Uma campanha comovente

Quem se queixou da baixa qualidade desta campanha para as Europeias, desgostado com a falta de debate ou com a chinfrineira das acusações entre adversários, tem de começar a tirar o plástico aos calhamaços do Circulo de Leitores que preenchem as prateleiras lá de casa. Nalgum deles, garanto, está escrito que a política não é serena, não é cordata, não é panhonha. E nunca o foi, antes pelo contrário, bem pelo contrário. A invenção da democracia é muito recente na História, mesmo que a remetamos para os Gregos. Se a situarmos a partir da Revolução Francesa, é recentíssima. E se pensarmos só em Portugal, chegou ontem. Ou seja, ainda não existe uma adaptação genética à evolução cultural, os cérebros ainda se baralham com este complexo paradigma onde o poder é do povo e do Estado, da multidão e de cada um.


Os Gregos não eram felizes, ou mais felizes, por viverem em democracia. Nem o contrário. Tratava-se era de quererem ser Gregos. A sua sociedade tinha chegado a um estádio em que os cidadãos concebiam uma realização pessoal que passava pela realização colectiva, e o lugar desse acontecimento era a polis, era a cidadania. Querer viver bem, ter a melhor das vidas, tornava-se na questão política por excelência, igual em todos e a todos unindo. A democracia Grega era um comunismo fundado no direito à propriedade privada onde o exercício do poder se instituía simultaneamente obrigatório e aleatório. Mas qual a origem desta absoluta novidade antropológica? O ensino. O ensino era público, permanente e festivo através do teatro. A mistura de uma autónoma classe de intelectuais, que trabalhava a herança mítica e folclórica para a fazer espelho da experiência humana, com o feérico comércio mediterrânico e insular, que ligava povos, memórias e saberes díspares, fez dos Gregos os seres que primeiro se libertaram da infantilidade política.

Todas as pessoas que participaram nesta campanha para as Europeias, de todos os partidos, estão de parabéns. São dos nossos melhores concidadãos, deram o exemplo de cidadania sem o qual a democracia desaparece. A decisão de alguém se comprometer com o nosso destino colectivo, seja em que área for, é louvável. E mais louvável hoje do que ontem, porque aumentou o cinismo, a desconfiança dirigida àqueles que têm a árdua tarefa de gerir, proteger e melhorar o que é nosso. O tempo que vivemos é também de novidades absolutas, para as quais ninguém tem soluções na manga. As disfunções do sistema financeiro internacional e económico que podem criar miséria generalizada, as ameaças ecológicas catastróficas, o imprevisível risco das aplicações científicas nucleares, genéticas e nanotecnológicas, a corrupção assumida como consequência natural da ambição das classes altas, a fraqueza das autoridades públicas contaminadas pelos poderes fácticos dissolutos, o crime ultra-organizado e a loucura terrorista não são apenas angústias para o jantar, são também o nosso lote comum. Que se desiludam os telespectadores, estamos todos cada vez mais ligados. E ainda bem.

Nesta campanha, foi comovente ver o pânico do CDS com as sondagens, o moralismo de Ilda Figueiredo, a desbragada demagogia do Bloco, a vitalidade temerária de Vital, e, muito especialmente, o esforço tremendo de Rangel e Ferreira Leite para manter ligado à máquina um partido em coma profundo. Muito obrigado, amigos e companheiros.

6 thoughts on “Uma campanha comovente”

  1. Dir-se-ia que desta conseguiu ser certeiro, na conclusão do texto. Os restantes parágrafas são o patatá-patati a que já estamos habituados.
    Agora há que ter serenidade para esperar e analisar os resultados. Os povos por vezes ensandecem, como aconteceu com o italiano, que elegeu aquela coisa que é um vírus, uma doença, um burlão, um mafioso, um traste, etc. Oxalá, ou queira Deus, que nunca cheguemos a tal estado.
    O retrato é de um português que em Novembro terá 87 anos. De seu nome José de Sousa. José de Sousa Saramago.

  2. Eh pá tu tropeças com tanta facilidade nos teus argumentos que até dá dó!

    Eu compreendo que te surjam porque estás empolgado e debitar adjectivos, pereces mesmo o vital que um dia dizia uma coisa, negando-a no dia seguinte sem, contudo, dizer o seu contrário. Enfim!

    Um exemplo, o homem tem com bandeira de campanha a “roubalheira” do BPN para no fonal da campanha vir dizer que não passou dum fait divers. Enfim!

    Queres saber porque tropeças nos teus argumentos? Repara, dizes que o PSD está em coma profundo! Pode ser. Mas se o PS não ganhar com uma margem de 20% a um partido em coma profundo, o que dizer do desempenho do PS?

    Se o PS não tiver uma vitórias por essa margem, podemos comparar o resultado das eleições e respectiva campanha ao jogo de ontem de Tirana? Eu acho que sim!

    O que dirás tu se o PS tiver um vitória tangencial? Que não estando em coma profundo, está pelo menos, em estado comatoso? Eu acho que sim.

    Parece-me que quem vai ter uma grande, grande resultado, a julgar pelas sondagens é o BE! (resultado a que não ajudei, desta vez utilizei o meu voto como forma de protesto e, portanto irreplicável. Aliás como tu propuseste há uns dias)!

  3. Uau, que sondagem SIMPÁTICA para o Animal (politico) Vital!

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