Vinte Linhas 732

O poeta Sebastião da Gama «morreu» há 60 anos

O dia 7 de Fevereiro de 1952 marca a morte (civil) de Sebastião da Gama. Tudo começou uns anos antes quando o chefe de redacção da Gazeta do Sul (Montijo) Augusto Barbosa de seu nome, recebeu um poema assinado «Zé d´Anicha» e sentiu que uma coisa estava a acontecer – eram quadras sadias de um lirismo tão doce e vigoroso que «a alegria de ter achado um poeta me tomou e me senti recompensado do ingrato labor de ter que digerir desconchavos». Por isso disse ao chefe de oficina: «Este rapaz é alguém; temos de encorajá-lo. Ponha-me isto em normando e em lugar destacado no jornal.» Quando viu publicada a «Serra-Mãe» o poeta assinou esta dedicatória: «Para o Augusto Barbosa que me publicou os primeiros versos sem ser por compadrice». Vejamos algumas das suas quadras:

Nasci para ser ignorante / Mas os parentes teimaram

(e dali não arrancaram) / Em fazer de mim estudante

Que remédio? Obedeci / Há já três lustros que estudo

Aprender, aprendi tudo / mas tudo desaprendi.

Perdi o nome às estrelas / aos nossos rios e aos de fora

Confundo fauna com flora / atrapalham-me as parcelas.

Mas passo dias inteiros / a ver um rio a passar

Com aves e ondas do mar / tenho amores verdadeiros.

Sendo um lírico, Sebastião da Gama não era um ingénuo; hoje em 2012 faz falta a sua voz: «Alevanta-te Povo! / Ah! visses tu nos olhos das mulheres / a calada censura / que te reclama filhos mais robustos!»

17 thoughts on “Vinte Linhas 732”

  1. daqui a poucos minutos pego o 758 e vou até ao nosso Parlamento com os meus alunos, pensando no Diário de Sebastião da Gama e naquilo que aprendi com ele. Obrigada.

  2. ai, Zézinho, traz outro com brevidade que este d’anicha, com ou sem idade, e apesar de boa intenção, é secante e murcho e não vai à minha missa. :-)

  3. ora porra*! pensava que eras baterista na outra banda e sai-me uma corista da fenprof, lá se vai o sonho de ir contigo ao alive em diferido. avisa os putos que não podem dar comida aos animais.

    * referência a obra d’agostinho lopes

  4. Meus Caros «Miss», Luis Eme e Olinda – o que me interessou também sublinhar foi o facto de um grade poeta ter começado no jornal do Montijo, a Gazeta do Sul que eu ainda vi a trabalhar entre 1957 e 1961 quando por lá passava quando vivi na Rua Sacadura Cabral

  5. oh xóriço! os sublinhados são edding*, o facto de ambos, tu & o outro, terem trabalhado em jornalecos são felizes coincidências de percurso características de grades de poetas como um jcfrancisco, dois carmo francisco ou três josé do carmo francisco. atenção pessoal que o auto-gabanço agora vem em embalagem à parte.

    * piada foleira a uma professora que conheci há bocado.

  6. oh embutido do montijo! quase que me ias enganando, atão o gajo morreu em 1952 e depois dás a entender que ainda o viste a trabalhar entre 57/61. ah… já sei, referias-te ao local onde ele tinha trabalhado, a tipografia, como se isso fosse relevante. pois, eu tamém era íntimo do marquês de pombal, passo lá todos os dias e o meu negócio é rotundas.

  7. corista, só se for no sindicato do aspirina, e, mesmo assim, desafinada e com quotas em atraso. … cá pra mim, essa da corista (e o príncipe de bigode!) cheira-me a desculpas pra não me levares ao alive em diferido*, não é? Previsível, mon cher!

    * piada foleira a um publicitário bué de exagerado

  8. …é bom lembrar um poeta que, com o pouco que escreveu, muito influenciou a geração de 60, muito via Lindley Cintra e o «Diário». Famosa a resposta à pergunta:
    -Tens muito que fazer?
    -Não, tenho muito que amar.

  9. Obrigado amigo «aix» é mesmo isso. Na minha breve nota a propósito dos 60 anos da morte (civil) tentei dizer isso tudo, ele seguiu a regra «a única medida do amor é amar sem medida»…

  10. beautiful, mon cher! vou ver se ainda tenho cabeça e depois digo-te qualque chose. de quelque façon, aviso-te, desde já, que o meu cabelo não aguenta qualquer amaciador. Aprume-se!*

    * piada foleira de uma plebeia, em “Sua Alteza Real”, de Thomas Mann

  11. Oh jcf foi pena que para enalteceres o Sebastião da Gama que não precisa nem dos teus favores nem da tua lembrança tenhas invocado um jornal, a Gazeta do Sul, que eu lia semanalmente e onde cheguei a botar alguns artigos, porque nos finalmentes esse jornaleco é para esquecer pois o Tio Rico, seu diretor Alves Gago andou a fazer uma colheita de fundos entre os assinantes, durante vários anos, para fazer uma sede para o jornal criando uma espécie duma cooperativa. Feita a obra o jornal continuou e no pós 25 de Abril veio a descobrir-se que o marmanjo do Alves Gago tinha posto tudo aquilo em seu nome pessoal mandado os assinantes que tinham contribuÍdo para a obra e a cooperativa ÀS URTIGAS. Não sei o desfecho do caso, se chegou a ir a tribunal ou não sei apenas que o diretor e pelos vistos dono do jornal era um grande charlatão. Portanto a fotografia que mostras se hoje o Sebastião da Gama fosse vivo não aceitava misturar-se com tal gente e tu, que sabes muito de livros e és do Montijo não sabes que esse jornal que morreu logo após se descobrir esta falcatrua não deve ser invocado porque achincalha quem o leu e lá escreveu ou publicou por causa do seu único diretor, o dono do jornaleco.

  12. ah, mas então se é do amor sem medida já lhe bato palmas. afinal fui eu, ontem, que acordei de febres, pouco serôdia, txoutxinha de todo, desculpa Zézinho: podes trazer mais disso d’anicha.:-)

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