Lady Thatcher e o seu funeral

Depois de ver o filme “The Iron Lady”, onde Margaret Thatcher é apresentada como sofrendo atualmente de delírios com a imagem do falecido marido, sendo esse o ponto de partida e uma constante ao longo de todo o filme, decidi procurar na Rede informações sobre o verdadeiro estado de saúde da senhora. O Google sugeriu-me imediatamente a consulta do jornal Mail online, onde a notícia, com data de hoje, versa sobre o funeral da ex-primeira-ministra. O quê?! Morreu? Calma, nada disso. Pelo menos ainda não. Parece até que goza de boa saúde, apesar de pequenos AVC que lhe foram toldando a memória mais recente. Diz-se mesmo na notícia que, além de visitar com alguma frequência a rainha (mais velha, diga-se), tenciona por estes dias passar umas férias na neve com amigos. Não morreu, portanto. Mas há de morrer; num dia que, diz o jornal, muita gente espera venha longe.
E que tema desenvolve então o Mail neste dia da graça de 20 de fevereiro de 2012? A senhora Thatcher tem 82 anos e, evidentemente, restam-lhe menos anos de vida do que quando tinha 60. Pois andam, já há uns tempos (anos?), uns impecáveis e atarefados chefes de protocolo a planear ao pormenor o funeral da Dama de Ferro (presumo que o da rainha esteja planeado desde o dia em que nasceu), não fazendo disso especial segredo e a prová-lo está a clareza e crueza com que o jornal divulga os detalhes.

A questão parece merecer toda a azáfama de bastidores de que se dá notícia, por várias razões: a fazer-se um funeral de Estado, como a monarquia e as atuais forças políticas maioritárias pretendem, em primeiro lugar, a rainha (se não se finar antes) terá de estar presente (o que é logo motivo para alvoroço protocolar), em segundo lugar, quem suporta os custos é o governo e, em terceiro, não de somenos e relacionado com o segundo, há preocupações quanto ao número de militares que serão necessários para enquadrar a linha do cortejo fúnebre. Sem qualquer reserva ou tabu, a própria futura defunta também já deu um importante contributo para a organização, declarando ser seu desejo que as cerimónias decorram na catedral de St.Paul.

Não sei se tudo isto é muito “British”, não gosto de clichés, mas dificilmente imagino tais notícias a serem publicadas, sem choque e indignação, na nossa imprensa a propósito das nossas figuras ou ex-figuras de Estado mais marcantes e ainda vivas. Mas que alguém pensa nisso, não tenhamos dúvidas. Por mim, passada a surpresa com a franqueza do jornal, que até nem me pareceu devassa, penso que não será de facto má ideia exercermos ainda em vida algum poder de decisão sobre a nossa morte e dela falarmos abertamente, inclusivamente da cerimónia (ou ausência dela), das flores e da indumentária. Rendo-me, pois, ao espírito prático, partilhado, dos ingleses.

Quanto ao filme, cinco estrelas para Meryl Streep, ou melhor, se possível, 5 Óscares! Perante isto, o resto, um retrato, pelos vistos não verdadeiro, do dia a dia atual da senhora e da sua intimidade, e uma recordação nostálgica, em “flahbacks”, de uma série de momentos marcantes do seu mandato, em tom geralmente laudatório, pareceu-me bastante irrelevante.

4 thoughts on “Lady Thatcher e o seu funeral”

  1. Penélope, se é ou não má ideia falarem livremente dos preparativos da nossa morte, é com cada um. Conheci quem meses antes de morrer fez o seu próprio “protocolo”, escolhendo roupa, etc. Mas o facto é que não faz parte da nossa cultura vermos escarrapachado nos jornais: o senhor x, quando morrer, vai ter um caixão de pinho e três carpideiras. Os ingleses não são superiores nem inferiores, são diferentes, e estas coisas não se forçam.
    Não sei se sabe, mas um problema igual tem sido discutido na África do Sul com a mais que provável morte futura do Mandela, que vai ter uma repercussão que ultrapassará o sistema solar… Já há muito se instalaram “espiões” de agências de noticias, jornais e televisões em casas nos arredores da vivenda do mandela, à espera do “acontecimento”. Acontece que este “cerco”, este frenesim, é muito mal visto pela etnia do Mandela. Não se fala da morte futura de ninguém, e ponto final. Por outro lado, é óbvio que toda a gente entende que se façam os preparativos protocolares, que são muito complexos, e que já estarão em curso há muito tempo. Apenas se pede que se faça a coisa de forma discreta e que os meios de comunicação respeitem isto.

  2. Pedro: Exatamente, há diferenças culturais que devem ser respeitadas. Não era minha intenção fazer juízos de valor sobre esta matéria, nem é meu desejo que se force seja o que for. Em Inglaterra, surpreendeu-me o facto de a própria pessoa em causa parecer viver bem com isso, o que me levou a pensar “E porque não?”

  3. Acabei de chegar do cinema e não gostei de uma coisa no filme – eles não respeitam a história ou seja, a verdade do que se passou. A cena crucial quando ela mostra desdém pelos homens do seu partido que estiveram toda a noite a trabalhar no programa e grita «É nisto que eu acredito!» mostrando o livro de um javardo ultra-capitalista nascido na Áustria, essa não aparece.

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