Vinte Linhas 363

«Imiscuir-se» não é o mesmo que «eximir-se» – é assim, vem nos livros

Abriu uma nova livraria em Lisboa e a minha filha mais nova esteve lá. Trouxe-me um livro sobre os campeonatos do Mundo de 1930 a 2006. Os autores são Rémulo Jónatas, Pedro Cunha, Sérgio Pires e José Pimentel. Até aqui tudo bem. O pior veio depois. Na página 142 aparece uma frase errada referente a 1982 «A Itália foi a primeira selecção a sagrar-se tricampeã do Mundo». Errada porque o Brasil em 1958, 1962 e 1970 já tinha sido tricampeão mundial. Na página 116 aparece escrito «Pelé lesionou-se no jogo contra Portugal» quando Pelé se lesionou (sofreu uma entrada violenta de Voutsov) no jogo com a Bulgária em 12-7-1966 de tal modo que não jogou contra a Hungria em 15-7-1966 ao contrário do que está escrito na página 196 («derrota com o búlgaros por 3-1 na qual Pelé não joga por lesão»). Quando jogou com Portugal em 19-7-1966 Pelé não estava nem podia estar em condições mas o treinador brasileiro apostou no «tudo por tudo» e o resultado não podia ter sido outro – a derrota do Brasil.

Na página 218 uma «caixa» intitulada «Terramoto em Moscovo» revela que depois da derrota em Portugal por 7-1 no Estádio José Alvalade os jogadores russos foram acusados de «falta de patriotismo» além de «falta de profissionalismo». E segue: «Nem o presidente do Parlamento russo, Boris Grizlov, se imiscuiu de considerar um pesadelo o estrondoso desaire de Alvalade». Ora bem «Nem o presidente se imiscuiu» não pode ser. Tem que ser «Nem o presidente se eximiu» porque imiscuir é «intrometer-se» mas eximir-se é «dispensar». A ideia era essa mas foi mal concretizada. Nem o presidente se eximiu de considerar um pesadelo o estrondoso desaire de Alvalade. Assim, sim.

Numerologia – II

11. Rangel é um animal de rixa de bancada, da boquinha sacana e da filha-de-putice do ganho de curto prazo como estratégia de longa duração. Foi o que fez na celebração do 25 de Abril na Assembleia da República, marimbando-se para a solenidade e simbolismo da ocasião, onde assinou por baixo um discurso comicieiro e arruaceiro. O miserabilismo político do PSD é tal que a sua falta de qualidades como estadista se transformou, por propaganda da claque, em embalagem de inteligência. Pode mudar, claro, mas neste momento a sua fama diz mais de quem o rodeia do que de si, ça va sans dire.

12. Todos os treinadores são bestiais quando ganham, bestas quando perdem. Um treinador pode, a 5 minutos do fim, meter um coxo no jogo e ainda vir a ser louvado pela sua ciência do pontapé na bola só porque o coxo, sem saber como, marcou o golo da vitória no último minuto. A tentação é a de atribuir ao treinador um qualquer poder que esteve na origem do acontecimento decisivo, mas a verdade está noutro lado: no ranço do coxo, no galo do guarda-redes. Assim na política. Muito provavelmente, o PSD teria o mesmo resultado, ou até melhor, com Marques Mendes. E o PS poderia ter o mesmo resultado, e até pior, sem Vital. Porquê? Porque, como toda a oposição o disse à partida e à chegada, nestas eleições só interessava atacar o Governo, o PS e Sócrates, para que imediatamente se pudessem usar os resultados para alimentar o fogaréu das Legislativas. Era inútil perder tempo a pensar em quem se estava a candidatar para a função, ou sequer no que ia para lá fazer.

Continuar a lerNumerologia – II

Palavras em jogo 03

Charneca, Lezíria e Bairro

Vivi em Vila Franca de Xira de 1961 a 1966 e fui colega de turma do Álvaro Pato mas só há muito pouco tempo soube da existência do livro de contos do seu tio Carlos Pato que a PIDE matou com 29 anos de idade em 26 de Junho de 1950.

O livro «Alguns contos» foi editado por Alves Redol em 1951 e contém apenas três contos. O primeiro («Ao receber a jorna») tem como heroína Maria Alexandrina, trabalhadora rural que leva duas filhas para o campo porque não há creches nem infantários. Depois da semana de trabalho chega o dia de receber a jorna: «Uma cantou para que o tempo passasse; as outras ouviram caladas».

O segundo conto («Valados») mostra que o campo não é só paisagem («Tejo bom quando dá pão, mau quando o leva e não o dá») mas também lugar de luta. A falta de assistência médica é o drama em gente desta história.

O terceiro conto («Graxas») fala de um grupo de miúdos que brinca no Tejo. Nesse grupo de engraxadores nem todos sonham com o campo. Divididos entre trabalho e desporto, entre a Estação da CP e a aberta do Tejo onde nadam, eles são um elo na corrida de estafetas por um mundo melhor. Também perguntam entre si «Quando virá o dia que a gente muda de vida?» para logo um deles responder: «Não vem longe, Chico!».

Carlos Pato poderia ter sido um grande escritor. Há na tessitura dos seus contos a ampla respiração de um talento criador e um domínio perfeito da nossa língua. Mas a PIDE não deixou. Tal como não o deixou conhecer os filhos: a Clara tinha 8 meses quando o pai foi preso, o João Carlos nasceu em 2-12-1949 ou seja 5 meses depois da prisão do pai.

Numerologia

1. A vitória do PSD foi espectacular. Até ganharam nos Açores, e só isso é prova bastante do fenómeno peculiar que está na origem da boa nova. A boa nova, entenda-se, é esta de se continuar com a Ferreira Leite em palco, continuando a lembrar-nos de quem são aquelas pessoas que representa, e agora acompanhada por uma figura que se imagina especial de corrida e que não passa de um anafado bluff. Aliás, também a JSD está cheia de barrigudos, aquilo é malta que não anda a pé nem para atravessar a rua.

2. O BE não é um partido, é uma marca. A marca do contrapoder, do protesto chic, corporativo, emocional, ignorante, porque sim. Que quer o Bloco? Acabar com a civilização Ocidental, ou coisa parecida. Isto é, não querem nada de especial, apenas um pedaço do mercado.

3. Jerónimo discursou como um patriarca bíblico anunciando aos fiéis que eles continuam a ser o povo eleito. Provas? Dois deputados a caminho das estrelas.

4. Paulo Portas disse que ia apresentar uma moção de censura. Portas ainda não entrou no século XXI.

5. A abstenção subiu e o número de votantes também. Os números enganam. E que o digam as empresas de sondagens, invariavelmente acusadas de distorção intencional por quem não fica bem no retrato, mas cujo negócio depende do acerto das previsões. Aliás, aparecer mal cotado numa sondagem pode ser bom, e vice-versa. A vontade da turbamulta ainda consegue ser mais complexa do que as amostras e modelos matemáticos que a pretendem antecipar.

6. Marinho Pinto obteve 6,6% dos votos. Elegeu um deputado sozinho, sem máquina partidária, mas não vai para Bruxelas.

7. Vital revelou nesta campanha, e na hora de assumir a derrota, uma constante frontalidade e sinceridade. O resultado não o penaliza, porque é óbvio que ele deu o seu melhor. Foi um exemplo de generosidade.

8. Caso o PS tivesse ganhado as eleições, a oposição diria que o Governo tinha manipulado a consciência dos portugueses com mentiras, propaganda e ataques caluniosos ao PSD e Presidente da República por causa do BPN. Como o PS perdeu, os portugueses são maravilhosos e deram uma lição de democracia. Safaram-se de boa, os portugueses.

9. Pacheco tem denunciado com furor e genialidade a maquiavélica operação do Governo para obter vitória atrás de vitória nas eleições: o controlo do Jornal da Tarde da RTP. Ele tem números, ao segundo, que revelam a dimensão da perfídia. E sabe bem da importância estratégica deste alvo mediático: garantir o voto dos velhinhos. Pois bem, Pacheco, talvez possas, a partir de agora, descansar um bocadinho, largar o cronómetro e almoçar com mais calma.

10. Algures entre as 8 e as 9 da noite, Ana Drago desabafou, com um erotismo amazónico, que o que mais desejava era ver o discurso de Sócrates. Rangel, Manela, Louçã e Portas, todos disseram que esta tinha sido uma enorme derrota de Sócrates. Milhares de professores devem ter tido pré-orgasmos com a tremenda derrota do Engenheiro. Sócrates sempre no centro, sempre acima, sempre secretamente admirado pelos adversários. E quando falou, fez o melhor discurso da noite. Porque se limitou a dizer o óbvio: se não me querem, dentro de poucos meses vão deixar de me aturar. É só isto, é uma conta tão fácil de fazer.

Projecções e projécteis

As projecções dão vitória ao PSD e mostram o BE tão ou mais forte do que o PCP. Se assim se confirmar, e mesmo que a vitória do PS ainda seja possível por margem residual, é um excelente resultado para a revitalização da política nacional. Porque nos alerta e desperta.

Olhemos para quem está a disparar — para onde apontam?

Uma campanha comovente

Quem se queixou da baixa qualidade desta campanha para as Europeias, desgostado com a falta de debate ou com a chinfrineira das acusações entre adversários, tem de começar a tirar o plástico aos calhamaços do Circulo de Leitores que preenchem as prateleiras lá de casa. Nalgum deles, garanto, está escrito que a política não é serena, não é cordata, não é panhonha. E nunca o foi, antes pelo contrário, bem pelo contrário. A invenção da democracia é muito recente na História, mesmo que a remetamos para os Gregos. Se a situarmos a partir da Revolução Francesa, é recentíssima. E se pensarmos só em Portugal, chegou ontem. Ou seja, ainda não existe uma adaptação genética à evolução cultural, os cérebros ainda se baralham com este complexo paradigma onde o poder é do povo e do Estado, da multidão e de cada um.

Continuar a lerUma campanha comovente

Palavras em jogo 02

As duzentas mulheres da Lezíria

A voz de Susan Boyle, um misto de potência e beleza, majestade e furor, limpidez e eficácia, rebentou com a escala num concurso televisivo inglês. Vergou o desdém do júri e a má vontade do público. Ocorreu-me logo a memória de um poema de Miguel Torga sobre as mulheres da Lezíria. O que na mulher escocesa de 47 anos era anonimato e solidão era, nas palavras de Torga, o esplendor da voz da Terra, a tristeza multiplicada de duzentas mulheres com os pés enterrados na água do arroz. E todas as colheitas perdidas dos sonhos por realizar. Não por acaso a canção do musical «Os Miseráveis» que levou a voz de Susan Boyle a todo o mundo se chama, em português, «Eu sonhei um sonho». Eis o poema de Torga:

São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa

Que se debruça e já nem mostra o rosto.

Cantam, plantadas n´água

Ao sol e a à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez,

Cantam baixo e parece

Que na raiz humana dos seus pés

Qualquer coisa apodrece.

Elas cantavam «o Norte e o Sul duma só vez» porque nesse tempo arrastado das migrações sazonais para o Ribatejo os ranchos de mulheres juntavam, na alta pureza das vozes a cantar, o esplendor dos sonhos enterrados no lodo com os pés de quem cantava.

Inacreditável

Este jogo com a Albânia foi inacreditável. Meter o Boa Morte na equipa foi inacreditável, teríamos tido melhor ataque com mais um defesa em vez dele. O golo do Hugo Almeida foi inacreditável, porque só foi conseguido por ter sido uma oferta de uma selecção amadora chamada Albânia. O golo da Albânia foi inacreditável, porque foi uma oferta de uma selecção altamente profissionalizada chamada Portugal. A ineficácia de Ronaldo e Deco foi inacreditável, parecendo jogadores medianos quando jogam nesta selecção. A falta de inteligência do futebol de Portugal foi inacreditável, falhando passes fáceis e não sabendo ludibriar jogadores medíocres através da técnica individual e cultura táctica colectiva. A segunda parte foi inacreditável, porque estivemos o tempo todo na iminência de levar com outra batata dos albaneses. A vitória de Portugal foi inacreditável, pois merecia ter saído empatada como equipa de empatas que foi ou é.

Palavras em jogo 01

Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés

Meu pai não tinha sandálias de vento. No ano de 1956 meu pai tinha uma bicicleta cor de cinza e eu sempre soube distinguir, na pequena descida da Várzea do Lameirão, o som inconfundível da roda pedaleira em descanso. Para os outros era penas mais uma bicicleta; para mim era a bicicleta. Não havia outra. Foi nessa bicicleta que ele fez viagens repetidas entre Santa Catarina e Santarém para tirar a carta de condução de pesados. Eram noventa quilómetros por semana, por estradas péssimas, debaixo de chuva, levando batatas e azeite de casa para comprar todos os dias o peixe mais barato no mercado da cidade. Pedalou sacrifícios, suores, poupanças, vento agreste e o mais que natural desejo de fugir ao seu destino traçado de cavador. Ou como dizia o senhor padre Castelão na missa de domingo anunciando futuros casamentos: profissão «jornaleiro». Porque viviam, fingiam que viviam, da jorna paga aos domingos de manhã no largo maior da terra depois da missa e antes da ida à taberna. Quando meu pai voltou orgulhoso da sua carta de pesados e de serviço público, o patrão resolveu contratar um motorista nascido numa aldeia perto de Alcobaça. Vingou-se assim do seu analfabetismo total: como não conseguia tirar a carta de condução pagou uma fortuna a uns aldrabões que o receberam num café das Caldas da Rainha. Saíram pelas traseiras e deixaram-no só, sem dinheiro e sem carta de condução. Foi assim, na trilogia Deus/Pátria/ Autoridade, numa aldeia da Estremadura que aprendi o sentido exacto e total da palavra fascismo. Afinal uma palavra ainda desconhecida para mim nesse já distante ano de 1956. Bastaram dez palavras assim pronunciadas: «Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés».

Presbiopia

A melhor forma de respeitarmos o cidadão Cavaco Silva é abandonarmos o respeitinho pelo Presidente da República. Coloquemos a questão no seu devido lugar: é o Presidente da República que começa por dever respeito à Constituição, aos concidadãos, aos eleitores, ao Parlamento e à Pátria. Por isso, calhando aparecer um Presidente da República tão inábil como este que temos em funções, é sua obrigação prestar contas públicas e provar que está à altura da responsabilidade.

Continuar a lerPresbiopia

Vinte Linhas 362

«O omãi qe dava pulus» ou Nuno Bragança com 4 anos

Acabei de ver no Centro Nacional de Cultura o filme «O omãi qe dava pulus» de João Pinto Nogueira e recordei de imediato com muita emoção o Nuno Bragança que conheci em 1982 na Editora Moraes. O filme é muito curioso, integra imagens em «super 8» e alguns depoimentos de várias figuras portuguesas que conheceram bem o autor de «A noite e o riso», «Directa» ou ainda «Square Tolstoi». Eu gostei do filme (um achado como solução) mas puxo a brasa à minha sardinha e como gosto muito de crónicas lembro uma crónica de Nuno Bragança no Diário Popular de 10-2-1982 na qual, com a sua habitual lucidez, escreve: «Quem vive do seu trabalho está farto de ver como florescem a corrupção e o contrabando, como o poder judicial favorece a criminalidade soltando a malandragem que a PSP captura, como os ministros emproados e os seus seguidores estão separados da população por um fosso intransponível, resultante de viverem numa atitude donde já não se vê nem se ouve e já da qual ninguém tem vergonha na cara em prejudicar os pobres nos pontos mais sensíveis, como se quisesse mesmo tramar a vida deles (casos da assistência hospitalar, dos preços dos medicamentos, da severidade contentora do leite distribuído pelos professores primários às crianças mais miseráveis e tantas pisadelas mais)». O título da crónica é sugestivo («O povo é sereno mas não é parvo») e termina de modo sério: «Ó pessoas sérias do PS português: estarão enfim dispostas a mostrarem quem são – ou vão mais uma vez ficar à espera de Godot?»

Vinte e sete anos depois, a crónica (escolhida por Fernando Venâncio para o Círculo de Leitores como uma das cem melhores do século XX) mantém toda a actualidade.

Goldfinger

Mas Vital deveria saber que existe uma regra de ouro nestes “negócios” em Portugal: é que sempre são feitos em tandem entre gente do PSD e do PS. Talvez neste caso, houvesse um maior desequilibrio do que o costume, mais PSD e menos PS, e talvez seja por isso que muitas protecções não se verificaram. Bem pelo contrário.

Pacheco

Pacheco Pereira anda na política há mais de 40 anos, e acrescenta à experiência pessoal a de terceiros que adquire na alexandrina leitura, continuada docência e aturada investigação. É também o publicista com maior poder, se por poder se medir a quantidade de meios de comunicação onde exerce o seu mister opinativo. Finalmente, é um destacado militante e conselheiro do PSD, participando por conta própria na luta política. Vai daí, se um passarão deste calibre diz que há uma regra de ouro em certos “negócios”, é avisado acreditar que ele sabe perfeitamente do que está a falar.

Continuar a lerGoldfinger

Ainda não és leitor do maradona?

Então, vai ler isto. E despacha-te que o cabrão não se aguenta nos postes.

Adenda: à conta da maravilha do maradona, estreei-me na leitura dos comentários do Portugal dos Pequeninos, onde o autor escarrapachou esta imbecilidade, e agora tenho 87 euros e 20 cêntimos para entregar ao maradona, que é o exacto valor que eu acho que ele merece por causa dos momentos de felicidade que a leitura da imbecilidade, e dos comentários que ela atraiu, me proporcionou, e vai continuar a proporcionar, mas não sei para onde lhe enviar o dinheirinho.

Vinte Linhas 361

Canção ébria

Encontrei num livro de Pedro Homem de Mello o verso que procurava para demonstrar uma ideia – ninguém pode ser quem não é. Gostaria de revelar para todos um poema desse livro (Bodas vermelhas) que me parece um belíssimo texto.

*

Não há ciência: há segredo.

E a eternidade é um minuto

Não há silêncios: há medo.

Não há lágrimas: há luto.

Triste, triste, triste, triste

Tristeza de entristecer!

Dança meu bem! Que o prazer

Só ele e mais nada existe.

Olha os palácios escuros

Em que as salas são cavernas!

Olha os jardins! Troncos, muros,

Raízes fundas, eternas…

Olha tanta vida bela!

Olha tanta mocidade

Que nunca foi à janela

Ver se o dia era verdade!

Ó ruas negras sem luz!

Ó noites sem maresia!

Ó terra áspera e fria

Que tudo a cinzas reduz!

E aquela pena apressada

Pior que a treva e que a neve

Que antes que a morte a leve

Escreve e não conta nada?

Que disse a bruxa a teu pai?

Ao longe cantam… Então,

Ergue flâmulas e vai

Atrás daquela canção!

Apenas não me enganaram

As vozes dos meus sentidos

Todos os mapas ficaram

Com nomes desconhecidos.

Mar de Java? Mar Egeu?

Alcácer? Damão e Diu?

Irmãos! Quem sois? Quem sou eu?

Tive uma filha e morreu.

Tive um amigo e mentiu.

As estrelas são estrelas

Não porque assim o quiseste.

As estrelas são estrelas

Como o cipreste é cipreste.

Quantas contaste? – Nenhuma.

Quem tas apontou? – Ninguém.

Dança! Dança! Enquanto a bruma

Te esquecer… Dança meu bem!

Cicuta

Um dia antes da manifestação de sábado, uma entrevista de José Gil juntava-se ao material altamente combustível com que se pretendeu incendiar a malta. O título escolhido foi Filósofo José Gil diz que o Ministério da Educação “virou todos contra todos”. Mas poderiam ter sido outros os títulos de inegável apelo:

Filósofo José Gil diz que “são as pessoas um bocado desviantes que fazem as maiores descobertas e depois tornam-se Nóbeis, etc.”

Filósofo José Gil diz que é preciso recuperar a “relação antiga do mestre e discípulo na Renascença”

Filósofo José Gil diz que “nas crianças, na escola primária, a relação afectiva com a professora é fundamental para as aprendizagens”

Filósofo José Gil diz que “Ministério virou os alunos contra os professores”

Filósofo José Gil diz que “hoje ninguém mostra curiosidade”

Filósofo José Gil diz que “o que parece estar a constituir-se é um chico-espertismo”

Filósofo José Gil diz que “Portugal pode ficar entalado”

Continuar a lerCicuta