Cavaco não se demite por impedimento moral

Portugal é o único país da Europa (cf. o caso exemplar da Alemanha) onde o presidente não se demite depois de uma escandaleira como a dos benefícios pecuniários que ele e a família auferiram num negócio de favor com Oliveira e Costa, o presidente mega-burlão do BPN/SLN. Cavaco já se devia ter demitido há três anos, depois de se ter provado que omitiu factos relevantes e que mentiu descaradamente num comunicado em que declarou que nunca tivera negócios com o BPN (detido a 100% pela SLN) e que as suas acções da SLN, não cotadas na bolsa, tinham sido compradas e vendidas pelo banco gestor das suas “poupanças” e não (como realmente aconteceu) por ele próprio, directamente, ao presidente do BPN/SLN. Cito o comunicado de 23 de Novembro 2008:

«1. O Prof. Aníbal Cavaco Silva, no exercício da sua vida profissional, antes de desempenhar as actuais funções (nem posteriormente, como é óbvio):
(…)
b) nunca recebeu qualquer remuneração do BPN ou de qualquer das suas empresas;
c) nunca comprou ou vendeu nada ao BPN ou a qualquer das suas empresas.
(…)
3. O Prof. Cavaco Silva e a sua mulher têm, há muitos anos, a gestão das suas poupanças entregues a quatro bancos portugueses – incluindo o BPN (…) As alienações de títulos efectuadas pelos bancos gestores …» etc.

O presidente não só mentiu no comunicado como depois, em declarações adicionais à comunicação social, repetiu as mentiras. Não teve descaramento para processar o semanário que divulgou as provas da sua aldrabice. Mas queixou-se da quebra do sigilo bancário, atrás do qual teria preferido esconder-se, mesmo tratando-se de um banco nacionalizado que estava a ser investigado pela justiça, nomeadamente por todas as operações ilícitas e tratamentos de favor que contribuíram para a bancarrota do banco.

Os benefícios de favor, logo ilícitos, que o presidente alemão auferiu num crédito bancário concedido por amigos foram o suficiente para o obrigar a demitir-se. Mas na Alemanha há uma comunicação social que não larga os políticos corruptos.

Já nem falo do caso escabroso das “escutas” a Belém, em que Cavaco estava ao par da manipulação vigarista que Fernando Lima e o Público tentaram levar a cabo – e isto ao mesmo tempo que o primeiro-ministro Sócrates estava, ele sim, a ser alvo de escutas e gravações ilegais.

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8 thoughts on “Cavaco não se demite por impedimento moral”

  1. Não se pode reduzir as diferenças entre Portugal e a Alemanha neste caso aos media – o jornalismo alemão, embora investigue mais, é menos dado a crucificar pessoas na praça pública. A questão é que depois da investigação feita (e neste caso o exemplo que me parece mais indicado não é o BPN mas uma coisa tipo as escrituras da sua casa, demonstrada por a+b em documentos oficiais (http://aeiou.visao.pt/escritura-de-cavaco-omite-vivenda-em-construcao-ha-nove-meses=f586863)) toda a opinião pública alemã – media mais cidadão comum mais políticos de todos os quadrantes – acha colectivamente que essa pessoa não tem de qualquer forma condições para continuar no cargo. E isto é uma questão cultural, uma questão de exigência moral e, também, uma questão de confiança no sistema. E aqui o sistema alemão tem muitas falhas mas as pessoas (tendencialmente) confiam nele, pelo que lhe exigem que funcione

  2. Venha o rei para nos representar, que os presidentes da república perderam a moralidade!
    Este que está em funções mostrou o que era. Apesar disso, os seus antecessores consentiram, com o seu silencio, na imoralidade, e um deles, Eanes, foi mesmo o presidente da Comissão de Honra para a sua reeleição.Deste modo, em conjunto, destruiram a moral da representaçâo republicana. As provas estão à vista de todos. Ninguém quis questionar, ninguém quis saber a verdade, ninguém defendeu a dignidade do mais alto cargo da República. Os presidentes da Republica da democracia estão a ser, por acçâo ou omissão, os coveiros mais do da ética republicana de que nenhum cuidou, mas da própria República.
    No centenário da República, os seus mais altos dignatários envergonham-na com a sua imoralidade ou o seu silêncio cumplice.

  3. Mário, a Monarquia caíu por absoluta imoralidade do rei e do seu governante João Franco, que com uma lei lhe apagou as dívidas dos adiantamentos.

    Rita, concordo que não se trata SÓ da diferença da comunicação social portuguesa em relação à alemã, que expôs exemplarmente os casos de corrupção Flick, nos anos 80, das contribuições ilegais para o partido de Kohl nos anos 90, etc., etc., etc. Também há, claro, diferenças de cultura política, e se calhar de ética política, mas aí teríamos igualmente de atribuir um grande papel à comunicação social pela diferença de qualidade da cultura e ética políticas nos dois países. Isso não cai do céu, não está no sangue e a Alemanha teve o nazismo.

    Mas discordo completamente da avaliação benigna que Rita parece fazer das mentiras de Cavaco em relação ao caso BPN, a maior burla financeira da história de Portugal, cujas consequências estamos a pagar caríssimo. Cavaco não só omitiu factos relevantes e mentiu em relação ao negócio pessoal e familiar que fez, com 350.000 euros de lucro em dois anos, coisas bastantes para justificarem um pedido de demissão em qualquer país europeu, como coonestou por diversas maneiras a imagem do BPN – como accionista de vitrine da SLN, como receptor de avultadas contribuições para a sua campanha eleitoral da parte de grandes accionistas e administradores do grupo, como amigo pessoal de Oliveira e Costa e de Dias Loureiro (ambos seus governantes, o segundo seu conselheiro de Estado e mantido no cargo até se ultrapassarem todos os limites da decência) – e ainda não se lhe ouviu UMA PALAVRA sobre o escândalo financeiro do BPN, nem antes nem depois de eleito presidente. O indivíduo, tão lesto a falar sobre ridicularias, fugiu a pronunciar-se sobre a nacionalização do BPN, como tem fugido a falar sobre qualquer questão que não lhe convenha. Que eu me lembre, a única coisa que ele disse sobre o BPN, obviamente para desviar as atenções do essencial da história e para achincalhar o governo de Sócrates, foi aquela declaração assombrosamente hipócrita e rasca sobre a alegada má gestão pós-nacionalização do banco, como se os milhares de milhões de prejuízos tivessem tido outra causa que não a gestão ruinosa de Oliveira e Costa e companhia.

  4. Não fiz de forma nenhuma uma avaliação benigna, o que queria dizer é que o tipo de investigação e tratamento jornalistico eram mais semelhantes ao caso alemão de hoje no caso que linkei. Quanto ao resto, é como discutir o ovo e a galinha, eu estou do lado da galinha – a diferença qualitativa que encontro entre o jornalismo português e o jornalismo alemão* é muito inferior à diferença que encontro nos discursos públicos e políticos dos dois países e no grau de exigência com que são avaliadas as pessoas.

    Olhando para outro exemplo, tenho em bastante melhor conta o jornalismo francês que o alemão e no entanto noto na França uma muito menos presença do grau de exigência alemão (embora conheça bastante pior a França).

    *com a excepção, para ser totamente honesta, do jornalismo televisivo, que é efectivamente execrável em Portugal.

  5. Impedimento moral?! Ó pázinhos, a moral é o respeito absoluto pelo dever. A partir daí fica prejudicado o estudo sobre Cavaco Silva. Charco com o gajo.

    telefonem ao Kant pázinhos, que ele explica e faz o desenho, que a gaja da saia branca é poupadinha e gosta de por a roupinha a corar e não tem tempo para filosofias.

  6. Tantos a bater no homem, mas de que é que serve? ele não tem coluna vertebral, aquilo é torce, retorce, endireita, volta ao sitio e segue em frente. Porque vergonha, ou decoro? isso é coisa que ele nunca teve. Aliás, teve uma vez vergonha na vida: foi quando, ao preencher um questionário para a PIDE, teve vergonha por o sogro ser divorciado.

  7. No nosso país também há uma comunicação que «não larga os políticos», alguns, tentando sempre de todas as maneiras transformá-los em corruptos, embora sem o conseguir provar com factos concretos.
    Quanto aos corruptos, esta mesma comunicação branqueia-os e faz deles as pessoas mais sérias, embora os factos concretos provem que são corruptos.
    Esta é a diferença da nossa comunicação em confronto com o a de outros países.

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