarjeta os valores da democracia que a republica prometia consagrar. Afinal, os presidentes da republica tornaram-se vampiros do povo e mamam o sangue dos pobres pelo biberão das mordomias douradas, mesmo quando não têm nenhuma necessidade delas e, sobretudo, quando os deserdados filhos da república morrem pelos cantos escuros das cidades.
    Não é o rei que vai nu. É o presidente da republica que exibe as suas partes pudengas.

  6. Terei eu estado distraido ou nenhum orgão de informação ouviu o discurso de Marinho Pinto?
    Ou terão ouvido e intencionalmente escondido?
    Pelo menos nas tvs, tirando o directo, apagaram pura e simplesmente.
    É esta a informação isenta que temos?

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