Ler é poder

Por causa do maradona (que já deu cabo da coisa), voltei a um poiso donde estive ausente desde os saudosos tempos em que Henrique Galvão assaltou o Santa Maria. Sim, exactamente, estou a falar do Arts & Letters Daily. O que lá se disponibiliza para ler — em quantidade, qualidade e extensão — obriga a tirar um ano sabático para fazer justiça à coluna de textos à esquerda; as outras duas colunas só podendo ser avaliadas na sua completude por quem se reformar aos 40 e viver até aos 120, fica o aviso.

Eis três exemplos do que estamos a perder, e do que vamos alegremente continuar a perder porque há um ponto a partir do qual o aumento da inteligência começa a ser causa de desavenças familiares e quebras de amizade:


A Manifesto for Scholarly Publishing
By PETER J. DOUGHERTY

Este Peter é um bacano. Só um bacano, daqueles verdadeiramente bacanos, teria o à-vontade para falar no circuito Hegel-Heidegger-Heisenberg. E confessar que ganha o pão à conta dele; o que chocará muito adepto do Benfica, é fatal. A que acrescenta um prognóstico: o livro em papel nunca irá desaparecer, porque é a melhor forma de conservar a informação em condições de ser consumida segundo o gosto e necessidades dos intelectos mais poderosos do Planeta: o pessoalzinho das universidades.

Citação:

Hard ideas define a culture — that of serious reading, an institution vital to democracy itself. In a recent article, Stephen L. Carter, Yale law professor and novelist, underscores “the importance of reading books that are difficult. Long books. Hard books. Books with which we have to struggle. The hard work of serious reading mirrors the hard work of serious governing — and, in a democracy, governing is a responsibility all citizens share.” The challenge for university presses is to better turn our penchant for hard ideas to greater purpose.

Maravilha, não é? Defende-se o nexo entre a leitura de livros difíceis, daqueles chatos e compridos (ou/oh, não!), e a natureza mesma da cidadania: o governo. O governo de si próprio, pois, fazendo cada um por si o que mais ninguém pode fazer por nós: realizar o nosso potencial de crescimento.

E valerá a pena crescer? — pergunta um imbecil típico, igualmente sem tempo seja para as leituras difíceis ou sequer a cidadania fácil. A resposta também vem nos livros, mas só naqueles que se lêem até ao fim.

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Roger Scruton
Forgiveness and Irony
What makes the West strong

Eis um texto de uma direita que de ranhosa não tem nada. Por isso fala do que mais importa, com a coragem e profundidade dos probos. Ideias principais: a democracia e a cidadania são invenções ocidentais, o Islão não pode chegar a compromissos políticos com o Ocidente porque recusa a autonomia inerente ao estatuto de cidadão secular, o terrorismo de bandeira islâmica é irracional e niilista e a sua violência é similar à de outros grupos terroristas ocidentais ao longo da História, há uma esquerda que apoia tanto os regimes totalitários como organizações terroristas islâmicas por ter perdido ideologicamente os laços com a noção de cidadania, o multiculturalismo é uma consequência pérfida da perda das referências ocidentais ligadas à natureza da democracia, uma via de diálogo com o Islão moderado pode ser encontrada na tradição cristã, através das noções de perdão e ironia.

Citação:

We should resurrect Locke’s distinction between liberty and license and make it absolutely clear to our children that liberty is a form of order, not a license for anarchy and self-indulgence. We should cease to mock the things that mattered to our parents and grandparents, and we should be proud of what they achieved. This is not arrogance but a just recognition of our privileges.

We should also drop all the multicultural waffling that has so confused public life in the West and reaffirm the core idea of social membership in the Western tradition, which is the idea of citizenship. By sending out the message that we believe in what we have, are prepared to share it, but are not prepared to see it destroyed, we do the only thing that we can do to defuse the current conflict. Because forgiveness is at the heart of our culture, this message ought surely to be enough, even if we proclaim it in a spirit of irony.

Explosivo? Se leres o todo, será manso e doce.

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Why Economists Failed to Predict the Financial Crisis

Desde Setembro de 2008, já se escreveram milhares e milhares de artigos acerca da espantosa e ubíqua falta de antecipação da grande crise por que passamos. Ninguém a viu chegar. Ninguém? Alto! Num jardim da Península Ibérica, à beira-mar plantado, vários a toparam bem à distância. Um deles até escreveu um livro onde deixou para a posteridade esse feito olímpico, enquanto os outros castigam o Primeiro-Ministro por não ter visto o terrível bicharoco a agitar a barbatana no horizonte. Claro que o resto da malta, que escreve estas coisas em línguas alternativas ao português, não tem obrigação de saber o que nós vamos por aqui dizendo uns aos outros. E é bem melhor assim.

Citação:

One result of this, argues Winter, who is not one of the authors but agrees with much of what they say, is to build into models an assumption that all market participants — bankers, lenders, borrowers and consumers — behave rationally at all times, as if they were economists making the most financially favorable choices. Clearly, he says, rational behavior is not that dependable, or else people would not do self-destructive things like taking out mortgages they could not afford, a key factor in the financial crisis. Nor would completely rational executives at financial firms invest in securities backed by those risky mortgages, which they did.

Esta crise levou ao crescimento da investigação psicológica e cognitiva na área dos comportamentos irracionais. As pesquisas mostram que o facto de se tomarem decisões erradas não é necessariamente o resultado de falta de informação, ou de má informação, antes aparecendo, em certas circunstâncias, como limitações inerentes ao próprio modo como a boa e suficiente informação é assimilada e concatenada pelas estruturas cerebrais. Fenómenos que lembram logo a nossa oposição, né?

4 thoughts on “Ler é poder”

  1. VALUPI caro amigo, não procures muito longe, tens tudo resumido em John Rawls, Uma Teoria de Justiça como Equidade (e em português).
    “Queremos imitar aquelas pessoas que conseguem exercer as capacidades que descobrimos estarem latentes na nossa natureza. Podemos afirmar que a dimensão da nossa aprendizagem e a importância que damos à educação das nossas capacidades inatas dependem destas capacidades e da dificuldade do esforço que é necessário para as desenvolver.
    Um projecto racional, limitado como sempre pelos princípios do justo, permite a realização do indivíduo, tanto quanto as circunstancias o consentem, bem como, tanto quanto for possível, o exercício das suas capacidades: dado que estes princípios se ligam ao bem primário do respeito próprio, eles acabam por ter uma posição central na psicologia moral que subjaz à teoria da justiça como equidade.
    Por fim propõem uma teoria ampla que nos permita distinguir diferentes tipos de valor moral, bem como a sua respectiva ausência, considera que assim podemos classificar o homem justo, o homem mau e o homem perverso. Há quem, o homem injusto é um deles, procure a obtenção de um poder excessivo, isto é, de uma autoridade sobre os outros que vai alem daquilo que é permitido pelos princípios da justiça e que pode ser exercida de forma arbitrária. O homem mau deseja obter poder arbitrário porque tem prazer com o sentido da importância que o seu exercício lhe dá e pretende obter prestígio social. O homem perverso pelo seu lado, aspira à obtenção de um domínio injusto, precisamente porque tal domínio viola aquilo com que os sujeitos independentes concordariam numa posição original de igualdade. O que move o homem perverso é o amor da injustiça: tem prazer com a impotência e a humilhação daqueles que lhe estão submetidos e fica satisfeito quando é por eles reconhecido como o autor voluntário da sua degradação.Continua….

  2. Obrigado por esta preciosidade, com a mais humilde das intenções, partilho um outro ponto de partida para leituras, mais ligeiras bem sei.

    http://themorningnews.org/

    Daqui cheguei aqui:
    http://www.time.com/time/health/article/0,8599,1893946,00.html

    Aparentemente, a descriminalização do consumo de drogas leves em Portugal é um sucesso, a julgar pelos números. O programa lançado em 2001 dá frutos, e só por isso já é um prazer sabe-lo. Ter o previlégio de ver algo a dar resultados em Portugal a médio e longo prazo é coisa rara, algum derrotista patriótico se deve ter esquecido de mandar esta iniciativa abaixo. O Portas deve andar distraído, o Paulo claro, o outro anda contente, ora não.

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