Ontologia de Debra Morgan

Embora tenha começado em 2006, e desde logo topasse que era uma série imperdível tamanho o entusiasmo nas críticas, só vi o primeiro episódio de Dexter em 2011. Uma procrastinação causada pela fama imediata. E a certeza, de experiência feita, de que certos livros, filmes, músicas, histórias e locais sabem melhor do que nós qual o tempo oportuno para se darem a conhecer. Não há pressa em chegar ao destino.

O conceito leva o espectador a querer identificar-se com todos os criminosos, incluindo o maior deles todos que os faz de vítimas, torturando e matando sadicamente. É ele o protagonista principal, um louco que ultrapassa em sanidade mental qualquer um de nós. Se o conceito é muito bom, a execução é brilhante. E tem um bónus especialíssimo: Debra Morgan, irmã do tal, interpretada por Jennifer Carpenter.

Desde os meus 10 anos de idade, quando sofri desalmadamente com a súbita consciência de “Os Cinco” não existirem, lutando interiormente contra a terrível possibilidade de serem apenas uma invenção para habitar em folhas de papel, que não sentia este desejo insano de acreditar na realidade da fantasia. A personagem Debra Morgan entranhada no corpo e mente de Jennifer Carpenter criou um novo ser cujo encanto é capaz de deixar mecânicos e pedreiros ruborizados. As caralhadas que lhe saem com regularidade não pretendem chocar ou chamar a atenção, são apenas a forma mais rigorosa de se exprimir. E a sua inviolável honestidade permite-lhe conviver com uma sucessão imparável de mentiras. Nós não queremos que ela descubra a verdade, só queremos que continue verdadeira.

Debra Carpenter ou Jennifer Morgan, sei que uma delas não existe e que a outra é real.

17 thoughts on “Ontologia de Debra Morgan”

  1. pois eu não faço ideia de que série falas porque nunca vi ou ouvi falar. mas tudo o que tem que ver com ser, interessa-me. e fiquei interessada no texto mas sem qualquer curiosidade pela série, confesso. :-)

  2. isto quando se nasce enxertado em corno de cabra normalmente descamba para teorias abstrusas do contra, né? oh bécula dum caralho se nã tinhas nada pra dizer ias ver o filme ou a série completa e davas descanso à asneira.

  3. não percebo, estás sempre à janela para me veres passar. fazes mal porque nota-se insatisfação. às tantas se enfiasses um ferro quente no cu, de preferência sem pega que era para ninguém to poder tirar, ocupavas melhor o teu tempo porque consolavas-te. :-)

  4. Imperdível. Uma das melhores séries dos últimos anos. Nos EUA já vai na sétima temporada, mas em Portugal ficámos na quinta e não sabemos como vai acabar…

  5. Se não é declaração d’amor, parece.

    De facto, só ela pode salvar a série, porque Dexter é um psicopata chapado e já nem consigo vê-lo. Gramei por ilusão os primeiros dez ou quinze episódios, mas bastou. Acho que a figura desta mulher foi criada para tentar dar um bocadinho de credibilidade àquela história marada, acabando por ser ela a descobrir o serial killer e a entregá-lo à justiça ou a um manicómio, ou então a matá-lo por engano, ficava a coisa resolvida e todos nós satisfeitos e ao mesmo tempo com muita peninha… do serial killer.

  6. Existem as quatro, Val: Debra Dexter, Jennifer Carpenter, Debra Carpenter e Jennifer Dexter. Debra Dexter é inviolável honestidade, como notas, mas também lealdade à prova de bala e autenticidade à prova de ficção, até da própria ficção a que dá corpo e da qual quase se autonomiza. E Jennifer Carpenter é, além de actriz excepcional, inteligência e sensibilidade em estado puro, ou não conseguiria compor personagem assim, levando-te ao ataque de empatia pela desbocada que aqui nos deixas e no qual uma multidão te acompanha.
    Debra Jennifer Carpenter Dexter é a irmã que muitos gostariam de ter, a amiga, a namorada, a amante, a colega, a camarada. É a criatura que, em vez de deixar essa tarefa a guionistas e argumentistas, Deus tinha obrigação de clonar aos milhões, se não fosse o cabrão sádico e merdoso que se entretém a tirar macacos do nariz enquanto nos observa, cá em baixo, a lidar com os filhos de puta que envia para nos lixar a vida, o juízo e tudo o mais que possa ser lixado.

  7. Meu caros, Val e Camacho, esta vossa incursão pela arte de criar personagens está jeitosa, mas a gente tem andado virada para outra conversa, a da personalidade piegas do povo aqui do cantinho. E eu tinho atravessada uma pergunta para colocar ao Val, a ver se ele consegue definir tão bem o caracter da nossa gente, como o autor de Debra Dexter desenhou aquela figura. Então é assim: a nossa “canção nacional” , o fado, é piegas e lamúria ou expressão sublime da saudade do paraíso perdido ou almejado? É que, às vezes, o seu tom melancólico e arrastado faz-me lembrar o medievo canto-chão (gregoriano), lamento infindável das almas exiladas na miséria deste mundo; esperança de alguma felicidade, só passando pelas “tábuas do meu caixão”…

  8. é disso mesmo que o mundo precisa, JC, de inteligência e sensibilidade em estado puro. mas eu não me deixo clonar – nem a ovelha se tivesse sido consultada. :-)

  9. L*
    Eu sei que elas existem e conheço algumas, mesmo que não exactamente iguais à Debra Dexter (em rigor Debra Morgan). Mas o facto de uma parte razoável do mundo conhecer, directa ou indirectamente, mulheres fascinantes não impede essa parte razoável do mundo de sentir uma atracção especial pelo fascínio sui generis da Gioconda, que por sinal também vive numa tela. À sua maneira, Debra “Dexter” Morgan é uma Gioconda, e uma enorme fatia do mérito da sua criação, sem menosprezar os artistas que a inventaram, cabe por inteiro à criatura em que a própria Jennifer Carpenter se metamorfoseou, nela se dissolvendo, só possível com a tal inteligência e sensibilidade em estado puro que nos faz invejar o Dexter Morgan por ter uma irmã assim. Não há aqui menosprezo pelas magníficas irmãs de quem eventualmente as possa ter.

    Olinda
    Se eu fosse Deus, além da Debra “Dexter” Morgan clonava-te também a ti, com autorização ou sem ela, mas introduzia em cada clone, tanto de uma como da outra, uma “impureza” distintiva, um microcurto-circuito numa das sequências de adenina, tiamina, guanina e citosina que, convertendo-as em falsos clones, enriquecesse o planeta com produtos de qualidade.
    Mas isso seria eu, pois Deus senhor deles (porque meu não é), sacana sádico da quinta casa, parece ter-se especializado nos clones de Miguel Relvas, Lá-Lá-Lá de Massamá, Vítor Gaspar, Bacoco Silva, Sarkozy e Merkel que nos inseminam a existência. Se eu fosse Deus, tratava-os a todos, à primeira troikice, com “um ferro quente no cu”, como tão debradextermorganmente sugeres lá atrás.

  10. encheste-me, agora, JC, de riso mansinho. :-) mas esquece lá isso – é que eu já ando a enriquecer o planeta.

    (mas continua a parecer-me muito bem a terapia do ferro quente) :-)

  11. não tens de quê, era para pôr a kate mas ainda podiam pensar que se tratava de um caso de desfloramento do escalracho ou lá o que é aquela erva doninha que adormece à sombra do arbusto, bush para os mais chegados. manda sempre, peidos ou ferros no cu, tamém aceito entulho.

  12. Não consigo ver o Dexter, não passo do genérico, é genial de mais, quando chego ao ovo estrelado já morri de horror para voltar a ressuscitar no episódio seguinte voltar a tentar e voltar a morrer. Fabuloso.

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