Vinte Linhas 362

«O omãi qe dava pulus» ou Nuno Bragança com 4 anos

Acabei de ver no Centro Nacional de Cultura o filme «O omãi qe dava pulus» de João Pinto Nogueira e recordei de imediato com muita emoção o Nuno Bragança que conheci em 1982 na Editora Moraes. O filme é muito curioso, integra imagens em «super 8» e alguns depoimentos de várias figuras portuguesas que conheceram bem o autor de «A noite e o riso», «Directa» ou ainda «Square Tolstoi». Eu gostei do filme (um achado como solução) mas puxo a brasa à minha sardinha e como gosto muito de crónicas lembro uma crónica de Nuno Bragança no Diário Popular de 10-2-1982 na qual, com a sua habitual lucidez, escreve: «Quem vive do seu trabalho está farto de ver como florescem a corrupção e o contrabando, como o poder judicial favorece a criminalidade soltando a malandragem que a PSP captura, como os ministros emproados e os seus seguidores estão separados da população por um fosso intransponível, resultante de viverem numa atitude donde já não se vê nem se ouve e já da qual ninguém tem vergonha na cara em prejudicar os pobres nos pontos mais sensíveis, como se quisesse mesmo tramar a vida deles (casos da assistência hospitalar, dos preços dos medicamentos, da severidade contentora do leite distribuído pelos professores primários às crianças mais miseráveis e tantas pisadelas mais)». O título da crónica é sugestivo («O povo é sereno mas não é parvo») e termina de modo sério: «Ó pessoas sérias do PS português: estarão enfim dispostas a mostrarem quem são – ou vão mais uma vez ficar à espera de Godot?»

Vinte e sete anos depois, a crónica (escolhida por Fernando Venâncio para o Círculo de Leitores como uma das cem melhores do século XX) mantém toda a actualidade.

2 thoughts on “Vinte Linhas 362”

  1. Sem dúvida, é terrível como um texto de 1982 ainda é valido hoje – 2009. A intuição dos artistas, o poder da síntese, o RX do país em meia dúzia de palavras.

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