Aborto: da mulher “reincidente”

Há quem tenha por inadmissível a não introdução de taxas moderadoras no caso de mulheres reincidentes numa IVG.
Ou seja, isto não é um debate sobre a possibilidade – que está na disposição do legislador, concorde-se ou não – acerca do fim da exclusão de taxas moderadoras num acto médico específico: a IVG.
Mais uma vez, diz-se, com superficialidade avassaladora, que tem de se fazer das taxas moderadoras um mecanismo punitivo das mulheres. Sim, porque há umas malucas, que engravidam sozinhas, uma e outra vez, nada querendo com métodos contracetivos, já que gostam, acham agradável, até às dez semanas, sujeitarem-se a um procedimento festivo.
Naturalmente, psicopatas haverá por todo o lado, mas isso não define o universo de destinatários de um procedimento legal.
Qualquer coisa não está a funcionar – dizem. Muitas coisas não estão a funcionar há muito tempo, antes da despenalização da IVG, mas felizmente acabou a perseguição penal como a conhecemos, e tantas complicações, por vezes mortais, decorrentes do aborto clandestino.
Há sempre alguém que continua a perseguir penalmente as mulheres. Não “querem” uma pena de prisão outra vez, mas querem que as taxas moderadoras sejam a nova moldura penal para a IVG. Assim mesmo, porque se aplicariam automaticamente às mulheres “reincidentes”, ou seja, às que “reincidem, que incorrem novamente na prática de um ato condenável”.
Seja lá por que for..matemática.

Os ultras do laranjal

Os novos tempos que se aproximam, carregados por uma extrema austeridade, tiveram aqui um sério aviso que o Governo não deve ignorar.

E esse é um sinal a fixar: a última experiência, a socrática, não acabou bem. O fechar de olhos à crise que se instalava e nos destruía conduziu-nos à tragédia financeira e económica que agora se aproxima da crise social. E é aqui que tudo se torna mais complicado.

Editorial do DN

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Os editoriais do DN são invariáveis peças apologéticas do Governo, preocupados em servir conselhos e avisos variados aos esforçados Ministros e Secretários de Estado, sempre numa atitude colaboracionista para com o rumo escolhido. Chegam a dizer, e com todas as letras, que não há outro.

Pelo meio, como se pode ver no exemplo acima, oferecem abundantes juízos acerca de Sócrates. Neste fragmento, podemos desfrutar da posição oficial de um órgão de informação a respeito de um ciclo político passado. É-nos dito que os governantes anteriores não quiseram ver a crise e, por causa dessa sua escolha, são os responsáveis pela situação actual. O sentido do parágrafo, que o texto no seu todo não desmente, é o de culpar Sócrates pela presente austeridade e suas previsíveis convulsões sociais a caminho.

O que tem mais interesse neste banal episódio de violação do contrato de isenção com os leitores, posto que o DN não assume a sua linha política, está na fórmula usada, a qual é caluniosa. Quem escreveu o texto, provavelmente o Marcelino, não explicita os fundamentos, pressupostos, dados ou meros factos das conclusões que serve já mastigadas. Para começar, ou para terminar logo com a conversa, de que crise está a falar? Da crise de 2007, de 2008, de 2009, de 2010 ou de 2011? É que em cada um destes anos é possível desenhar um retrato da crise bem distinto dos restantes. Depois, qual a legitimidade para se dizer que o Governo “fechou os olhos”? A resposta a esta pergunta decorre da pergunta anterior, sem a qual não se pode saber qual a matéria em análise, quanto mais aferir a honestidade intelectual da acusação. Finalmente, que tipo de jornalismo é este, supostamente de referência, que apaga por completo das suas ilações as decisões tomadas desde Março de 2011 pelo Presidente da República, pela oposição pré-5 de Junho e pelo actual Governo, e isto já aceitando deixar de fora as eleições de 2009 e subsequente recusa da oposição para qualquer modelo de coligação que permitisse a tão desejada estabilidade política? Seria para rir, tamanho sectarismo, se não fosse para chorar, sectarismo tamanho.

O fanatismo dos que continuam agarrados a Sócrates como desculpa para o mal que fazem, e para o bem que deixam por fazer, não é um acaso. É uma furibunda necessidade, porque aquelas cabeças não dão para mais.

Venham mais 100 mil

O PCP organizou hoje uma manifestação em Lisboa, através da sua marca branca CGTP, que terá reunido 300 mil valentes, número da organização. Isso quer dizer que as manifestações em Portugal passam a seguir um modelo oficial em que apenas se contabilizam unidades correspondentes a 100 mil indivíduos. Foi esse o número publicitado para a manifestação contra a ministra-sinistra, duplicado na manifestação da Primavera rasca e agora triplicado na entronização do Arménio. A próxima manifestação, se quiser cantar de galo, terá de chegar aos 400 mil mamíferos – isto é, terá de o reclamar sem se rir. A luta do povo que se manifesta está reduzida ao consumismo de massas. As causas minoritárias, daquele tipo que apenas conseguiria juntar 99 mil cidadãos, ou mesmo 99 999 mil, são cada vez menos relevantes, num relação inversa com o crescimento demográfico dos últimos sucessos protestavivo-pedonais.

Atentemos no camarada Jerónimo a explicar o materialismo dialéctico destes espectáculos montados com gigantesca e minuciosa logística:

Questionado sobre se acha que o Governo vai prestar atenção a esta manifestação, Jerónimo respondeu: “Também os outros aparentemente não deram ouvidos e acabaram por ser derrotados, se estes não dão ouvidos a esta grande acção, naturalmente, mais tarde ou mais cedo, a vitória será deste povo que ocupa este Terreiro do Paço e não daqueles que querem fazer o país andar para trás”.

Jerónimo defendeu como alternativa à austeridade “um país de progresso, de crescimento económico, sem desemprego, que responda às novas gerações”.

Ou seja, os outros, os fascistas do PS, não se vergaram ao poder da rua, pelo que acabaram a morder o pó da estrada. O povo derrotou-os e meteu uns 100 mil vezes piores no seu lugar. Com o povo não se brinca, fica assim claro até para quem insiste em não querer ver nem ouvir. Isto quer dizer que, caso estes imitem aqueles, o povo voltará a derrotá-los com a facilidade com que passa uma tarde de sábado ao Sol. E, obviamente, colocará no poder uns aqueloutros 100 mil vezes piores do que os actuais.

Entretanto, o PCP tem um projecto político cheio de soluções para fazer de Portugal um país de progresso, de crescimento económico, sem desemprego e com respostas (ainda antes de conhecer as perguntas) para as novas gerações. Logo que arranjem um tempinho livre entre manifestações, farão chegar aos eleitores esses segredos tão bem guardados até hoje.

Vinte Linhas 733

Sobre «Outros bichos» de Renato Suttana

Poeta, tradutor e ensaísta, Renato Suttana iniciou em «Bichos» (2005) uma demanda poética sobre estes co-habitantes da nossa Terra. Em «Outros bichos» (2011), seguindo a linha dos clássicos (Esopo, La Fontaine, Aquilino Ribeiro) o autor (mesmo sem ser biólogo) «investiga, escava, interpreta e apresenta essa parcela da vasta realidade que cerca o ser humano, procedendo a uma constante interrogação sobre o outro» – conforme prefácio de Ruy Ventura.

Continuar a lerVinte Linhas 733

Um mau precedente para a democracia parlamentar

Hoje foi um dia triste para a democracia parlamentar. O PCP fez um requerimento potestativo – isto é, não pode ser negado pela maioria – para que o PM fosse ouvido na 1ª Comissão acerca dos factos vindos a público rodeando os serviços de informação.
Lendo o requerimento, estão em causa os casos recentes mais preocupantes que escuso de documentar.
Por quê o requerimento? Para humilhar o PM? Não. Porque é o único membro do Governo com a tutela dos serviços em causa, sem possibilidade de delegação.
Por outro lado, o melindre das perguntas, bem como das respostas, não se adequam ao uso do debate quinzenal “à porta aberta” ou a outro tipo de intervenção.
A norma que permite chamar membros do governo à Comissão diz isso mesmo: “membros do Governo”.
Sendo o PM um “membro do Governo”, a direita apressou-se a tentar explicar que o PM é “mais do que um membro do Governo”.
A questão subiu à mesa e a Presidente da AR encontrou preceitos no regimento que se referem especificamente ao PM ao contrário de outros que mencionam os tais dos “membros do Governo”. Deu razão à direita e o maior direito das minorias parlamentares foi para o lixo.
Esqueceu-se a PAR que também há muitos preceitos do regimento que se referem aos “membros do Governo” querendo incluir o PM: discussão do OE; moções de censura, etc.
O ponto e o precedente perigoso não é o PM livrar-se da 1ª Comissão. É antes no único caso em que o PM tem o exclusivo de uma tutela sem possibilidade de delegação a AR ficar diminuída nos seus poderes de fiscalização.
O inevitável CDS ainda argumentou com o facto de poderem haver factos do tempo de Sócrates. Lembrei pela segunda vez o princípio da continuidade da administração: responde quem está em funções, ou não teria Luís Amado ido à AR responder a todas as questões acerca os alegados voos da CIA, independentemente de um número muito grande de voos sob suspeita datar dos tempos do anterior Governo de direita.
Dia formal, dia fatal.

Bifes do Lomba

Pedro Lomba despachou um exercício sofístico que me fez recordar as dezenas de horas que passei de porta aberta a tentar salvar sucessivas vagas de Testemunhas de Jeová. Durante uns dois ou três anos, calhando estar em casa nos sábados à tarde, acudia pressuroso à campainha e esperava concentradíssimo que a dupla proselitista subisse. Depois, dava o meu melhor no único processo de evangelização que me interessava na circunstância: levar uma Testemunha de Jeová, uma qualquer, a reconhecer que a hermenêutica não é obra do Diabo; e isto apesar da caudalosa evidência que aponta nesse mefistofélico sentido, reconheço. Revelou-se tarefa inglória, sem surpresa nem pesar, cuja única regular consequência foi a substituição das equipas por outras ainda mais fanáticas. Até que me ostracizaram, anulando a reserva que já tinham feito em meu nome no paraíso terrestre que andam a vender em modo de space-sharing.

Lomba imitou a técnica clássica das Testemunhas de Jeová, a qual é um dos recursos principais de todos os fundamentalismos: a literalidade. Vai daí, pegou na palavra “piegas” e pensou: que outros termos podem ter a mesma interpretação literal, mesmo que, para quem não se deixa tomar por parvo, não tenham nem possam ter os mesmos significados? Apareceu-lhe “lamúria”. Este substantivo era ideal para o tipo de fundamentalismo político do Lomba, porque lhe permitia falar de Sampaio e de Sócrates. Com “piegas” apenas poderia falar de Passos, o que até seria uma originalidade a ser aplaudida tendo em conta que mais nenhum governante na História de Portugal terá usado o ternurento vocábulo no desempenho de actividades oficiais, mas com “lamúria” já dava para um saltinho a Paris e entrar na casa do seu ódio de estimação. Que fixe. Escrever a crónica, depois da epifania lexical, seria como limpar o rabinho aos bebés aflitos de tanto chorar pelo incómodo causado pela presença do cocó que Passos tinha largado nas suas sectárias fraldas. E foi enorme o alívio.

Ir buscar citações de Sampaio e de Sócrates para as apresentar como política, moral e semanticamente equivalentes às de um primeiro-ministro de um país onde a pobreza e a miséria aumentaram para níveis calamitosos por exclusiva opção desse mesmo primeiro-ministro, e estas adentro de um discurso difamante e reaccionário, só é cognitivamente possível quando se anulam intencionalmente os contextos. Esse estado de cegueira auto-infligida deu-me alguns momentos divertidos com as Testemunhas de Jeová, em particular quando me queriam convencer dos terríveis malefícios para a saúde das transfusões de sangue e dos sinais indesmentíveis de estarmos a poucos minutos do fim do mundo. A diversão não resultava da extraordinária perversão a que se chega nas leituras literais, porque há infindas tragédias individuais e colectivas que daí nascem. A diversão consistia no agradecimento calado que fazia àqueles seres por me estarem a permitir contemplar quão fácil é anularmos o princípio de realidade.

Lomba, uma das jovens estrelinhas intelectuais da direita decadente e persecutória, assina o texto com o selo da sua qualificação profissional: jurista. Isso que dizer que ele, muito melhor do que a enorme maioria da população que o cerca, sabe de ciência certa que o Direito é, numa sua dimensão essencial, a arte da interpretação. Ao despejar para o espaço público a debochada tentativa de reinterpretação do verbo passista à custa de um ex-Presidente da República e da maior vedeta do Correio da Manhã está a dar provas de uma fé na estupidez alheia que ultrapassa tudo o que já me veio bater à porta.

O nosso salário mínimo realmente nacional

Salário Mínimo Nacional
(atualizado em 1 de fevereiro 2012 pela base de dados do Eurostat)
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Em 2012, Portugal apresenta o 3º Salário Mínimo Nacional mais baixo da Zona Euro (Eslováquia e Estónia registam valores inferiores) e 10º de toda a União Europeia .

Comparando com os países que têm o SMN mais elevado, verifica-se que o SMN em Portugal é 73% menos que o do Luxemburgo, menos de metade que o da Irlanda, Holanda, Bélgica, França e Reino Unido; menos 36% que o da Eslovénia; menos 35% que o da Grécia; menos 29% que o de Malta e menos 24% que o de Espanha.

2012: SMN – Valores Comparáveis* 2012: SMN – Valores Mensais
ordem País €uros ordem País €uros
1 Luxemburgo 1.801,49 1 Luxemburgo 1.801,49
2 Irlanda 1.461,85 2 Irlanda 1.461,85
3 Holanda 1.446,60 3 Holanda 1.446,60
4 Bélgica 1.443,54 4 Bélgica 1.443,54
5 França 1.398,37 5 França 1.398,37
6 R.Unido 1.201,96 6 R. Unido 1.201,96
7 Grécia 876,62 7 Eslovénia 763,06
8 Eslovénia 763,06 8 Grécia 751,39
9 Espanha 748,30 9 Malta 679,87
10 Malta 679,87 10 Espanha 641,40
11 Portugal 565,83 11 Portugal 485,00
12 Polónia 336,47 12 Polónia 336,47
13 Eslováquia 327,00 13 Eslováquia 327,00
14 Rep. Checa 310,23 14 Rep. Checa 310,23
15 Hungria 295,63 15 Hungria 295,63
16 Estónia 290,00 16 Estónia 290,00
17 Letónia 285,92 17 Letónia 285,92
1 Lituânia 231,70 18 Lituânia 231,70
19 Roménia 161,91 19 Roménia 161,91
20 Bulgária 138,05 20 Bulgária 138,05

E.U.A 971,22 E.U.A 971,22
* Em Portugal, Espanha e Grécia o SMN é aplicado a 14 meses por ano. Estes dados são ajustados a este facto.
Comparando com 2011, O SMN de Portugal apresenta um crescimento nulo este ano (em termos nominais), bem como o da Irlanda, Espanha e Lituânia.

Em termos reais (contando com a inflação esperada para 2012), Portugal apresentará um decréscimo de 2,9% no SMN este ano, colocando-o no 3º decrécimo mais acentuado de toda a UE e 2º da zona Euro.

A elite do PSD no seu esplendor

No seu comentário habitual na TVI24, nesta quinta-feira, o ex-presidente do PSD defendeu que nas circunstâncias que o país vive seria um “mau sinal” não cortar a tolerância de ponto no Carnaval.

Mendes lembrou que os membros da Troika vão estar em Portugal na altura do Carnaval a fazer nova avaliação a Portugal e que seria incompreensível que quem empresta estivesse a trabalhar e que quem pede emprestado “estivesse na folia”.

Fonte

David em 8 de Fevereiro de 1952

Não tenho automóvel. Sai da vida militar há pouco tempo e comecei a trabalhar como professor na Escola Veiga Beirão. Saltei do vapor em Cacilhas e apanhei a camioneta dos Belos. Apesar de o dia estar belíssimo, fazia frio. Era o tempo dele.

Também em Azeitão, na paragem onde muitas vezes Sebastião da Gama me esperou para os nossos passeios à Arrábida, também em Azeitão estava frio. Mesmo no Verão (e hoje não é Verão) acompanhar um enterro é sempre uma coisa fria.

Continuar a lerDavid em 8 de Fevereiro de 1952

Fenómenos do entroncamento

Também como resultado da bancada do PSD ter sido liderada por tribunos de terceira extracção nesse longo período, mas principalmente por causa das suas naturezas e livre-arbítrio, Portas e Louçã tiveram o maior protagonismo pela oposição em todos os debates parlamentares com Sócrates nos 6 anos passados. Existia um clima relacional, que o então primeiro-ministro gostosamente alimentava com o seu temperamento sanguíneo, de competição entre gladiadores. As intervenções extravasavam no aparato emocional o âmbito das questões políticas avulsamente na berlinda e deixavam ver as correntes de testosterona em ebulição. Aqueles dois atacavam apaixonadamente aquele um como só se pode fazer quando se constrói o outro como inimigo.

E assim vimos que Portas e Louçã eram cópias perfeitas na transmissão das seguintes mensagens:

– Sócrates não tem legitimidade política por ser moralmente indigno.
– Não se deve chegar a qualquer tipo de acordo com o PS por causa de Sócrates.
– Qualquer consequência da interrupção da legislatura, mesmo que tal implique um resgate financeiro de emergência, é preferível à continuidade de Sócrates no poder.
– Derrubar Sócrates, e assim conseguir que ele se afaste da chefia do PS, é o único objectivo por que vale a pena lutar.

Conseguido esse objectivo, estamos perante uma situação em que Portas é membro de um Governo que tem agravado cruel e erradamente por via fiscal a vida de todos os portugueses, o exacto oposto do que o CDS prometeu aos eleitores, e Louçã tem um grupo parlamentar com um terço do tamanho anterior, vendo à sua volta a vida de todos os trabalhadores e pobres a piorar numa escala impensável seis meses atrás.

Estas contradições ainda são o menos nisto tudo, o fenómeno a registar está nos silêncios de ambos. Incapazes de assumirem qualquer responsabilidade por uma postura de terra queimada quando o País já estava no meio de uma tempestade internacional incomensurável, dão agora a patética imagem de não passarem de dois tontinhos entroncados um no outro.

Concordo

Com Ana Gomes sobre as declarações de Martin Schulz
Nem sempre subscrevo o que diz Ana Gomes, mas desta vez dou-lhe razão. No Parlamento Europeu, muitos deputados se pronunciam sobre, e criticam, as políticas da Alemanha (no caso dos socialistas portugueses, sobretudo as que nos afetam). Schulz sentiu-se livre para falar de Portugal e dar o exemplo de um país que “pactua” com regimes pouco democráticos e desrespeitadores dos direitos humanos, matéria que dá, deu e sempre dará muito pano para mangas. Por outro lado, Schulz deveria saber as razões das coisas e não enveredar por críticas simplistas. Penso que Ana Gomes faz aqui um bom comentário.

Quando li excertos do que Schulz disse (aqui pode ser visto na íntegra), e sobretudo quando chamou “esclavagista” ao regime chinês, fiquei com a ideia de que a intenção do discurso, em geral, era mais a de alertar para a qualidade dos nossos (da Europa, e de alguns países em particular) interlocutores comerciais/financeiros.
Também acho que a exigência de explicações só lhe fez bem.

Vinte Linhas 732

O poeta Sebastião da Gama «morreu» há 60 anos

O dia 7 de Fevereiro de 1952 marca a morte (civil) de Sebastião da Gama. Tudo começou uns anos antes quando o chefe de redacção da Gazeta do Sul (Montijo) Augusto Barbosa de seu nome, recebeu um poema assinado «Zé d´Anicha» e sentiu que uma coisa estava a acontecer – eram quadras sadias de um lirismo tão doce e vigoroso que «a alegria de ter achado um poeta me tomou e me senti recompensado do ingrato labor de ter que digerir desconchavos». Por isso disse ao chefe de oficina: «Este rapaz é alguém; temos de encorajá-lo. Ponha-me isto em normando e em lugar destacado no jornal.» Quando viu publicada a «Serra-Mãe» o poeta assinou esta dedicatória: «Para o Augusto Barbosa que me publicou os primeiros versos sem ser por compadrice». Vejamos algumas das suas quadras:

Nasci para ser ignorante / Mas os parentes teimaram

(e dali não arrancaram) / Em fazer de mim estudante

Que remédio? Obedeci / Há já três lustros que estudo

Aprender, aprendi tudo / mas tudo desaprendi.

Perdi o nome às estrelas / aos nossos rios e aos de fora

Confundo fauna com flora / atrapalham-me as parcelas.

Mas passo dias inteiros / a ver um rio a passar

Com aves e ondas do mar / tenho amores verdadeiros.

Sendo um lírico, Sebastião da Gama não era um ingénuo; hoje em 2012 faz falta a sua voz: «Alevanta-te Povo! / Ah! visses tu nos olhos das mulheres / a calada censura / que te reclama filhos mais robustos!»

Enriquecimento ilícito: um crime que é um crime

O deputado Filipe Neto Brandão afirmou hoje, e muito bem, em artigo publicado no Diário de Noticias, que o PSD e o CDS se preparam “para criminalizar agora a mera desconformidade do património possuído por cada cidadão com as suas declarações fiscais, mesmo que este jamais tenha exercido funções públicas”.
Aponta o facto de a pena de prisão prevista ser até aos três anos, igualando a pena prevista no código penal para um crime de ofensas corporais simples, e de se inserir este crime na categoria de “criminalidade altamente organizada”.
Assim, Filipe Neto Brandão explica que o legislador coloca ao dispor do Ministério Público “um arsenal de instrumentos insidiosos de investigação verdadeiramente desproporcionados à medida da pena, tais como escutas telefónicas, buscas domiciliárias noturnas, etc.”, e completou ao afirmar que “bastará um cidadão ser suspeito de ter um património superior em ‘cem salários mínimos’ (48 500) ao que as suas declarações fiscais avalizariam, para poder vir a ser objeto de uma investigação criminal”.
O projeto de lei explicita que competirá ao MP fazer a prova de todos os elementos do tipo deste crime, sendo esta precaução redundante, uma vez que é isso que cabe ao MP fazer em todos os crimes. “Porém, aqui, o crime de enriquecimento ilícito, nos casos em que o arguido se remeta ao silêncio, preencher-se-á com a mera posse de um património incompatível com as declarações fiscais. É que a lei fala em património ‘sem origem lícita determinada’”. Deste modo, se o MP alegar que “não logrou determinar a origem lícita do património do arguido ‘incompatível’ com o que este declarou ao fisco, o silêncio do arguido acarretará a sua condenação, pois a consequência será chegarmos ao fim do julgamento ‘sem origem lícita determinada’ do património”. Para que tal não aconteça, o arguido terá de prescindir do seu direito ao silêncio para provar a origem lícita do seu património.
Filipe Neto Brandão termina o seu artigo assim: “Esqueçam os pergaminhos liberais. São já os próprios alicerces do Estado de Direito democrático que, incautamente, PSD e CDS estão a demolir”.
Muito mais há para dizer e foi dito, hoje, durante horas na 1ª comissão. Perante as nossas perguntas conseguimos ver dois deputados do PSD com duas versões da sua própria proposta.
Espero, não posso esperar outra coisa, que a ofensa de princípios como o da igualdade, o da determinação dos elementos do tipo, o do princípio do ónus da prova, entre outros, a manter-se o projecto como está, que Cavaco Silva envie o decreto para o Tribunal Constitucional. Se uma das (tristes) variantes dessa decisão é a certeza da “vitória” do requerimento, pois aqui está um caso limpinho.

A-guiar-bronco

Caso a cegada que Aguiar-Branco conseguiu arranjar na relação dos militares com o Estado tivesse sido obra de um qualquer governante socialista, o PSD estaria neste momento a pedir a demissão do Ministro da Defesa. Caso tivesse sido obra de um governante socialista, e esse socialista se chamasse Augusto Santos Silva, o PSD estaria agora a pedir a demissão do Ministro da Defesa e Aguiar-Branco estaria a exigir aos berros que Augusto Santos Silva fosse julgado em tribunal marcial por crimes de guerra.

Recordemos a habilidade do artista:

Se não sentem vocação, estão no sítio errado. Se não sentem, antes de protestar precisam de mudar de carreira. Sem drama, sem ressentimento. Deixem o que é militar aos militares, o que é das associações às associações, o que é da política à política.

Aguiar-Branco, para dizer a alguns militares que não deviam mijar fora do penico da esfera castrense, apontou ao seu mais íntimo sentimento de honra: a vocação. Aguiar-Branco, para estabelecer um limite às actividades das associações profissionais de militares, ofendeu pessoalmente os indivíduos que as compõem. Aguiar-Branco, para marcar uma posição de autoridade governativa, insultou toda a corporação militar.

Aguiar-Branco é um bronco.

Demolição económica, social e cultural

Passos Coelho disse esperar que “os portugueses entendam que não estamos em tempo de falar em tradições”. O chefe de Governo recordou que a “situação de emergência nacional” levou o Governo a eliminar quatro feriados. “Temos de lutar para vencer as dificuldades,” acrescentou. “O pais ganha muito com o fim da tolerância.”

Fonte

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Passos veio do fim-de-semana acossado com as críticas à decisão de não dar o feriado de Carnaval, tendo optado por contra-atacar em registo de fuga para frente. Ia ser uma segunda-feira em cheio, a qual começou com a abolição das tradições e viria a terminar com a denúncia dos portugueses serem velhos, preguiçosos e queixinhas. A ligar a parvoeira estava um nome nunca referido: António Capucho.

Capucho é o mais poderoso dos barões cavaquistas e aquele que faz as críticas mais contundentes a Passos. Foi assim com a recusa para integrar as listas do PSD nas últimas eleições legislativas, foi assim aquando da escolha de Nobre para candidato à Presidência da Assembleia da República e voltou a ser assim neste disparate carnavalesco. Capucho é a voz dos rancores de Cavaco. Nem seria de estranhar que tivesse vindo dele o recente e surpreendente ataque a Vítor Gaspar, o qual foi dito provir de um cavaquista anónimo mas íntimo de Cavaco ao mais alto nível. Exactamente o perfil da personagem.

Pois o nosso agente em Massamá escolheu Odivelas para terminar um dia de recados para Belém: o vosso tempo acabou, comigo não vai ficar pedra sobre pedra. Como prova do poder que julga ter nas mãos, disse o que quis e não quis dos portugueses só para mostrar que, se 10 milhões podiam comer e calar, não seriam meia dúzia, ou dúzia e meia, de passarões caducos a impedir a marcha triunfal daqueles que conseguiram expulsar Sócrates e trazer os senhores do dinheiro para pôr esta malandragem toda na ordem.

Life boils down to a series of choices

Os anúncios do Super Bowl deste ano foram, regra geral, uma bela merda, e mesmo os melhorzinhos não conseguiram fugir à banalidade. Ocasião para recuperar um dos melhores trabalhos de 2011. Uma obra de arte que apetece ver vezes sem conta, porque a sua dinâmica de envolvimento racional e afectivo é inesgotável. E que tem esta beleza de copy no remate:

All choices lead you somewhere. Bold choices take you where you’re supposed to be.

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Nota: se a tua máquina aguentar, vê em HD e ecrã total.

O pai severo

Why does the dog lick his balls?
Because he can.

(Dito popular norte-americano)

 

Passos Coelho não diz estas coisas por acaso, por descuido ou sequer por provocação. Por muito que haja quem se choque com a aparente insensibilidade e brutalidade delas, são afirmações que não só se enquadram como reforçam o bem mais valioso que este governo tem: o controle da narrativa.

E a narrativa é esta: Portugal foi à falência devido à irresponsabilidade gastadora do governo anterior e dos portugueses em geral. Todos se endividaram, todos gastaram o dinheiro que tinham e o que não tinham, todos viveram acima das suas possibilidades. Isso inclui-me a mim, e inclui-te certamente a ti. E ao teu vizinho, com o seu Audi a crédito. E aos teus amigos, com aquele apartamento que ainda hoje te perguntas “como é que eles puderam?”. E o teu colega de trabalho, o das férias nas Maldivas. E o teu patrão, à espera do contrato do estado via os seus “bons contactos”. Toda esta fúria gastadora a crédito personificada num homem: Sócrates. Aquele que por incúria, irresponsabilidade, compadrios e corrupção, abundantemente insinuados na imprensa, nos levou até aqui. Todos fomos, em resumo, fracos.

Esta narrativa é crua, simplista e populista ao extremo. É também poderosa, razão pela qual  funciona lindamente e é hoje omnipresente na sociedade, mesmo entre os críticos do governo e, lamentavelmente, mesmo entre a oposição. Critica-se a dureza, sim, mas não os fundamentos da narrativa. Essa é aceite como boa e válida, razão pela qual qualquer tentativa de a contrariar é vista como um crime de lesa-pátria, um retorno à irresponsabilidade gastadora, uma coisa impensável e muito perigosa para quem o tentar sequer fazer. Só os “socráticos”, essa corja, ainda ousam opôr-se. Mas isso é gente deplorável que, como bem prova Seguro, interessa pôr para trás das costas e tentar esquecer. E a narrativa, com a ajuda preciosa do PS, fica completa. O círculo fecha-se.

E sendo assim, com a nossa profunda culpa – atenuada e desculpada com um bode expiatório – perfeitamente definida, entra em cena o governo das virtudes e dos homens sérios, o chefe de família severo que não descansará enquanto não nos meter na ordem, por muito que lhe custe ver-nos sofrer. Mas é para nosso bem. É o modelo “o meu pai era rígido mas fez de mim o homem que sou hoje”, sempre popular em todo o mundo.

Claro que há que fazer ajustes na história da carochinha, para manter a narrativa pura e sem brechas. Prometeram os maiores disparates e mentiram descaradamente na campanha? Não, os homens sérios não fazem isso, foram “surpreendidos” pelo estado a que isto tinha chegado e “obrigados” a medidas duras que lhes custam, custam tanto, mas são “indispensáveis”. (Quanto aos relatórios da UTAO, ninguém os lê, mais importante, ninguém os divulga, e mais importante ainda, ninguém os usa como base de desconstrução da narrativa. São por isso irrelevantes para o comum dos cidadãos, um epílogo de uma história passada). Ocuparam a máquina do estado como cães esfaimados? Não, todos os que lá estão têm credenciais impecáveis e provas dadas, são gente séria empenhada em salvar o país, e estar na política não é, agora, crime. Para além disso, são menos que os do anterior governo, como prometido. Os barões afiambraram-se aos lugares de luxo nas empresas que eles próprios privatizaram? É alguma “ingenuidade” de Passos, sem dúvida, mas vamos dar-lhe tempo. Uma semana, por exemplo, para que a imprensa se cale com o assunto. E pronto, passou. Ah, e o Vara. Quem não se lembra do Vara? Querem comparar?

E porque gente séria não admite que a sua idoneidade seja posta em causa, tipo Sócrates, tudo pode ser desmentido rapidamente e de maneira simples. “Não o preocupam as demissões na RDP?” – “Não”. E acabou, não se fala mais nisso, era o que faltava. Ainda hoje me admiro com a elegância simples com que o assunto morreu ali. “E as nomeações para a EDP?”. “Assuntos privados em que não nos metemos”. Questão morta. Narrativa intacta. “Vai ser preciso um segundo resgate?” Não (ou seja, sim), mas se vier será não por vontade do governo – como Sócrates – mas por condicionantes externas fora do nosso controlo. Nós fizemos tudo bem, está aí a troika para o provar e uma oposição “responsável” que discorda apenas pontualmente. E as condicionantes externas só existem, lembrem-se, porque houve antes de nós um governo de irresponsáveis, os que assinaram o memorando. “As medidas são minhas, mas o défice não é meu”. A narrativa, mais uma vez, provando-se a si mesma.

É esta lógica inatacada pela oposição de Seguro e de raízes cada vez mais fundas que permite que Passos possa dizer isto e muito mais. Parafraseando os americanos, não o faz por descuido. Fá-lo porque pode, para afirmar o poder decorrente da narrativa tão bem construída. E só o pode porque por muito que os portugueses se queixem, e queixam-se certamente, a austeridade e as medidas brutais são hoje aceites como consequências dos nossos excessos, das nossas fraquezas, e o melhor remédio é o brutal mas supostamente eficaz, e sobretudo “indispensável”, comandado por um tipo “determinado”. Não é, no entanto, para piegas.