Vinte Linhas 366

Só é juiz social quem quer mas 3,99 euros é muito pouco

Saí de mais uma sessão (audiência) do Tribunal de Menores com o sentido do dever cumprido. Mais uma criança que, depois de abandonada pela mãe (e abandonar já é mal tratar…) esteve um ano numa Instituição e vai ser adoptada por um casal que já está na lista de espera há algum tempo. Saí satisfeito do edifício porque a minha experiência me diz que «a pior instituição é sempre melhor que a pior família».

Esta foi a primeira diligência que decorreu no novo edifício do Tribunal de Menores em pleno Parque EXPO. Fiquei a pensar que o que nos pagam por participar em cada audiência de julgamento é apenas 3,99 euros e antigamente ia a pé para o Tribunal (Rua Pedro Nunes) enquanto agora tenho que ir de Metro. Ora como cada viagem são 0,79 euros; logo ida e volta são 1,58 euros mas como é sempre necessário ir uma segunda vez para assinar a sentença são mais 1,58 euros – o que dá a quantia de 3,16. Portanto muito perto dos 3,99 euros que o Estado nos paga por cada diligência. É evidente que só é juiz social quem quer mas custa um bocado ver um advogado fazer uma «oficiosa» onde se limita a pedir justiça e receber aquilo a que tem direito e os juízes sociais passam horas a ler e a estudar o processo, meditam no assunto e depois participam o lado de todos os outros intervenientes para no fim receberem 3,99 euros.

Alguém já deveria ter reparado nisto. Há tanta gente nos ministérios e nas secretarias de Estado mas talvez porque os gabinetes estão fechados o ar condicionado não lhes permite perceber a vida real que passa cá fora. Ninguém me obriga a ser juiz social mas receber 3,99 euros que pouco mais dá do que para o Metro é uma vergonha. E não para mim.

2 thoughts on “Vinte Linhas 366”

  1. Já agora só mais uma informação: o defensor oficioso recebe 21 unidades e cada unidade são 25 euros. Além disso o Estado paga de renda dos edifícios na EXPO 980 mil euros por mês. Há dinheiro para tudo menos para os juizes sociais, dá ideia que querem acabar com eles vencendo-os pelo camsaço e pelo desprezo.

  2. Um erro grave do executivo, que certamente se pagará no futuro. O poder político, infelizmente, só ouve quem berra, conformando-se com o ditado popular: quem não chora não mama.
    Face aos valores aqui apresentados, que estes sim, desprestigiam a função dos juízes sociais, fico bastante incomodado com a banalidade como questões muito sérias são desprezadas.
    Corrigir de imediato esta situação para valores adequados, é o que se deve reivindicar. Certamente que as contas públicas suportarão sem dificuldade os encargos acrescidos.

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