“Should I stay or should I go”

Há uns meses, em mais um impasse sobre a libertação da última fatia do último empréstimo, o primeiro-ministro Papandreou, perante a revolta na rua de Atenas, a contestação dos seus próprios deputados e o boicote e os vitupérios da oposição, quis fazer um referendo ao povo grego. A pergunta não chegou a ser conhecida, mas não andaria muito longe da seguinte: “Aceita as novas medidas de austeridade, sob pena de o país ter de abandonar o euro?” – esta segunda parte da pergunta não figuraria necessariamente, mas estaria pressuposta.

Por forte pressão do Eurogrupo, com Merkel e Sarkozy à cabeça, que temiam um “não, não aceitamos”, Papandreou desistiu do referendo. Foi um erro. Sabendo-se que a maioria da população não desejava abandonar a moeda única, perdeu-se uma grande oportunidade para legitimar decisões e acalmar as hostes na Praça da Constituição e arredores. Este segundo aspeto teria sido importante, já que os manifestantes que criam o caos nas ruas de Atenas não representam necessariamente a opinião da população grega. Sem prejuízo das razões de protesto que assistem aos gregos, há e sempre houve na Grécia grupos anarquistas e marginais especialmente vocacionados para a arruaça. E para a violência. É um erro considerar que traduzem o pensamento da generalidade dos eleitores.

Evidentemente que é possível que a Europa não quisesse a consulta popular na altura por, na hipótese de um Não, não estarem ainda preparados os mecanismos necessários para aparar o choque, sobretudo a nível da banca, e para impedir réplicas noutras longitudes.
Mas as coisas vão evoluindo. Na Europa, onde se começa a perceber que o “remédio” não funciona, e na Grécia. A breve trecho, haverá eleições. Se ganhar a Nova Democracia, as medidas tomadas não serão em nada diferentes das atualmente tomadas pelo chefe de governo “tecnocrata” não eleito, que preside à coligação. Sob a tutela da Troika, será esta que continuará a ditar as regras. Se ganhar o conjunto de partidos dispersos mais à esquerda, poderá instalar-se um enorme caos político, nenhum deles tendo uma maioria clara e declarando-se todos contra a Troika. Por outro lado, o prolongamento do mandato de Papademos arrisca-se a provocar a impaciência dos políticos, além de que significaria a aplicação do mesmo programa e as respetivas dificuldades de o fazer passar, ou seja, o prolongar dos dramas a cada libertação de nova fatia. Os mais recentes dados permitem vaticinar que, não tendo a Grécia a mínima possibilidade de pagar as dívidas (as passadas, as presentes e as futuras) com as sucessivas vagas de austeridade, a falência não tardará muito, dependendo apenas de uma decisão europeia.

O mais curioso e preocupante é nós não sabermos sequer neste momento qual é, do ponto de vista da França e da Alemanha, a saída/solução mais conveniente. Parece-me que aligeirar a austeridade está fora de questão. Mas, e se se aligeirar para os portugueses, como já foi, digamos, prometido?
Fosse o povo grego interrogado hoje sobre o desejo de permanecer no euro, temeria a Europa mais o Não ou o mais o Sim? Não sabemos. O desejo de permanência dos gregos poderá tornar-se insuportável.
Por mim, e por mais difícil que seja, desejo cá no fundo que encontrem maneira de serem eles próprios a mandar a Europa “bugiar”.

11 thoughts on ““Should I stay or should I go””

  1. “Papandreou desistiu do referendo. Foi um erro. Sabendo-se que a maioria da população não desejava abandonar a moeda única, perdeu-se uma grande oportunidade para legitimar decisões e acalmar as hostes na Praça da Constituição e arredores.”

    não desistiu, foi obrigado a desistir e de seguida foi corrido. a segunda parte deve ser informação da maia, a tarologa.

  2. anonimo: Não é adivinhação. Várias sondagens confirmavam na altura o desejo de permanência no euro.
    Penso que se deduz do que eu escrevi que foi obrigado a desistir. Que foi corrido já se sabe.

  3. rr: Não sou contra a redução das dívidas. Na Grécia, que conheço bem, nem tudo estava, por assim dizer, organizado da melhor maneira.
    A redução deve ser feita sem moralismos nem espírito de punição e dentro de prazos razoáveis – o que não dispensa garantias. (Esta resposta é telegramática, mas estou com pressa)

  4. “Várias sondagens confirmavam na altura o desejo de permanência no euro.”

    de tal maneira que os mercados entraram em parafuso e os média em funcionamento mailas agências de furos & sondagens.

    http://www.bloomberg.com/news/2011-11-01/greek-referendum-decision-blindsided-european-partners-merkel-allies-say.html

    conheço mal a grécia, já não vou lá desde que um borba custava dez mil roussos e que o partenão foi cotado em bolsa.

    http://www.youtube.com/watch?v=V4RV63njQsw&feature=related

  5. penelope, ninguém me parece contra a redução das dividas, eu pelo menos também não sou.A questão é que o plano da UE simplesmente vai dar o golpe final na economia grega.Ora sem havendo crescimento, não há redução de dividas.Eu sei qual é a resposta mainstream para o caso grego, mas sabemos(eu sei , a penelope também) que o problema é que o meio que se trilhou para chegar ao objectivo pura e simplesmente não resulta.Em suma,o problema não é uma questão de pagar ou não a divida, mas é de como fazer isso sem matar a economia, sem flagelar os gregos.É uma questão de exequibilidade.Porque essa resposta de não se querer fazer as messianicas reforma simplesmente encaixa menos.

  6. as despesas baixam, as dívidas aumentam por causa dos juros e cada vez que o déficite desce a merckla manda aumentar o juro a condizer, é por isso que ficou quilhada com os xinocas. exportem o loução e o arménio para a alemanha e vão ver que o rating daquilo é tão bom como o nosso.

  7. Ai, amigos, aqui, na Grécia, ou em qualquer lado, a ruptura social começa sempre por ser negada, mesmo pelos que mais “socialmente preocupados” se dizem…Será esse um dos pecados da esquerda em extinção?

  8. a grécia é bué da flat para surfar, não dá nem em dia de mistral e os canhões d’água não são grande coisa. no outro lado é melhor.

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