Victor

A constância de Constâncio venceu. Anda a repetir o mesmo vai para um ano, o que implica que vai para um ano que ninguém o consegue desmentir. Já difamar, sim. Muito. Ao melhor estilo dos canalhas.

E percebe-se, sem gastar uma caloria, porquê. PSD e CDS ficaram com um peculiar e inusitado problema pendurado nos bigodes por causa da roubalheira no BCP, BPN e BPP: não podiam falar nos responsáveis, nem podiam falar nas irresponsabilidades. Quem cometeu as manigâncias e falcatruas são pessoas da sua família política, poderosas eminências pardas do poder partidário da direita e das respectivas classes sociais altas por ele representadas. Não se morde na mão donde se obtêm financiamentos, cunhas e lugares; pelo contrário, beija-se essa tão antiga e patriarcal mão. Problema agravado com a etiologia da maleita: os famosos e aristocráticos banqueiros tinham metido a tal mão na tal massa porque essa era a lógica mesma do subsistema que dominavam e protegiam — a celerada engorda dos recos.

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Vinte Linhas 366

Só é juiz social quem quer mas 3,99 euros é muito pouco

Saí de mais uma sessão (audiência) do Tribunal de Menores com o sentido do dever cumprido. Mais uma criança que, depois de abandonada pela mãe (e abandonar já é mal tratar…) esteve um ano numa Instituição e vai ser adoptada por um casal que já está na lista de espera há algum tempo. Saí satisfeito do edifício porque a minha experiência me diz que «a pior instituição é sempre melhor que a pior família».

Esta foi a primeira diligência que decorreu no novo edifício do Tribunal de Menores em pleno Parque EXPO. Fiquei a pensar que o que nos pagam por participar em cada audiência de julgamento é apenas 3,99 euros e antigamente ia a pé para o Tribunal (Rua Pedro Nunes) enquanto agora tenho que ir de Metro. Ora como cada viagem são 0,79 euros; logo ida e volta são 1,58 euros mas como é sempre necessário ir uma segunda vez para assinar a sentença são mais 1,58 euros – o que dá a quantia de 3,16. Portanto muito perto dos 3,99 euros que o Estado nos paga por cada diligência. É evidente que só é juiz social quem quer mas custa um bocado ver um advogado fazer uma «oficiosa» onde se limita a pedir justiça e receber aquilo a que tem direito e os juízes sociais passam horas a ler e a estudar o processo, meditam no assunto e depois participam o lado de todos os outros intervenientes para no fim receberem 3,99 euros.

Alguém já deveria ter reparado nisto. Há tanta gente nos ministérios e nas secretarias de Estado mas talvez porque os gabinetes estão fechados o ar condicionado não lhes permite perceber a vida real que passa cá fora. Ninguém me obriga a ser juiz social mas receber 3,99 euros que pouco mais dá do que para o Metro é uma vergonha. E não para mim.

O Acordo Ortográfico já começou a fazer das suas

Francisco José Viegas honrou-me com uma citação na sua coluna no Correio da Manhã. Mas eis a novidade: a frase que me atribui não existe no original. Existem outras, parecidas, até mesmo muito parecidas, mas não aquela. De modo que estamos perante um híbrido entre o plágio e o palimpsesto, onde o Viegas apresenta uma frase sua como sendo de outrem; a qual, por sua vez, não é exactamente dele por ter versão anterior; mas a qual, finalmente, não pode ser propriedade do putativo autor por não se encontrar nos seus escritos. O fenómeno terá tido origem num ataque de heteronímia aguda, patologia comum a quem passou muito tempo na Casa Pessoa.

Seja como for, o resultado é famoso e recomenda-se, sim senhor. A frase publicada tem um recorte apotegmático que lhe garantirá longevidade, o seu destino é ser epígrafe de biografias e ensaios, talvez ainda de novelas fantásticas. E isto de ter um escritor condecorado a recrear-se a partir do nosso material abrutalhado, guarda-se como distinção que poucos podem ostentar. Fiquei foi com ainda mais razões para desconfiar do Acordo Ortográfico.

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 


“Que bom, meu Deus”, geme-me, ao ouvido, M. Levanto-me, irritado, visto-me e dirijo-me, com força, para a porta da rua. “Não te admito que digas o que acabaste de dizer. Não sou, fixa bem isso, de ninguém”, explico, transtornado, segundos antes de sair.

Bute aí fazer o programa do PS

Não há posição mais confortável do que a minha para defender Sócrates: não votei PS, nem é provável que vote, mas reconheço a qualidade e intento reformista da governação, as pulhices e inanidades dos adversários e as circunstâncias internacionais que levaram à quebra das exportações, ao drástico e repentino aumento do desemprego, à diminuição de receitas fiscais e aos gastos extraordinários no apoio social. Sem as crises (primeiro a do preço do petróleo, depois a financeira, finalmente a económica), a riqueza teria continuado a aumentar, é lógico e simples de calcular. Mesmo assim, tal não faria de Sócrates, ou do PS, uma escolha óbvia para o voto em 2009 — iria depender das alternativas. Ora, a 3 meses da coisa, não há alternativa; é também lógico e simples de constatar. Não é que o PSD e o CDS não possam governar e chegarem ao fim da sua legislatura sem que tenhamos entrado em bancarrota ou guerra civil. Ou mesmo que um agora impensável Governo PCP-BE não pudesse colher apoio popular durante algum tempo, tamanha a demagogia e populismo das suas promessas. Não. O que se passa é que a oposição não merece governar. Tudo o que tem feito, nestes 4 anos, tem sido contra o interesse nacional, contra o bem comum, contra a mera sensatez de se viver em comunidade. São concidadãos em quem não se consegue descortinar elevação de carácter em matérias políticas. Agem como rufias de terceira categoria. Que se fodam.

Entretanto, não poderei votar PS sem o inequívoco compromisso de se atacar o mal maior pela raiz, continuar-se a reformar o sistema e ser-se ousado na ambição económica. Assim, se quiserem o meu voto, aqui vai alho:

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Ler é poder

Por causa do maradona (que já deu cabo da coisa), voltei a um poiso donde estive ausente desde os saudosos tempos em que Henrique Galvão assaltou o Santa Maria. Sim, exactamente, estou a falar do Arts & Letters Daily. O que lá se disponibiliza para ler — em quantidade, qualidade e extensão — obriga a tirar um ano sabático para fazer justiça à coluna de textos à esquerda; as outras duas colunas só podendo ser avaliadas na sua completude por quem se reformar aos 40 e viver até aos 120, fica o aviso.

Eis três exemplos do que estamos a perder, e do que vamos alegremente continuar a perder porque há um ponto a partir do qual o aumento da inteligência começa a ser causa de desavenças familiares e quebras de amizade:

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Vinte Linhas 365

«Vida e Morte dos Santiagos» de Mário Ventura

A partir de uma invasão espanhola no Alentejo em 1802 (liderada pelo conde de Godoy) começam os problemas de uma família que deixa de poder comprar e vender livremente cavalos nas feiras da raia de Espanha. Trata-se de uma saga familiar que envolve mais de cem personagens e um arco temporal de três séculos. Mário Ventura recebeu com este romance dois prémios literários: Município de Lisboa e Pen Clube Português. Há edições na «Caminho» e na «Casa das Letras» além do «Círculo de Leitores» desta história que não é apenas a história de uma família e da sua busca pela posse da terra mas também uma profunda reflexão sobre a condição humana: «Ter muita terra já é sinal seguro de riqueza mesmo que nela só cultives pedras. Terra é poder e contra ela ninguém pode nada. Tão certo como eu me chamar Custódio Santiago. Quando se começa a mexer na terra, só para a obrigar a dar o que ela muitas vezes não pode ou não quer dar, nunca se sabe que males nos vão acontecer.»

Sobre este livro opinaram António Mega Ferreira (Expresso), Baptista-Bastos (J.L.), Fernando Dacosta (O Jornal), Urbano Tavares Rodrigues (Colóquio/Letras), Fernando Assis Pacheco (O Jornal) além de Júlio Conrado que, no velho Diário Popular escreveu o seguinte: «Torranjo passará à História como território feudal de que se apropriou, na voragem de turbilhonantes contendas políticas, um cigano de apelido Currales, por força dos acasos do amor conhecido mais tarde, solenemente, por Custódio Santiago».

A propósito do livro de Brito Camacho surgiu a sugestão de Manuel Barata para que se recordasse melhor este belo livro, esta acontecimento literário. Fica a breve nota.

A roubalheira nas sondagens

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Quadro gamado do Margens de Erro

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A única sondagem, de todas quantas foram feitas para as Europeias, que acertou na vitória do PSD tem uma particularidade curiosa: recolheu os dados entre os dias 27 e 30 de Maio. Quer dizer que é, das últimas a serem publicadas, a mais distante da votação, e, ainda mais interessante, aquela que não teve tempo de reflectir a mudança drástica ocorrida na campanha na noite de 28 de Maio. Foi aí que Vital tirou a roubalheira da cartola, levando o que restava do PSD a ir-se abaixo das canetas. De imediato surgiram a nu as manifestações da guerra civil em que vive aquele partido tão partido, com Passos Coelho a apostar a carreira numa roleta russa que o deixou num coma de prognóstico reservado. Rangel, que já tinha delineado uma campanha à defesa, apenas de reuniões com grupos reduzidos de militantes em ambientes cagões, continuou a ter de se pronunciar sobre declarações e acções equívocas de dirigentes sociais-democratas que corriam por fora. O sentimento era de descalabro aquando da entrada em cena de Cavaco com uma embrulhada explicação sobre o seu envolvimento no BPN, a qual deixou mais perguntas do que respostas. E de tal forma estava interiorizada a derrota que o cartaz escolhido para o day after diz Nunca baixamos os braços!

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Sócrates Fan Club

Seja à esquerda ou à direita, Sócrates é temido e desejado. Temido porque desejado, e desejado porque temido. À esquerda, na esquerda imbecil, não se perdoa a Sócrates conseguir criar riqueza económica e continuar a ser de esquerda — com abundantes transformações sociais, que esperavam há anos na agenda do PCP e do BE, a terem sido concretizadas numa única legislatura. À direita, na direita ranhosa, não se perdoa a Sócrates conseguir criar riqueza económica e não ser de direita — tantas as suas qualidades de liderança e inovação que fariam o delírio dos amanuenses do PSD e CDS caso ele os chefiasse.

Helena Matos é uma das mais excitadas animadoras do clube de fãs. Neste texto apresenta-se tão transparente que chega a causar aquele dilacerante fenómeno de nos sentirmos envergonhados pelas figuras que vemos outros fazerem. Repare-se:

O PS nunca apoiou Sócrates por aquilo que ele pensava ou defendia, mas sim porque ele lhes garantiu o poder.
Como diz Cravinho, Sócrates é um efeito. Um efeito que, valha a verdade, deu uma maioria absoluta ao PS.
Mas, sem poder, Sócrates não tem qualquer préstimo para os socialistas – não tem o mundo internacional de Soares e dificilmente lhes pode trazer o prestígio da colocação numa agência internacional como aconteceu com Sampaio e Guterres.
O PS está disposto a fechar os olhos a todos os equívocos de Sócrates enquanto existir poder.
Assim que o poder se acabar, os socialistas serão os mais violentos nas críticas a tudo aquilo que até agora fizeram de conta que não viram.
Sem poder, Sócrates é um embaraço. Por isso, ao primeiro sinal de que o efeito Sócrates se estava a extinguir, as cadeiras do Altis ficaram vazias.
Mais do que falar do país, dos seus problemas e discutir seriamente as soluções que propõe, José Sócrates passa de sessões de anúncio para sessões de anúncio, invariavelmente abrilhantadas com figurantes, e fala obsessivamente de notícias, jornalistas, directores de jornais… como se o seu mundo não fosse mais do que isso: ser um efeito.

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Exemplos há muitos, seu palerma

Discurso de António Barreto no 10 de Junho é dos melhores que ouvi nos últimos anos. Afixem-no em toda a parte: escolas, repartições, tribunais, empresas.

Zé Manel a tuitar como se estivesse na varanda dos Paços do Concelho

Que se comece por fazer justiça ao ditirambo: o discurso de António Barreto deixa-se ler. Trata-se de uma imparável colecção de lugares-comuns, pois sim, mas estão dispostos com simpática elegância e meritório ritmo. É uma peça cujo público-alvo natural seria a população escolar, e não os altos dignitários da Nação no dia da mesma. Infelizmente, em Portugal não se cultiva nem a retórica nem a oratória, o que muito nos atrofia intelectualmente, mas este discurso tem o timbre de exaltação contida, e a vacuidade ilustrada, ideais para entusiasmar inconsequentemente algumas turmas do Secundário, talvez certos estudantes universitários, no final de um ano lectivo ou ciclo de formação. E é só.

Não vale a pena perder tempo na hermenêutica. Basta um exemplo:

A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem tradição cultural, espiritual ou política.

É óbvio que o Barreto, um dos mais reputados e barulhentos senadores do regime, desconhece a existência de uma realidade europeia que une países e cidadãos há décadas, e de uma forma tão íntima que até leva ao vigoroso e espontâneo contacto físico entre estranhos: o futebol. Se o vetusto e hierático Barreto, sociólogo, não inclui na sua reflexão a existência deste sistema de criação de trânsitos, afinidades e identidade, de que raio poderá ele falar que justifique a nossa atenção? E ainda pior, se ele ignora este sistema económico e cultural tão importante para centenas de milhões de cidadãos europeus, como é que vamos conseguir explicar ao Barreto que nunca como agora se interiorizou a consciência política de vivermos num espaço farol da Humanidade no que diz respeito à democracia, aos direitos humanos e à qualidade de vida? Haja alguém que explique ao homem qual a nova importância do turismo, das migrações e dos intercâmbios académicos, científicos, institucionais e empresariais para o surgimento e reforço de algo nunca antes visto na História: a união dos europeus.

Barreto, o teu exemplo de opinador tem feito mais mal do que bem à sociedade portuguesa. És paternalista, sectário e virulento. Por isso te escapam tantos exemplos que desmentem o teu ponto de vista. Olha, há mais exemplos desses do que chapéus na cabeça dos europeus.

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PS - E, já agora, haja alguém que convença o Jaime Gama a disponibilizar o seu discurso proferido na Assembleia da República neste 25 de Abril; seguramente, esse sim, o melhor discurso dos últimos muitos anos, tanto no conteúdo como na forma. Fui aluno da sua esposa, a professora Alda, no meu 8º ano de escolaridade, a Português. E até sei onde eles moram, e até nos cruzámos neste domingo eleitoral, mas não tenho tempo para lá ir tocar à porta e pedir aquilo a que temos direito. Por isso, se conheces a figura, ou se conheces aquele que conhece aquele que conhece aquele que o conhece, eis a tua missão: despacha este assunto, passa o recado, e avisa a malta.
PS2 – Estive lá à procura e não dei com ele, talvez por estar tão à vista. Muito obrigado, Mónica.

Vinte Linhas 364

Carlos Ramos (1907-1969) guitarrista e intérprete do fado

«Carlos (Augusto da Silva) Ramos nasceu em Lisboa (Alcântara) em 10-10-1907. Começou a tocar guitarra nas tabernas do seu bairro e em 1939 acompanhou Ercília Costa numa digressão aos EUA. Tornou-se profissional do fado em 1944 no Café Luso e passou pelas adegas Mondego, Machado, Tipóia e Tágide antes de fundar em 1960 a sua casa típica – A Toca. Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Maria Teresa de Noronha, Fernanda Maria, Natércia da Conceição e Maria do Espírito Santo cantaram em A Toca. Carlos Ramos participou nos filmes Cais do Sodré, O Fado, Lavadeiras de Portugal e Fado Corrido. Actuou em Espanha, França e Brasil além dos Açores, Madeira, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Participou em várias revistas ao lado de Hermínia Silva, Ercília Costa e Maria Albertina. Senhora do Monte, Não venhas tarde, O amor é louco, Despedida, Mas sou fadista, Saudade, Toca o mesmo, Recordar é viver ou O teu olhar são fados que consagraram a sua voz inesquecível de grande intérprete do fado. Faleceu em 6-11-1969 em Lisboa.»

Esta poderia ser a breve nota para um verbete numa enciclopédia portuguesa. Mas Carlos Ramos está ausente. Lembro-me bem de uma festa de homenagem que lhe foi feita em 1968 no Monumental e de uma fotografia que os jornais publicaram: Hermínia Silva, Madalena Iglésias, Francisco Nicholson e Armando Cortês em pose ao lado de Carlos Ramos. O artista tem uma bengala, sinal dos problemas de saúde que o viriam a matar um ano depois. Só em talheres e loiças foram mais de duzentos contos que «voaram» da sua casa típica. Carlos Ramos, artista, morreu de tristeza porque não soube ser comerciante.

Numerologia – III

21. No principio, a oposição garantiu que o PS não iria escapar à denúncia dos problemas nacionais. Pelo meio, a oposição protestou por se estar a dar importância às questões nacionais. No final, a oposição declarou que foram umas eleições estritamente nacionais. Se o PS tivesse ganhado, a oposição diria que não se podiam tirar ilações nacionais a partir do resultado das Europeias, obviamente, acrescentando que uma abstenção tão alta reforçava a impossibilidade de extrapolar para fora do contexto. Aliás, tivesse o PS ganhado fosse por que margem fosse, a oposição apareceria a dizer, sem se rir, que a abstenção era o seu não-voto de protesto.

22. O PSD andou a segunda semana de campanha a queixar-se de Vital, gritando que ele tinha sido um porcalhão por se atrever a pedir uma qualquer declaração acerca do BPN, um caso que em nada de nada de nadinha de nada se relaciona com a história do PSD desde o cavaquismo, como é do domínio público. Chegaram a domingo a acreditar nas sondagens, convencidos de que iam perder, já só esperando que fosse por poucos. Se fosse por poucos seria uma enorme vitória, anunciariam logo que estavam a crescer, que o ciclo tinha começado a mudar; ou seja, não baixavam os braços, e lá iam para o segundo round sem terem ido ao tapete. Como lhes saiu o Euroabstenções, Rangel e Manela dispararam sobre o Governo com a única ideia que aquelas cabeças produziram até à data: paralisação geral da governação. Há uma salazarista metáfora por detrás desta insane provocação anticonstitucional — a do dinheirinho debaixo do colchão. É assim que este PSD representa Portugal na sua retórica, como uma casinha de gente humilde e trabalhadora cujas parcas poupanças da sofrida vida correm o risco de ser desbaratadas de hoje para amanhã a mando de uns estroinas, arrastando a família para irrecuperável pobreza e acabando os desgraçadinhos no meio da rua só com um colchão, dois tachos e a roupa do corpo. Entretanto, pelo menos 1.127.128 portugueses, ao dia 7 de Junho de 2009, acreditam neste partido. Quem será que toma conta deles quando não estão a votar?

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Um livro por semana 122

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«Quadros Alentejanos» de Brito Camacho

Este livro de Brito Camacho (1862-1934) figura ao lado da melhor literatura sobre o Alentejo: entre a poesia do Conde de Monsaraz («Musa Alentejana») e a prosa de Manuel da Fonseca («O fogo e as cinzas»), entre os ceifeiros e carreiros de Francisco Bugalho em «Poesias» e os feitores e negociantes de gado de Mário Ventura em «Vida e Morte dos Santiagos». Nas suas 206 página há todo um certo tempo português e alentejano, articulado a partir das memórias do autor. Por exemplo a despedida da aldeia para ir estudar longe de casa: «Tinha a certeza de que na vila não se jogava o eixo, nem o funcho nem a abelharda, jogos em que eu não era dos últimos, nem se jogava o pião, jogo em que eu era dos primeiros! A cada lugar me prende uma recordação e cada recordação é já uma saudade». Ou então o sentimento religioso: «Raro era o domingo em que a igreja não se enchia. O mulherio ocupava o corpo da igreja. Os homens enchiam as coxias, o guarda-vento e o coro, distribuindo-se ao acaso, sem preocupação de categorias. Ninguém ajoelhava à caçadora, só com um joelho em terra». Ou ainda as guerras políticas locais: «As paixões políticas eram muito vivas na minha terra; os partidos digladiavam-se ferozmente em todos os campos; um dia de eleições era um dia de batalha; muitas listas entravam na urna tintas de sangue jorrando de cabeças partidas». Ou por fim as histórias incríveis em que a vida sorria à morte: «o tio José Branco um dia recolheu ao hospital, foi dado como morto e logo transferido para a igreja para se enterrar no dia seguinte. Sucedeu que pela noite fora o velhote se aliviou da bexiga e isso lhe valeu não ser enterrado vivo». A leitura destes 6 quadros alentejanos de ontem é um enorme prazer para o leitor de hoje.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Miscelânea

Young Children’s Exposure To Audible Television Has Implications For Language Acquisition And Brain Development

Robots forming human-like societies – electronic evolution?

Pressure To Look Attractive Linked To Fear Of Rejection In Men And Women

People With Parents Who Fight Are More Likely To Have Mental Health Problems In Later Life

12 Most Annoying Bad Habits of Therapists

7 Good Reasons To Cry Your Eyes Out*

Surprising Green Energy Investment Trends Found Worldwide

Self Honesty – Knowing Is Better Than Not Knowing**

Money Worries Make Women Spend More

Nostalgia: Sweet Remembrance

Why Group Norms Kill Creativity

Success: Got Grit?***

Easily Grossed Out? You Might Be A Conservative!

The Bad Mom Club: Who’s In?
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* Ainda mais alívio.
** Grande verdade.
*** Só verdades, e para todas as idades, para sempre.