Palavras em jogo 02

As duzentas mulheres da Lezíria

A voz de Susan Boyle, um misto de potência e beleza, majestade e furor, limpidez e eficácia, rebentou com a escala num concurso televisivo inglês. Vergou o desdém do júri e a má vontade do público. Ocorreu-me logo a memória de um poema de Miguel Torga sobre as mulheres da Lezíria. O que na mulher escocesa de 47 anos era anonimato e solidão era, nas palavras de Torga, o esplendor da voz da Terra, a tristeza multiplicada de duzentas mulheres com os pés enterrados na água do arroz. E todas as colheitas perdidas dos sonhos por realizar. Não por acaso a canção do musical «Os Miseráveis» que levou a voz de Susan Boyle a todo o mundo se chama, em português, «Eu sonhei um sonho». Eis o poema de Torga:

São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa

Que se debruça e já nem mostra o rosto.

Cantam, plantadas n´água

Ao sol e a à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez,

Cantam baixo e parece

Que na raiz humana dos seus pés

Qualquer coisa apodrece.

Elas cantavam «o Norte e o Sul duma só vez» porque nesse tempo arrastado das migrações sazonais para o Ribatejo os ranchos de mulheres juntavam, na alta pureza das vozes a cantar, o esplendor dos sonhos enterrados no lodo com os pés de quem cantava.

6 thoughts on “Palavras em jogo 02”

  1. Não me lembrava deste poema de Torga, mas parece-me não haver dúvida de q se trata de um diálogo com o conhecido poema de Fernando Pessoa “Ela canta, pobre ceifeira”.
    Belo apontamento, como habitual.

  2. Também concordo que pode ser esse diálogo. A poesia é sempre uma resposta, uma escada que se sobe pelas palavras acima. Escreve-se para responder. Obrigado pelo comentário atento e amigo.

  3. Eu sonhei um sonho, e agora, o que é que faço com ele?
    Eu, ou comentava isto, ou não comentava. Porque é um texto difícil.

  4. O texto está impecável. Retomas quase a mesma temática do post anterior, mas atenta nesta frase, se faz favor:

    “Ocorreu-me logo a memória de um poema…”

  5. Uma pessoa que escreve sobre livros nos jornais desde 1978 tem que ter, naturalmente, poemas em memória. O contrário é que seria de espantar, Cláudia.

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