Presbiopia

A melhor forma de respeitarmos o cidadão Cavaco Silva é abandonarmos o respeitinho pelo Presidente da República. Coloquemos a questão no seu devido lugar: é o Presidente da República que começa por dever respeito à Constituição, aos concidadãos, aos eleitores, ao Parlamento e à Pátria. Por isso, calhando aparecer um Presidente da República tão inábil como este que temos em funções, é sua obrigação prestar contas públicas e provar que está à altura da responsabilidade.


O cavaquismo viveu muito do mito sebastianista-salazarista do homem providencial, de preferência um austero e discreto Professor de Finanças com origens na província. Cavaco gostou dessa imagem, o povo também, e como resultado andou durante 10 anos a gastar os fundos comunitários para encher o País de betão e alcatrão sem ter alternativa à esquerda. Depois fugiu, dizendo-se farto, mas com apetite para mais 10 anos de ribalta e mordomias, agora em classe turística. Não conseguindo logo essa passagem, andou por aí como pater familias da social-democracia e da direita em geral. Dizia-se que o seu conhecimento das matérias económicas era de uma qualidade superior, rara, olímpica. Na campanha que o levou a Belém, prometeu pôr esses incensados dotes intelectuais ao serviço da cooperação com o Governo; sugerindo um cenário idílico onde Cavaco daria lições de economia, e resolveria os problemas bicudos da governação, no conforto e sigilo das reuniões semanais com Sócrates. Entretanto, zangou-se. E serviu-se do seu capital de marca para marcar o rival com o ferrete da sua presciência. No prefácio de Roteiros III, revela ao mundo que já em 2007 estava a ver o filme de finais de 2008 e 2009. E se o Cavaco diz que viu, é porque viu, que ninguém ouse duvidar. Mas outras realidades também lhe apareceram no aquilino campo de visão. Por exemplo, a imperiosa necessidade de se falar verdade aos portugueses. Esta ideia foi tão acertada e popular que um partido da oposição a assumiu como estratégia eleitoral, provando que a visão cavaquista continuava a ser vanguardista. Ou a questão das estatísticas, admoestando o Governo e chegando ao ponto de encontrar falhas no próprio INE, que só alguém sócio do Olhanense conseguiria ter olho para descobrir.

Por tudo isto, como é que se explica que esta mesma pessoa, tão prendada e acutilante, nunca tenha feito uma crítica política ou moral ao cavaquismo, não tenha tido pudor em ter relações financeiras com o BPN e não tenha tido a higiene de se afastar de Dias Loureiro? Talvez por ter a vista cansada. Mas, nesse caso, está na altura de pôr os óculos.

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O Nik fez uma excelente compilação de questões objectivas acerca do Cavacogate, entretanto também publicadas e debatidas por outros na comunicação social e blogosfera: aqui, aqui, aqui e aqui.

18 thoughts on “Presbiopia”

  1. Ora nem mais valupi, está no trilho certo. Agora vê lá não percas num buraco do caminho!

    Para seres um homem com H grande falta a outra face da moeda, não é?

  2. Bem , o Cavaco errou e não prestou. E não presta. Mas , houve depois quem não aprendesse com os erros e lhe seguisse os passos e continuasse a encher o país de estradas e estádios ( estádios ! que desperdicio de dinheiro ) e de corrupção e compadrios. E parece que querem enche-lo de aeroportos e comboios . Suponho que esperam uma explosão demográfica na Europa . Pior , houve quem conseguisse que pessoas que desde sempre odiaram a direita e lucro acima de tudo , começassem a reconsiderar as suas opções políticas e a ideia de um governo que as deixe em paz e não lhes cobre por tudo e por nada com a desculpa dos ” pobrezinhos” lhe pareça uma ideia razoável…
    Olha , mais uma peróla de sabedoria popular actual : A fome é o melhor cozinheiro, Sócrates o melhor coveiro.

  3. Aproveita a embalagem e leva o Sócrates com freeport ou temos novamente dois pesos e duas medidas…pois é …o fanatismo político tem destas coisas

  4. A questão do caso Dias Loureiro e a gestão politica que o Presidente fez das suas derivadas ao longo dos últimos meses será certamente motivo de estudo da ciência politica nos próximos anos. O Presidente da República foi alertado por mais de metade dos portugueses, sem comprometimento e ao longo dos últimos meses, para o facto de que a posição do conselheiro era insustentável. Por políticos, por jornalistas, por analistas. Até por bloggers, comentadores e gente comum na televisão. Isto deve ser histórico.

    E Cavaco, como se nós não soubéssemos, preferiu refugiar-se nas suas competências para deixar o caso correr. Como se nós não soubéssemos que o Presidente não pode demitir os seus conselheiros. Quanta gente distraída? Só foi necessário um arguido do processo fazer declarações surpreendentes (?) para que, no dia seguinte, a opinião do mandatário da campanha de Cavaco sobre a permanência de Dias Loureiro no Concelho de Estado, o fizesse demitir-se. Lógico. Nunca ninguém esperou que Cavaco excedesse as suas funções e competências demitindo Dias Loureiro. Mas, foi tudo tão simples…

    A partir daí, foi ver quem mais mete os pés pelas mãos na Presidência. Até chegarmos a esta lastimável comunicação aos jornalistas. Não é necessário adjectivá-la. Um presidente da Republica ser escrupuloso com a lei? Mas alguém pode supor que seja de outra maneira? Porquê uma afirmação destas por parte de um Presidente da República? Haverá por aí muita gente na política que não pensa como o senhor? Afirmações destas só servem para denegrir os políticos e desacreditar as instituições. Não conseguem alcançar outra função.

    Um Presidente lastimar as perdas que teve nos mercados financeiros? Ainda por cima um economista conceituado? O Presidente da República alfinetar a comunicação social com questões que não esclarece completamente? Estamos doidos! Ou esta gente quer fazer-nos doidos?

    Superior? Superior aqui?… Só vejo a gestão politica que a presidência fez do caso BPN. Isso sim, é superior. É de uma inabilidade politica superior. Como aliás foi sempre a sua incapacidade para a política. E a Ferreira Leite segue-lhe as pisadas ao centímetro. É um par que dificilmente terá outro ao seu nível tão cedo. Fazer politica não é ser universitário de carreira. E os analistas políticos da nossa praça têm muito que estudar.

    Os portugueses, esses sim, merecem toda a confiança.

  5. Eu também adivinhava muita coisa…principalmente factos consumados.

    O cavaquismo sofreu uma estocada fatal dada por um…cavaquista.
    Oliveira e Costa é neste momento a pessoa mais odiada (embora eles estão a fazer tudo para não o demonstrar) pelos direitolas. Nota-se nos seus semblantes que eles quebraram, o tabuleiro da insídia e da suspeita inverteu-se clamorosamente.
    Oliveira e Costa quebrou-lhes o tesão todo que estavam a ter com o freeportas.
    O silêncio quebrado por este homem no inquérito parlamentar e que já fez rolar a cabeça de Dias Loureiro é prenúncio e aguçar de apetite para o que aí vem. E a qualquer momento há-de vir, note-se, pois ele “ainda não contei tudo o que sei”.
    Se alguém esteve atento ao que disse Oliveira e Costa à saída da sala do inquérito parlamentar, há, entre a mistura de perguntas em catadupa pela com.social e as respostas que ele estava a dar, um pequeno excerto (as chamadas mensagens entre-linhas) que Ali Bábá deixou “escorregar” mas que constitui um aviso à navegação..e aos marinheiros…e ao “homem do leme”. A com.Social preferiu destacar (e tb acertadamente) o “ainda não contei tudo”. Mas antes desse aperitivo ele também disse este revelador: “eu não o quero melindrar..”
    Amigos, a quem é que ele se está a referir?
    Quem é que Ali Bábá não pretende melindrar?
    Pois, mas o tom com que ele o disse ( e basta irem ver a gravação da coisa) é o tom de quem diz…será com muito desagrado que eu o melindrarei.
    Por outras palavras…ou me tiras daqui ou a coisa não vai ficar só pelo Dias Loureiro, Miguel Cadilhe e João Coimbra. Fiquei muito tempo calado e fui traído, fiz asneiras, ganhei e dei a ganhar…roubei e dei a roubar.
    Mas sozinho não irei cumprir esta pena, não irei pagar pelos pecados dos outros, não sou Jesus Cristo, esse é que pagou pelas culpas dos outros.

    E eu concordo com Ali Bábá, não é justo este homem ficar dentro e os 40 ladrões da ROUBALHEIRA ficarem cá fora.

    …Aguardemos as cenas dos próximos capítulos..

  6. Ontem à noite vi o Garcia Pereira, na SIC, a repetir textualmente algumas das minhas perguntas: “Quem fixou o preço de compra por Cavaco das acções da SLN?” ou “Quem fixou o preço de venda?”. Elas já andam aí por muito lado.
    Estranhei o facto de o Valupi não ter reproduzido o meu texto, como à vezes fazia. Teria sido, naquele dia, uma boa ‘manchete’ do Aspirina. Agora já não.
    Valupi nem sequer respondeu ou se referiu ao meu comentário, a não ser uma boas 48 horas depois, quando começou a ver na net e na blogosfera alusões às minhas perguntas e, até, reproduções do texto inteiro, pescado da caixa de comentários.
    Ok, ele é que manda aqui, eu dizia apenas umas balelas na caixinha, e só enquanto ele não se importasse. Mas lá estranhar, estranhei, porque não se entende.
    Decidi fazer um blog de “nikadas” que até ao Natal de 2012 deve ficar operacional… Por isso despeço-me da caixinha de comentários do Aspirina.
    Até sempre.

  7. Foi um prazer ler-te Nik. Tenho pena que abandones a caixa de comentários. Mas vais andar por aí. Com toda a certeza que nos vamos voltar a encontrar. Um abraço e a mesa do fundo da Catedral espera por ti. No lugar de honra, claro!

  8. kruzeskanhoto, larga o vinho.
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    Ibn, larga o vinho.
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    mf, larga o vinho.
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    olho, larga o vinho.
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    tra.quinas, excelente reflexão.
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    Tribunus, trazes boas questões.
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    Primo, não dá trabalheira nenhuma. Mas prefiro que seja o Nik a fazê-lo, pois ele foi desenvolvendo o assunto por fragmentos e ao longo de dois ou três dias. Ou seja, o assunto carece de síntese e unificação, as quais deve ser o autor a estabelecer.
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    K, vide supra.
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    Nik, aqui vão algumas explicações e considerandos em aberto, indo ao encontro da tua opção:

    – O assunto é demasiado técnico, dúbio e melindroso para que eu tivesse publicado as tuas questões imediatamente. Demasiado para mim, obviamente. E as republicações que eu faço dos comentários não obedecem a nenhuma outra regra que não seja a da mais pura espontaneidade, pelo que não há qualquer padrão.

    – Estar em período de campanha eleitoral, e logo na última semana, acrescenta complexidade a essa exposição, arriscando-se a passar por chicana, má-fé ou insídia. Dito isto, sei bem que as perguntas nasciam da declaração de Cavaco, ocorrida neste momento eleitoral, mas a verdade é a de que o assunto da relação do Presidente da República com o BPN por causa das decisões de investimento do cidadão Cavaco Silva não é matéria tão urgente que não pudesse esperar pelo dia 7 de Junho. Já matéria diferente, só para ilustrar ainda melhor o meu critério, serão as relações do Presidente da República com o conselheiro de Estado Dias Loureiro, uma questão paralela e com a sua própria urgência independentemente de outras dimensões e problemáticas da política nacional.

    – Mesmo assim, no dia seguinte (3 de Junho), menos de 24 horas depois, fiz um destaque especial para as tuas questões. Entretanto, tu continuavas a acrescentar e a reformular as perguntas, o que dava conta de ser uma questão em aberto. Tu próprio referiste que o assunto já estava na comunicação social pela voz do Ricardo Costa. No dia seguinte, 4 de Junho, foi a vez de João Pinto e Castro fazer uma similar exposição no Jugular, só para dar um exemplo próximo. Ou seja, não se podia dizer que o mundo ignorasse haver interesse em ter mais explicações de Cavaco quanto ao que se passou. E ontem, 5 de Junho, fiz esta nova referência, compilando em link alguns comentários principais.

    – Dizes que estranhas, falas em 48 horas, fazes juízos de intenções, anuncias a criação de um blogue e declaras que não vais mais escrever nas caixas de comentários do Aspirina. Donde vem essa reacção? Tem de vir de alguma expectativa que consideras defraudada, claro, mas que me escapa por completo. Seja lá o que for, porém, é fenómeno natural, corrente, humano, e que pode servir para uma profícua introspecção.

    Em conclusão, podias a qualquer momento ter entrado em contacto comigo através do email do blogue, fosse para pedir mais destaque, ou para pedir explicações pela falta do mesmo, ou até para enviar um texto para publicação. Em vez disso, ficaste a avaliar-me segundo critérios não anunciados. Tudo bem, mas podia ter sido melhor.

    Só te peço é um favor: se esse teu blogue for para a frente, avisa aqui a malta.

  9. Valupi, estás ficar cada vez em maior desespero, tem calma, amanhã é só a primeira ronda! ainda restam mais duas.

  10. Larga a água V , e mete-te no vinho. Sabes , lá na água há bué de coliformes fecais , coisa que não ocorre no vinho. E pronto , dá ideia que os coliformes te subiram à cabeça. Prefiro vapores etiílicos a fezes , mas gostos são gostos , claro.

  11. NIK,

    Por mim vais perdoado. O Menino da Mata percebeu que conseguias ser um bom perguntador. Quando o “Nikadas ” estiver em acção, dá-me notícia, que tive prazer em
    estar contigo aqui na caixa de comentários, ainda que efémera. Se quiseres passar pelo MUSICA MAESTRO”, a minha humilde casa, serás bem recebido. Para além das ideologias há os homens e eu prefiro estes às ideologias. Quando têm qualidade, obviamente.
    Abraço,
    Menino da Mata (obrigado, padrinho NIK!) que é Manuel da Mata e/ou Manuel Barata.

  12. NiK,
    Desculpa os meus “lapsus calami” ( já não sei fazer a declinação sem consultar as gramáticas), mas acredita que a coisa sai como foi pensada. Às vezes sem ser relida e os erros então acontecem.
    Reitero a minha consideração.

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