19 thoughts on “Civilizatorium”

  1. Todo o texto é uma maravilha sintética de pensamento filosófico e cultura política. Obrigado por partilhar. Não me resisto deijar ou resaltar uns bocadinhos entre tanta sabiduria:

    Daí a necessidade de domesticar o capitalismo com a democracia, garantida através de um Estado de Direito com “rosto social”, superando o “pessimismo antropológico” que caracterizara os primórdios da Escola de Frankfurt.
    Os conceitos de conhecimento, liberdade e progresso constituem valores de uma razão ilustrada, no contexto da “modernidade”, como “projeto inacabado”, por contraponto à pós-modernidade…
    “Se me resta um traço de utopia, ele reside na conceção de que a democracia (e o debate público nas suas melhores formas) tem a capacidade de quebrar o nó górdio de problemas quase praticamente insolúveis.”

  2. Democracia política sem democracia económica vale pouco mais que zero; democracia partidária sem políticos que reconheçam os erros e paguem por eles vale zero.

  3. Ou a Democracia e o Socialismo Democrático encontram forma de estilhaçar os cornos aos seus inimigos, ou serão sempre enrabados. Ou seja, mais tarde ou mais cedo assistiremos às conquistas sociais andarem às arrecuas, e quem paga é sempre o zé povinho trabalhador. Sempre. Sempre.
    Há alguma dúvida sobre isto?
    Sim, o problema reside também no seio do povo. E de que maneira.
    A cada dia que passa, nesta ponta final da minha vida, mais me encanta a China – e o povo chinês.

  4. «Democracia política sem democracia económica vale pouco mais que zero; democracia partidária sem políticos que reconheçam os erros e paguem por eles vale zero.»

    Nem mais, yo. Ao contrário do que diz o Reis, o texto não é nenhuma “maravilha sintética de pensamento filosófico e cultura política”; é conversa fiada de quem está bem sentado. Tal como a União Europeia que lá se celebra não é mais que uma estrutura tecnocrata e neoliberal ao serviço de mamões. Claro que para a classe política a UE é um grande sucesso: mamam lá belos tachos.

  5. «Ou a Democracia e o Socialismo Democrático»

    ‘Socialismo democrático’ é uma redundância, Fernando: se não é democrático não é socialismo. Pode ser xuxalismo, que é o que temos há 50 anos nesta democracia de fachada, onde se passa cheques em branco de anos a anos sem qualquer posterior validação das decisões ou responsabilização dos eleitos. Para não falar da propriedade dos meios de produção, etc.

    A China é uma ditadura a que muitos chamam, com razão, capitalismo de Estado. Nem é democracia, nem é socialismo. E também está ao serviço de mamões.

  6. A China, com Teng Chiao Ping, conseguiu fazer a tempo o devido reajustamento no processo, para o que recorreu a modos de produção do sistema capitalista para consolidar os objetivos da revolução socialista, em devida consonância com as condições objetivas e civilizacionais chinesas. Um historiador inglês, conhecedor profundo da China, chama mesmo de Partido da Civilização Chinesa ao PCC.

    As transformações sociais não se fazem por mera definição de tolas de nenhum génio; muito menos ainda pelas tolas da carneirada frustrada e vingativa, que dá em atacar tudo e todos, especialmente, por cá, os melhores valores que deram elevadíssimos contributos para o progresso da nossa sociedade (refiro-me à portuguesa).
    Há quem, para disfarçar, até defenda a democracia direta, onde, como sabemos, e a história nos ensina, não faltaria carneirada manipulada; não aquela a que, certamente com os copos , se referia o celebérrimo Afonso Costa de boa memória, mas onde abundaria muita daquela com muitos saberes.

  7. “Mas Habermas contraporia que a sua crítica não tinha a ver com o envolvimento político com o nacional-socialismo, mas com a teimosia em não reconhecer o seu erro.?

    O jovem Heidegger colega de escola de Hitler e mais tarde, já filósodo famoso, filiado no partido nazi queria, na discussão com Habermas e Adorno (este da escola de Frankfurt), sacudir a água suja contaminada do nazismo racista hitleriano, contudo, estes afirmavam que o seu apoio ao nazismo derivava de um erro de pensamento ético-filosófico de Heidegger; o erro filosófico levava-o ao erro político ou, o erro ideológico levava-o ao erro filosófico.
    Também, hoje em dia, surgem filósofos de variados lados empunhando bandeiras nacionalistas, retrógrados, racistas, supremacistas trumpistas assim como teologias aiatolistas, desumanas, primitivistas.
    E muitos pensam, aparvalhadamente, que existe no conjunto da ‘Sociedade Humana’ um conjunto de ‘homens bons’, impolutos, os quais seriam a ‘salvação’ do mundo contra os ‘maus’. Marx, embalado por Engels pensou ter havido comunidades primitivas paradisíacas; daí, nos seus estudo de rato de biblioteca, descobriu no ‘operariado’ o tal ‘conjunto humano’ capaz de redimir a comunidade humana no seu total. A História recente assinala o resultado de tal ideia de ‘salvação’ pela classe operária.
    A mesma comunidade humana que, sempre enganada, não deixa, contudo, de procurar soluções melhores e melhorar sempre o que foi e é: desde os gregos que tem à mão a melhor solução até hoje inventada, precisamente, contra tiranos, para minorar brutos poderes religiosos absolutos ou poderes de força bruta inumanos.
    O problema está em o povo saber obrigar o poder democrático a ser verdadeiramente democrático sem truques de governança. Vejamos; nós confiamos o nosso voto num governo e fazemo-lo leal e integralmente num momento; formado o governo de nossa confiança, de imediato, tal governo deixa de confiar no cidadão o qual enreda e afoga com leis e papelada num mundo de burocracia sem freio ou, mesmo, sem qualquer sentido a não ser o control do cidadão; nós confiamos tudo ao governo com o nosso voto num momento único e logo após tomar posse, esse governo, desconfia do cidadão que confiou nele.
    Se o povo lhe dá a sua confiança para ser governo então tal governo tem de confiar igualmente em quem o elegeu; todos os contratos entre humanos funcionam na base da confiança mútua; a lei existe para os que a subvertem vindos de qualquer uma das partes.
    Por exemplo; os atingidos pelas tempestades faziam as suas estimativas com as autoridades locais e solicitam um auxílio de x euros; o Estado, entregava de imediato as verbas solicitadas, dento do disponível, para a reposição dos estragos; no final faziam-se as contas e caso se verificasse tentativa de abuso de sacar dinheiro da desgraça, aí, então, a lei deveria ser severíssima.
    Enfim, em consonância com a confiança entre cidadão e governo eleito bastaria ao cidadão proceder sob sua honra e bom nome; em caso de golpada, arcaria com pena severa.
    A cidadania chegará um dia a tal nível democrático?

  8. “Marx, embalado por Engels pensou ter havido comunidades primitivas paradisíacas”

    já é cliché alguém na internet a dizer que marx nunca previu algo acerca do qual ele extensivamente, mas esta de dizer que marx pensou uma coisa que ele nunca na vida escreveu é nova.
    deve ser algum trauma cultural cristão, só pode.

  9. O que a autocracia chinesa fez foi incentivar e participar activamente na exploração da sua população para encher mamões, sobretudo americanos, em condições de semiescravatura próximas das da Europa do séc. XIX. Para serem apenas um pouco menos miseráveis, milhões de chineses sujeitam-se a vidas terríveis em fábricas de pesadelo, e crimes ambientais cuja factura todos vamos pagar.

    A isto acresce uma sociedade chinesa cada vez mais venal e desigual, enquanto a China é há largos anos o principal financiador do terrorismo americano pelo mundo, graças aos dólares que compra e mantém. Que alguém que se diz socialista, ou apenas de esquerda, veja na China um exemplo a seguir diz muito sobre a ‘esquerda’ de hoje – que triste colecção de xuxas, vendidos e desiludidos.

    Cereja no bolo: achar que só na democracia directa há “carneirada manipulada” – como se houvesse outra coisa na partidocracia vigente, onde se reelege o mesmo Centrão podre, trafulha e demagogo há décadas. Mas suponho que isto seja de esperar em alguém que vê ‘elevadíssimos contributos’ em sucateiros, e um visionário no seu pulhítico mais ruinoso e mafioso – o triste parolo de Paris.

  10. “Marx, embalado por Engels pensou ter havido comunidades primitivas paradisíacas”

    Escrevi tal sinteticamente para quem já tem algum conhecimento de Engels e Marx. Claro, não foi Marx que escreveu sobre ‘paraísos’ existentes nas GENS primitivas, não, digo sim que foi Engels, baseado no livro de Lewis Morgan de 1877 “A Sociedade Primitiva”, faz a sua livre interpretação deste livro no seu “A Origem da Família da Propriedade e do Estado”, de 1884, quando, baseado no dito livro de Morgan, faz a apologia da comunidade consanguínea das Gens como a sociedade fraternal ideal que trata como a verdadeira comunidade da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e conduz todo o seu estudo a fazer passar uma ideia apologética total da Sociedade sem classes que ambos, Marx e Engels’ advogavam para o mundo.
    Marx, claro, sabedor e influenciado pelo conhecimento de tal fraternidade e igualdade levou-o a ‘descobrir’ nos seus estudos acerca do seu movimento para o ‘Socialismo-Comunismo’ a impoluta “Classe Operária” como a nova classe capaz de voltar a realizar a ‘fraternidade e igualdade’ perdida.
    Viu, neste ‘achado’, uma analogia perfeita para ilustrar o seu pensamento revolucionário.
    Engels mais radical ultrapassava pela esquerda o próprio Marx; enquanto este ainda estudava o socialismo utópico-dialético já Engels se lançava na ‘descoberta’ do “Socialismo Científico”

  11. ou seja, quando se pedem pormenores acerca da asserção descobre-se que é falsa e nada existe que a fundamente que não esteja na cabeça do autor da mesma. se apertarmos mais um bocadinho, ainda descobrimos que acerca do que marx realmente escreveu e teorizou, o já referido autor compreendeu nada. por isso repito, só pode ser trauma cultural cristão mal resolvido, onde aí sim existem comunidades primitivas paradisiacas e dizem alguns por este blogue serviu de base à sociedade ocidental. ou então, alguma incapacidade de compreender como qualquer sociedade (no caso em apreço a capitalista, onde este movimento foi extremamente acelerado devido à maquinaria) nos aliena da nossa natureza, o que a esta altura do campeonato só pode ser ridicularizado rapidamente como “mentalidade de servo” e absolutamente desprezado.

    “Viu, neste ‘achado’, uma analogia perfeita para ilustrar o seu pensamento revolucionário.”
    ai sim? mostre lá onde é que marx o diz, por favor. isto resulta sempre, aprendam comigo.

  12. @Jose Neves
    Pois é pah… ler livros ou assistir a aulas é um rematado aborrecimento… o vídeo do tik tok a comentar o filme é bem melhor!
    Like!

  13. O texto é um panegírico, só assim é possível não assinalar a contradição entre a questão de Habermas com Heidegger e o nazismo, com a sua tomada de posição acerca de Gaza, alegando a razão de estado alemã. Isto evidencia a tensão entre os seus ideais e o excepcionalismo alemão, a sua falta de dimensão ética.
    Na Alemanha é impossível ter um debate civilizado e decente sobre Israel, há um cancelamento imediato de quem ousar debater a questão palestina quando não mesmo expulsão é/ou prisão.Parece não haver lugar para a ação comunicativa, o diálogo racional e democracia deliberativa.

    A história da civilização ocidental é inerente á barbárie, negar isso só revela um etnocentrismo supremacista ou um idealismo pernicioso ignorante da realidade.

    A noção que tudo é racional, debatível e rebatível e logo consensual omite o silêncio como argumento (4’33”) e a força como fator decisivo nos conflitos. Na política e nas relações de poder a razão é instrumental.

    Quem se relacionou de perto com Heidegger foi Anna Arendt sua amante, musa e aluna. Também o questionou sobre a sua posição política e de colaboração com o nazismo, numa nota de correspondência disse-lhe que havia “permanecido fiel e infiel, sempre com amor”. O perdão.

  14. Ó, Marx-Goucho, tão goucho que me obrigas a interpretar pata ti o texto que postei para leitores medianamente entendidos.
    A frase,
    “Viu, neste ‘achado’, uma analogia perfeita para ilustrar o seu pensamento revolucionário.” inserida no post é claro, para qualquer leitor mínimo, que é uma opinião, uma afirmação do autor do post e que é fruto de um pensamento feito de muitas leituras e críticas de variados autores acerca de Marx e do marxismo.

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