Ciência – Elogio do deserto

Em situação geocosmológica privilegiada, com um clima e um silêncio que permitem observar de forma nítida e desafogada o universo, a a terra ressequida do norte do Chile que dá pelo nome de deserto do Atacama, onde já foram instalados potentes telescópios, alberga também no subsolo, descobriu-se agora, surpreendentes comunidades de bactérias que levam uma vida extremamente austera, ao ponto de se darem ao luxo de dispensar oxigénio e luz, e que dão ideias aos cientistas quanto à existência de vida no subsolo de Marte. Ler no DN

Por coincidência, e tendo em comum o Atacama, um extenso artigo na revista The Economist de ontem informa-nos que acaba de ser instalada, num telescópio do Laboratório Interamericano de Cerro Tololo, no dito deserto, a maior câmara digital do mundo, com 5 toneladas e 520 megapíxeis. O objetivo é perceber por que razão o universo se está a expandir, não lentamente como se pensava no princípio do século passado, mas a um ritmo cada vez mais acelerado (não, não creio que exista o perigo de rebentarmos, como a rã, no processo). O projeto chama-se “Dark Energy Survey” (DES).

Sabendo-se que a matéria de que são feitas as pessoas, os planetas e as estrelas representa apenas 4% da densidade do universo (massa+energia) e que a “matéria negra”, não constituída por átomos, representa outros 22%, o mistério está em saber o que constitui os restantes ¾ da densidade, estando aí, possivelmente, a explicação para a expansão acelerada do universo. Chamam-lhe “energia negra” e supõe-se que exerça uma pressão negativa, contrária à da gravidade. Se dividirmos a pressão negativa desta energia pela sua densidade (positiva), obtém-se uma força a que os cosmólogos chamam “w” (cujo valor andará à volta de -1). Para relembrar, ou descobrir, como tudo isto se relaciona com as teorias de Einstein, com a constante universal, com as supernovas, a cor vermelha, as oscilações sonoras, o Big Bang, etc., proponho a leitura do artigo, onde também travarão conhecimento com o astrónomo Dr Perlmutter, para quem este problema exigirá ser estudado por mais do que uma geração, ou seja, a incógnita surgiu no século XX, mas, pensa ele, só no século XXII terá resposta.

3 thoughts on “Ciência – Elogio do deserto”

  1. algures em Dezembro, em Salvador, veio ter comigo um meteorito caído no deserto de Atacama. Eu pensava que Atacama era um filme de Almodovar, mas não, veio pelo mão de um xamã, ex-guerrilheiro, que estaria muito doente e queria que fizésse a ficha do bicho: lá o pesei, mergulhei-o para ver o volume deslocado, limpei, calculei a massa, a densidade, comparei com outros na internet para ver a provável composição química, e etc., e demos-lhe um nome. Eu estava encantado, até fiz um pouco de ginástica com ele, tinha o peso certo, nunca pensaria que vinha um meteorito ter comigo e só depois é que percebi que tratei dele como se fora um bébé, de ferro-níquel mas ainda assim um bébé cósmico. Nunca mais o vi.

  2. Grata Penélope!!!

    Como escrevi ontem no post do Val (‘Os novos Pitagóricos’), sou fascinada pela Cosmologia desde que a tive como disciplina opcional na faculdade (…1992). Nessa altura surgiram os livros de divulgação de Hubert Reeves “Um pouco mais de azul” e muitos outros “A cebola cósmica”, mas aquele que me deu a visão inicial e iniciática à Cosmologia foi “A Arquitectura do Universo”.

    Ontem absorvi, deliciada, the talk “A UNIVERSE FROM NOTHING” – from Laurence Krauss.

    E foi ‘tirando alguns apontamentos’:

    WE LIVE IN AN UNIVERSE DOMINATED BY NOTHING = 70% do Universo = NADA (ENERGY IN THE EMPTY SPACE)
    30% = Dark matter
    70% = Dark energy

    “We are more insignificant than we ever imagined 1% bit of pollution: We are completely irrelevant”

    Universe is FLAT & ACELARATING

    GOOD NEWS:
    “We live in a very special time: the only time we can observationally verify that we live in a special time!!!

    ANTHROPIC MANIA
    “If there are many different Universes, and the energy of empty space can vary in each one then only those in which it is not much greater than what we measure will galaxies form… and only then will stars and planets form, and only then will astronomers form…so the universe is the way it is because astronomers are here to measure”

    Daí o meu entusiamo pela tua notícia acerca do projeto: “Dark Energy Survey” (DES).

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