David em 8 de Fevereiro de 1952

Não tenho automóvel. Sai da vida militar há pouco tempo e comecei a trabalhar como professor na Escola Veiga Beirão. Saltei do vapor em Cacilhas e apanhei a camioneta dos Belos. Apesar de o dia estar belíssimo, fazia frio. Era o tempo dele.

Também em Azeitão, na paragem onde muitas vezes Sebastião da Gama me esperou para os nossos passeios à Arrábida, também em Azeitão estava frio. Mesmo no Verão (e hoje não é Verão) acompanhar um enterro é sempre uma coisa fria.

António Osório e Couto Viana, Luís Amaro e Hernâni Cidade, Lourdes Belchior e Matilde Rosa Araújo, Lindley Cintra e todos os amigos encheram o pequeno cemitério de Azeitão. Muitos anos depois, será José Afonso que numa destas ruas de Azeitão, perto de uma Filarmónica, se irá perdendo aos poucos para a música e para a vida. Que estranha geografia a desta terra, aqui frente à Serra-Mãe do Sebastião.

Caminho devagar mas tenho a cabeça repleta de palavras do poeta, sei de cor alguns dos seus poemas e nesta altura só me lembro o poema que fala do seu nascimento: «Quando eu nasci / ficou tudo como estava / Nem homens cortaram veias / nem o Sol escureceu / nem houve estrelas a mais… / Sòmente / esquecida das dores / a minha mãe sorriu e agradeceu. / Quando eu nasci / não houve nada de novo / senão eu».

Pelas três da tarde do dia 9 de Fevereiro de 1952, numa mesa da Pastelaria Herculano, tomo as notas para um futuro diário. Quero escrever algo mais sobre a morte mas só me lembro os versos de vida do Sebastião da Gama. «Quando eu nasci» – pois é isso mesmo. Nasceu assim nem social nem romântico, apenas poeta, afinal o menos literato de todos nós.

30 thoughts on “David em 8 de Fevereiro de 1952”

  1. que confusão do caralho, mas quem é que escreveu essa porra? não me digas que foste tu com 2 anos de idade ou será o quiz da semana e quem adivinhar leva um exemplar do iniciais para acender a fogueira.

  2. Estou me matando prós críticos./ Hei-de cantar
    o que muito bem me apeteça./ Hei-de sentir,
    hei-de pensar, hei-de berrar o que muito bem
    me apeteça./Um grande raio que os parta mais
    às suas sentenças. // Se me der na maluca desato
    para aí dizer palavrões/ ou a escrever sonetos
    de Camões / começados do fim para pró
    princípio / e com os acentos todos trocados. /
    …/ Deixem-me cá sossegado a fazer versos/ –
    uma coisa melhor que todas as suas
    pretensões,/ todas as suas ciências, todas as
    suas opiniões/ e que mais belos do que eles só
    uma flor encarnada a nascer em cima de um
    telhado/ sem se importar de saber se olham para
    ela ou não…

  3. oh bécula! filha, não percebeste e levas tudo p’rá peida. o david é um poeta que deixou de fabricar em 1980 e que dedicou o poema acima ao bastião, mas isso agora não interessa nada. o que interessa é que o sr. david um dia tropeçou numa palete de “iniciais” ainda fresquinhas, só faltava adicionar-lhes canela e no processo do adicionamento fodeu um tornozelo, bai daí gerou-se um quiproquo em bolta da poesia rural da benedita e o viegas recebeu a cópia de autor com dedicatória ao ferreira, o resto é o que toda a gente sabe e sempre a subir. complicado? ou queres que mande aí o tomtom.

  4. …de modus que é assim, abécula, temos um quiproquo pró xá das cinco com scones sem manteiga o que vai dificultar a digestão do viegas. o resto já deves saber, descobri que a poesia rural da benedita causou a morte do marato e do socrates através do pincel poético do jacobino do david. e só mais uma coisinha e ficamos já por aqui, o ferreira mandou dizer que o sebastião tá na buraca a sonhar comovido e mudo. mas cuidado, isto é top secret. complicado? ou queres que mande aí a fomfom.

  5. num carece de fomfom, acho me desenrasco na wiki apesar do descodificador ter encravado com as causas da morte, nada de cuidado, já chamei a gata para alterar a estória.

  6. Meu Caro Luis Eme – a origem deste texto é a situação de eu ter uma enorme admiração pela obra do David Mourão Ferreira e do Sebastião da Gama. Daí ter escrito como se fosse o David – um pouco à maneira do que fiz no meu livro «Os guarda-redes morrem ao Domingo». Está publicado aqui no «Aspirina B» aliás em ligação com o texto anterior que fala do jornal Gazeta do Sul onde se estreou o poeta Sebastião da Gama.

  7. prontes… está desfeito o enguiço e… as obras completas do autor vão para a miss marple em “a poesia rural da benedita causou a morte do marato e do socrates através do pincel poético do jacobino do david” e ca parvo fui*. cambada d’ignorantes o da benedita deveria ser obrigatório a partir do infantário.

    * homenagem à deolinda, o dezorrorizante da sua pussy

  8. ainda vou descobrir a razão pela qual o JFC assassinou o David e a responsabilidade deste na morte de Marat e do nosso querido Sócrates. é desta que o Val vai conhecer pessoalmente o poeta da benedita, precisamente no solene momento da entrega da carta de despedimento. todos ansiamos por justiça e por uma chávena de chá.

  9. se quiseres decorar a letra pra botar figura na manif, aí vai

    Arménio, era um trolha da Areosa
    Que tinha, um par de olhinhos azuis
    Que quando, me fixavam no baile
    Me deixavam, indefesa e tão nervosa

    Arménio, tenho nas minhas gavetas
    Aerogramas, cheios de erros de ortografia
    Perfumados, entra as minhas meias pretas
    Aquelas que te punham, num estado de euforia

    Arménio, fui tua madrinha de guerra
    Rezei por ti, longas novenas sem fim
    Para voltares, inteirinho e sem mazelas
    E tu lá ficaste, tão perdido no capim

    Arménio, quantos sonhos e planos
    Prometeste, que me levavas a Lisbo-o-o-o-o-o-a
    Em Junho, no dia dos meus anos
    Bem sabes que a memória é um atributo dos gémeos.

  10. aí vai a versão do david, fazendo de conta que é o xico numa homenagem ao vasco da gama:

    tenho um citroeih. fiz a tropa no hospital e comecei a trabalhar como paquete na rua do ouro. saltei do combóio nas caldas e apanhei a camioneta dos capristanos. apesar de o dia estar belíssimo, fazia frio pra caralhos. era o tempo deles.

    tamém na benedita, na paragem onde muitas vezes o gama me esperou para os nossos passeios à serra, também em turquel estava frio. mesmo no verão (e hoje não é verão) acompanhar um enterro é sempre um pincel.

    olinda, pacheco, cimento e todos os amigos encheram o pequeno cemitério de benedita. muitos anos depois, será roberto leal que numa destas ruas da benedita, perto da mónica sintra, se irá perdendo aos poucos para a música e para a vida. que estranha coreografia a desta terra, aqui frente a santa catarina da serra.

    caminho devagar mas tenho a cabeça repleta de confusão, sei de cor alguns dos seus poemas e nesta altura só me lembro o poema que fala do meu amigo nascimento: «quando eu nasci / ficou tudo assi /… /não houve nada de novo / senão eu e só eu».

    pelas três da tarde do dia 9 de fevereiro de 1952, numa mesa da tasca do xico no bairro alto, apanho uma carraspana de caixão à cova. quero escrever algo mais sobre a morte mas só me lembro do cheiro a mijo e da emel. «quando eu nasci» – pois é isso mesmo. não nasceu, nem foi parido foi apanhado ao visgo.

  11. E viva o «anonimo»! Vê se aprendes alguma coisa com ele, francisquinho. Pelo menos, a escrever! Vai fingindo que não lês, vai, que lucras muito com isso… Com tanta grosseria calada, qualquer dia rebentas e temos novo terramoto em Lisboa. Entretanto, aproveita bem os «intervalos» para te gabares… Até o teu amigo Pacheco te deu com o Torga! Cada vez estás menos mais, caramba!

  12. deves estar ainda a sonhar, sócio. chefinho tenho, mas está na rua da amargura, demissionário, coitado, porque isto da autonomia tem muito que se lhe diga. quanto mais liberdada lhe dão mais se afoga em incompetência.
    olha, hoje limitei-me a subir e descer o chiado no dandismo do costume, mas estou solidária com os milhares de concidadãos que vieram hoje desafiar o terreiro do Passos. isto é só o começo. e não sei, não, se para a próxima lá estarei a fazer coro, não com o arménio e o pcp, mas com os mais humildes e desafinados.

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