Goldfinger

Mas Vital deveria saber que existe uma regra de ouro nestes “negócios” em Portugal: é que sempre são feitos em tandem entre gente do PSD e do PS. Talvez neste caso, houvesse um maior desequilibrio do que o costume, mais PSD e menos PS, e talvez seja por isso que muitas protecções não se verificaram. Bem pelo contrário.

Pacheco

Pacheco Pereira anda na política há mais de 40 anos, e acrescenta à experiência pessoal a de terceiros que adquire na alexandrina leitura, continuada docência e aturada investigação. É também o publicista com maior poder, se por poder se medir a quantidade de meios de comunicação onde exerce o seu mister opinativo. Finalmente, é um destacado militante e conselheiro do PSD, participando por conta própria na luta política. Vai daí, se um passarão deste calibre diz que há uma regra de ouro em certos “negócios”, é avisado acreditar que ele sabe perfeitamente do que está a falar.


A segunda conclusão é a de que, para o Pacheco, o caso BPN será um desses “negócios” abrangidos pela regra de ouro. Assim, envolverá também gente do PS, só não tendo ele a certeza em que proporção. Lendo estas sábias palavras, o Zé Manel foi à sua caixa de Pandora particular e sacou com muito cuidadinho um email em que se provava como na marosca também havia ADN socialista — e que, portanto, o PS tinha mais era de ficar caladinho senão levava nas orelhas. Começava a cumprir-se a ameaça da direita ranhosa, desvairada com a coragem de Vital, de se vingar revelando os podres mais escabrosos dos socialistas e de Sócrates, desde o Freeport à Casa Pia, passando pela peste bubónica e o assassinato de Tutankamon. Pelos vistos, a direita ranhosa tem a informação capaz de mandar socialistas para o chilindró guardada numa garagem manhosa na Bobadela, devidamente acondicionada em sacos de plástico para não ser comida pelas traças, ainda nada tendo revelado aos jornalistas amiguinhos tão-só porque a direita ranhosa tem princípios, tem moral, tem, acima e antes de tudo, educação, e não quer prejudicar Sócrates ou o PS a menos que seja estritamente necessário. Pacheco formulou esta posição assim: Haverá um dia em que, não é preciso ser adivinho, Vital ainda vai ter as suas palavras de volta, em dobrado.

Eis o problema, ó Pacheco, como é que se vai arranjar um caso BPN com mais socialistas do que socias-democratas em dobrado? Em dobrado?!… Dobrado de roubalheira a dobrar ou dobrado de assume the position? Adiante, depois explicas. Já agora, caso o Ministério Público te andasse a ler, igualmente terias de explicar a parte das protecções. De que falas? Aqueles que não fazem a mínima ideia, como eu, mesmo assim ficam a matutar. Não é coisa boa, pois não? Então, por arrastar gente do PSD, muitas protecções não se verificaram, dizes tu candidamente mas não à Cândida? Espera, não te vás embora chateado, conta o resto. Comecemos pelo fim: lamentas que essas protecções não tenham existido? Sim ou não? Se não, deves estar agradecido. Se sim, és cúmplice. Aliás, tens de ser cúmplice, pois afirmas conhecer um qualquer sistema de protecções que leva a que certos “negócios” fiquem a salvo da devassa judicial e outros prosperem no recato do costume. Ora, na tua obra, onde está a denúncia, a mera indicação, o mais leve indício desse específico situacionismo? Espera, espera, não te levantes já. Responde só mais a esta: onde está, nem que seja numa linha, qualquer reflexão de carácter político, moral, ou mesmo desportivo, acerca das protecções dadas aos “negócios” feitos em tandem por essa gente com quem partilhas a vida partidária, a vida social, a vida académica, a vida mediática e a vida, a tua?

Vital tem pinta de quem não conhece esta regra de ouro, de facto. Aliás, Vital tem pinta de quem não nasceu para se dar bem com esse tipo de regras. O mesmo já não se pode dizer do Pacheco, que medra e prospera num ambiente de “negócios” dourados. Como ele não é bufo, limita-se a decorar as regras, deixando o resto à consciência de cada um. Ainda há uns meses, revelou todo pimpão que conhecia muito bem os truques usados por alguns deputados europeus portugueses para ficar com dinheiro indevido relativo a despesas, e tudo ser legal. Contou essa história com o entusiasmo ufano com que um puto de 14 anos conta no recreio da escola que se dá com traficantes de droga só porque já fumou uma ganza no jardim da sua rua com os mais velhos. O que não espanta, pois para certas personalidades mais impressionáveis, os vilões despertam um fascínio irresistível.

4 thoughts on “Goldfinger”

  1. Venha a trampa toda à tona! Mas não tenhamos ilusões (ainda por mais uns anitos-até que definhe a velhada corrupta do “centrão”): não fora a crise histórica que rebentou no planeta e as famigeradas «protecções» de que fala a “pacheca” teriam funcionado em pleno! Desta vez, muitos e graúfos perderam centenas de milhões. Não perdoaram aos chico-espertos do “centrão”. Ou terá sido outra coisa qualquer que não correu bem.
    Valupi, o Pacheco andava a pedi-las. Já não podia com tanta verborreia e insensatez do homem e agora que ele confessa estar por dentro da maldita «regra de ouro» do “centrão” e calou ou alinhou, a triste «elite» que temos não o manda limpar sarjetas.

  2. Boa, Val.

    Mas o pobre do pacheco se calhar até tem alguma razão, só que percebeu mal o filme todo: o chamado “caso Fripor” (e toda a insensatez e desvergonha com que foi inventado para constituir “argumento” de luta política neste ano eleitoral) é que, agora, foi muito merecidamente devolvido, e em dobrado, a quem o inventou e indecentemente explorou!

    Estavam a pedi-las. Agora aguentem-se…

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