Vinte Linhas 734

A pequena velocidade ou Álvaro Neto morreu na Checoslováquia

Quando em 1971 Liberto Cruz decidiu publicar Gramática Histórica, livro de transgressões, invenções e liberdades na desconstrução da gramática de Martins Sequeira, escolheu o pseudónimo de Álvaro Neto numa homenagem a Álvaro de Campos. Recusado por editores e por tipografias, o livro foi editado no Funchal, no Comércio do Funchal, por intervenção directa de António Aragão. A apresentação foi feita na Livraria Quadrante pelo próprio Liberto Cruz por Álvaro Neto estar «fora do país». Os jornais tomaram a sério a informação e no Brasil saiu até um suplemento especial com poemas de Álvaro Neto. Já na Bretanha como professor, desencantou Liberto Cruz uma carta em checo feita por uma empregada da Universidade de Rennes a dar falsa notícia da «morte» do seu pseudónimo. Muitos acreditaram.

Esta história exemplar de um certo tempo português encaixa na pequena velocidade desta gente que está no Governo. Os de 1971 faziam censura, estes fazem outro tipo de censura. A mim censuraram-me 350 euros no ordenado do Natal. Nem capitalistas sabem ser, estes pobres. Porque os 350 euros que me foram roubados seriam gastos por mim em prendas e iriam entrar no circuito comercial sob a forma de livros, roupas, CDs ou flores. Assim houve uma retracção e tudo foi reformulado; o valor das prendas foi reduzido a um mínimo. Todos perdemos, comerciantes e clientes. É uma gente em pequena velocidade.

Este bilhete faz a memória de um tempo em que a censura era política e cultural: não havia suicídios porque as pessoas caíam da janela, não havia tiros sobre estudantes porque na verdade (para eles) a polícia atirava sobre vultos. Agora a censura é financeira, o garrote não vem da Rua da Misericórdia mas sim da Rua da Alfândega. Continua a ser censura.

3 thoughts on “Vinte Linhas 734”

  1. Olinda, vou buscar as coisas que são verdade. Recordo a censura a Liberto Cruz e a censura dos 350 euros no meu ordenado de Natal…

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