Vinte Linhas 736

Dissertação para a Lisboa de Mário Vinte e Um

Uma cidade é uma memória mas é também uma sucessão de memórias. Há quarenta e cinco anos, por exemplo, ainda havia eléctricos no Rossio. O «28» descia a Rua do Ouro e virava para os lados da Estrela na Rua da Conceição.

O que Mário Vinte e Um convoca neste quadro é uma cidade em festa, a luz dos telhados como espelho do som da gente que nas esplanadas canta e se diverte debaixo dos chapéus de sol. Depois há gente à janela que conversa e desconversa com quem povoa a rua em frente: cantoneiros do lixo, cauteleiros, memórias de pregões, de aguadeiros e de moços de fretes.

Na cidade do quadro de Mário Vinte e Um convivem estátuas, palácios e casas pobres. O mesmo é dizer feitos de heróis, de memórias em pedra e de quotidianos cinzentos. As chaminés acendem ao fim da tarde um fumo branco que se dilui no azul do céu mais limpo desta estação teimosa. A cidade respira pelas suas árvores, corre pelas suas escadinhas e reza nas procissões anuais entre pendões, bandeiras e estandartes. Depois encanta-se nos miradouros das sete colinas voltados para o Mar da Palha.

Aos sábados à tarde a cidade dá uma volta pelos alfarrabistas – as livrarias não enganam no cheiro a papel velho dos seus velhos livros. Por dois euros se pode então comprar uma preciosidade, um livro raro há muito procurado mas que o tempo, há muito tempo, escondia numa prateleira de livraria.

Há por aqui um excesso de luz, um prenúncio de som, uma sugestão de movimento. A alegria convoca-se devagar nas dimensões dum quadro ao qual, entre peso e dimensão, o Sol vem ensinar os caminhos sempre novos da festa e da luz.

4 thoughts on “Vinte Linhas 736”

  1. Bom dia, poeta.
    É bela a tela de Vinte e Um, a luz, a cor, o bulício e as palavras com que você a mostra.
    É bela Lisboa, na maior parte dos dias, mas nada que se compare à minha Aldeia, no Alto Doiro, onde as amendoeiras já têm flor, disse-me ontem Dalina quando subia, curva a curva, a Estrada Nacional 222, na carreira que herdou o fado da Carreira da Viuva, da Meda ao Pinhão, todos os dias.
    Jnascimento

  2. andava a estranhar a falta de publicidade aos teus amigos allarves, mas não perdi pela demora, desta vez levei com um artista premiado pelos bombeiros de sintra e que pratica erasmus aos 60 anos ou seja vagabundagem artística. quando sais de casa tropeças no tapete dos allarts e ficas cego com as mamas da galderista, depois temos que aturar estas manhosices promocionais com que retribuis favores. vê lá se tropeças nos tapetes da galeria de s. mamede ou no museu do chiado, nem precisavas de destacionar o citrohein, mas galo dos galos, os gajos não permitem mendicidade nem filhos de… motorista.

  3. oh cimento! diria que era uma ganda tolada se o 28 fizesse as curvas da 222 com a dalina em flor e micro na mão a debitar fado regado a tintol do pinhão.

  4. Bom dia caríssimo amigo. A carreira da Viúva faz ligação com a União de Sátão e Aguiar da Beira. Grande memória…

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