Cicuta

Um dia antes da manifestação de sábado, uma entrevista de José Gil juntava-se ao material altamente combustível com que se pretendeu incendiar a malta. O título escolhido foi Filósofo José Gil diz que o Ministério da Educação “virou todos contra todos”. Mas poderiam ter sido outros os títulos de inegável apelo:

Filósofo José Gil diz que “são as pessoas um bocado desviantes que fazem as maiores descobertas e depois tornam-se Nóbeis, etc.”

Filósofo José Gil diz que é preciso recuperar a “relação antiga do mestre e discípulo na Renascença”

Filósofo José Gil diz que “nas crianças, na escola primária, a relação afectiva com a professora é fundamental para as aprendizagens”

Filósofo José Gil diz que “Ministério virou os alunos contra os professores”

Filósofo José Gil diz que “hoje ninguém mostra curiosidade”

Filósofo José Gil diz que “o que parece estar a constituir-se é um chico-espertismo”

Filósofo José Gil diz que “Portugal pode ficar entalado”


Que fica desta salgalhada? Que José Gil está a dar uma entrevista, sim, mas que José Gil não está a falar como filósofo. Um filósofo, por metodologia ou vocação, não é acrítico, e este discurso é uma mistura entre a charlatanice ilustrada e o império do ressabiamento. É a parcialidade, a superficialidade e a inconsequência erigidas como panfleto mobilizador. São congéneres da filosofia desse brilhante pensador de nome Mário Nogueira:

O porta-voz da Plataforma Sindical de Professores considerou que o protesto realizado este sábado em Lisboa pelos professores é uma «lição de dignidade para quem há-de levar com mais lições».

Dirigindo-se à ministra da Educação, Mário Nogueira não teve dúvidas em dizer que este protesto que, segundo ele reuniu 80 mil pessoas, foi uma «vitória dos professores» e que as declarações de Maria de Lurdes Rodrigues «valem o desrespeito e desprezo» dos docentes.

O também dirigente da Fenprof criticou ainda duramente a ministra da Educação e o primeiro-ministro José Sócrates sublinhando que são «gente que não sabe governar e que não legitima a maioria absoluta porque a transforma em ditadura de incompetência, prepotência e arrogância».

Mário Nogueira não poupou ainda palavras contra a «manipulação de números e resultados» relacionados com «os resultados espectaculares» das Novas Oportunidades e os computadores Magalhães.

«Podem referir-se as extraordinárias obras do parque escolar, as inebriantes melhorias da assiduidade dos alunos, as apetecíveis esmolas da Acção Social Escolar, mas o primeiro-ministro não pode iludir a realidade e fazer de conta que resolveu problemas», lembrou.

Para Mário Nogueira, o que José Sócrates fez foi «esconder os problemas, foi atirá-los para debaixo da carpete, foi varrê-los para onde ninguém vê, o que é uma vergonha e não resolve os problemas».

Fonte

Mário Nogueira tem repetido que é objectivo político da Fenprof conseguir interferir nas eleições ao ponto de impedir que o PS tenha maioria absoluta. Isso faz com que os actos da Fenprof sejam inevitáveis peças de uma contínua campanha eleitoral a favor de alguns partidos, ou partido, que não o PS. Esta foi uma desbocada assunção, reveladora da cultura anti-democrática que vai manipulando o movimento sindical sob controlo do PCP. Pelo que se lamenta ver o filósofo José Gil a mergulhar de cabeça nesta piscina de cicuta.

11 thoughts on “Cicuta”

  1. cicuta malhada? Não desdigo que te leio com tanto interesse quanto ao Gil, não digo mais porque não quero ofender o artº 13º da Constituição. Amanhã vemos isso, agora é isto.

  2. Não se pouparam a esforços e para se perceber o que são ‘manipulações de números’, o melhor exemplo que me ocorre é o de um estudo publicado pela Visão, no qual se pode ver que a uma pergunta sobre quais as causas para os maus resultados da Educação, em 14 opções apresentadas, curiosamente, os professores não aparecem em nenhuma. Resultado: os alunos são a principal causa. É como dizer que a culpa dos problemas na Justiça é dos criminosos, que não há meio de perceberem que a lei é para se cumprir. Mas, se olharmos para o que se falou antes e depois da manifestação, creio que esta ficou um bocadinho aquém das expectativas.

    Esta entrevista ao filósofo José Gil deixou-me um pouco confusa, sobretudo pela generalização que ele faz. Parece-me bastante injusta para muitos dos envolvidos. Existem com certeza escolas com muitos problemas e os professores como qualquer classe profissional também os têm, o que custa é que não reconheçam a este governo nenhum mérito em qualquer das medidas tomadas. Vivo praticamente no meio de um parque escolar e desportivo que inclui escolas de todos os níveis de ensino e até uma escola superior. São milhares de alunos, estou rodeada de ‘maltinha’ por todos os lados e a ver pelo seu comportamento tão civilizado, diria que daqui não sairão quaisquer Nóbeis. Para além disso levo os meus filhos à escola, diariamente, há 9 anos, participo nas reuniões de pais e de conselho de turma.
    Os professores, nestes últimos anos não se queixam, por incrível que pareça, nem dos alunos, nem dos pais, que embora possam e devam fazer melhor, cada vez apoiam mais os filhos e os professores. É normal, porque as anteriores gerações de pais ou eram constituídas por analfabetos ou por pessoas com uma formação inferior à que têm actualmente. Antes reclamavam do facto de mudarem de escola todos os anos e agora reclamam da ministra. Não encontram grande eco nos pais, porque, por exemplo, as aulas de substituição em que alguns professores e outros pensadores tantos defeitos encontram vieram acabar com uma das principais queixas dos pais em relação aos professores: as faltas. Os professores faltavam e os alunos aproveitavam os furos para irem até aos cafés mais próximos, se o ambiente estivesse bom nem iam às aulas seguintes, falava-se em venda de drogas à porta das escolas e tudo isso, senão acabou, pelo menos melhorou muito.

    A relação entre professores e alunos é como tudo, há para todos os gostos. Vou dar um exemplo: o professor do meu filho, que frequenta o 1º ano, no início do ano lectivo avisou os pais que no final do ano, por causa da avaliação dos professores, ia pedir a reforma. Agora, diz-nos que gostou tanto da turma, que trabalharam tanto, que se afeiçoou aos meninos e que, portanto, vai adiar a reforma e continuar a ser o seu professor até que acabem o 1º ciclo.

  3. isto vai devagarinho Valupi, aviso já. Ao Gil eu devo a visão escrita nos anos oitenta de que a dissociação crescente entre ser e parecer, só parecer é que importava, teria custos elevados de desmoronamento no futuro …

    Não tenhas dúvidas que isso da avaliação transparente da ‘performance’ dos professores tem custos humanos elevados com reflexos na disponibilidade mental dos actantes, devem andar muito exauridos, a ser avaliados por ministério, alunos, pais e colegas, com as perversões humanas à mistura, e depois aquela senhora doutro dia deve ter tido foi uma crise de prozac, vais ver que ainda foi isso.

  4. Excelente Val, gostaria eu de escrever também assim (e muito mais diria sobre esta entrevista, se fosse fiel ao que sinto).

    Pena ver José Gil deixar-se cegar pelo facciosismo e diminuir-se pela teimosia. É bem o arquétipo do “filósofo”, do “intelectual” português que nasceu para a Democracia marcado pelo ferrete empobrecedor do anti-fascismo.

    Os nossos Sociólogos actuais, se quisessem mesmo prestar algum serviço visível à Nação, deveriam a esta hora estar a dissecar e analisar (denunciar?) esta mentalidade tacanha das actuais élites nacionais, que oscila entre dois pólos opostos, na ideologia, mas que se fundem numa mesma mequinhez: onde um está toldado pela mortalha do obscurantismo beato e do oportunismo medíocre e provinciano, o outro vive (e morrerá…) encandeado pelo marxismo rígido e deslumbrado, que vê toda a realidade a preto-e-branco e num contínuo fluxo uni-direccionado.

    Dum lado o Pacheco Pereira, o Vasco Graça Moura e mais todos os eminentes Bispos portugueses, do outro os Josés Gil e Saramago, mais o António Barreto e o Miguel Sousa Tavares.

    Onde encontrar hoje, nas élites sociais e intelectuais portuguesas, portos de abrigo, faróis no nevoeiro, vozes lúcidas e confiáveis que nos recordem um Jorge de Sena, um Agostinho da Silva, um Miguel Torga? Honra seja feita às pouquíssimas excepções que nos restam (como Eduardo Lourenço). Mas precisamos de mais. Para não definharmos como Cultura neste lago de banalidade, conveniência e laxismo.

    QUANDO APARECERÁ A NOSSA PRÓXIMA GERAÇÃO DE OURO EM TERMOS INTELECTUAIS E, SOBRETUDO, MORAIS?

  5. Esqueci-me de dizer que a Visão a que me refiro é a que foi publicada antes da tal manifestação, ou seja, a 28 de Maio.

  6. O que fica dessa «salgalhada» é «apenas» uma coisa: não é preciso ser filósofo para perceber que este governo é uma imagem da manipulação, impostura e do chico-espertismo. Para saber isso basta ser intelectualmente honesto (o que já se viu, é algo dificil para o Valupi) e ter um mínimo de consciência crítica para não engolir a publicidade e propaganda mentirosa do Pinto de Sousa. Porque só quem é cego ou conivente com a charlatanice é que não vê por onde anda verdadeira «charlatanice» e o verdadeiro charlatão.
    Quanto ao dirigente da Fenprof, só quem anda a leste dos protestos dos profs é que não sabe que é aquele (e toda a plataforma sindical) quem anda atrás da revolta dos profs e não o contrário. Para a grande maioria dos profs e dos seus movimentos, as acções e decisões tomadas pelos sindicatos têm ficado aquém do que devia ser feito, e se dependesse daqueles medidas mais radicais já teriam sido tomadas, como é o caso da greve por tempo indeterminado. Por isso, dizer como diz o desonesto Valupi, que o Nogueira está a servir-se dos profs para fazer campanha eleitoral é estar de má fé pela simples razão que são os próprios profs (a sua grande maioria) quem reclama, quem exige, que se lute pelo fim da maioria absoluta do Pinto de Sousa.
    E depois, não são as eleições o grande momento de avaliação de um governo? Então se este governo sempre se mostrou rígido, inflexivel e surdo às reclamações dos profs, o natural é estes verem as eleições como a última (e única) possibilidade de derrotarem o autoritarismo do Pinto de Sousa.

  7. ds, dás muita coisa por garantida, vê lá se não é surpreendido no dias das escolhas. Mas não te aflijas, há sempre a possibilidade do recurso à greve de fome, mas se isso for muito complicado, e é capaz de ser, podes sempre fazer um favor à malta e mudares-te para A Venezuela ou qualquer outra ditadurazeca emergente (das vermelhuscas, claro).

  8. Um favor à malta sócretina é o que tu queres dizer, não é João (ou Eduardo, ou Ébixa ou sejas lá tu quem fores)? Mas por que é que me costumam aparecer cromos como este que só sabem dizer coisas sem qualquer nexo (com o assunto ou não).

  9. Valupi: não concordo nada contigo; o Gil exerceu a sua liberdade de expressão tal como tu a exerces aqui, e disse o que achava de forma justificada, concordes ou não. Muito do que ele diz dá para pensar.

    Ele há-de ter tido um monte de alunos que depois se fizeram professores de liceu, e diz isto:

    «Mas o que é que aconteceu?. Muitos dos que eram bons é que saíram. sairam. Porquê? Não aguentam. E o que é que eles não aguentam? Não aguentam não poder ensinar, não aguentam não poder ter uma relação em que precisamente se construa um grupo em que o professor age, aprende ensinando, em que os alunos querem. »

    Verdade se diga que tudo isto se passa com a emergência da internet, que é algo que não é colocado como pano de fundo. A funcionar com a internet nas escolas as turmas deviam ter quinze alunos no máximo e tudo isto teria que ser recolocado, parece-me, mas que se lixe, já percebi que também não é esta a tua questão. E também não vai ser minha.

  10. z, tu não concordas comigo mas eu concordo contigo: Gil é livre e o que diz dá que pensar. Não sei é onde foi que viste estar eu contra a sua liberdade. Quanto ao que diz, não se trata de um discurso crítico, apenas o aparenta ser. Funciona só como panfleto emocional.

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