Verdadinha

Ferreira Leite afirmou, durante toda a entrevista, que a política em Portugal se resume à questão de saber se Sócrates fica ou sai. Naturalmente, decorre desta redução absurda que é inútil conhecer os programas dos partidos, especialmente do PSD e PS, pois eles não carecem de ser analisados, ponderados e comparados para resolver o problema. Chegou a dizer que os programas partidários eram calhamaços que ninguém lê. Sócrates, portanto, deve sair porque mente, porque não diminui o desemprego, porque nada fez para combater a crise, porque quer deixar o País arruinado para os próximos 30 anos. Esta mensagem é simples e directa.

Cada vez gosto mais da Manela. E a equipa que lhe trata da aparência tem feito um muito bom trabalho. Aprecio especialmente o penteado. Nesta entrevista apresentou-se igual a si própria. Por isso, a corrente de vacuidades foi contínua. Vacuidades e distorções. Desorientações. Folclore. Ela é mesmo assim como está à vista. Verdade verdadinha.

Queres o medo ou a coragem?

A economia é uma área do conhecimento que gera previsões menos fiáveis do que aquelas fornecidas pela meteorologia. Isto sempre se soube, apesar da empáfia com que os economistas largam os seus cálculos proféticos. Os limites da ignorância intrínseca à disciplina foram dramaticamente alargados nos últimos anos. É agora corrente encontrar estudos e reflexões sobre dois factores cruciais na génese da actual crise: a irracionalidade inerente ao comportamento humano mesmo em ambientes intelectualmente especializados e a complexidade imensa, já não computável, dos sistemas financeiros e económicos internacionais globalizados. Eis algo familiar do que Kant, em 1781, tinha estabelecido para a posteridade: há limites transcendentais que são condição mesma do conhecimento humano. Isto é, apenas podemos conhecer aquilo que a estrutura humana de conhecimento molda, define, nas suas condições apriorísticas. O que implica estarmos condenados à finitude, jamais podendo conceber o que escape ao nosso modo próprio de sensibilidade e entendimento. Que sejam precisos dois séculos para domar o pantagruélico hegelianismo de que os economistas, às claras ou secretamente, se alimentam, só diz dos efeitos tóxicos que o marxismo provocou durante todo o século XX. As economias planificadas e as lógicas de mercado livre, ambos os modelos são inevitáveis ortodrómias que ignoram a curvatura da natureza humana.

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Balada para uma lágrima

Moínho de companheiros
Não tem direito a maquia
Do Rio Torto aos Pereiros
Vai a distância de um dia
Onde se vive um passado
Mas sessenta anos depois
Sonho e vida lado a lado
Mo poema entre os dois
E a aguinha bem chovida
Deu bom cheiro á terra
Na lágrima interrompida
Moral que o gesto encerra
Não vale a pena chorar
Com uma vida pela frente
Tu neste ou noutro lugar
Recusas a lágrima quente
Ninguém te nega o direito
De desenhares um sorriso
Nas covinhas que a preceito
São no teu rosto um aviso

De que a Estrada Nacional
De Penedono ao Pinhão
É o ponto mais inicial
Da viagem do coração
Vais partir em romaria
À Senhora da Cabeça
À Senhora Santa Luzia
Onde dirás a promessa
Vês os Doze de Inglaterra
Silhueta de um Magriço
Coração em pé de guerra
Lágrimas; não quero isso
Romeira na capelinha
E no alto deste lugar
A Balada está sozinha
Olha para ti a cantar
E agora não chores mais
Entre a tua casa e o muro
Se os direitos são iguais
Nos teus sonhos há futuro

E tu, com quem te vais coligar?

Ferreira Leite é admirável na sua coragem e sacrifício ao serviço do PSD, é muito melhor cidadã e portuguesa do que 1000 Pachecos que só querem é ficar na bancada a mandar bocas e beber refrescos. Porém, a senhora é um desastre político; e desastre tão grande que vale mais calada e ausente do que na fotografia e a debitar sentenças. Foi até enternecedor ver como alguns ensaiaram, muito a medo e baixinho, a atribuição de medalhas à Manela pelo resultado nas Europeias. É que, não sei se reparaste, a chefe do PSD desapareceu por completo durante a escaganifobética campanha, e nem com a vitória ela voltou. De quem se falava, e com quem se queria falar, chamava-se Rangel. E o caso não é para menos: a Presidente do PSD é uma verdadeira avozinha, não tem já idade cultural para estas lides. Nem cabeça. Isto é, tem cabeça, claro, mas é anacrónica, sectária, moralista, irreformável. Adorável, certamente, com a sua atitude desbocada; mas só tem graça de vez em quando, ao chá. E a malta da Lapa sabe disso ainda melhor do que nós.

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Um livro por semana 124

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«Pessimismo Nacional» de Manuel Laranjeira

Foi no jornal «O Norte» de Ribeiro Seixas e Feio Terenas que, em 1907 e 1908, Manuel Laranjeira (1877-1912) publicou estes dois artigos sobre o Pessimismo Nacional. A partir da vivência do suicídio de grandes figuras das letras, das artes e do pensamento (Antero de Quental, Soares dos Reis, Camilo Castelo Branco e mesmo Alexandre Herculano que também fugiu da vida) Manuel Laranjeira afirma: «Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa». E prossegue: «Diz-se que a sociedade portuguesa vai atravessando uma crise sobreaguda de sombrio pessimismo, o que é uma verdade de todos os dias; numa terra onde homens de génio como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade onde o pensamento representa um capital negativo para jornadear pelo caminho da vida; num povo onde essa minoria intelectual que constitui o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos – o diagnóstico impõe-se de per si. O desalento e a descrença alastram. No ar respira-se o cepticismo. E, à medida que o mal-estar colectivo se vai resolvendo quotidianamente em tragédias individuais, o sentido da vida em Portugal parece cada vez mais fúnebre e mais indicativo de que vamos arrastados, violentamente arrastados por um mau destino, para a irreparável falência e de que nos afundamos definitivamente».

(Editora: Frenesi, Capa: Paulo da Costa Domingos sobre óleo de António Carneiro, Paginação: Telma Rodrigues)

Sócrates Fan Club – II

O culto à volta de Sócrates é um fenómeno de extremos: da extrema-esquerda, da extrema-direita e da imbecilidade mais extrema. Por isso consegue reunir comunas e reaças numa súbita frente comum. O que não espanta, porque ambos são simétricos na predisposição para o fanatismo, a subserviência acéfala e a violência criminosa como pulsão latente. Quanto aos imbecis genéricos, adaptam-se a qualquer um destes grupos, quase sempre por circunstâncias aleatórias: se o imbecil for professor, segue o activista de extrema-esquerda que lhe promete a defesa das regalias; se o imbecil for comerciante, segue o activista de extrema-direita que lhe promete menos despesa ou mais lucro; se o imbecil for do PSD, segue o Pacheco.

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Miscelânea

Why We Believe Medical Myths

Want a Bigger, Stronger Brain? Start Meditating.

Predictive Powers: A Robot That Reads Your Intention?*

The Evolution of House Cats

Red Wine Compound Resveratrol Demonstrates Significant Health Benefits

Stress Makes Your Hair Go Gray

Nintendo Wii May Enhance Parkinson’s Treatment

MicroRNA Replacement Therapy May Stop Cancer In Its Tracks

Could Power Point Presentations Be Stifling Learning?

Computer Idle? Now You Can Donate Its Time To Find A Cure For Major Diseases

Do Attractive Men Have Better Sperm? **

Were People Happier in the Good Old Days?

Letting Love In***

Stop Working So Hard

__

* A interioridade está cada vez mais exteriorizada, a Universidade do Minho que o diga.
** Um texto aparvalhado, dum gajo com cara de parvo, que tem o singular mérito de nos mostrar a importância dos títulos para o presente e futuro da leitura.
*** Foi escrito para ti, e tem lá tudo de que precisas para crescer.

Lipstick Revolution

Em qualquer país islâmico, é esta a revolução que irá transformar os povos agora sob o jugo da irracionalidade identitária e inaugurar uma nova fase planetária. Mas não só nas sociedades teocráticas, também em Portugal seria revolucionário ter mais mulheres interessadas e envolvidas nos processos de decisão política. Porque os homens, sozinhos, têm sido incapazes de representar toda a comunidade. E sim, homens e mulheres têm cérebros, inteligências e sensibilidades diferentes.

Viva a diferença, viva a criatividade.

As iludências aparudem

Esmagadora derrota do PS. Estrondosa vitória de todos os outros, sem excepção. E depois que aconteceu? O CDS reclamou a chefia da oposição, declarando estar mandatado para derrubar o Governo. O PCP reclamou a chefia da oposição, vendo o aumento de 70.000 votos face às anteriores eleições Europeias como a prova de um crescimento imparável. O BE reclamou a chefia da oposição, avisando o PSD para fazer as malas. E o PSD reclamou a chefia do próximo Governo, festejando por antecipação. Quer isto dizer que Portugal está cheio de pessoas capazes de assumirem as responsabilidades governativas e guiarem com segurança o povo, e seus parcos pertences, pelo meio da tempestade económica. Excelentes notícias.

Mas, e depois que não aconteceu? Não aconteceu que esses partidos nos tivessem dito como tencionam governar. Ao invés, saltaram ainda com mais fúria para cima de Sócrates, o único problema nacional para o qual têm solução: que se vá embora, só mais tarde se pensará no que fazer. O cúmulo atingiu-se com a entrevista a Ana Lourenço, onde a oposição anunciou que o tom de voz de um primeiro-ministro tem mais importância do que as suas ideias. Se a oposição quer reduzir a política nacional ao plebiscito da figura de Sócrates, isso tem a sua graça — mas que nos mostra acerca da oposição?

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Um livro por semana 123

poetas-de-sempre-antologia-volume-x

«Poetas de sempre» – volume X» (Antologia)

A partir de um projecto editorial que teve início em Agosto de 2000, este é o volume X de uma série intitulada «Poetas de sempre». Inclui poemas de 27 autores: Albina Dias, Alda Cabral, Alfredo Martins Guedes, Angelino Pereira, Barrosos da Fonte, Carlos Teles Gomes, Cristino Cortes, Delmar Maia Gonçalves, Fernando de Castro Branco, Fernando Pinto Ribeiro, Isabel Gouveia, José Manuel Duarte Filipe, Julião Bernardes, Júlio Pereira Dinis, Manuel António Gouveia, Manuel António Pereira, Manuel Canela, Maria Albertina, Maria Crisantina, Maria da Glória Cabral, Maria de Lourdes dos Anjos, Maria Helena Dinis Prata Tomás, Maria Luísa Pousão Sancho, Maria Nair Telles, Maria Natália Miranda, Maria Odília Ribeiro e Ofélia Bomba. Cristino Cortes (n.1953, Fiães) viu o seu primeiro livro («Ciclo do amanhecer») editado pelo jornal «Poetas & Trovadores» onde tinha publicado o seu primeiro poema. Escolhendo um poema seu, divulgamos toda uma geração que não tem acesso ao «J.L.», às revistas «Ler» e «Os meus livros», às «Correntes de Escritas», à «Câmara Clara», os autores «marginais, periféricos e desalinhados com o cânone» como lhes chamou Eduardo Prado Coelho. Eis o poema «Volta saloia»: «Foi um belo passeio, aquele que ontem demos, o mar / unindo ao campo, pequenas aldeias, terrenos, parcelas / visivelmente abandonadas, casinhotos, em janelas / de ver o verde, flores amarelas, a gente a passar…/ Tão perto da cidade! Paisagem bucólica e rural / é um gosto para os olhos, uma alegria para a alma / de clorofila se enche, penso também de paz e calma / esse outro modo de viver, puro horizonte, natural. / Não vimos burros, talvez por ser feriado, dia santo / por de quatro patas já poucos haver nesta agricultura / mas lembrei-me de Cesário, pequena homenagem à dura / realidade, dele e nossa, mas ele deixou, único, um canto. / É outro ar, outra luz, todo um outro cheiro, este acordo / do homem e sua volta – aqui o sonho, fixo e recordo».

(Editora: Cidade Berço, Coordenador: Barroso da Fonte, Capa: José António Nobre)

Aspirinas Europeias

A surpreendente e pesada derrota do PS nas Europeias foi obra de Deus a escrever direito por linhas tortas. É sabido que Deus interfere em algumas eleições por razões misteriosas, as quais, em última instância, decorrem deste simples facto: porque Ele pode. Os seres humanos, desde que foram expulsos do Éden (também do Tivoli, Monumental, Império, Condes, o antigo S. Jorge, ainda o Roxy, mas não falemos disso agora), e foram obrigados a resolver alguns assuntos através de eleições, não fazem outra coisa senão imitar o divino. Neste caso, os números cumprem vários propósitos, um deles o de acordar os socialistas, militantes ou simpatizantes, para o seu papel no grande esquema das coisas. E chama a atenção para os transvases políticos entre diferentes eleições, com os resultados das Europeias a condicionarem a campanha eleitoral para as Legislativas. Porque as acções, e as inacções, têm consequências. A abstenção, mais os votos brancos e nulos, têm consequências. O que somos e fazemos, em cada um dos nossos papéis e rede social, tem decisivas consequências. E a política é isso: o que escolhemos em nome da comunidade.

Vários amigos, no rescaldo das eleições, partilharam aqui no blogue as suas ideias. O mesmo aconteceu em muitos outros lugares da blogosfera. Estamos num tempo, e num país, onde a opinião dos que não têm voz nos meios de comunicação social é cada vez mais importante. Neles está a força que realiza a democracia e a inteligência que dá sentido à liberdade. Continuemos a falar uns com os outros, aprender juntos.

Exemplos:

baladupovo

Carlos Santos

cidadão presente

Marco Alberto Alves

Z

MARIA GPM

assis

guida

tra.quinas

Caty Waves

Mário

veneno

Acácio Lima (enviado por email)

Vinte Linhas 369

Ainda a propósito do recente livro de Dinis Machado

O meu «Post» anterior falava (à minha maneira) daquilo que foi o lançamento do livro «Mulher e arma com guitarra espanhola» na livraria Assírio & Alvim na Passos Manuel. Mas houve uma coisa que me escapou. Quando referi que o filme do cacilheiro que acompanha a música do notável guitarrista João Lima (fixem este nome…) me lembrava as fotos de Augusto Cabrita, esqueci-me de lembrar uma outra coisa: quando entrei no jornal A BOLA pela primeira vez em Agosto de 1978 fui falar com o jornalista Carlos Pinhão e verifiquei espantado que na parede, atrás da sua secretária, estava uma belíssima fotografia de Augusto Cabrita. Soube mais tarde que essa fotografia foi tirada no Barreiro (a cidade do futebol) e aquele guarda-redes muito jovem parece que está entre duas nuvens, longe do pó da terra, em feliz, completa e eterna suspensão.

Sei que o nosso tempo não vai para sentimentos mas não pude deixar de lembrar esta memória. No dia em que soube da morte (apenas civil) do Dinis Machado encontrei na igreja de Santa Catarina na Calçada do Combro um senhor do Barreiro, primo da Dulce e do Augusto Cabrita e viemos a falar dessa fotografia até à igreja da Encarnação. Ele também a conhecia, ele sabia mais pormenores do que eu sabia por exemplo que ela tinha sido tirada de manhã mas também sabia que às vezes não se distinguiam as nuvens reais das nuvens do amoníaco e do azoto. Era no tempo em que se dizia que a CUF era o Estado. Isso ouvi eu muitas vezes quando vivi no Montijo entre 1957 e 1960. Que será feita dessa fotografia de Augusto Cabrita? Por favor quem souber que se chegue à frente e diga alguma coisa. Fico desde já muito agradecido.

A humildade da arrogância

Uma das maiores, e mais deliciosas, ironias do fenómeno Sócrates observa-se em José Gil. O pensador do Medo de Existir, tão cônscio da decadência que Santana Lopes corporizava como momento culminante de um processo com décadas de sedimentos, é hoje um daqueles portugueses que retratou: a não inscrever a novidade reformista deste Governo, a ser cúmplice do medo e inveja dos que se limitam a reagir ao que vêem como ameaças ao seu miserável estilo de vida, a ser promotor, pasme-se, do pensar pequeno que denunciou. Bom, e se isto é assim com um filósofo, e logo este, o que não será com os meros mortais? Temos de ser compreensivos com o povoléu, então, mas também implacáveis.

Continuar a lerA humildade da arrogância

Vinte Linhas 368

«Mulher e arma com guitarra espanhola» de Dinis Machado

Foi na loja «Assírio & Alvim» que foi apresentada ao público a nova edição deste clássico dos anos 60 editado na Íbis e, mais tarde, no Círculo de Leitores. Ambas esgotadíssimas. A capa é de João Fazendo e, na presença de Dulce Cabrita, fizeram as honras do livro José Xavier Ezequiel e Teresa Sá Couto. Por fim um momento de emoção: João Lima tocou uma guitarra portuguesa «diferente». Uma sonoridade invulgar num duplo registo de homenagem: Carlos Paredes pelo som e Augusto Cabrita pela imagem das pessoas a entrarem e a saírem dos cacilheiros, entre a pressa e a espuma, entre Lisboa e a Outra Banda, entre a resignação e a ousadia. Recordei o próprio Dinis Machado a beber um café comigo na Bertrand, a oferecer-me um soneto no dia dos meus 43 anos, a distribuir poemas disfarçados no meio do «Molero», a lembrar a maia velha estação de comboios do Mundo (o Rossio) de onde partia para o primos da Beira Alta que lhe enchiam o rosto de beijos húmidos. Porque a ternura é húmida. E o livro? Poiso livro trata de uma assassino profissional cheio de problemas éticos. Mas também de lucidez: «É preciso um automóvel e dois ou três homens com pistolas, às três da madrugada num certo sítio. Depois, levam-no. As coisas têm evoluído, mas isto de apanhar homens sem eles saberem como, mantém-se na mesma. Automóveis, pistolas e ruas desertas. É como o conto do vigário. Caem sempre».

Ficamos a saber pela contracapa deste novo livro que vem aí o inédito «Blackpot», um pequeno grande livro de Dennis McShade que poderá ser assim o seu testamento literário. Dinis Machado, esse mesmo que em 1968 veio revolucionar o policial português.

In vino veritas

a frase
“O primeiro-ministro não teria passado pelas provações por que tem passado, e que o próprio considera altamente injustas, se tivesse tido o bom princípio de não tomar decisões à última da hora”.
Paulo Rangel, “Diário de Notícias” e TSF, 14-06-2009

Público

*

Paulo Rangel foi secretário de Estado adjunto do ministro da Justiça no Governo de Pedro Santana Lopes. Fez parte de um Governo com os seguintes bons princípios:

Governo de gestão continua a nomear

Juristas duvidam da legalidade do despacho de adjudicação do SIRESP

Governo de Santana Lopes aprovou pagamento à Bragaparques dois dias antes das eleições

Património avaliado em 110 ME pode valer cinco vezes mais

Procuradoria-Geral da República abre inquérito ao processo do Casino Lisboa

Não tendo pachorra para chafurdar mais no passado, passo para o presente:

Rangel poderá abandonar Parlamento Europeu caso PSD vença as legislativas

Ferreira Leite “teme” irreversibilidade de decisões no projecto do TGV

E não tendo paciência para chafurdar mais no presente, passo para o futuro.

Obviamente, se há projecto que tenha o rosto propagandista do PSD é o TGV. Primeiro, porque o investimento é inevitável, Portugal terá de construir algumas linhas de alta velocidade e nenhum partido com responsabilidades governativas irá travar esse processo. Depois, porque é economicamente rentável no curto, médio e longo prazo, daí ter o apoio dos empresários, implicar fundos comunitários e ter relação directa com a logística de exportação e distribuição de mercadorias. Finalmente, porque é uma bandeira histórica do PSD, o qual só espera a oportunidade para vir dizer Somos nós, com a nossa vontade indómita, visão estratégica e espírito de iniciativa, os responsáveis pela chegada destes comboios muita modernaços a Portugal!

A única dúvida era saber como iria o PSD mudar por completo o bico ao prego, uma vez obtido o ganho demagógico. Ferreira Leite foi mais rápida do que a própria sombra e já disparou contra o bandido. Disse que o TGV lhe cheira a inevitabilidade, a destino. Prepara-se agora para pedir só uma coisinha, uma, só, coisinha: que, uma vez que o magano tem mesmo de se fazer, então que seja ela a abrir as garrafas de champanhe. Pelo menos, embriagada com a verdade já está.

Vinte Linhas 367

Eu vi as lágrimas e ouvi os soluços do homem desconhecido

Ele não era de Lisboa e tinha a carrinha e os empregados por sua conta e risco. Precisava de sair do Bairro Alto e tinha a viatura bloqueada desde as 10 da manhã. Estava à espera da Polícia Municipal há duas horas e já eram 8 da noite. Tinha o telemóvel ligado à central da Polícia no momento em que se atravessou à frente do meu automóvel chorando e soluçando. Não me deixou passar e obrigou a minha família a sair fazendo o resto do caminho a pé. E eu fiquei ali um bom bocado a ver as lágrimas e a ouvir os soluços do homem desconhecido. Ele não compreende como o Bairro Alto está a ficar um pesadelo para quem lá vive e tem automóvel. Ele não percebe que a Polícia Municipal é apenas a ponta visível duma miserável mistificação que envolve a EMEL, os Bombeiros Sapadores e a Junta de Freguesia – além da Câmara Municipal, presidida por um senhor que nasceu aqui na Rua da Vinha. A EMEL não se preocupa com os lugares dos moradores porque não lhe dão dinheiro, os Bombeiros demonstraram um elevado índice de estupidez, autismo e maldade ao vetarem alguns lugares possíveis de serem considerados de estacionamento com o «argumento» da «segurança». Por exemplo na Travessa de S. Pedro multaram ontem 10 viaturas num espaço que não prejudica ninguém pois as Irmãs do Instituto de S. Pedro de Alcântara fazem toda a sua vida pela Rua Luísa Todi. Se desenhassem no chão os 8 lugares que aqui existem já era um convite explícito a ninguém estacionar fora das marcações e assim alguns carros do lixo (não todos!) deixariam de ter dificuldades ao virar na Rua do Teixeira e na Rua dos Mouros. Ao pé dos Calafates há mais lugares tal como ao pé do Mercado mas eles não querem.

Wittgenstein teve namoradas?

a-namorada-de-wittgenstein
Toca na máquina para ler o que ela tem escrito na tua ausência

Maria João Freitas anda, desde Março, a garantir que sim. E já reuniu, à hora em que escrevo, trezentas provas da ocorrência. O namoro vive um estado de ebulição criativa. Palavras e imagens trocam os mais apaixonados amplexos, as mais obscenas carícias. Pois é, isto de namorar com Wittgenstein não tem nada de platónico.

Os nossos talentosos amigos, e ex-colegas de escrita nesta casa, Fernando Venâncio e José Mário Silva, dois exímios cultores das micro-histórias, terão copiosas paisagens onde repousar o olhar. Mas há outros géneros, e muitos gatos, à disposição do leitor neste país das pequenas maravilhas.

Menu degustación:

Efémero/ Kookai #1 (publicado na Pública)

Efémero / Game over #3 (publicado na Egoísta)

Micro-histórias #9

Alice #18/ As irmãs

Greguerías #45/ O girassol

Dicionário não-etimológico: “monge”

Micro-histórias #91

Alice # 24/ A coroa