Mais um insulto aos pobres (ou aos piegas, será?)

Não vou comentar a entrevista feita ao PGR. Deixa de ter qualquer relevância a partir do momento em que há um frente a frente na SICN entre Alberto Martins e o profundíssimo José Luís Arnaut.
Na habitual explicação aos cidadãos do que se acabou de ouvir, o Dr. José Luís, como se esperava, aproveitou para fazer política. A cada constatação feita durante a entrevista, vomitava as reformas a caminho da Senhora Ministra da Justiça, “não querendo falar do passado”.
Tudo isso é indiferente, comum, banal e sonolento.
A corda aperta quando o social-democrata se declarou “chocado” com a seguinte afirmação do PGR: “se quiserem que não haja uma justiça para ricos e outra para pobres, mudem as leis”.
Ficou “chocado” e apressou-se a humilhar milhares de pessoas afirmando isto, galvanizado: “mas já não há uma justiça para ricos e outra para pobres”. Tinha a seu favor o princípio constitucional de acesso ao direito e estava “chocado”.
Felizmente Alberto Martins desceu à realidade e exemplificou a possibilidade de fazer uso de todos os nossos meios processuais garantísticos, anos a fio, com advogados bem pagos, adiando o inevitável que se torna assim evitável.
Hoje ouvimos mais um oráculo desta direita que não conhece o país que para nossa desgraça governa.
Como, mas como é possível dizer, qual tribuno inspirado, que uma pessoa sem recursos e ele próprio, perante um drama a pedir justiça, têm as mesmas possibilidades?
Em que país vive esta gente? Não sabem que ainda estamos longe, mas muito longe da igualdade de direitos, desde logo na área mais definidora da democracia?
Não lhes toca uma campainha quando um autarca está em liberdade após anos de uma sentença condenatória no mesmo país onde um sem-abrigo é rapidamente condenado a pena de prisão e ao pagamento de uma indemnização por roubar 150 euros?
Não se recordam de como começa uma obra literária de nome “os miseráveis”?

11 thoughts on “Mais um insulto aos pobres (ou aos piegas, será?)”

  1. Não vi o debate, aliás, quase não vejo televisão, mas quase apostava que o Alberto Martins foi incapaz de chapar na cara do José Luis aquilo que a Isabel acaba de escrever, tipificando a justiça para ricos e pobres, com o caso do Isaltino e do sem-abrigo. Todos podemos constatar que, por norma, os respresentantes da direita conseguem uma linguagem expressiva, directa e popular, que faz passar perfeitamente o seu populismo. Salvo raras excepções, os da esquerda recorrem a uma linguagem elaborada, académica e erudita, como se estivessem numa conversa inter-pares. Às vezes pergunto-me se eles alguma vez conviveram com o povo. É irónico, não é?

  2. Como assim, deixa de ter relevância a entrevista do PGR face `ao debate com o traste do Arnaut. Optaste por este? Eu optei pelo outro, e digo-te, que beirão de se lhe tirar o chapéu. estes estão em extinção, os Arnaust são uma praga.Qual a dúvida na escolha?

  3. é, mário, a demagogia não é demagogia por acaso. explicar é mais difícil que confundir e ser bem educado tamém não ajuda.

  4. Doutora Isabel Moreira, posta assim a questão essencial, a da diferente Justiça prática (não teórica) para ricos e pobres, sobram algumas dúvidas inquietantes:

    1ª) Se fosse apenas necessário “mudar as Leis”, para passar a haver para os pobres a mesma Justiça que há para os ricos, então por que é que ninguém propôs ainda essa mudança? Não será o voto dos pobres muito mais potente do que o dos ricos? Ou não estaremos perante uma grosseira e inadmissível mistificação da realidade, se não mesmo um exercício de demagogia, ainda que involuntária ou inconsciente, por parte da alguém com os conhecimentos e as responsabilidades do Senhor Procurador-Geral da Justiça?

    2ª) Se não basta “mudar as Leis” e o problema fulcral está antes no funcionamento da máquina judicial, como resolvê-lo em concreto, alguém o sabe?

    3ª) Se a conclusão é que não basta mudar as Leis, nem ninguém sabe nem sonha como pôr a máquina juducial a funcionar como o controle aéreo, então querem que se resolva o problema como? Aplicando um silogismo muito acessível a qualquer bom Aluno do 10º Ano, pois até parece que o problema só terá solução quando deixar de haver ricos e pobres, não é?

  5. Doutora Isabel Moreira, posta assim a questão essencial, a da diferente Justiça prática (não teórica) para ricos e pobres, sobram algumas dúvidas inquietantes:

    1ª) Se fosse apenas necessário “mudar as Leis”, como diz Pinto Monteiro, para passar a haver para os pobres a mesma Justiça que há para os ricos, então por que é que ninguém propôs ainda uma tal mudança?! Não será o voto dos pobres muito mais potente do que o dos ricos? Ou não estaremos, pelo contrário, perante uma grosseira e inadmissível mistificação da realidade, se não mesmo um exercício de demagogia pura, ainda que involuntária ou inconsciente, por parte da alguém com os conhecimentos e as elevadíssimas responsabilidades do Senhor Procurador-Geral da Justiça?

    2ª) Se afinal não basta “mudar as Leis” e o problema fulcral está antes no funcionamento da máquina judicial, como resolvê-lo em concreto, alguém o sabe?

    3ª) E se a conclusão final é que não basta mudar as Leis, nem ninguém sabe nem sonha como pôr a máquina juducial a funcionar eficaz (já nem digo com a eficiência do controle aéreo, por exemplo…), então querem que se resolva o problema como?

    Aplicando um silogismo muito simples, acessível a qualquer Aluno mediano do Ensino Secundário, pois até parece que o problema só terá solução quando deixar de haver ricos e pobres. Não lhe parece?

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