José do Carmo Francisco à queima-roupa

1) O que é poesia para você?

A poesia é para mim a resposta possível ao absurdo da vida, o sentido do que não tem sentido, a resposta precária e nunca definitiva às grandes interrogações. Metade canção, metade filosofia, é assim que eu vejo a poesia.

2) O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

O principiante deve ler tudo o que diz respeito à poesia. Todos começamos por ser «leitores», eu comecei por ler Cesário Verde com dez anos. Só publiquei o meu primeiro poema adulto aos 27 anos em 1978 no «Diário Popular».

3) Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que destas escolhas?

Três poetas são Cesário Verde com «Cristalizações», Carlos de Oliveira com «Sobre o lado esquerdo» e Ruy Belo com «Aquele grande rio Eufrates». Manuel Bandeira e outros poetas igualmente importantes foram surgindo depois de 1978. E ainda não parei nas minhas leituras e nas minhas descobertas.

Haverá diferença entre cumprir bem e cumprir mal os programas da Troika?

É o que iremos descobrir, custe o que custar, dentro em breve. Segundo os cânones europeus atuais, a Grécia é o exemplo de um país que não tem cumprido bem o programa imposto. Também segundo os mesmos cânones, se o tivesse cumprido bem, estaria agora a salvo da bancarrota e, das duas, uma, ou já não estaria a precisar neste momento de novo empréstimo (?), ou o dinheiro continuaria a ser-lhe disponibilizado sem dramas contra novos ajustamentos. No fim, ao cabo de três anos, a economia estaria a crescer e o país regressaria aos mercados, dispensando a malfadada Troika. Mas será assim? Como é óbvio, não é.

Portugal, que se vê a si próprio como exemplo de país que cumpre muito bem o programa, não precisará teoricamente de novo resgate em 2012, nem em 2013, podendo nessa altura regressar confiantemente aos mercados, estando a sua economia a crescer a bom ritmo. Ou muito me engano, ou também não será assim.

Muitos, inúmeros cortes já fez a Grécia. Tantos que já teve direito a uma entrada acelerada no amaldiçoado império da recessão. Tivesse a Grécia aplicado sem mácula os sucessivos programas de austeridade, estaria agora em melhor situação? Não estaria. Estaria talqualmente em recessão. Pode a democracia grega viver num turbilhão de ódio e calculismo; podem os grupos de pressão usar de todas as chantagens para protelar a inevitável perda de privilégios; podem os arruaceiros lançar pedras à polícia e incendiar edifícios. Tudo isso acontece. Mas, não fosse esse o cenário e a Grécia não estaria melhor.

Ainda hoje, as notações de vários países europeus “que não são a Grécia”, entre os quais Portugal, levaram nova machadada das agências de notação. Significa isto que, sem mutualização das dívidas soberanas, sem blindagem da Europa contra a especulação e sem crescimento das economias, não há investidor que confie nem especulador que desista. Cumpram-se bem ou mal os programas de austeridade “compactos”, que, de passagem, matam as economias. A provável expulsão da Grécia da zona euro apenas transformará um problema financeiro numa tragédia humanitária. Será que compensa? Alhures e com outro espírito, é onde a Europa tem de encontrar soluções. Com praticamente todas as economia do velho continente em recessão, incluindo a britânica, alguém está a ver hipóteses de sucesso nos programas da Troika, quando o crescimento da própria Alemanha também já começa a desacelerar?
Não gozem com o pagode.

A propósito do projeto de lei do BE que prevê a eliminação da impossibilidade legal de adopção por casais do mesmo sexo

Vale a pena ler o parecer fora deste mundo, desfavorável, da inevitável e profunda Ordem dos Advogados e ao mesmo tempo o parecer favorável do Conselho Superior do Ministério Público, que percebe que os casais do mesmo sexo serão, como um adoptante individual, homossexual ou não, como um casal de sexo diferente, avaliados em cada caso, tendo em conta o superior interesse da criança. Bani-los da previsão abstracta da lei é, basicamente, estúpido. O parecer é perfeito? Nada é perfeito, mas há ali um constatar da mundividência para além de um arquétipo pai/mãe propriedade de alguns que é de salutar.

“Somos solidários com o povo da Grécia”

O documento, anunciado aqui, na íntegra:

SOMOS SOLIDÁRIOS COM O POVO DA GRÉCIA
Todos os dias nos chegam imagens e notícias da Grécia e do povo grego em luta contra o cortejo de sacrifícios que lhe tem sido imposto. É clara, naquele país, a crescente fractura entre os cidadãos e o poder político, em torno da invocada necessidade de cada vez maiores sacrifícios para que a dívida seja paga e o défice orçamental reduzido. Acentuam-se a tensão e a violência, tornando ainda mais difícil o diálogo indispensável à procura de soluções mais justas e partilhadas para a situação existente.
Avolumam-se o isolamento e a discriminação da Grécia, fortemente acentuados pelo discurso dominante dos principais dirigentes europeus e da comunicação social.
A preocupação doméstica em sublinhar que “não somos a Grécia” é, no mínimo, chocante no seio da União Europeia, onde mais se esperaria compreensão e solidariedade e, sobretudo, desajustada quando se sabe que a crise não é só grega mas europeia.
Face à agudização das tensões políticas e sociais na Grécia, os signatários apelam à solidariedade com o povo grego e à criação de condições que permitam respostas democráticas e consistentes de uma Europa solidária aos problemas sociais e aos direitos das pessoas.

Lisboa, 15 de Fevereiro de 2012

Mário Soares
Mário Ruivo
Alfredo Caldeira
Ana Gomes
Ana Lúcia Amaral
Anselmo Borges
António de Almeida Santos
António Reis
Boaventura Sousa Santos
Diana Andringa
Eduardo Lourenço
Isabel Allegro
Isabel Moreira
D. Januário Torgal Ferreira
José Barata Moura
José Castro Caldas
José Manuel Pureza
José Manuel Tengarrinha
José Mattoso
José Medeiros Ferreira
José Reis
José Soeiro
Manuel Carvalho da Silva
Maria de Jesus Barroso Soares
Maria Eduarda Gonçalves
Paula Gil
Pedro Delgado Alves
Rui Tavares
Sandra Monteiro
Simonetta Luz Afonso
Vasco Lourenço
Vítor Ramalho

Lapidar

Ou seja, a próxima terça-feira de carnaval vai ser um dia de verdadeira paralisação nacional reforçada e o 1º ministro e respetivo séquito vão entrar na história dos “momos”, ou por outra, dos “bufões”. Óbvio que Passos Coelho se defenderá invocando a propalada “coerência” das imposições recentes dos feriados, prouvera retorquindo com o infelizmente célebre “custe o que custar”, o que, por se tratar de um bordão de linguagem do ditador espanhol Franco, aconselharia a que Passos o devesse evitar, por mera questão de bom senso e de bom gosto.

Tudo para que conste que este é o mesmo 1ºministro que vilipendiou os portugueses apodando-os de “piegas” entre outros impropérios, num registo discursivo verdadeiramente inenarrável e grosseiro, mais próprio de quem pretende amedrontar e aterrorizar os cidadãos que sofrem os sucessivos acréscimos do desemprego, o aumento da austeridade vazada em cima da austeridade, os cortes dos subsídios de férias e de Natal, a que acresce a recente baixa do produto interno bruto (PIB) e a consequente e inevitável ausência de medidas que favoreçam o crescimento económico.

Osvaldo Castro

Este Sol sempre a brilhar também não ajuda nada

Passos Coelho tem feito tudo para pôr os portugueses na linha. É essa a imagem que desesperadamente quer passar aos senhores da Troika, que chegam hoje a Portugal. A medida mais recente foi o fim da tolerância de ponto no Carnaval. Coitado, deve ter ficado aborrecidíssimo com muitos presidentes de Câmara e empresários que decidiram manter o feriado, contribuindo assim para agravar a nossa avaliação em matéria de preguiça. Mas nem tudo está perdido, o Parlamento estará a funcionar na terça-feira de Carnaval. É sem dúvida uma excelente notícia para o Governo, e logo no dia em que a Troika chega a Portugal. Mas persiste um problema que, para mim, é ainda maior do que haver ou não tolerância de ponto, é que o Carnaval são dois dias, mas os senhores da Troika ficarão cá duas semanas. E o problema é que, muito provavelmente, serão duas semanas de lindos dias de Sol e de temperaturas amenas. É grave. Afinal, lá na terra de onde vêm os senhores, dias de Sol em pleno Inverno são tão raros que quando acontece devia ser feriado. Como é que o nosso pobre primeiro-ministro vai convencer os senhores que não estamos todos de férias a gozar o bom tempo?

Para ajudar a resolver o problema, os deputados deveriam propor o encerramento de todas as esplanadas, parques, jardins, miradouros e afins durante, pelo menos, os próximos quinze dias. Ficariam ainda mais bem vistos.

Mete noja

Nunca na vida recebi uma pressão [de políticos]. Sinto-me um homem pressionado pela imprensa e pela opinião pública, mas eu sou imune a pressões.

Um político não pode nem deve ser beneficiado ou prejudicado por ser político. Tem de ser tratado como qualquer outra pessoa. Não devemos entrar nos julgamentos políticos porque isso é o fim da democracia.

Pinto Monteiro

*

Pulhas, canalhas, ranhosos, conspiradores, trastes, políticos incapazes de fazerem política, políticos que acham que a política não passa da filha-da-putice por qualquer meio, oligarcas e gente séria. Passaram a odiar Pinto Monteiro porque ele foi um dos poucos que resistiu às maiores golpadas contra o poder eleito de que há memória em democracia, orquestradas através de polícias, magistrados, patrões da comunicação social e jornalistas.

Ao mesmo tempo, assistimos a uma absoluta complacência, inércia, impotência, de tudo e de todos, para o que Cavaco Silva fez em 2009 e cuja finalidade era a perversão de actos eleitorais. A disparidade de critérios nos hipócritas que quiseram derrubar Sócrates com campanhas negras, tentativas de assassinato de carácter e ameaças de tribunal e que nem sequer exigem explicações a Cavaco é, em si mesma, uma visão que até aos deuses mete noja.

Poema autógrafo para Teresa em 14-2-2012

Nos olhos mais azuis do quarto piso

Há um mar a anunciar tempestades

No écran onde o silêncio é preciso

E no vidro onde o vento diz saudades.

Fogo de datas, meses, dias, confusão

Envolve-se no branco dum teclado

Qual praia onde assiste a multidão

Ao regresso do que chega inesperado.

Silêncio por favor está escrito em frente

Não perturbem a consulta os doentes

Nestes olhos azuis cabe toda a gente

Na dor só há iguais, nunca diferentes.

Nos olhos mais azuis do quarto piso

Se convoca um rastilho de alegria

O sol no vidro anuncia o paraíso

No círculo desta luz em cada dia.

Mais um insulto aos pobres (ou aos piegas, será?)

Não vou comentar a entrevista feita ao PGR. Deixa de ter qualquer relevância a partir do momento em que há um frente a frente na SICN entre Alberto Martins e o profundíssimo José Luís Arnaut.
Na habitual explicação aos cidadãos do que se acabou de ouvir, o Dr. José Luís, como se esperava, aproveitou para fazer política. A cada constatação feita durante a entrevista, vomitava as reformas a caminho da Senhora Ministra da Justiça, “não querendo falar do passado”.
Tudo isso é indiferente, comum, banal e sonolento.
A corda aperta quando o social-democrata se declarou “chocado” com a seguinte afirmação do PGR: “se quiserem que não haja uma justiça para ricos e outra para pobres, mudem as leis”.
Ficou “chocado” e apressou-se a humilhar milhares de pessoas afirmando isto, galvanizado: “mas já não há uma justiça para ricos e outra para pobres”. Tinha a seu favor o princípio constitucional de acesso ao direito e estava “chocado”.
Felizmente Alberto Martins desceu à realidade e exemplificou a possibilidade de fazer uso de todos os nossos meios processuais garantísticos, anos a fio, com advogados bem pagos, adiando o inevitável que se torna assim evitável.
Hoje ouvimos mais um oráculo desta direita que não conhece o país que para nossa desgraça governa.
Como, mas como é possível dizer, qual tribuno inspirado, que uma pessoa sem recursos e ele próprio, perante um drama a pedir justiça, têm as mesmas possibilidades?
Em que país vive esta gente? Não sabem que ainda estamos longe, mas muito longe da igualdade de direitos, desde logo na área mais definidora da democracia?
Não lhes toca uma campainha quando um autarca está em liberdade após anos de uma sentença condenatória no mesmo país onde um sem-abrigo é rapidamente condenado a pena de prisão e ao pagamento de uma indemnização por roubar 150 euros?
Não se recordam de como começa uma obra literária de nome “os miseráveis”?

Ontologia de Debra Morgan

Embora tenha começado em 2006, e desde logo topasse que era uma série imperdível tamanho o entusiasmo nas críticas, só vi o primeiro episódio de Dexter em 2011. Uma procrastinação causada pela fama imediata. E a certeza, de experiência feita, de que certos livros, filmes, músicas, histórias e locais sabem melhor do que nós qual o tempo oportuno para se darem a conhecer. Não há pressa em chegar ao destino.

O conceito leva o espectador a querer identificar-se com todos os criminosos, incluindo o maior deles todos que os faz de vítimas, torturando e matando sadicamente. É ele o protagonista principal, um louco que ultrapassa em sanidade mental qualquer um de nós. Se o conceito é muito bom, a execução é brilhante. E tem um bónus especialíssimo: Debra Morgan, irmã do tal, interpretada por Jennifer Carpenter.

Desde os meus 10 anos de idade, quando sofri desalmadamente com a súbita consciência de “Os Cinco” não existirem, lutando interiormente contra a terrível possibilidade de serem apenas uma invenção para habitar em folhas de papel, que não sentia este desejo insano de acreditar na realidade da fantasia. A personagem Debra Morgan entranhada no corpo e mente de Jennifer Carpenter criou um novo ser cujo encanto é capaz de deixar mecânicos e pedreiros ruborizados. As caralhadas que lhe saem com regularidade não pretendem chocar ou chamar a atenção, são apenas a forma mais rigorosa de se exprimir. E a sua inviolável honestidade permite-lhe conviver com uma sucessão imparável de mentiras. Nós não queremos que ela descubra a verdade, só queremos que continue verdadeira.

Debra Carpenter ou Jennifer Morgan, sei que uma delas não existe e que a outra é real.

Mais do que a tão necessária solidariedade europeia, uma lição civilizacional

Numa altura em que os gregos estão sob fogo, a ministra de Estado para os Assuntos Europeus da Irlanda diz ser importante que os países com um plano de resgate da UE e FMI “como a Grécia, Portugal e Irlanda mostrem solidariedade entre si e uma grande compreensão em relação às dificuldades que enfrentam. Acho que seria um erro não fazê-lo. É importante que nos tentemos apoiar ao máximo. Não é fácil. Temos enormes desafios nos nossos respetivos Estados membros. Mas acho que seria errado tentarmos dissociar-nos da Grécia”.

Fonte

Uma luz ao princípio do túnel

Ainda bem que Domingos foi libertado agora em Fevereiro de forma a poder preparar a próxima época no Porto com todo o tempo necessário e a paz de espírito que merece. Por lá ficará muitos e bons anos, não traindo a casa pelo vil metal e vanglória megalomaníaca como fez Villas-Boas.

Quanto ao Sporting, e enquanto não chegar um treinador inglês, qualquer um e de preferência um bêbado, o maior desafio é o túnel. O túnel da polémica, o túnel da infâmia e o túnel da decadência do sportinguismo. Recordemos:

– Alguma besta decidiu entregar a decoração do túnel por onde a equipa visitante entra no relvado a uns taralhoucos que cobriram as paredes com imagens de membros da claque em poses e cenas agressivas.

– Várias bestas acharam bem e aprovaram aquilo, as bestas.

– O Público deu a bestial notícia no princípio de Janeiro.

– Algumas bestas proibiram a entrada de jornalistas do Público no estádio para a cobertura do Sporting-Porto e do Sporting-Nacional como retaliação.

– Alguma besta, semanas depois, decidiu substituir a decoração por outra com flores e borboletas, um exacto simétrico semiótico da acusação de apelo à violência e, portanto, cobarde e involuntária assunção de culpa.

Este episódio revela que a Direcção do clube é constituída por alimárias que ignoram por completo o que seja a mística de um clube, quanto mais a mística do Sporting. Em vez de celebrarem as lendas e feitos de uma história centenária, de José Alvalade a Amado de Freitas, de Joaquim Agostinho a Carlos Lopes, de Futre ao Ronaldo, dos Cinco Violinos a Moniz Pereira, enaltecendo o ecletismo e os valores desportivos por excelência que fazem a grandiosidade do clube enquanto objecto de afecto e sentimento, colocaram-se como cúmplices activos de um fenómeno adolescente e potencialmente psicopatólogico. Grotesco.

A mística, como melhor do que ninguém sabe Pinto da Costa, existe e tem consequências. É uma das formas, a par da oferta de férias no Brasil a árbitros mais andarilhos, de conseguir influenciar a sorte. Isto porque não somos apenas racionais, e a sorte é esse sincretismo de factores em que as dimensões irracionais se alinham com as racionais. É o que pode decidir um jogo no último minuto, aquele tal golpe de sorte, aquela ida maluca do guarda-redes à baliza contrária, aquele pontapé do meio da rua.

Sem sorte não há campeões, não há heróis. Algo que se sabe desde os mais antigos gregos, os quais também passavam por túneis para se iniciarem na mística. Para terem a sorte de ganharem a melhor das vidas.

ATÉ ESSE MOMENTO

Lembrarás então o pai aqui sentado
A máquina de escrever no chão
Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos
Farás promessas que não vais cumprir
E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho
Iluminado pela luz do teu olhar
À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado
Um gelado presente do indicativo
E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio
Será talvez a memória das noites
O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir
Nos desenhos (nos cadernos escolares)
Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado
Não como pai mas como anónima pessoa
Surpresa a esperar no céu do outono

Terás nas tuas mãos um retrato
O voo das aves por cima da casa
Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos
Num momento ou talvez num lugar
Na tua idade como um portão aberto

“Should I stay or should I go”

Há uns meses, em mais um impasse sobre a libertação da última fatia do último empréstimo, o primeiro-ministro Papandreou, perante a revolta na rua de Atenas, a contestação dos seus próprios deputados e o boicote e os vitupérios da oposição, quis fazer um referendo ao povo grego. A pergunta não chegou a ser conhecida, mas não andaria muito longe da seguinte: “Aceita as novas medidas de austeridade, sob pena de o país ter de abandonar o euro?” – esta segunda parte da pergunta não figuraria necessariamente, mas estaria pressuposta.

Por forte pressão do Eurogrupo, com Merkel e Sarkozy à cabeça, que temiam um “não, não aceitamos”, Papandreou desistiu do referendo. Foi um erro. Sabendo-se que a maioria da população não desejava abandonar a moeda única, perdeu-se uma grande oportunidade para legitimar decisões e acalmar as hostes na Praça da Constituição e arredores. Este segundo aspeto teria sido importante, já que os manifestantes que criam o caos nas ruas de Atenas não representam necessariamente a opinião da população grega. Sem prejuízo das razões de protesto que assistem aos gregos, há e sempre houve na Grécia grupos anarquistas e marginais especialmente vocacionados para a arruaça. E para a violência. É um erro considerar que traduzem o pensamento da generalidade dos eleitores.

Evidentemente que é possível que a Europa não quisesse a consulta popular na altura por, na hipótese de um Não, não estarem ainda preparados os mecanismos necessários para aparar o choque, sobretudo a nível da banca, e para impedir réplicas noutras longitudes.
Mas as coisas vão evoluindo. Na Europa, onde se começa a perceber que o “remédio” não funciona, e na Grécia. A breve trecho, haverá eleições. Se ganhar a Nova Democracia, as medidas tomadas não serão em nada diferentes das atualmente tomadas pelo chefe de governo “tecnocrata” não eleito, que preside à coligação. Sob a tutela da Troika, será esta que continuará a ditar as regras. Se ganhar o conjunto de partidos dispersos mais à esquerda, poderá instalar-se um enorme caos político, nenhum deles tendo uma maioria clara e declarando-se todos contra a Troika. Por outro lado, o prolongamento do mandato de Papademos arrisca-se a provocar a impaciência dos políticos, além de que significaria a aplicação do mesmo programa e as respetivas dificuldades de o fazer passar, ou seja, o prolongar dos dramas a cada libertação de nova fatia. Os mais recentes dados permitem vaticinar que, não tendo a Grécia a mínima possibilidade de pagar as dívidas (as passadas, as presentes e as futuras) com as sucessivas vagas de austeridade, a falência não tardará muito, dependendo apenas de uma decisão europeia.

O mais curioso e preocupante é nós não sabermos sequer neste momento qual é, do ponto de vista da França e da Alemanha, a saída/solução mais conveniente. Parece-me que aligeirar a austeridade está fora de questão. Mas, e se se aligeirar para os portugueses, como já foi, digamos, prometido?
Fosse o povo grego interrogado hoje sobre o desejo de permanecer no euro, temeria a Europa mais o Não ou o mais o Sim? Não sabemos. O desejo de permanência dos gregos poderá tornar-se insuportável.
Por mim, e por mais difícil que seja, desejo cá no fundo que encontrem maneira de serem eles próprios a mandar a Europa “bugiar”.

Monocultura do descontentamento

O PCP e a CGTP são, de facto, farinha do mesmo saco. É a eles que assenta como uma luva a imagem farinácea com que costumam atacar e difamar os outros.

Farinha do mesmo saco e infestada pelo mesmo gorgulho. PCP e CGTP vivem ambos da exploração em monocultura do descontentamento. É exclusivamente com as ferramentas do protesto, da reclamação e da obstrução que mantêm o funcionamento da máquina. Não sabem fazer outra coisa senão explorar politicamente em seu proveito os problemas, carências e misérias dos trabalhadores, se exceptuarmos as lambidelas no cu do Estaline, os beijos na boca do Brejnev e os preparativos de guerra civil em 1974-1975.

O PCP é um partido sindical, mas no pior sentido do termo: egoísmo sectário, irresponsabilidade social, maquiavelismo político, desprezo pelas necessidades reais daqueles cujo descontentamento explora e chula.

Um sindicato tem, num país normal, funções e objectivos úteis, como a prestação de diversos serviços aos trabalhadores e a prossecução de uma estratégia de criação de emprego. Quando assim é, a taxa de sindicalização é alta e toda a gente entende para que existe uma organização sindical. No Norte da Europa, os sindicatos sabem o que é negociação construtiva, ajudam eficazmente a resolver os mais diversos problemas individuais e colectivos dos trabalhadores e batem-se todos os dias nos terrenos político e económico pela criação de postos de trabalho. Os sindicatos têm vida própria, força na sociedade e na economia e poder autónomo dentro dos partidos.

Aqui não. Os sindicatos, que no sector privado raramente atingem os 10% de taxa de sindicalização, são meras agências da seita partidária a que pertencem. O partido, com 7% dos votos, é uma máquina de protesto moldada pela pior filosofia sindical, apenas preocupada em chular os descontentamentos em proveito próprio. São a imagem um do outro.

Restam-lhes as manifestações e as “greves gerais” para dar a ilusão de que têm força, atraindo para isso tolos de várias procedências que só sabem reclamar, protestar e votar com os pés.

Há porém duas coisas em que esses tais tolos não são tolos: não lhes dão a quotização sindical nem o voto. É só fazer as contas, como dizia o Guterres.

Oferta do nosso amigo Júlio

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Vinte Linhas 734

A pequena velocidade ou Álvaro Neto morreu na Checoslováquia

Quando em 1971 Liberto Cruz decidiu publicar Gramática Histórica, livro de transgressões, invenções e liberdades na desconstrução da gramática de Martins Sequeira, escolheu o pseudónimo de Álvaro Neto numa homenagem a Álvaro de Campos. Recusado por editores e por tipografias, o livro foi editado no Funchal, no Comércio do Funchal, por intervenção directa de António Aragão. A apresentação foi feita na Livraria Quadrante pelo próprio Liberto Cruz por Álvaro Neto estar «fora do país». Os jornais tomaram a sério a informação e no Brasil saiu até um suplemento especial com poemas de Álvaro Neto. Já na Bretanha como professor, desencantou Liberto Cruz uma carta em checo feita por uma empregada da Universidade de Rennes a dar falsa notícia da «morte» do seu pseudónimo. Muitos acreditaram.

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