Nem sempre o primeiro-ministro nos viu como um povo que só pensa em férias, pontes e feriados. Não há muito tempo, partia-se-lhe o coração de cada vez que o Governo socialista aprovava medidas de austeridade, coisa que obviamente não merecíamos. Os mauzões dos políticos é que eram os responsáveis pela situação em que o País se encontrava e os únicos a merecer castigo. De tal forma que, apesar de nessa altura os portugueses ainda terem direito aos subsídios de férias e Natal, a todos os feriados e pontes e mais umas quantas tradições que impedem o crescimento da economia, o então líder da oposição, quase a chorar, veio pedir desculpa por ter aprovado um aumento de impostos. Claro que não foi uma atitude piegas, não me ocorre é a palavra certa para a classificar.
Arquivo mensal: Fevereiro 2012
Passos, estão a ver, não é nada piegas. Já Cavaco…
Apesar das dificuldades financeiras tremendas por que está a passar o barítono feito maestro e apesar de estar a pôr em risco o seu futuro no privado, este farol que nos ilumina não se queixa. Mais, apesar da vida dura que levou até aqui, na JSD, no Parlamento Europeu e na empresa de Ângelo, nunca ninguém lhe ouviu um queixume. Este homem é um exemplo para qualquer português.
Em descaramento, melhor que ele, só mesmo o Cavaco, que também chamou piegas aos portugueses – não é que lhes bastaria olhar para a sua (dele) miserável situação económica para não se lamentarem? Pelo caminho, conseguiu que o Banco de Portugal não cortasse nas pensões dos seus reformados. Um caso em que ser piegas resultou.
Passos vai curar-nos da preguiça
Miguel Relvas é uma das personalidades mais degradantes e hostis na política nacional de todos os tempos, suando raiva por cada um dos seus tóxicos poros e nada fazendo para a esconder. Relvas é o par siamês de Passos Coelho, muito mais do que um braço-direito. Passos não poderia repetir a versão Mr. Hyde em público sob pena de perder toda e qualquer eleição, por isso apresenta-se numa caricatura de Dr. Jekyll para consumo mediático e eleitoral, na qual surge a tratar os cidadãos como se fossem crianças desamparadas e a tentar agradar aos poderosos de modo subserviente. Porém, há alturas em que o esforçado Jekyll deixa transparecer o desbagrado Hyde que o anima, e o veneno e as cenas tristes irrompem de jorro. Recorde-se este episódio, onde cresce para cima de uma mulher que lhe estava a mandar bocas sem qualquer importância. É notório o gosto pela prepotência e o feroz desprezo pelos fracos.
É do mesmo quadro mental que vêm as seguintes barbaridades:
Para Passos Coelho, “hoje, mais do que nunca”, é preciso “enfatizar a relevância” de os portugueses serem “totalmente exigentes e nada complacentes com a facilidade”, apelando à “transformação de velhas estruturas e velhos comportamentos muito preguiçosos ou, às vezes, demasiado autocentrados”, por outros “descomplexados, mais abertos, mais competitivos”.
“Devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas e ter pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender”, ilustrou, considerando que só com “persistência”, “exigência” e “intransigência” o país terá “credibilidade”.
“Se queremos que nos olhem com respeito temos de nos olhar com respeito”, insistiu, criticando ainda discursos que consideram que há “demasiada austeridade”, que as medidas adoptadas para corrigir os défices do país são “muito difíceis” e, portanto, é melhor “andar para trás” e voltar “a gastar o dinheiro” que o país não tem, até porque “o FMI e a UE hão-de emprestar mais dinheiro, que remédio”, já que Portugal faz parte da zona euro.
As declarações, para além de primárias, cínicas e fanáticas, são ostensivamente provocatórias. Este homem é Primeiro-Ministro de um Governo que vive em processo de auto-profecia a respeito de tumultos sociais que permitam confirmar que os portugueses são esses gastadores irresponsáveis que chegaram a 5 de Junho de 2011 a precisar de castigo e chicote. Ele vai esticando a corda na esperança de que rompa por algum lado, pois anseia por preencher com destruição de propriedade e polícia nas ruas a crença alucinada.
Vai ser decisivo para o futuro de Portugal, ou tão-só para o destino cívico de cada um de nós, descobrir após mais uma exibição da decadência intelectual de Passos Coelho quais serão aqueles que alinharão com este desmiolado, aqueles que ficarão calados por íntimo acordo ou fatal cobardia e aqueles que terão algo a dizer, e algo a fazer, apesar da sua endémica preguiça.
Vinte Linhas 731
Aspirina B contra o (e apesar do) lixo humano
Se não fosse o Blog Aspirina B eu não tinha conseguido salvar todos os poemas, crónicas e fichas de leitura aqui publicadas nos anos de 2009, 2010 e parte de 2011 – até ao dia 17 de Julho. A quadrilha que me assaltou a casa levou nesse dia o computador e, com ele, toda a memória acumulada. Com paciência e tempo, estou a recuperar na Aspirina B o que os ladrões me levaram nesse dia 17 de Julho de 2011.
Perante o lixo humano que aqui aparece derramando ódio, brutalidade e inveja, demorei algum tempo a tomar a atitude certa – o desprezo perante essas manifestações miseráveis. Este postal que guardei religiosamente da EXPO 98 é uma curiosidade para os leitores do nosso Blog. Aqui o deixo como alegria compartilhada com as pessoas que frequentam o Aspirina B; não com o lixo humano que não merece nada de nada.
Não pensava repetir-me, mas Seguro falou em Évora
A estratégia radical deste governo não está a resultar, nem vai resultar, com a dívida a ultrapassar os 110% do PIB (dados hoje conhecidos) e as previsões quase unânimes de incumprimento das metas. Está o PS de Seguro preparado para o que se segue? Visto ao sol de Évora, não o diria.
António José Seguro voltou, este fim de semana, a falar para os jornalistas, mostrando-se igual a si próprio, ou seja, um navegador de águas mansas, impreparado para tempestades: perante o partido e as críticas de que foi alvo, defende-se alegando não ter sido ele a assinar o acordo com a Troika; cá para fora, perante os portugueses, refere um ponto do memorando de que discorda e, sem se alongar mais, acrescenta que o PS respeitará o dito memorando (mesmo que seja impossível não ter visto que o rumo do país exige a revisão de várias cláusulas). De seguida, volta-se para os aspetos gastronómicos da região, evitando úlceras. O entusiasmo de alguns (jornalistas sobretudo) com a primeira afirmação ficou de imediato neutralizado pela última. Pois é, com Seguro, meus senhores, não há clímax. Não chega sequer a haver aquecimento.
O problema é que o atual secretário-geral do PS não compreende que a sua atuação é criticável por muitas outras razões que não têm que ver com os compromissos assumidos com a Troika (espero que alguém lhe tenha lembrado Cavaco, a Madeira, o Novas Oportunidades, Manuel Carrilho, o FMI, Mario Monti e pelo menos 20 outras matérias). Este governo, assumindo futura responsabilidade total pelo desastre, faz questão de dizer que vai, com muito gosto, para além do que foi acordado. E tem-no feito. Mas está a dar o flanco, caso o PS não tenha reparado. A par disso, mente, inventa, ludibria com uma alegada transparência nas contratações, erra em questões importantes como a elaboração do orçamento. Toma de assalto o aparelho de Estado. E Seguro não tem sido contundente nas críticas, nem minimamente convincente. Nem perante os dados que vão sendo conhecidos. Não percebe que “uma oposição construtiva” com este pessoal da “fezada” e do apetite pelo metal, pessoal encenadamente contido, mas no fundo tão assanhado como o Relvas, não surte qualquer efeito. Aqui, a haver construção, só pode ser a de uma alternativa, que passa, em primeiro lugar, por uma personalidade determinada (que está longe de ser), pela identificação clara de uma visão e de um rumo (que se desconhecem), pela defesa do legado positivo do anterior governo (de que se sente visceralmente incapaz) e pela demolição sem dó das teorias gasparistas (para o que não tem habilitações, penso). Ou lhe dão um grande choque elétrico político lá no partido ou preparem-se para a insignificância. Depois de Sócrates, seria uma pena.
É hoje
Dia internacional da tolerância zero às mutilações genitais femininas
Vale a pena reter a reportagem de ontem no DN:
ENTREVISTA Célia Rosa
FOTOGRAFIA Diana Quintela/Global Imagens
Na véspera do Dia Internacional da Tolerância Zero às Mutilações Genitais Femininas, que se assinala amanhã, 6 de Fevereiro, o que é os portugueses precisam de saber?
Todos devem saber que no país existem mulheres de várias idades, incluindo crianças, que sofreram mutilação genital feminina (MGF) e que muitas delas têm nacionalidade portuguesa. Por esta razão é fundamental que os profissionais das áreas da saúde, educação e intervenção social tenham conhecimentos específicos sobre este tipo de crime (artigo 144 do Código Penal) e saibam o que fazer para prevenir, intervir e sinalizar. Não podemos continuar a ter médicos e enfermeiros que observam uma mulher com mutilação e pensam que ela tem uma malformação congénita ou que teve um parto mal feito.
Para que os leitores não tenham dúvidas, quando falamos em MGF estamos a dizer que há crianças, raparigas e mulheres a quem cortam o clítoris, os pequenos e os grandes lábios. Muitas também são sujeitas a um estreitamento da vagina e a outras práticas que alteram os seus genitais, todas dolorosas, traumatizantes, perigosas e atentatórias dos direitos humanos. É isto?
Sim, a OMS identifica quatro tipos de MGF que contemplam outras lesões, além dos cortes totais ou parciais do clítoris, pequenos lábios, grandes lábios e do estreitamento da vagina. Por exemplo, punções, perfurações e escarificações dos genitais e até o seu alongamento ou cosedura. Não precisa de haver corte. Qualquer intervenção feita nos genitais de uma menina ou de uma mulher por razões não médicas é uma mutilação. Está tudo descrito na Declaração Conjunta para a Eliminação da MGF, um documento que foi distribuído em Portugal aos políticos, profissionais de saúde e órgãos de comunicação social e que pode ser consultado na internet por qualquer pessoa. O alto-comissário para os refugiados, António Guterres, foi um dos subscritores. Também distribuímos, aqui e na Guiné-Bissau, em Moçambique e em Angola, o manual de formação para profissionais de saúde.
Que crenças sustentam a MGF?
Actualmente, a MGF já é entendida pela maioria das pessoas como uma prática violadora dos direitos das meninas e das mulheres. Mas quando é realizada nas comunidades de origem – países africanos, asiáticos e do médio oriente – serve para garantir a integração e o reconhecimento social das mulheres e o seu futuro: casar, ter filhos, cuidar e servir a família.
Nessas comunidades, as mulheres são excisadas para garantir que os seus genitais são bonitos (uma dimensão estética); que o clítoris ou os grandes lábios não tocam na cabeça do bebé no momento do nascimento (acredita-se que provoca doenças); que são intocáveis até ao casamento (crê-se que preserva a virgindade e depois a fidelidade); para aumentar o prazer sexual do marido (mais uma crença), etc. Nalguns países a única razão é discriminação de género.
É mais uma forma de controlo social das mulheres?
Sim. Há práticas tradicionais nefastas que só persistem porque são realizadas sobre mulheres. A MGF é uma delas, os casamentos forçados, a troca e venda de noivas são outras. E o que é mais chocante é saber que alguns países onde estas coisas acontecem recebem apoios importantes da comunidade internacional para a saúde e educação mas os líderes dos estados doadores não têm tido a capacidade de trazer estes temas para a agenda política, o que é fundamental.
Em que idade é que as meninas mutiladas?
Depende, o mais comum é entre os dez e os 14 anos. Nalguns casos, faz-se logo à nascença. Sobretudo nos países onde já existe uma lei que proíbe a MGF. Assim, o crime é mais facilmente encoberto e quanto mais pequena for a criança menos força tem e menos resiste.
As mulheres que se lembram da sua mutilação genital contam que sofreram horrores. Nós não conseguimos imaginar, pois não?
Claro que não. Nunca me esquecerei do relato de uma mulher que vive nos arredores de Lisboa e que me contou como foi a sua mutilação. Primeiro, passou vários dias amarrada e ajoelhada para aprender a obedecer; depois foi obrigada a comer deitada, sem olhar nos olhos das pessoas mais velhas, para aprender a respeitar. Finalmente, um dia, foi agarrada e imobilizada por várias mulheres que lhe prenderam os pés, as mãos e o tronco e foi cortada com uma faca (podia ter sido outro objecto cortante, um vidro ou uma lata). A história desta mulher é uma história de violação dos direitos mais básicos e ela sabe isso. Ainda assim, por causa dos factores associados à sua cultura e religião, cada vez que fala do assunto ela sente que está a atentar contra a suas raízes, contra as tradições do seu povo.
Como se estivesse a negar a sua identidade?
Exacto, e essa é uma das razões porque temos dificuldade em encontrar mulheres que falem sobre o tema. O medo das represálias é outra. Em Portugal, algumas mulheres que falaram publicamente da MGF sofreram retaliações da sua própria comunidade. E não será por acaso que não há nenhuma associação de mulheres originárias de países onde existe MGF cujo trabalho central seja as práticas tradicionais nefastas. A APF tenta trabalhar com as mulheres para que elas possam assumir um papel de destaque nas associações mas é muito difícil.
No mundo, estima-se que existam entre cem e 140 milhões de raparigas e mulheres com MGF. Um número alarmante?
Assustador. Quantos Costa Concórdia precisam de afundar para termos a dimensão da tragédia da MGF? E alguém conhece algum líder tradicional, primeiro-ministro ou presidente da república que tenha sido julgado porque no seu país 50 por cento das mulheres são mutiladas? É certo que muitos países aprovaram legislação proibitiva e desenvolvem trabalho directo nas comunidades – é o caso da Guiné-Bissau – mas ainda há um mundo de coisas para fazer até acabarmos com esta prática. E têm de ser as próprias comunidades a dizer não.
Na Europa estima-se que 500 mil mulheres tenham sido mutiladas e que 180 mil raparigas estejam em risco. Portugal também é um país de risco?
Portugal recebe migrantes de países onde a MGF existe e muitas meninas, incluindo algumas nascidas no país, estão em risco. Pensa-se que a maioria será sujeita à intervenção nos países de origem – antes de virem para Portugal ou durante uma deslocação nas férias, por exemplo à Guiné-Bissau. Cá, também haverá locais onde se pode fazer.
A MGF envolve grandes riscos para a saúde e pode levar as raparigas e as mulheres aos hospitais.
Pode provocar a morte. Mas cá, quando há infecções, hemorragias, dores e outros problemas, parece que as pessoas contornam o sistema. Ouvi um responsável da embaixada da Guiné-Bissau dizer num programa da RTP – África que quando a mutilação é feita no país de origem e as complicações se manifestam no regresso a Portugal, o que a comunidade fará é recorrer aos profissionais de saúde guineenses que exercem cá.
Os médicos nunca devem realizar actos de MGF mas há quem defenda que se o fizerem, em boas condições de higiene, as meninas e as mulheres correm menos riscos. O que acha disto?
Não podem, todos os organismos e associações médicas internacionais o proíbem. Mas nalguns países, no Egipto por exemplo, muitas mulheres são sujeitas a mutilação praticada por médicos.
Uma coisa é ler ou falar sobre MGF outra é conhecer essa realidade. O que é que já viu e o que sentiu?
Na Guiné-Bissau, da primeira vez, vi morrer uma menina de 17 anos, e os seus bebés, devido a um trabalho de parto que se complicou por causa da mutilação genital. Mais tarde, conheci uma rapariga de 18 anos que tinha sido banida da família porque tinha uma fístula obstétrica, com odor. Uma consequência do que lhe tinham feito e não havia meios para a tratar nem dinheiro para a enviar para o Senegal. Também morreu e deixou um recém-nascido órfão, de que ninguém quis cuidar. Aquelas duas mulheres sofreram horrores e nunca se queixaram. As que são mutiladas e não morrem também não se queixam. É destas sobreviventes que depende a vida da família e da comunidade – são elas que cultivam, vão buscar água e lenha, cozinham e lavam, cuidam dos maridos e dos filhos. Perante mulheres desta grandeza, não faz sentido falar das minhas lágrimas contidas.
Alice Frade é antropóloga e já trabalhou com mulheres forçadas à mutilação genital feminina. É responsável do Departamento de Advocay e Cooperação para o Desenvolvimento da Associação para o Planeamento da Família.
Lá como cá
Um livro por semana 275
«Os mortos tratam-se por tu» de Fernando Grade
Cinquenta anos depois da estreia em livro (Sangria – Guimarães Editores), Fernando Grade celebra a efeméride com este Os mortos tratam-se por tu. Desde 1962 o autor assinou 29 títulos de poesia, 3 de prosa e 1 de teatro, além da sua participação em volumes colectivos onde se inclui a colecção Viola Delta em publicação permanente desde 1977.
A enumeração de mais de mil nomes de mortos queridos é uma homenagem e, pela memória convocada, uma forma de poesia. Entre os nomes há gente não só das Artes e das Letras (Soeiro Pereira Gomes, Eduardo Guerra Carneiro, Mário Ventura Henriques, José Gomes Ferreira ou Maria Helena Vieira da Silva) mas também do Desporto: Matateu, Barrigana, José Travassos, Artur Quaresma, Vítor Baptista.
Impressionar sem República, brilhar sem Independência, seduzir sem Carnaval
Mom’s Love Good for Child’s Brain
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Television ‘misrepresents’ young people and older women
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Powering Pacemakers With Heartbeat Vibrations
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Facebook Is Not Such a Good Thing for Those With Low Self-Esteem, Study Finds
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A Minefield in Earth Orbit: How Space Debris Is Spinning Out of Control [Interactive]
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Testosterone Makes Us Less Cooperative and More Egocentric
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Sex Role Stereotyping and Prejudices in Children Explored
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Friends Help Us To Negate Negativity
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Continuar a lerImpressionar sem República, brilhar sem Independência, seduzir sem Carnaval
Curte-me só o que acontece no gráfico a partir da golpada de Março de 2011
A SEDES faz muita falta, tem é de ir ainda mais longe
A ida de Campos e Cunha para o CCB levou-me a dar um saltinho à SEDES para ver como param as modas nesse afamado caga-sentenças do laranjal, poiso certo dos colossos intelectuais que dão pelo nome de Medina Carreira, João Duque, Mira Amaral, Henrique Neto, João Salgueiro e o próprio novíssimo director-consultivo do CCB, entre outros. Na secção Tomadas de Posição, a mais actual e a mais política das áreas temáticas expostas, encontramos a última datada de 18 de Maio de 2011, lançada em cima das eleições legislativas. De lá para cá, nicles batatóides, a SEDES ainda não tomou uma qualquer posição a respeito da situação política – talvez por não lhes ocorrer nada para dizer, há fases dessas, ou por considerarem que tudo está a correr às mil maravilhas, sabe-se lá. Mas esse dia chegará, certamente, e muito nos irá ensinar.
Por exemplo, eis um pedacito do que estes paradigmas da honestidade intelectual escreveram nas vésperas de um acto eleitoral:
O País sofre diariamente os maus exemplos que chegam de cima e nenhuma sociedade pode resistir por muito tempo ao impacto negativo dos comportamentos desviantes da ética da verdade e da responsabilidade. A pedagogia do bom governo não é apenas um factor de credibilidade das instituições democráticas, mas uma bitola permanente para o comportamento dos cidadãos. O exemplo é sempre um factor superior do funcionamento das sociedades democráticas mais avançadas e não pode ser menosprezado.
É difícil discordar, mesmo sem compreender patavina do parágrafo. A expressão ética da verdade e da responsabilidade fica bem em qualquer texto, em qualquer entrevista, em qualquer almoçarada. E mesmo para mudar um pneu a meio da noite e a chover, se à vista desarmada não parece de grande ajuda, seguramente que é uma expressão que não atrapalha o processo e até pode servir de alento na ocasião. Por isso, sim. Portanto, pois. Toca de alertar a malta para esse perigo que ameaça a sociedade. E venham os exemplos. Os exemplos exemplares. Aqueles exemplos que só homens (não há mulheres a botar faladura na SEDES, pois continua a ser preciso que alguém esteja a preparar o jantar enquanto decorrem as sessões de laboriosa reflexão) veramente exemplares estão em condições de dar ou, não tendo tempo para tal, em condições de validar através dos seus exemplares juízos a respeito.
Que irá a SEDES dizer, então, deste actual Governo que prometeu o branco e aplica o preto, que diz aos portugueses para emigrar e aos militares para desertar, que repete ser necessário empobrecer tudo e todos à excepção dos seus amiguinhos e que castiga o povo com a arrogância dos brutos e a soberba dos celerados? De que modo esta postura fanática se enquadra na ética da verdade e da responsabilidade que a SEDES generosamente tinha vertido com tanto afinco até às últimas eleições para educação das massas e salvação da Pátria?
Em Fevereiro de 2008, a SEDES saiu a terreiro para denunciar um siciliano “difuso mal-estar” que estaria a pôr em causa a coesão nacional. E pudemos até ler esta profecia:
O mal-estar e a degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento. E se essa espiral descendente continuar, emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever.
Só foi pena que o poderio intelectual da SEDES, e a sua “ética da responsabilidade” que chega a fazer inveja à do Criador, não tivesse complementado o aviso com esta pequena informação: o voto em Cavaco e o voto em Passos Coelho seriam os meios mais rápidos para chegar à temida crise social de contornos difíceis de prever. Na próxima Tomada de Posição, é favor incluir esse tipo de pormenores para termos ainda mais razões para ficarmos agradecidos aos magníficos pensadores que se sacrificam por nossa causa em salas de reunião, quiçá também em restaurantes e bares de hotel, onde a SEDES marca a sua preclara presença.
E amanhã, Paulinho? Prometes dizer amanhã, mesmo que seja lá para o fim do dia?
Eu uso de franqueza. Quando concordo, concordo. Quando discordo, discordo. E tenho que vos dizer isto com toda a franqueza. Subir impostos é aumentar a recessão. Disse-o ontem e digo-o hoje.
Vinte Linhas 730
Portugal – também um país de analfabetos
Que os portugueses não gostam de livros, isso é ponto assente. A célebre ideia de Cícero (Uma casa sem livros é um corpo sem alma) não é por aqui muito cultivada. Quando vivi em Vila Franca de Xira a pessoa mais reconhecida da família Redol era a D. Inocência que tinha um colégio de meninas. O escritor seu irmão era em 1961 (e é ainda hoje) outra coisa. Algo distante e pouco valioso – logo pouco importante. Os livros são desprezados.
Somos o país onde Camões morreu de fome mas muita gente enche a barriga com o Camões – disse Jorge de Sena – com razão. Sei de uma viúva de um escritor que manda para o lixo (sem abrir) todas as cartas que ele pressente tratarem de assunto literários ou correlativos.
Assino por baixo
Não partilho do coro de protestos pelo saneamento político de António Mega Ferreira. Cumpriu até ao fim o seu mandato e foi substituído. Foi uma nomeação política? Pois foi como terá sido a de Mega Ferreira. É da competência do poder político fazer essas nomeações. Mas o que me causa pena é ver que o PS, pela educadíssima e pausada voz do seu líder, em vez de fazer oposição política à concretização de uma ideologia retrógrada, conservadora, de desmantelamento das funções dos estado, mais precisamente as da saúde, educação e segurança social, de alienação de sectores chave para a soberania, de não acautelamento da liberdade e da independência da informação, do autoritarismo fiscal, etc., tenha escolhido esta bravata de Graça Moura para fingir que é oposição.
Vinte Linhas 729
Eusébio – Uma canhestra tentativa de reescrever a História
A imagem de Eusébio da Silva Ferreira com a camisola do Sporting de Lourenço Marques vem provar que foi de facto o Desportivo que o rejeitou pois o seu amplo sorriso não engana. Aquela história de o Sporting de Lourenço Marques ser (para Eusébio) um clube racista que tratava mal os negros e os mulatos lembra a do alto magistrado da Nação que repetiu sobre os seus rendimentos algo como «Mil e trezentos euros, ouviu bem?».
As pessoas que dão números – uma crise invisível
Por onde começar? O desemprego. Lê-se que o número, o tal do número, que varia consoante a instituição analista, pode vir a chegar a um milhão. Dir-se-ia um milhão de vidas, mas o abandono não é só o do carimbado “desempregado”, é o dos seus filhos, é o dos seus pais a cuja casa se regressa, é o de irmãos, quando os há, que dividem o que podem, é o dos amigos, é o de todos estes cometas, também eles tão díspares, entre pensões de miséria ou por sorte bem na vida ou cometas tantos, também eles a um passo do carimbo.
Este não pode ser o retrato economicamente provisório de um país, verdadeiramente desejado por quem ainda hoje, investido na pele de primeiro-ministro, disse que o que soluciona “as coisas” é a iniciativa privada. Eis um homem esperançoso no crescimento porque sim, mesmo que cada passo que um homem tente dar pela mais minúscula empresa esteja condenado à morte pela austeridade – como dizer? – mais do que proporcional e com uma única amiga: a emigração.
Vamos em 800 mil vidas destruídas pelo carimbo e clama-se pela iniciativa privada.
Mas qual? Uma pessoa olha para o país num retrato global e dá razão ao primeiro-ministro.
Na verdade, temos é de compreender quem são os portugueses dele e qual a iniciativa privada que lhe rasga o sorriso.
Por acaso, como bem notava hoje um colega meu, foi a iniciativa privada que construiu monopólios estratégicos do Estado? Quem fez a EDP ou a REN ou as Águas de Portugal? A iniciativa privada ou o contribuinte? O contribuinte, pois; nós, todos nós, todos mesmo, os carimbados também.
Quem, apesar da crise, está bem na vida, na sua “iniciativa privada”? A malta instalada no que um dia foi obra nossa e que agora gere umas coisas privadas, mas com uma pequena nota: tudo em regime de monopólio. Deve ser duríssimo.
Este é o país da direita.
Espécie de primeiro-ministro
“Qualquer nação que tem amor próprio não anda de mão estendida“, diz Passos, esta espécie de primeiro-ministro.
Quer-se dizer: quando havia que, “custasse o que custasse”, evitar a vinda da Troika e o “estender da mão” devido ao tal “amor próprio”, esta leviana criatura andava a brincar à conquista do poder “custasse o que custasse”. Agora que custa verdadeiramente muitíssimo e que o país se afunda a cada hora que passa, vem falar na nação, no amor próprio e na necessidade de evitar jugos. Alguém no Parlamento que lhe atire com um tomate, please.
Ainda não és leitor do maradona?
Se é esse o teu triste caso, tens algumas desculpas, dado que a sua produção escrita tem acompanhado a evolução do nosso PIB. Mas já nada poderás invocar para te furtares ao contacto com este efémero documento, o qual explica (perdão, estabelece, define, institui, consagra, hã… e sou proprietário de mais vocabulário do género que aqui poderia gastar mas tenho de ir já almoçar) várias coisas e coisas várias, terminando quase quase quase com uma citação de Régio.
Real intelligent design
Serás tu um dos que andou a viver como se não fosse pobre?
Numa entrevista ao semanário Sol, que será hoje publicada e a que a Lusa teve acesso, o primeiro-ministro nega que o empobrecimento seja a receita aplicada por este Governo.
“Pobres já nós estamos. Há é pessoas que ainda não se deram conta disso e continuaram a viver como se não fossem pobres. Viveram não daquilo que tinham mas daquilo que lhes emprestaram”, refere Pedro Passos Coelho.
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Ora, então, deixa cá ver. Estamos pobres. Logo, não podemos empobrecer, porque para empobrecer é indispensável não estar pobre. Trata-se de uma dedução infalível. Donde, este Governo não está apostado no empobrecimento, apesar do que o próprio Primeiro-Ministro já disse com todas as letras e em múltiplas ocasiões. Naturalmente, terão sido afirmações nascidas da sua pobreza de espírito, pelo que estão de acordo com o postulado inicial. Que se passa, pois? Passa-se que há para aí uns distraídos que por distracção têm-se distraído a fingir que não estamos pobres. E como é que esses foliões conseguiram fugir da paupérima realidade? Através de empréstimos. Tão simples quanto isto, e tão ou mais viciante do que uma droga dura, daquelas em pó. Portanto, não fossem os malignos empréstimos e essas tais pessoas – que até poderão ser à volta de 20 ou 100 indivíduos, não se avançou um número – teriam sido obrigadas a viver como pobres que são, e que somos, e, consequentemente, não se andaria agora a dizer que o Governo quer aplicar a receita do empobrecimento.
Não querendo este Governo que empobreçamos por evidente impossibilidade lógica, que quer este Governo afinal? Acabar com os empréstimos, a fonte de todos os males. Em coerência, em nome da sua verdade, Passos Coelho deveria agora proibir a actividade bancária, mesmo que isso causasse algumas dores de privação às tais pessoas (mil? menos? mais?) que continuaram a viver como se não fossem pobres, as desgraçadas.





