Vinte Linhas 733

Sobre «Outros bichos» de Renato Suttana

Poeta, tradutor e ensaísta, Renato Suttana iniciou em «Bichos» (2005) uma demanda poética sobre estes co-habitantes da nossa Terra. Em «Outros bichos» (2011), seguindo a linha dos clássicos (Esopo, La Fontaine, Aquilino Ribeiro) o autor (mesmo sem ser biólogo) «investiga, escava, interpreta e apresenta essa parcela da vasta realidade que cerca o ser humano, procedendo a uma constante interrogação sobre o outro» – conforme prefácio de Ruy Ventura.

Este belíssimo livro conta com desenhos de Alberto Lacet e organiza-se em breves narrativas, aforismos e legendas que são sempre poemas. Como o da gaivota: «Pura ave / no ar / – o voo da gaivota / sacode /o /mar». Ou como o caracol: «Se um caracol / aonde quer que vá / (lento seu existir / longe o lugar / aonde tem de / ir)/ não se adianta / nem se atrasa / é porque leva consigo / a sua casa». Ou ainda a girafa: «Longos pescoços não as tornam / menos elegantes. / Antes / fazem-nas mais / íntimas / do ar. / (Passeiam em campo aberto / como torres em equilíbrio / senhoras de si mesmas.) / Teriam / exigido de Noé / tectos mais altos.»

A reflexão sobre os animais torna-se reflexão sobre o Mundo e sua gramática; veja-se o poema da borboleta: «Ao estudá-las é que se descobre / que a beleza / sempre foi além / acrescentando / leveza e cor / ao silêncio. / (Como imitar / o voo da uma borboleta / num verso?) / Sua asa / expande os limites /do ar». Outro exemplo é o poema do boi: «(Nada há que ele não saiba / ou nada / que ele já não conheça / desde o princípio: as / surpresas do sol / os pensamento / do vento; / o vento / e algum secreto modo / de transformar-se em relva / o que é sol, o que foi /noite). No boi / o tempo se enraíza / profundamente. / E em seu vasto respirar / respira também / e aspira / à eternidade».

16 thoughts on “Vinte Linhas 733”

  1. Meu Caro Joaquim Nascimento – longe de mim tal ideia. Apenas referi três nomes de passagem – nada contra o gigante de Trás os Montes que viveu em Coimbra. Dou-lhe um exemplo: ainda agora entrevistei o Luis Miguel Cintra, já viu se eu colocasse os nomes de todos os realizadores de todos os seus filmes desde 1971? Safa!

  2. Uma nota a tempo, ainda a tempo: podem ver na Internet poemas, ensaios e traduções de Renato Suttana em «O arquivo de Renato Suttana». A não perder.

  3. No sentido daquela frase célebre – quem trata os animais como pessoas acaba a tratar as pessoas como animais. É isso Olinda.

  4. nesse caso, e não lamento chocar-te, discordo em absoluto. será, esse, mais um mito corrente do quotidiano de que se falava ontem num post do Val. é que o que eu faço é desumanizar-me perante eles de quatro patas e os outros de duas para ser uma humana cada vez melhor. e resulta mesmo olhá-los, olhar-vos, a todos com igualdade naquilo que é, para mim, essencial. um dia ainda vou provar ao mundo o quanto andam todos enganados em relação aos ditos animais só porque nós, os humanos, é que não somos suficientemente inteligentes e capazes de entender a sua, deles, linguagem verbal. e é só isso.

  5. Olinda a frase assenta naqueles seres humanos que não têm tempo para os pais mas dão toda a atenção aos animais de estimação.Nada mais. Uma coisa é respeitar os animais; outra bem diferente é fazer deles o mais importante. Julgo que percebes. Se não percebes amigos – como dantes.

  6. percebo, claro. mas é preciso averiguar se os pais, nesses casos, sabem ser pais e amigos. porque se não souberem nem forem, é bem legítima a preferência e estima aos tais animais. :-)

  7. Ok Olinda concordo a cem por cento – quem não semeia não pode colher. Outro dia falando com um escritor brasileiro numa livraria, depois de o ouvir falar muito na mãe, perguntei-lhe se tinha pai. Respondeu: «O meu pai é um filho da puta! Quero que ele se dane e morra depressa! Dele só quero o dinheiro, apenas o dinheiro! Que se dane!»

  8. por falar em pai dos outros, e se nos falasses da tua mulher? não deve ser problema para quem expõe os filhos, netos, hoover & citroheim.

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