A fatalidade que podia não ser

“Com alguns brevíssimos sobressaltos pelo meio, a herança que a ditadura legou foi uma herança de conformismo e obediência, que permanece viva, e frequentemente dominante, no Portugal de hoje, com a sua complacência e a sua democracia. Verdade que o PREC não se recomenda. Mas não durou muito e a velha ordem depressa voltou com a sua dignidade postiça e as mediocridades do costume. A troika escusa de se preocupar. Cá na terra nós fazemos sempre, ou quase sempre, o que nos mandam. E não gostamos nada de aventuras.”

Vasco Pulido Valente (no Público de hoje)

VPV invoca sempre os seus profundíssimos conhecimentos da história do Estado Novo para comentar a atualidade política nacional. Diz ele hoje, em resumo, que não tem a Troika que se preocupar com o nosso cumprimento do acordo. Somos, nos últimos 70 anos, um povo submisso e obediente. Com alguns, poucos, interregnos, assim continuaremos a ser.

Não temos, por aqui, dúvidas de que o espírito salazarento, que já tinha reencarnado na figura física de Cavaco, em nada conflituante com a sua maneira de ser autoritária e de vistas curtas, logo na década de 80-90, reencarnou agora, alimentado e endoutrinado pela crise, ainda com maior viço, nas pessoas da coligação que nos governa (da qual fazem parte os “caritativos e beneficentes” do CDS). Este espírito é, volta não volta, explicitado por Manuela Ferreira Leite (que interpreta os “free marketeers” à luz peculiar da sua educação tradicional), em alturas em que, perante as câmaras, o seu sistema nervoso parassimpático suspende temporariamente a atividade.

VPV termina quase invariavelmente as suas crónicas na ideia da fatalidade, demonstrando também invariavelmente, que não é ele próprio um aventureiro, nem sequer um ousado. Nem oralmente, nem em feitos, nem com a pena. Seria o último escriba a contratar por um general que pretendesse, com um discurso, mobilizar as tropas. No que ao atual momento diz respeito, tem, todavia, razão.

Lamento é que esqueça sistematicamente (ou transfigure com fel) o interregno mais importante da história recente do país, o período em que fomos governados pela única pessoa com a determinação necessária para erradicar de vez o bolor e fazer qualquer coisa pelo orgulho, a dignidade e a inteligência das pessoas.

8 thoughts on “A fatalidade que podia não ser”

  1. pois eu lamento que o gajo tenha feito parte da pandilha que contribui para apear o socras. a memória é curta e já se esqueceu das palhaçadas semanais que fazia no jornal da guedes a troco de umas garrafas de vinho. mais um filho da puta a pregar moral.

  2. Goste-se ou não da ideologia do VPV, a verdade é que ele escreve (bem) sobre uma das características mais marcantes do povo português: o conformismo e a submissão (vulgo carneirismo) que, infelizmente, vem de longe. Não sei se inculcado pelo Salazarismo, ou pela Inquisição (ler José Gil), há pouca consciência cívica (cidadania) em Portugal e isso é um facto irrefutável. Olhe-se para os nossos vizinhos espanhóis ou para os gregos e veja-se as diferenças. Em condições normais, os portugueses, se fossem menos subservientes, já estariam a protestar violentamente contra o actual regime de austeridade. Ora, não é isso que se verifica.
    Essa treta de que passou por aqui um “homem corajoso”, que as pessoas não compreenderam, nem apoiaram, é mais um mito, alimentado por sebastianistas e saudosistas do socratismo, ele mesmo uma mistificação sem qualquer base ideológica ou referência, que tenha combatido coerentemente a corrupção e o clientelismo (também este um traço da nossa sociedade) nunca diminuido durante o tempo em que o PS foi governo. Isto dito, deve acrescentar-se que o actual governo não faz melhor. De facto (e voltando a VPV) o que se verifica é um marasmo total e a aceitação acrítica de governos e de alternâncias políticas (que não alternativas) sem qualquer espírito de revolta. Esta é a triste realidade, mesmo quando não gostamos dela.

  3. pela fotografia deves ter apanhado uma bebedeira de vpv origem controlada e só deves dar por isso quando começares a ressacar. quanto a medrosos, baralhar a língua é um sintoma que pode custar uma inibição.

  4. Anónimo merdoso,

    Para tua informação, não gosto do VPV, mas gosto da forma como escreve. Umas vezes, estou de acordo, outras não.
    Já tu, ao não dares a cara, só confirmas a opinião do VPV sobre a cobardia dos portugueses. Mas, não leves a mal, pá: ninguém é perfeito…

  5. outro que fumou, mas não inalou e entretanto aproveita para dar a cara em nome do outro que dá o cu por uma garrafa de whisky. os metasulfítos dão-te cabo da tola e vê lá se te decides por medroso ou merdoso, ó queres um esquiço?

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