Bifes do Lomba

Pedro Lomba despachou um exercício sofístico que me fez recordar as dezenas de horas que passei de porta aberta a tentar salvar sucessivas vagas de Testemunhas de Jeová. Durante uns dois ou três anos, calhando estar em casa nos sábados à tarde, acudia pressuroso à campainha e esperava concentradíssimo que a dupla proselitista subisse. Depois, dava o meu melhor no único processo de evangelização que me interessava na circunstância: levar uma Testemunha de Jeová, uma qualquer, a reconhecer que a hermenêutica não é obra do Diabo; e isto apesar da caudalosa evidência que aponta nesse mefistofélico sentido, reconheço. Revelou-se tarefa inglória, sem surpresa nem pesar, cuja única regular consequência foi a substituição das equipas por outras ainda mais fanáticas. Até que me ostracizaram, anulando a reserva que já tinham feito em meu nome no paraíso terrestre que andam a vender em modo de space-sharing.

Lomba imitou a técnica clássica das Testemunhas de Jeová, a qual é um dos recursos principais de todos os fundamentalismos: a literalidade. Vai daí, pegou na palavra “piegas” e pensou: que outros termos podem ter a mesma interpretação literal, mesmo que, para quem não se deixa tomar por parvo, não tenham nem possam ter os mesmos significados? Apareceu-lhe “lamúria”. Este substantivo era ideal para o tipo de fundamentalismo político do Lomba, porque lhe permitia falar de Sampaio e de Sócrates. Com “piegas” apenas poderia falar de Passos, o que até seria uma originalidade a ser aplaudida tendo em conta que mais nenhum governante na História de Portugal terá usado o ternurento vocábulo no desempenho de actividades oficiais, mas com “lamúria” já dava para um saltinho a Paris e entrar na casa do seu ódio de estimação. Que fixe. Escrever a crónica, depois da epifania lexical, seria como limpar o rabinho aos bebés aflitos de tanto chorar pelo incómodo causado pela presença do cocó que Passos tinha largado nas suas sectárias fraldas. E foi enorme o alívio.

Ir buscar citações de Sampaio e de Sócrates para as apresentar como política, moral e semanticamente equivalentes às de um primeiro-ministro de um país onde a pobreza e a miséria aumentaram para níveis calamitosos por exclusiva opção desse mesmo primeiro-ministro, e estas adentro de um discurso difamante e reaccionário, só é cognitivamente possível quando se anulam intencionalmente os contextos. Esse estado de cegueira auto-infligida deu-me alguns momentos divertidos com as Testemunhas de Jeová, em particular quando me queriam convencer dos terríveis malefícios para a saúde das transfusões de sangue e dos sinais indesmentíveis de estarmos a poucos minutos do fim do mundo. A diversão não resultava da extraordinária perversão a que se chega nas leituras literais, porque há infindas tragédias individuais e colectivas que daí nascem. A diversão consistia no agradecimento calado que fazia àqueles seres por me estarem a permitir contemplar quão fácil é anularmos o princípio de realidade.

Lomba, uma das jovens estrelinhas intelectuais da direita decadente e persecutória, assina o texto com o selo da sua qualificação profissional: jurista. Isso que dizer que ele, muito melhor do que a enorme maioria da população que o cerca, sabe de ciência certa que o Direito é, numa sua dimensão essencial, a arte da interpretação. Ao despejar para o espaço público a debochada tentativa de reinterpretação do verbo passista à custa de um ex-Presidente da República e da maior vedeta do Correio da Manhã está a dar provas de uma fé na estupidez alheia que ultrapassa tudo o que já me veio bater à porta.

18 thoughts on “Bifes do Lomba”

  1. Para analfabetos intelectuais de pacotilha tipo Lomba só umas vergastadas naquela lombada poderia ser o remédio. Estes cretinos pensam que as pessoas são estúpidas e vai daí arranjam umas merdas mal alinhavadas e pensam: os patos-bravos vão papar isto que é canja. Mas estão enganados tão enganados que muitos que lá votaram, tipo Pedro Marques Lopes, não sabem que voltas hão-de dar para justificar o injustificável.

  2. também não gostei. foi assim pró forçado. espero que o Lomba se arrependa e não comece a defender camisolas em vez de lutar e escrever por aquilo em que acredita. é que eu até gramo o puto . é o único dos comentaristas que parece minimamente sensato. querem ver que tb é tolo? até parecia o V a inventar.

  3. Essa da prosa que sai do lombo da alma também me arrepiou, Olinda. Fórmula perfeita a tua, digna de emparelhar com o E=mc2 do Einstein.

  4. Nada de novo nos posts do Val: um cobarde que se esconde atrás do anonimato para atacar pessoas que têm uma opinião diferente da sua.

  5. :-)

    sabes, JC, é muito bom quando até os nossos pêlos batem palmas. tudo o que eu fiz foi transformar, à moda da minha fórmula, em grandeza, quilos de palavras em joules.

  6. Nada de novo por aqui: quem se atreve a invocar o nome de Sócrates em vão, leva com os Val’s, os Abrantes e os Jugulares

  7. eu nada percebo de política nem de satatus quo de poder, Cristiano, não é isso que me faz ler nem comentar – até porque não o saberia fazer. mas percebo de justiça e de verdade, percebo quando brincam com essas palavras que não são meras palavras de usar e exaltar. e sabes uma coisa que é simples?: é na base dessas duas palavras que nos definimos enquanto gente e que sabemos de onde viemos, onde estamos e para onde queremos ir – é isso que é a nossa identidade que se aplica a tudo o que pensamos, dizemos e fazemos. e aqui, em público, é apenas esta identidade, sem rosto, que conta – uma identidade que identifica e analisa factos à luz da justiça e da verdade. e não lhe chamo opinião – chamo-lhe voz que, em bicos de força e de clareza, é um verbo vigoroso de intervenção.

  8. Magnífico texto, primo. Isso da literariedade (ou da denotação) é uma das ferramentas mais usadas nos sofismas que por aí pululam. Não sei se conheces a conceptualização de “mitologia” do Barthes (obra homónima). Se não conheces (digo não sei, porque afloras muitas das reflexões do mano), não hesites e lê essa obra (Edições 70).

  9. Pois o senhor é «jurista» e assina como tal mas poderia ser «malabarista» pois ó um malabarista atrevido se pode atrever a comparar Cavaco com Sampaio e Passo com Sócrates. Não tem nada a ver…

  10. fiquei tão curiosa com a mitologia que fui procurar e dei com um resumo da obra e já percebi a ponte: os mitos do quotidiano podem ser verdadeiros estimulantes do músculo que é a inteligência. e é por isso que este texto tem o efeito de endorfina. (endorgrossa – digo eu) :-)

  11. Primo, já li o “Mitologias”, mas, mesmo que não tivesse lido, a sua abordagem e reflexões invadiram a cultura mediática e foram sempre ganhando actualidade, pelo que a influência de Barthes (não só por essa obra, claro) é já ambiental.

  12. Então está na hora do prezado Cristiano ir procurar qualquer coisa de novo no Povo Livre, no DN, quiçá no Correio da Manha, não acha? E já agora, passe também pelo 31 e pelo blog do João dos pequeninos que por lá, novidades, oh, é assim, aos magotes. Vá vá…

  13. (Val, eu vim cá dar um saltinho pela fresca só para te dizer que essa ideia que tens, de avançar os elogios de duas senhoras para chegares às barbas do Barthes, como sexy – é completamente descabida no reino do charme e do saber-ser já que não restam dúvidas que dominas o saber-saber e o outro, o saber-fazer. e só atrai pulgas. agora vou à regueifa quentinha.:-))

  14. Amiga Olinda, graças a ti (dei um saltinho ao teu blogue) hoje vou-me deitar com a Kate Bush, que há muito não (ou)via mas noutros tempos me arrepiou os pêlos q.b., qual seara afagada por furacão, ai que bão! E digo q.b. porque nestas coisas não há demasia…
    Passei pela “Babooshka”, mas o que vai continuar a eriçar-me a pelagem da espinha até chegar o soninho é “Wuthering Heights”: http://www.youtube.com/watch?v=-1pMMIe4hb4&feature=relmfu
    Vou-me deitar, que o meu horário é meio doido e a culpa não é dele.

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